Arquivos Mensais: novembro \30\UTC 2009

MEUS MORTOS de tonicato miranda / curitiba


 

para Carlos Eustáquio

 

 

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ouvindo Romeu e Julieta de Tchaikovsky

choro copiosamente sem soluços e águas

elas que sobram lá fora na chuva lavadeira de janelas

seguindo pelas sarjetas e calhas, lavando-me mágoas

choro meus mortos deixados na infância distraída

choro meus mortos porque sinto esta culpa traída

pois deixei-os intactos no barco da saudade

deles tenho uma só lembrança: os sorrisos eternos

sem viagens nas rugas do tempo, na dobra da coluna

este é meu pequeno gesto de imortalidade a eles

MR. KURTZ – por hamilton alves / florianópolis

A Novela de Joseph Konrad, “O coração das Trevas”, sobre a qual Paulo Mendes Campos escreveu possivelmente a melhor e mais bela resenha, indo ao fundo do significado desse personagem misterioso, Mr. Kurtz, um homem que, em busca do marfim, que se colhe das presas dos elefantes, embrenha-se pela mais selvagem selva do Congo, na África, e ali (será só por isso?), envolve-se com o povo indígena nativo, para o fim de comercializar com esse precioso material.

Marlow, que empreende uma viagem para encontrar Mr. Kurtz ou substituí-lo em seu posto, para o que fora contratado pela empresa que se envolve com o marfim, é o narrador dessa história, que antecipa os escritores que virão depois, como Kafka, por exemplo.

O local onde embrenhou-se Mr. Kurtz é de indescritível rudeza. Para ele ou para a sua personalidade se volta a imaginação de Marlow. É impensável que um homem civilizado tivesse abandonado as cidades modernas para viver num meio absolutamente inóspito em troca somente da riqueza que o marfim lhe pudesse proporcionar.

Kurtz era um homem adorado pelos selvagens, como se, para eles, fosse um deus.

Quem é, afinal, esse Kurtz? – é logo a pergunta  que se propõe o narrador. E haverá certamente de formulá-la, logo às primeiras páginas, o ledor, a indagar-se por que um homem vivido no meio civilizado escolheu viver num ambiente hostil, entre silvícolas?

Depois de uma longa viagem pelo rio Congo, cheia de peripécias, de imprevistos, de problemas no motor do barco, que, a certa altura, encalha por problemas mecânicos, tendo que ficar à mercê de que seja conseguida uma peça para de novo seguir sua trajetória, ameaçados seus tripulantes de um ataque, que nunca vem, dos selvagens, consegue-se, a duras penas, um contato finalmente com Mr. Kurtz e realizar a viagem de volta com ele, vindo a sucumbir durante o transcurso.

Marlow entra em contato com a mulher de Kurtz, depois de tentar com dificuldade encontrá-la em Nova York.

A primeira pergunta que lhe é feita por essa senhora é sobre se Kurtz ainda se lembrava dela.

- Sim, disse-lhe, foi a última coisa que ouvi de sua voz a referência, muito amorosa, que fez ao seu nome.

Marlow mentira para que a mulher guardasse de Kurtz uma boa imagem. Ou que sua memória ainda de algum modo estivesse viva em relação a ela.

Mas ao fim e ao cabo, a personalidade de Kurtz, para o leitor, continua um enigma, esse homem que abandonou a civilização para viver na mais aterradora região do planeta.

Na literatura universal, Kurtz é um personagem que não tem paralelo, e “O Coração das Trevas” marca o momento inigualável de Joseph Konrad como escritor.

Rumorejando (Lamentavelmente, os deputados, agora, com a verba indenizatória, continuam aprontando). – por juca (josé zockner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Perguntou a adolescente para sua amiga, também adolescente:

-“O que você fala com a tua psicóloga ?”

-“Geralmente sobre os meus pais. E você ?”

-“Eu não. Eu falo sobre eu mesma. Acho bem mais interessante”.

Constatação II (De ditados adaptados).

Nem só de ego massageado vive o homem.

Constatação III

Se o fenômeno El Niño ou El Niña não der logo às de vila-diogo, não só muita água passará debaixo da ponte, como também por cima. Lamentavelmente.

Constatação IV (Passível de mal entendido).

-“Aquelas águas termais eram tão afrodisíacas que eu até consegui fazer amor com a minha mulher”.

Constatação V (Via pseudohaicai).

A éguinha relincha

Pra saudar o cavalinho

Seu cupincha.

Constatação VI (Aparentemente paradoxal).

Apalavrou que não cumpriria sua palavra.

Constatação VII (De conselhos úteis, via pseudo-haicai).

Em época de inflação,

Não adianta juntar

Tostão por tostão.

Constatação VIII (De ditados adaptados).

Em terra de idiotas, quem é meio idiota é rei, presidente, ministro, senador, deputado, etc.

Constatação IX (Via pseudo-haicai eufemística).

Levou uma tunda,

Ali, onde as costas

Mudam de nome…

Constatação X

Em terra de vaidoso, quanto mais caro forem os preços dos ingressos dos espetáculos mais sucesso de vendas terá.

Constatação XI (Via pseudo-haicai).

Aquele exame

Quando fiquei

Pra 2ª época: infame!

Constatação XII

Quando você cumprimentar um cara chato: “como é que vai ?”, não tenha dúvida que ele vai se pôr a explicar, interpretando o teu cumprimento como uma pergunta.

Constatação XIII (Via pseudo-haicai).

O ditador se compraz

Com gente do tipo

Leva-e-traz.

Constatação XIV

As empresas que criam sua publicidade na base do antes e depois, como por exemplo, produtos que ajudam a emagrecer, eliminação de rugas, queda de cabelos, ou ainda eliminar os cabelos brancos deveriam, a fim de evitar mal entendidos, colocar o imprescindível aviso: “Não leia da direita para a esquerda, ou de baixo para cima”…

Constatação XV (Via pseudo-haicai).

O equilibrista, no arame,

Parece ter com ele

Um elo, um liame.

Constatação XVI (De conselhos úteis).

Se você só pensa em coisa ruim, pare de acompanhar o noticiário em geral e o policial em particular. De nada !

Constatação XVII (De diálogo via pseudo-haicai).

-“Bradaram aos céus !”

-“Quem ? Os religiosos ?”

-“Ora veja, os incréus”.

Constatação XVIII

A tesão obnubila.

Constatação XIX (Via pseudohaicai).

Foi com um pouco de nojo

Que comeu o pastel da esquina.

Mas, com arrojo !

Constatação XX

E como dizia aquele torcedor fanático: -“A bandeira, a camisa, o distintivo dos outros times, para mim, é poluição visual”.

Constatação XXI (De diálogos meio tangenciais).

-“Eu te adoro. Você para mim é como uma filha”.

