MAQUETE: AS JANELAS DE F.K – por jorge lescano / são paulo

A guisa de prólogo.

Para aqueles que precisam definir o gênero para poder iniciar a leitura; para aqueles que acham que existe o hábito da leitura; para aqueles que pretendem haver entendido o texto quando conseguem classificá-lo, anuncio desde já: isto é uma Maquete, “gênero” ou objeto que passa a existir em forma narrativa a partir deste original.

Ilustres exemplos poderiam ser apresentados para autorizar esta opção ou capricho. Cito apenas dois para não cansar o leitor: o escritor e político peruano Ricardo Palma (1833-1919) batizou de Tradiciones um gênero de crônica que mistura ficção e história do Peru colonial. Johannes Jensen, autor dinamarquês (prêmio Nobel de Literatura de 1944, para os que valorizam tal honraria), chamou de Mitos suas crônicas. O termo ganhou um verbete especial no dicionário danês.

Para aqueles que apreciam a história dos eventos literários; para aqueles que gostam das notas explicativas de pé de página; para aqueles que cultuam as interpretações acadêmicas, descrevo a seguir as circunstâncias em que surgiu esta Maquete.

O Centro de Pesquisa Teatral (CPT), que funciona na Unidade Consolação do Serviço Social do Comércio (SESC), promove neste primeiro semestre de 2003 um Curso de Cenografia e Adereços Teatrais. Requisito para se inscrever na lista de seleção dos candidatos para as poucas vagas oferecidas: projeto cenográfico (maquete ou desenho) para uma encenação de qualquer obra de Franz Kafka.

É claro que a liberdade e dificuldade da proposta desafiam qualquer imaginação!

No primeiro momento a mente percorre o trilho do bom senso e procura no seu arquivo a obra que deseja encenar. Vêm, instantâneas, imagens de encenações das mais freqüentadas obras de F.K.: O Processo; O Castelo; A Metamorfose.

Carta ao Pai, com uma enorme cadeira, espécie de trono pontifício, colocada sobre um pedestal altíssimo, inacessível ao protagonista narrador, no qual estará sentado o Patriarca criado por Kafka, é por si só uma síntese de todas estas obras. Em  cada uma delas há uma figura imponente, inacessível, prepotente, espécie de arquétipo da mitologia contemporânea, povoada de pais, chefes de governo, arquivistas. Qualquer ambientação que remetesse às sórdidas dependências de um escritório de repartição pública, serviria. A impessoalidade de tais ambientes, conquanto fechados, ilustrariam parte do universo kafkiano. As idéias a respeito, por óbvias, foram recusadas. Neste ponto, a inscrição na supracitada lista de seleção estava fora de cogitação.

Não que eu pensasse seriamente em fazer o tal curso, mas a idéia de desenvolver um projetinho como exercício era atraente. Então outra idéia veio à mente.

(Escrevo sem consultar as obras citadas, este recurso dá-me a ilusão de criar um clima poético no texto.)

II – Maquete propriamente dita.

Existe uma curiosa fotografia que mostra a janela do  quarto de Franz Kafka, em Praga, que dá diretamente para o interior de uma igreja católica, perto do altar-mor. Talvez esta janela, e de forma inconsciente, tenha gerado outras janelas que aparecem na sua obra.

A primeira, por ordem de função, está no primeiro capítulo de O Processo. Por ela se assoma uma senhora idosa para observar como Josef K. é informado do seu processo. São duas janelas, se bem me recordo, pois é pela segunda que a dita senhora, vizinha frontal do protagonista, pode ver melhor o quarto deste.

Tal janela, menos como detalhe arquitetônico que motivo literário, reaparecerá no final do romance. É dali que a testemunha, um homem em mangas de camisa, assiste a execução de Josef K. Este homem é também a última imagem que F.K. deixa ao leitor, permitindo supor que esta coincide com a visão final de Josef K.

A terceira janela deve estar em A Metamorfose e por ela se debruçam A Mãe e A Irmã de Gregor Samsa para contemplar a paisagem depois do pesadelo que é o miolo da novela.

(Embora A Metamorfose seja anterior a O Processo, aqui é citada em função dramática, não cronológica: A Mãe e A Irmã sentem-se libertas pela morte de Gregor, este fato crucial coincide com a cena final de O Processo).