-“Só como filha ? Como mulher, não ?”

-“Não. Só como filha. Mas sabe, não é por nada não, mas, em alguns casos, acho o incesto perfeitamente justificável”…

Constatação XXII (De conselhos úteis, óbvios).

As qualidades da erva mate já foram, várias vezes, enaltecidas por Rumorejando. No entanto, há uma única restrição, ou melhor, uma recomendação: é que ele não deve ser ingerido em grande quantidade pouco antes de você ir a um espetáculo público (teatro, concerto, balê, cinema, circo, etc.), com risco de você, além de cada vez ter que pedir licença pro seus vizinhos de poltrona para passar, perder grande parte da apresentação. De nada !

Constatação XXIII

E quando o ator estava sendo entrevistado, a uma determinada pergunta, respondeu: -“Sabendo-se como é a humanidade, é muito mais fácil, mais natural, interpretar o papel de bandido do que o de mocinho”…

Constatação XXIV

E como ameaçou, pseudohaicaimente, aquele pai ao filho que havia acabado de tirar o seu título de eleitor:

“Leva um peteleco

Se não votar

No cacareco*”.

*Cacareco era o nome de um rinoceronte que fazia parte do zoológico da cidade de São Paulo e que, na década de 50 ou 60, recebeu a maior votação para a Câmara de Vereadores daquela cidade, numa das maiores manifestações de protesto contra os políticos já efetuada em nosso país e que, face o que vem ocorrendo, não surpreenderia a ninguém a repetição de algo similar…

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (Via duplo pseudo-haicai).

Foi o marreco

Que irritou o galinheiro

Tocando reco-reco ?

E foi o Maneco

Que tomou umas e outras

Num baita caneco ?

Dúvida II (Ah, esse nosso vernáculo).

Foi o Cláudio que claudicou com a Cláudia, clamorosamente ?

Dúvida III

Tá certo! Eu sou um sujeito com o pé na terra. Mas, como é que fica ? O planeta Terra, como os demais, não está solto no espaço ?

Dúvida IV

Quando o teu interlocutor te conta uma mentira, daquelas bem escabrosas, é você que fica envergonhado ?

Dúvida V

É somente quando todos tiverem uma cidadania digna é que ninguém precisará cuidar do nosso carro ? Mas, quando todos tiverem uma cidadania digna, será que ainda existirá esse meio de transporte ?

Dúvida VI

Se o feminino de maestro

É maestrina,

O feminino de canhestro

Não deveria ser canhestrina ?

E o de destro

Destrina ?

Dúvida VII

Foi o médico, especialista em alergia, que não parava de espirrar ?

Dúvida VIII

Foi o caíque,

Do cacique,

Que bateu no dique

E foi a pique ?

(Por favor,

Caro leitor,

Não se vá, fique.

Eu prometo, ao senhor

Que não haverá repique).

AS “ESQUERDAS” ESTÚPIDAS – por alceu sperança / cascavel.pr


 

O escritor José Saramago deu um soco na cara de uma certa casta de malandros que se intitulam “esquerda” e assumem governos pelo mundo afora com discursos melosos sobre cidadania e na verdade cultivam práticas maliciosas capitalistas.

Engabelam estudantes, sindicatos, religiosos decentes, ganham milhões de votos e o que fazem é cuspir na face dopovo, arrotando as “novas” políticas de interesse do capital: o “trabalhismo” conciliador com a exploração e o “verdismo” para desviar a juventude da revolução.

Tudo que fazem é tentar “melhorar” o capitalismo, evidentemente sem sucesso, pois não há como corrigir os males causados aos povos pela canalhice da exploração.

Saramago disse não conhecer nada mais estúpido do que essa esquerda: PT aqui e Inglaterra, os reformistas italianos, PS em Portugal, requentando o fracasso do PS na Alemanha e na França, e vai por aí.

Dizendo-se “esquerda”, chegam ao poder, como Lula por aqui, e vão repetir o repetido. Mandar bater em estudantes e trabalhadores, como ocorreu na França. Dando um péssimo exemplo à juventude dizendo que não lê livros, como Lula.

Sem dúvida, isso é muito mais estúpido que a direita. Porque a direita é aquilo mesmo: é a guerra, violência, droga, corrupção, mutreta. A direita ser criminosa é da sua natureza.

Mas quem se diz esquerda e se comporta como a direita é mais estúpido ainda: além de repetir a má prática, cevar a corrupção, sustentar o capitalismo, tentar reformar o que não tem futuro, agrega à malícia a traição. Por isso é preciso dizer, com todas as letras, como fez Saramago: essa é a coisa mais estúpida que já se viu.

Quem ousou se dizer “esquerda” e faz o mesmo que a direita, merece o quê, além de vaias? Claro, a vaia não constrói nada. É apenas uma expressão de impotência.

Os lulistas responderam às vaias do Maracanã afirmando que elas foram “orquestradas” pela “extrema-esquerda”, que seríamos nós, comunistas do PCB, e nossos eventuais aliados do PSol e do PSTU.

A todos, os lulistas reservam, além da pecha de “extrema-esquerda”, o insulto de que estamos nos igualando à direita, porque, dizem, a direita também vaia Lula – ora, na verdade, ela aplaude.

Veja as contribuições de campanha. É o PT, Lula e seu bando que se uniram à direita para liquidar os direitos dos trabalhadores e levar adiante a traição contra a Reforma Agrária, por exemplo.

Não surpreende que os servidores federais pipoquem greves a todo instante. Nem que os movimentos populares comecem a entender (como já entenderam em Cascavel, na Jornada de Agroecologia) que Lula traiu tudo e todos.

Saramago, com toda a razão, acusa essa gente de ser estúpida também por se tornarem “comissários do poder econômico”. Vide hidrelétricas em Rondônia, encomendadas pelo grande capital. A opção preferencial de Lula pelos banqueiros. As propostas de liquidação de direitos dos trabalhadores públicos e privados.

Socialistas de mentirinha, ávidos por cargos DAS, de confiança, dizem duas ou três palavras sobre cidadania e duas a três mil palavras para justificar seus mensalões e traições.

Corretamente, do alto de seus quase 90 anos, Saramago afirma que os governos hoje representam plutocracias, e chama o povo à rebelião:

“O mundo é dirigido por organismos que não são democráticos, como o FMI, o Banco Mundial e a OMC. É a altura de protestar, porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam e não fazemos nada por contestá-los, pode dizer-se que merecemos o que temos”.

ENTÃO É NATAL – por “o ruminante” /belém

 

Lá vou eu mais uma vez me meter onde não devo, porém não resisto. Estamos a 30 dias do Natal e mais uma vez temos as mesmas coisas de todos os anos, mas jamais uma mudança efetiva na direção que a data celebrada requer.

O que segue eu já expus publicamente quando meu pai pediu que eu preparasse uma mensagem de Natal para o almoço do dia 25 de dezembro de 2008. Não sei se agradou, mas não me disseram qual era o tema e ninguém reclamou. É a primeira vez que eu escrevo este texto, pois no dia foi só conversa mesmo.

Particularmente não gosto quando me pedem para fazer este tipo de mensagem, em parte por minha forma de enxergar o mundo, em parte por estas exposições afetarem uma cultura profundamente arraigada e, principalmente, por eu passar por chato no final de tudo em muitas das vezes.

Se observarmos com o mínimo de cuidado a “Época” de Natal, vamos perceber que diversos jargões surgem como: “É tempo de Paz, de amor, de esperança, de ajudar as pessoas, et cetera.”

As casas são enfeitadas e as pessoas começam a se preparar para um momento de confraternização “cristã” onde as pessoas devem se unir para celebrar.

A generosidade aflora de forma ímpar, pessoas pobres recebem ajuda de todo os lados, caixinhas recebem donativos para melhorar o Natal de grupos como porteiros, faxineiros e outros.

Tudo isso é muito bom, muito legal, mas tenho alguns pontos que eu gostaria de avaliar com um pouco mais de calma.

Aos que se dizem cristãos eu gostaria de saber se há alguma referência de Jesus nos dizendo que no período de seu nascimento é que nós deveríamos nos tornar pessoas melhores? Eu tinha entendido que deveríamos amar ao próximo em todo o tempo.

Por que exatamente nós resolvemos fazer caridade nesta época? E o resto do ano, as pessoas não precisam de ajuda? Seria somente nesta época que Cristo pediu que tivéssemos compaixão pelos necessitados?

Se, durante este período, tirarmos tudo que é considerado tradição, como as comidas típicas da época, os enfeites, as música, a troca de presentes e algumas outras coisas, o que sobra é cristianismo?

Talvez a nós melhor fosse pegar toda a comida que nós reunimos para as celebrações e, entregando para quem nada tem, fossemos para nossas casas dormir envergonhados.

Não sou contra nos reunirmos para celebrarmos o Natal, pelo contrário, mas há muito que a grande maioria se esqueceu o que realmente estão fazendo nestes encontros, os quais podem ser feitos a qualquer tempo para a celebração do nascimento, vida, morte e ressurreição daquele que muitos acreditam ser o Cristo, a saber, Jesus.

O óbvio da força comercial da data nem perco meu tempo ruminando, pois todo mundo já comenta se achando especial por ter percebido algo tão explicito, mas a base do que as famílias dizem celebrar eu não concordo e não acho que esteja sendo feita da maneira correta.

Se você não se ofendeu comigo, nem me mandou àquele lugar durante esta ruminada, pense um pouco sobre o assunto e faça um Natal diferente este ano.

COM LULA, o BRASIL MUDOU afirma JIM O’NEILL / londres

Mudança de mentalidade faz Brasil virar ‘país do hoje’, diz criador da sigla Bric

Ao G1, Jim O’Neill diz que país está deixando de ser apenas promessa.
Ele falou da importância de Lula e disse que há riscos na eleição de 2010.

Daniel BuarqueDo G1, em São Paulo

No Brasil, o “futuro” está se transformando em “hoje”. Segundo o criador do termo Bric, acrônimo inventado em 2001 para prever que o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China como a maior economia do mundo em 2050, o país está deixando de ser apenas uma promessa e se constituindo como potência real.

Em entrevista concedida ao G1, por telefone, o economista britânico Jim O’Neill, diretor de pesquisa do grupo Goldman Sachs, disse que a mudança na mentalidade da população brasileira nos últimos anos é impressionante e foi a melhor surpresa que ele teve desde que começou a pensar sobre o tema. Ele ressaltou a importância da continuidade que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu à política de controle da inflação no país e alegou que é preciso continuar o trabalho após as eleições de 2010.

Leia abaixo a íntegra da entrevista, em que o economista fala ainda de China, redução de emissão de gases, relações internacionais e do susto que tomou ao ver a revista “Economist” colocar o Brasil em sua capa.

G1 – O Brasil é sempre visto como o país do futuro. Quando vai se tornar o país do presente?
Jim O’Neill - O Brasil está finalmente se tornando o país do hoje. Acredito que Lula precisa ser visto como o melhor tomador de grandes decisões políticas desta década. O que mudou foi a mentalidade de todos os brasileiros. Nos primeiros cinco ou seis anos após a criação do termo, sempre que ia ao Brasil as pessoas me perguntavam por que o “B” estava ali? E chegavam a dizer que era uma piada. Como as pessoas não acreditavam no Brasil, era um desafio fazer a inflação ser manter baixa e estável. Graças ao presidente Lula e ao Banco Central, claro, eles conseguiram isso até agora, o que é particularmente impressionante por causa da crise internacional.

Agora, percebo claramente que muitos brasileiros pensam de forma diferente. Quando fui ao Brasil pela última vez, há algumas semanas, percebi que os brasileiros podem planejar para o futuro no longo prazo com uma confiança razoável. Isso é o que mudou.

 

Não. Gostaria de pensar que sim, mas sou suspeito, já que se trata de uma criação minha. Mas sei que a criação do termo forçou as pessoas a pensarem sobre o Brasil, incluindo o próprio povo brasileiro. Em alguns sentidos, a criação dos Bric mudou a minha própria vida, já que se tornou algo tão grande. Mas acho que o que me deixa mais feliz desde que a ideia surgiu é o Brasil, pois é onde houve a maior mudança em termos de mentalidade.

G1 – A eleição no próximo ano representa um risco para a economia brasileira?
O’Neill - Preciso admitir que quando vi a “Economist” há duas semanas, aquilo me assustou, pois a revista se tornou famosa nos últimos 25 anos por ocasionalmente entender as coisas realmente de forma muito errada. Por muitos anos, a “Economist” questionava a presença do B em Bric, e de repente eles fazem um especial de 18 páginas sobre o Brasil. Isso é assustador.

 

O economista britânico Jim O’Neill (no centro), criador do acrônimo Bric, em foto de arquivo (Foto: AFP)

G1 – A criação da ideia de Bric tem alguma influência sobre isso, pode ter ajudado o Brasil a se desenvolver?
O’Neill - As pessoas me diziam, em 2001, que uma das razões pelas quais a idéia de BRIC era loucura era porque o governo Lula seria um desastre. Essa idéia estava espalhada em todo o mundo. Agora o que as pessoas me dizem é que não há riscos na próxima eleição, o que acho bobagem. Vamos perder Lula que foi uma parte importante de tudo isso e não sabemos quem vai vencer nem quais vão ser suas políticas. A eleição é uma fonte de risco e é importante que o Banco Central continue sendo independente, e se torne ainda mais. Acima de tudo, o Brasil precisa começar a reduzir os gastos do governo.