Esta janela tem algo como função ritual ou catártica, se associada àquela da moradia de F.K. Ela é o tema da maquete. O reconhecimento de sua  hierarquia em relação aos outros componentes, determinada pela posição central na fachada aparente do fundo do palco, exige que a luz seja interna, isto é, a iluminação do palco terá sua fonte na janela e de lá se projetará  sobre a cena. A janela, ao invês de receber a luz, será a sua fonte. Nada nos impede imaginar que F.K. estará olhando o mundo através dela, como poderia ter olhado o interior da igreja de Praga.

A morte de Josef K. se dá à vista do público que acompanha a execução (como um cão) juntamente com o homem da janela. Já a morte de Gregor Samsa se manifestará como ausência iluminadora. Ironicamente, esta morte libertará a luz e os personagens.

A janela empírica (para o interior da igreja) é a verdadeira personagem desta encenação (cenográfica), motivadora da presente maquete. Os acontecimentos serão reunidos ao seu pé para permitir que se perceba sua mudança. Se há um processo psicológico, será o da janela, símbolo do olhar do dramaturgo Franz Kafka.

Assim se compreende que o palco permaneça nu durante todo o espetáculo, apresentando-se as nuanças psicológicas por intermédio da luz e, talvez, de recursos acústicos: ecos, amplificações, deslocamentos de vozes, passos, etc., do ritmo (ou disritmia) corporal dos atores, a piacere do encenador.

III – De como se fará a transferência da (suposta) poética de Beckett sobre a máscara para a cenografia.

Há um pressuposto (nosso) que diz que Samuel Beckett leva o teatro europeu às últimas conseqüências retornando às suas origens gregas. Tal fato dar-se-ia no seu monólogo NOT I. Nesta obra, o autor irlandês “reduz” a máscara grega ao seu componente essencial: a boca.

É de acreditar que o texto da tragédia grega é continuação da arte do rapsodo – contador de histórias ambulante. Em algum momento este contador deixará de perambular e se estabelecerá na polis, justificando, se não exigindo, a construção do teatro. Parece lógico especular que ele seja uma das raízes do espetáculo teatral, além das festas dionisíacas.

Sabemos que nos seus primórdios, a tragédia era um gênero narrativo mais do que dramático. O único ator em cena dizia seu texto em pose estática sobre um pedestal. As diferenças em relação ao rapsodo estavam no figurino e na máscara e, paradoxalmente, na impossibilidade de representar certas atitudes e emoções dos personagens, como é visto ainda hoje nos contadores de praça pública. Impossibilidades físicas decorrentes dos paramentos e da situação cênica do ator, deram à cena um caráter solene, incorporando sua pose hierática à arquitetura-cenografia e padronizando sua atuação. Tal será o tom dominante das futuras representações.

Em nossa leitura da poética de Beckett em Not I, atribuímos-lhe a intenção de sintetizar este momento fundador reduzindo a máscara à boca. Desenvolvendo esta premissa dramatúrgica, experimentaremos aplicar tal princípio à cenografia com atributos de drama. A tradição escolhida será o palco latino.

De forma esquemática, suficiente para nosso propósito, podemos descrever este palco como a representação do frontispício de um edifício dotado de colunas com capitéis sustentando cornijas, janelas, e três portas. Apenas estas portas tinham função real. Por elas entravam e saiam os atores que representavam seus papéis no espaço compreendido entre o fosso da orquestra e esse fundo.

A questão básica é: como sintetizar este palco, per si tão reduzido?

Valendo-nos das janelas apresentadas, importantes na dramatização das cenas kafkianas, valorizaremos as janelas do fundo do palco. As entradas e saídas dos atores serão feitas pelas laterais. As janelas estarão no nível de um primeiro andar, serão apenas três e somente a do centro terá profundidade real, pois por ela se assomarão os personagens-espectadores do espetáculo que se desenrolará aos seus pés. Uma luz tênue, de abajur, deverá indicar a existência das janelas laterais.

As cenas escolhidas da obra de Kafka serão representadas no pequeno espaço iluminado pela luz crua da janela central, que se projetará sobre o palco propriamente dito. Os personagens-espectadores não serão figuras muito nítidas. A luz virá de detrás deles, permitindo perceber seu volume, mas não as feições, semelhantes a espectros e aos espectadores sentados na platéia vistos do palco. A platéia e o fundo do palco deverão sugerir a idéia de espelho embaçado. Entre estes dois “espelhos” se desenrolará o drama kafkiano, espécie de ponto cego no espaço real do teatro, ponto de partida e final do espetáculo.

Kpn. 4/3/003

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