G1 – Quando a idéia de BRIC foi criada em 2001, Lula ainda não era presidente. O senhor diz que ele é importante, mas não foi ele que começou este caminho de crescimento, então?
O’Neill - Não, não começou com ele. A razão pela qual o Brasil chamou a atenção foi por conta da luta contra a inflação. O país tinha uma grande população e estava trabalhando com foco na inflação. A razão de Lula ser tão importante é que as pessoas achavam que ele ia interromper isso, mas ele não o fez, e deu continuidade.

G1 – Como o crescimento dos Bric vai afetar as relações internacionais? Os EUA vão aceitar o crescimento dos outros países, sendo inclusive superado pela China?
O’Neill - Isso passa dos limites da minha responsabilidade normal, mas claro que penso sobre isso. Em alguns termos, acho que os EUA querem que a China tenha mais responsabilidade e envolvimentos internacionais. O crescimento da China é muito autocentrado, eles não parecem ter nenhuma visão muito forte política ou militar em relação ao resto do mundo. Não parecem ter as mesmas ambições e responsabilidades que os EUA. Acabei de passar algumas semanas lá, e isso é muito claro, e não parece mudar. Com o crescimento, a China vai precisar se tornar mais importante internacionalmente. É peculiar, mas a China não tem os mesmos instintos globais que os EUA.

Esta é mais uma razão pela qual a criação do G20 é saudável. Ela cria um fórum em que uma vez por ano os maiores líderes políticos vão se encontrar para discutir este tipo de coisa.

G1 – Que impacto a decisão chinesa de reduzir as emissões de carbono (anunciada na quinta-feira) pode ter sobre a economia global?
O’Neill - Passei o dia inteiro analisando o anúncio da China e acho que é uma decisão surpreendente. Se acreditarmos no que eles estão dizendo, pode mudar o padrão da demanda de longo prazo de petróleo e combustíveis fósseis.

A dúvida que fica no ar agora é em relação à resposta da Índia. Em nossa pesquisa sobre os BRIC, em nossa projeção de longo prazo, entre 40% e 50% da demanda de energia do mundo nos próximos 40 anos vêm da Índia e da China. Se a china estiver realmente se comprometendo em diminuir as emissões e adotar energia renovável, trata-se de uma decisão muito, muito grande.

Dada a força do Brasil em energia renovável, isso pode ser ainda mais encorajador para a economia brasileira. É um desenvolvimento muito importante e pode significar que a China vai começar a aceitar uma diminuição no crescimento do seu PIB em nome de uma maior preocupação com a qualidade do desenvolvimento.

É algo que no longo termo pode ser favorável ao desenvolvimento. Minha primeira reação é de que pode ajudar a desenvolver o país, pois mostra que a China percebeu que vive uma situação crescente de problemas e limitações internos, que tem efeitos negativos na qualidade das suas commodities.

 

PROMESSAS DE CASAMENTO por martha medeiros / porto alegre

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento a igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre. “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?” Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:

- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros.

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ilustração do site.

SÉRGIO DA COSTA RAMOS lança com grande sucesso “PILOTO DE BERNUNÇA” no BADESC – florianópolis

o cronista SÉRGIO DA COSTA RAMOS lançou dia 24/11/09 nas dependências da FUNDAÇÃO BADESC, em Florianópolis, o seu livro “PILOTO DE BERNUNÇA“. o evento teve início as 18:00hs e prolongou-se até as 23:00hs com o autor atendendo seus leitores que formavam uma multidão dentro e fora dos salões. sem dúvida, para quem ainda tivesse alguma, SÉRGIO demonstrou, definitivamente, a sua força literária através de um gênero que muitos consideram em extinção, ao contrário, ele deixa muito claro o gosto do leitor brasileiro pela boa crônica.

o pianista ARTHUR MOREIRA LIMA lê com muita atenção a dedicatória feita por SÉRGIO. SÉRGIO comenta com o poeta JB VIDAL as razões que o levaram a convidar o grande músico para escrever a “orelha” do livro: “VIDAL convidei o ARTHUR para escrever a “orelha” porque ele toca de “ouvido”! bom humor. depois falou sobre a dedicatória que fez ao pianista.  os dois relatos já compõem a primeira crônica do próximo livro, sem nenhuma dúvida. foto de Luiz do Vale.

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DISCUTIR O SUPÉRFLUO, EVITAR O IMPORTANTE – por gerardo honty


Um amigo jornalista que acompanhou a última reunião preparatória para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, semana passada, em Barcelona, deu a seguinte descrição: “É como se você fosse comprar uma casa com sua mulher e discutisse sobre a cor das paredes, o estilo das torneiras nos banheiros e se nas janelas haverá persianas ou folhas, mas evitasse discutir quanto tem para gastar ou até onde está disposto a se endividar”. Acredito que é uma boa imagem dos assuntos nos quais houve avanço na reunião.

No plenário de encerramento de sexta-feira passada, as diferentes avaliações do resultado da reunião deixaram claro que há perspectivas divergentes sobre o que significa “avanço”. Para alguns – a minoria -, o progresso foi notável. O mais otimista foi o chefe da delegação dos Estados Unidos, Jonathan Pershing, que se definiu como “animal raro” por sua visão positiva dos resultados, em contraste com as opiniões que escutava. Para outros, particularmente os países em desenvolvimento, não houve absolutamente nenhum avanço.

Um dos principais temas ainda a resolver é a quantificação dos compromissos de redução de emissões que serão assumidos pelos países industrializados, em conjunto e individualmente (“as cifras”, no jargão das negociações). Também não se sabe qual porcentagem desses compromissos deverá ser cumprida no âmbito doméstico e quanto poderá ser cumprido por meio da aquisição de créditos de carbono por reduções realizadas em outros países. Além disso, quanto das reduções domésticas poderá ser cumprido por meio das absorções dos escoadouros (matas e reflorestamento) nestes países.

O outro grande tema que não avançou foi a quantificação dos recursos que os países industrializados deverão oferecer para o financiamento da adaptação e do desenvolvimento das demais nações. Nas palavras de meu amigo jornalista, quanto eles estão dispostos a gastar para comprar a casa.

O marco legal

O romance com o novo governo dos Estados Unidos durou pouco. Em junho, quando a delegação de Barack Obama chegou a Bonn, houve grandes aplausos e recepções. Quatro meses depois, no entanto, os EUA voltaram a ser o rapaz malvado do filme, como na época de G. W. Bush. Amostra disso são os vários prêmios “Fóssil do Dia” que o país recebeu na semana, uma homenagem que as ONGs prestam todo dia ao pior desempenho nas negociações do ponto de vista dos interesses do clima. Particularmente, causou muita rejeição o anúncio da delegação norte-americana de que o Congresso adiaria a discussão da lei sobre a mudança climática, peça-chave para a política internacional de Washington no tema.

Na reunião em Bangcoc (de 28 de setembro a 9 de outubro), os EUA haviam introduzido um novo enfoque no debate: não deveria haver um protocolo com compromissos só para os países industrializados e outro acordo para os países em desenvolvimento; todos os países deveriam ter compromissos em um mesmo nível, sob um mesmo tratado. Nesta reunião em Barcelona, a novidade foi apresentada pela ministra dinamarquesa Connie Hedegaard, ao anunciar que o objetivo seria alcançar em Copenhague um acordo “politicamente vinculatório”, em vez do compromisso assumido pelas partes de chegar a um acordo “juridicamente vinculatório”, cujo cumprimento fosse obrigatório sob um tratado internacional.

“O que quer dizer ‘politicamente vinculatório’?”, perguntavam-se os delegados nos bastidores. A intenção da ministra podia ser a de reduzir as exigências do acordo, mas a ideia também podia ser interpretada como uma tentativa de diminuir as expectativas em relação à COP 15, algo já feito antes por Ivo de Boer, secretário da Convenção.

De qualquer modo, estas expressões demonstram como os negociadores estão longe de um acordo sobre a arquitetura jurídica e os alcances legais dos resultados esperados da COP 15.

Virar a mesa

Mas a novidade mais impactante deste período de sessões talvez tenha sido a atitude da África quando, no início da reunião, pediu que as discussões dos demais temas não continuassem antes da conclusão do debate sobre “as cifras”, ou seja, os compromissos de redução de emissões dos países industrializados. No dia seguinte, depois de várias horas de conversações, chegou-se a um acordo: 60% do tempo seriam dedicados a “cifras” e 40%, aos demais assuntos. Embora a iniciativa do Grupo Africano não tenha atingido seu objetivo, foi aberto um precedente que deve pôr os negociadores em alerta. A possibilidade de “virar a mesa” é algo sempre latente para muitos delegados, embora não se manifeste com frequência.

A prioridade para todas as delegações continua sendo manter aberto o espaço das negociações, pois este é o único caminho possível para uma solução. No entanto, a atitude africana avisa que tudo tem um limite e que pode ter chegado o momento de jogar a última carta. Em última análise, não se trata de “salvar as negociações”, e sim de “salvar o planeta”, como lembrou um ativista presente em Barcelona. “Até onde vale a pena manter este processo de negociação se não há resultados à vista? Para os países desenvolvidos, o problema são os custos econômicos do futuro acordo, mas, para os países em desenvolvimento, os problemas são mais urgentes. Falando em nome dos países menos desenvolvidos, o delegado de Lesoto deixou claro no plenário de encerramento: “Alguns de nós nunca chegaremos a ser economias emergentes, seremos submergentes”, afirmou, referindo-se às ameaças representadas pela elevação do nível do mar.

A 30 dias

É muito difícil que, no pouco tempo que resta, sejam alcançados acordos em todos esses temas. Parece haver dois cenários possíveis. Um deles, pouco provável, é que, seguindo o caminho indicado pela África, alguns dos grupos de países em desenvolvimento deixem a mesa de negociações e abortem todo o processo. O outo, mais provável, é que haja um avanço modesto em Copenhague, mas o acordo final seja adiado para uma segunda fase da COP 15, a ser realizada em junho de 2010, ou mesmo para a COP 16, no México, em dezembro do mesmo ano. Como disse a delegada chinesa no encerramento da sessão: não temos esperanças, mas sempre se pode esperar um passe de mágica que faça com que o acordo finalmente chegue. Esta discussão começou há dois anos. Faltam apenas duas semanas de reuniões para que se alcance um acordo e ainda discutimos sobre torneiras, cores e janelas.

Gerardo Honty é analista de energia e mudança climática do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (Claes). Foi observador na reunião da Convenção de Mudança Climática em Barcelona.

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ONTEM.

 

provavelmente AMANHÃ, se medidas enérgicas não forem tomadas pelos governantes das nações.

 

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ilustrações do site.

CLAUDE LEVY STRAUSS – por philomena gebran / curitiba

Reminiscências de um querido Mestre

A triste notícia, dada friamente, como acontece com todas as noticias – afinal é ofício do repórter, apenas informar:

“morre em Paris o grande intelectual Claude Levy Strauss”. Uma notícia como qualquer outra? Para muita gente, sim.      Para mim, não. Ele sempre será uma pessoa muito especial que continua viva, como sempre esteve em minha lembrança e em meus conhecimentos. Muito do que sei devo a ele, quando fui sua aluna em Paris.

Existem pessoas que não morrem. São imortais para nós. Levi Strauss é uma dessas pessoas. A notícia trazia uma lembrança que agora já é saudade. Uma vontade de voltar no tempo e vivenciar tudo outra vez.  A notícia, me fazia mais viva sua presença.

Às vezes é difícil cair na real ou aceitar os fatos e a realidade. A notícia me trazia de volta aquele que foi meu grande e sábio professor no Collège de France Paris. Figura humana impar e muito especial. Para alguns um intelectual polêmico, controvertido, e às vezes, até arrogante e prepotente.

Para mim não.

Impossível não ser reconhecido por todos, como um dos mais lúcidos intelectuais, do século XX; brilhante antropólogo, filósofo, etnógrafo, historiador, enfim, um sábio.

Viajei no tempo e me vi em Paris num pequeno auditório cheios de pessoas, esperando a entrada do famoso        professor. O silêncio era geral. Logo depois entra um homem simpático, muito elegante, terno escuro, óculos, magro, cabelos grisalhos e apresenta-se: “eu sou o professor que vou ministrar esse seminário a vocês”; como se precisasse de apresentação, “meu nome é Levi Strauss”, simples assim. Meu coração bateu descompassado. E acho que nesse dia perdi muito do que foi falado, tal a emoção.

Era o primeiro dia de um Seminário que se tornaria inesquecível para mim. Terminada a aula como é comum entre os franceses, ninguém fala com ninguém, e todos saíram em silêncio. Fiquei perturbada. Não sabendo direito o que fazer, timidamente, falei para mim: é “agora ou nunca”; tomada a decisão, fui lentamente, como fazem os tímidos, me aproximando de sua mesa e muito, sem jeito, mas com a ousadia da juventude, a voz quase nem saindo de tão baixa, pois sentia um misto de emoção, nervoso e medo.

Então, de repente cheia de coragem falei, creio que atropelando um pouco as palavras, tal a emoção; “gostaria de falar com o senhor”. Olhou-me curioso, pois na França não é nada comum alunos se dirigirem ao professor, sem antes, terem agendado um encontro.

Enfim, falei: – mesmo porque, já era tarde, para qualquer arrependimento: _conheço e já li seu livro Tristes Trópicos; gosto muito dele. E imediatamente, antes de perder a coragem, emendei: – sou brasileira e estou estudando aqui.          Passada sua surpresa pela ousada interpelação, ele perguntou, se eu era da Universidade de São Paulo. Disse-lhe que era do Rio de Janeiro e só então me lembrei de pedir desculpas pela informalidade de minha abordagem.

Para minha surpresa convidou-me a sentar, perguntou o que eu estudava, desde quando estava em Paris, se havia gostado de sua aula, etc., etc., e disse que eu ficasse a vontade para falar com ele sempre que precisasse e que depois das aulas, estaria pronto para esclarecer minhas dúvidas ou para debater questões.

Pronto. Era tudo que eu queria; perguntei se poderíamos conversar sobre seu livro, então ele me revelou que considerava Tristes Trópicos apenas um relato de sua viagem pelo Brasil; assim como, uma longa crônica. Contestei logo. –Pode até ser, mas uma crônica ou relato brilhante!

Dando minha opinião contraria, elogiando o livro que foi muito esclarecedor e que todos no Brasil o utilizavam em suas bibliografias. E ainda admirada de minha coragem, fiz tudo para “segurar” a conversa.      Falamos um pouco do Brasil das comunidades nativas, dos meus estudos lá e aqui, e o gelo foi quebrado. Perdi o medo e me pareceu que já éramos amigos; claro, guardando o indispensável distanciamento; em seguida me passou uma lista de seus livros que eu encontraria na biblioteca ou que poderia adquirir em livrarias, ainda brincando que estudante não tem condições de comprar muitos livros. Pura verdade, até hoje é assim.

Estava aberto um precedente, e quando os colegas mais próximos souberam, ficaram encantados com minha informalidade e logo aproveitaram a oportunidade de se aproximar do grande Mestre. Depois das aulas, ficava um grupo para esclarecer questões e a as perguntas eram muitas; os debates se sucediam sem pressa de ir embora; pois como eu todos queriam saber e saber cada vez mais sobre a nova antropologia e, principalmente sobre o novo método criado por ele; o estruturalismo, cujo estudo eu viria retomar e aprofundar no Mestrado, através de outros pensadores que foram por ele influenciados, como Michel Foucault, Marta Hanecker, Jacques Derrida, Louis Althusser e outros.

Porém, foi com ele que aprendi muito, não só sobre estruturalismo, mas sobre antropologia em geral; as aulas eram mais formais, ao estilo “Frances” mesmo; mas os debates que se seguiam, por pura generosidade sua e grande exploração dos poucos alunos que ficavam eram incríveis.E o papo se tornava mais coloquial, descontraído e, nada formal.

Lévi – Strauss se dizia não marxista, assim como, não se considerava um antimarxista, acho que não queria abrir demais sua ideologia. Tudo bem, graças a isso, estabelecíamos grandes e enriquecedoras discussões, já que a maioria do grupo era marxista. E, também não se dizia o pai do estruturalismo; se bem que insistíamos com ele que todos o viam como tal.

Seu objetivo era a criação de uma teoria “formal”, ou seja, partindo da elaboração mental para a realidade; negando assim, a base empírica. Para ele “estrutura significa o sistema relacional latente no objeto.” Estabelece então diferenças entre a noção de “estrutura social e relações sociais”. Dito em outras palavras, o modelo estrutural é uma construção teórica que não se relaciona com dados empíricos, como na História. É quase uma abstração do real, como explicava em nossas discussões.

O problema não depende da etnologia, mas da epistemologia”, dizia ele.

Atribuía a criação do conceito aos pais da lingüística Saussure e Mauss; mas, está claro que Lévi-Strauss “consagrou” o método no campo das ciências humanas, e mais, enunciou os conceitos de “sincronia e diacronia” para as sociedades sem escrita, o que elucida muita coisa.

Foi com ele que tomei conhecimento das teorias antropológicas, como por exemplo, do funcionalismo de Malinowski, do historicismo de Franz Boas, o evolucionismo (cultural) de Tylor e Morgan, etc., não o evolucionismo de Darwin; mas essa já é outra história;

Eu, particularmente, queria discutir com ele as relações entre História e Antropologia, no meu entender ciências que se completam, e uma influenciam a outra. Mas a questão é que por muito tempo, por “falsas” questões epistemológicas eram tratadas como disciplinas e de forma compartamentalizadas, com práticas e métodos, que mesmo no início do século passado  não contemplavam as exigências acadêmicas.

Consegui expor meu ponto de vista levantado à questão do embricamento entre História e Antropologia, pois para uma pesquisa necessitamos de ambas; e para analise de sociedades diferenciadas seria importante nos livrarmos, para sempre, do “mal” do positivismo e propor, não apenas a interdisciplinaridade, mas a colaboração entre História e Antropologia. Confesso que para meu espanto ele concordou plenamente comigo.

Neste sentido, houve uma abertura de Lévi – Strauss em nossos debates que nos permitiu “entrar” em sua obra para discutir seus livros como “Antropologia Estrutural” “Pensamento Selvagem”.

Sua famosa trilogia: “Mythologiques”, três grandes volumes sobre o homem, alimentação, costumes culturais , mitos, símbolos, enfim sobre como as diferentes  culturas se comportam e realizam a construção de suas sociedades, considerando a organização social, os sistemas econômicos e os sistemas míticos e a cultura material, por exemplo, foi extraordinariamente enriquecedor.

Devo porém, acrescentar, que a discussão sobre sua tese de doutorado: “Les Structures Elementaire de La Parente”, para mim, sua obra mais completa e abrangente, foi o ápice do Seminário e de nossas discussões e dos debates sobre estruturalismo. Foi um Curso que deixou muita saudade e que ninguém ficou feliz quando terminou, ao contrário, a tristeza foi geral.

Mas, a compensação é que todos saíram muito mais ricos em conhecimento científico, e em nossas reflexões; claro que muitas obras, não foram abordadas profundamente, como gostaria, porque nem haveria tempo.

Para mim houve um fator ainda mais rico e importante, que eu viria a formular mais tarde em minhas pesquisas; a reformulação de conceitos que considero equivocados e cheguei rapidamente a falar sobre isso com o grande mestre; apesar de ter discordado comigo em alguns pontos, foi mais positivo sua concordância em outros que agregaram em minhas pesquisas e estudos novos valores.

Só para citar um e não me alongar demasiado nesse ensaio, nada científico, mas apenas a expressão das minhas reminiscências. Consegui ao longo de minha vida profissional mudar o conceito de sociedades “primitivas”, como conceituado historicamente pelos antropólogos para sociedades “ágrafas”.

Desprezando, com a aquiescência de Levy- Strauss: “povos sem história” “povos vencidos”, “aculturados” e o pior, “primitivos” e ainda “sociedades simples”, para diferenciar as culturas que sempre foram marginalizadas pela História, das culturas ocidentais, ditas “complexas” como “culturas inferiores”. Nada mais equivocado.

Existem entre nós, culturas ágrafas que guardam grande sabedoria e são muito mais complexas e sofisticadas em suas organizações sócio, político, econômico e mítica que nossa “bela civilização ocidental”, plena de descriminações e preconceitos.

Por isso, graças ao Seminário com o Grande Levy Strauss adquiri a coragem necessária para mudar meu campo conceitual: “primitivo”? Jamais. “índio”? Nunca. Nativos sim, como somos todos. Sofro contestações? Inúmeras. É difícil  as pessoas  aceitarem novas propostas; o novo é sempre complicado, mais fácil ficar acomodado, não pensar muito e ficar repetindo o que já está cristalizado pelo tempo.

Mas, a exemplo do Mestre insisto, e sigo em frente com minhas inovações.

Não tinha intenção de discutir isso aqui, mas foi apenas uma digressão, para ilustrar o resultado do aprendizado; minha intenção é apenas a de prestar uma homenagem ao cientista, que já no início do século passado, soube tão bem chamar a atenção do mundo acadêmico para o absurdo das idéias positivistas ao considerarem que existem homens melhores do que outros, e sociedades superiores e inferiores, seja pela cor, seja pela escrita, seja pelos mitos, seja pelos símbolos, ou seja, pela cultura.

Para terminar uma sábia frase do sábio Homem:

…“hoje meu único desejo, é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele.”

 

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ilustração do site.

PRESIDENTE BARACK OBAMA concede entrevista a blogueira CUBANA – editoria


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, concedeu uma entrevista à blogueira cubana Yoani Sánchez. É um fato inédito. A autora do blog Generación Y, que critica abertamente o governo da ilha.

A blogueira havia enviado um questionário com sete perguntas ao líder americano e ao presidente cubano, Raúl Castro, sobre a relação entre os dois países. Obama foi o primeiro a responder.

 

“Depois de meses de tentativas consegui fazer com que um questionário chegasse ao presidente americano com alguns desses temas que não me deixam dormir”, disse Yoani ao jornal espanhol El País. A entrevista foi publicada em espanhol e inglês. Aqui vão as respostas de Barack Obama

Presidente Barack Obama:
Agradeço esta oportunidade de compartilhar impressões com você e seus leitores de Cuba e do mundo, e aproveito para parabenizá-la pelo prêmio María Moore Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, recebido por promover o diálogo mútuo nas Américas através de suas reportagens. Fiquei decepcionado de você ter sido impedida de viajar para receber o prêmio em pessoa.
O seu blog oferece ao mundo uma janela das realidades da vida cotidiana em Cuba. É revelador que a internet ofereceu a você e a outros corajosos blogueiros cubanos um meio tão livre de expressão, e aprovo esses esforços coletivos para permitir que seus compatriotas se expressem através da tecnologia. O governo e o povo americano se unem a todos vocês antes mesmo do dia em que todos os cubanos possam se expressar livre e publicamente, sem medo ou represálias.

Yoani Sánchez:
Durante muito tempo, Cuba esteve presente tanto na política exterior dos Estados Unidos como entre as preocupações domésticas, especialmente pela existência de uma grande comunidade cubano-americana. No seu ponto de vista, em qual categoria assuntos de Cuba devem ser abordados?

Obama:
Todos os assuntos da política exterior têm componentes internos, especialmente aqueles de países vizinhos como Cuba, de onde procedem muitos imigrantes nos Estados Unidos e com o qual temos uma longa história de vínculos. Nosso compromisso de proteger e apoiar a livre expressão, os direitos humanos e um estado de direito democrático, tanto em nosso país como no mundo, também supera as demarcações entre o que é política interna e externa. Além disso, muitos dos desafios que compartilhamos, como a imigração, o narcotráfico e a administração da economia, são assuntos tanto internos quanto externos. Ao fim, as relações entre Cuba e os Estados Unidos devem ser analisadas em um contexto interno e externo.

Yoani:
Se o seu governo colocasse um ponto final nessa disputa, ele reconheceria o governo de Raúl Castro como oúnico interlocutor em eventuais negociações?

Obama:
Como disse antes, o meu governo está pronto para estabelecer laços com o governo cubano em uma série de áreas de interesse mútuo, como fizemos nas conversas sobre imigração e nas remessas de dinheiro. Também me proponho a facilitar o maior contato entre o povo cubano, especialmente entre famílias que estão separadas. Queremos estabelecer vínculos também com cubanos que estão fora do âmbito governamental, como fazemos em todo o mundo. Está claro que a palavra do governo não é a única que conta em Cuba. Aproveitamos todas as oportunidades para interagir com toda a sociedade cubana e olhamos para um futuro no qual o governo reflita as vontades do povo cubano.

Yoani:
O governo dos Estados Unidos renunciou ao uso de força militar como forma de pôr fim ao conflito?

Obama:
Os EUA não têm intenção alguma de utilizar força militar em Cuba. O que os EUA apóiam em Cuba é um maior respeito aos direitos humanos e às liberdades política e econômica. Os EUA se unem às esperanças de que o governo cubano responda às aspirações de seu povo de desfrutar da democracia e do poder determinar o futuro de Cuba livremente. Somente os cubanos são capazes de promover uma mudança positiva em Cuba, e esperamos que logo possam exercer as capacidades de maneira plena.

Yoani: Raúl Castro disse, publicamente, estar disposto a dialogar sobre todos os temas com o respeito mútuo como única condição e a igualdade de condições. Estas exigências lhe parecem desmedidas? Quais seriam as condições previas que seu governo imporia para iniciar um diálogo?

Obama: Por anos eu disse que era hora de aplicar uma diplomacia direta e sem condições, seja com inimigos ou inimigos. Contudo, falar por falar não me interessa. No caso de Cuba, o uso da diplomacia deveria resultar em maiores oportunidades para promover nossos interesses e as liberdades do povo cubano. Já iniciamos um diálogo, partindo desses interesses comuns – imigração que seja segura, ordenada e legal, e a restauração do serviço direto dos correios. São pequenos passos, mas parte importante de um processo para colocar as relações entre os Estados Unidos e Cuba a uma nova e mais positiva direção. 

Yoani: Que participação poderiam ter o cubanos no exílio, os grupos de oposição interna e a emergente sociedade civil cubana nesse hipotético diálogo?

Obama:
Ao considerar qualquer decisão sobre política pública, é imprescindível escutar quantas vozes diferentes for possível. Isso é precisamente o que viemos fazendo com relação à Cuba.

O governo dos EUA conversa regularmente com grupos e indivíduos dentro e fora de Cuba, que acompanham com interesse o curso de nossas relações. Muitos não estão de acordo com o governo cubano, muitos não estão de acordo com o governo americano e muitos outros não estão de acordo entre si. O que devemos todos estar de acordo é que temos que ouvir as inquietações e interesses dos cubanos que vivem na ilha. Por isso é que tudo o que vocês estão fazendo para projetar suas vozes é tão importante – não somente para promover a liberdade de expressão, como também para que as pessoas de fora de Cuba possam entender melhor a vida, as vicissitudes e as aspirações dos cubanos que estão na ilha.

Yoani: O senhor é um homem que aposta no desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e informação. Contudo, nós, cubanos, continuamos com muitas limitações para acessar a Internet. Quanta responsabilidade tem nisso o bloqueio americano em relação a Cuba e quanta tem o governo cubano?

Obama: O meu governo deu passos importantes para promover a corrente livre de informação proveniente de e dirigida ao povo cubano, particularmente por novas tecnologias. Possibilitamos a expansão dos laços das telecomunicações para acelerar o intercâmbio entre o povo de Cuba e do mundo exterior. Tudo isso aumentará a quantidade de meios através dos quais os cubanos da ilha poderão comunicar-se entre si e com pessoas de fora de Cuba, valendo-se, por exemplo, de maiores oportunidades em transmissões de satélite e de fibra ótica.

Isso não acontecerá de um dia para o outro, nem tampouco poderá ter plenos resultados sem ações positivas do governo cubano. Entendo que o governo cubano anunciou planos para oferecer maior acesso à internet nos postos de correio. Acompanho estes acontecimentos com interesse e exorto o governo a permitir acesso à informação e à internet sem restrições. Além disso, são bem-vindas sugestões sobre áreas nas quais podemos mais tarde ajudar no livre fluxo de informação dentro, de e para Cuba.

Yoani: Estaria disposto a visitar o nosso país?

Obama: Nunca descartaria uma ação que tenha como objetivo avançar nos interesses dos Estados Unidos ou promover as liberdades do povo cubano. Ao mesmo tempo, as ferramentas diplomáticas devem ser usadas somente após cuidadosa preparação e como parte de uma estratégia calma. Eu adoraria visitar uma Cuba, onde todas as pessoas possam desfrutar dos mesmos direitos e oportunidades de que goza o resto do povo do continente.

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OM.

DONO de BLOG é condenado a pagar R$ 16 mil por comentário de internauta


Post abordava briga em colégio do CE; internauta insultou diretora.
Blogueiro perdeu prazo para recurso e juiz ordenou penhora de bens.


 

Por conta do comentário de um internauta em seu blog, o estudante de jornalismo Emílio Moreno da Silva Neto, de 33 anos, morador de Fortaleza (CE), foi condenado pela Justiça cearense no mês de julho a pagar uma indenização de R$ 16 mil.

Emílio perdeu o prazo para recorrer e, no último fim de semana, recebeu uma notificação de penhora de bens para o pagamento do valor.
O caso começou em março do ano passado, quando o universitário repercutiu em seu blog uma briga entre dois estudantes do Colégio Santa Cecília, na capital cearense. No comentário, um internauta insultou a diretora, uma freira chamada Eulália Maria Wanderley de Lima, e criticou sua atuação na intermediação da briga dos estudantes.

No segundo semestre do ano passado, a diretora da escola abriu uma ação por danos morais contra o blogueiro. Nas quatro primeiras audiências, segundo informações do Tribunal de Justiça do Ceará, o estudante compareceu e a diretora, não. Ela alegou viagens e outros compromissos profissionais.

Na quinta audiência, foi o estudante quem faltou, mas, ao contrário da diretora, não deu justificativas. Por conta disso, o juiz aceitou a ação e o condenou ao pagamento de 40 salários mínimos, o equivalente a R$ 16,6 mil na época. Emílio perdeu o prazo para recorrer e a ação transitou “em julgado” – ou seja, não há mais possibilidade de recursos.

No último sábado, dia 21 de novembro, Emílio foi notificado sobre o mandado da Justiça de penhora de bens para pagar a quantia e tem possibilidade de tentar reverter a penhora.

O estudante afirma que não tem bens para serem penhorados e alega que tentou resolver o caso “amigavelmente”. “O que eu realmente lamento é que não tenha havido um diálogo mais tranquilo, sem que houvesse a necessidade de uma ação na Justiça. Ofereci direito de resposta, apaguei de imediato o comentário. Enfim, acho que tudo isso é fruto de um grande equívoco. Lamento realmente.”

 

Mariana Oliveira e Marília JusteDo G1, em São Paulo

RECADO À MULHER AMADA de manoel de andrade / curitiba

Eu te juro, amor meu

que eu amava o canto das cigarras em dezembro,

o aroma dos bosques e da chuva,

mas o tempo, como uma lança,

fez sangrar minha ternura

e era preciso devolver os golpes cara a cara.

Era preciso partir

e inaugurar a vida novamente.

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Era preciso partir

eu te asseguro.

Partir de busca em busca até morrer.

Agora…, eis-me  aqui,

entre a poesia e um estandarte;

e contudo, desde o primeiro dia,

tu conheceste esse pedaço de minh’alma.

Tu sabias do meu despojamento

e da minha esperança;

sabias das minhas navegações

e que eu vinha com uma infância de barcos e marinheiros.

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Sim… é verdade…

por algum tempo tu me fizeste ancorar por tanto amor,

mas eu sempre fui um habitante do vento e da distância

e somente te pude amar com um coração feito caminhos.

Ai amada…

eu nunca aprenderei a regressar…

a vida me ensinou a partir sempre

e a dizer adeus ao que amei.

Meu próprio canto é uma despedida…

é sempre um passo a mais para o combate.

Talvez eu volte quando comece a florescer a rubra messe

quando sentir que cessaram os tambores

e que regresso entre os sulcos de uma aurora.

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Mas agora… amor

eu sou a voz e o sangue de um guerreiro

e bem quisera incendiar-te com esse sol que trago dentro.

Eu bem quisera

e já quis tanto

que além desta ternura

e da espera,

fosses também a companheira do meu sonho

e uma península do meu punho

e do meu canto.

Cali, setembro de 1970

Do livro POEMAS PARA A LIBERDADE, Editora Escrituras, 2009

DESCONTRUÇÃO de lucas paolo / são paulo


Se eu pensasse hoje

No eu ia feijão

De anteontem tristeza

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Saudades faixas à mesa

Do não outrora talvez

Minhas tuas pernas contorcidas

.

Ensimesmados olhos teus

Do eterno de quando em quando

Meu remorso esbugalhado

.

Desvirginados cancros

Do chão de nossa torre

Hemoptise de meu marfim

*  *  *

Acultura São Paulo!

De teus ontem bois de agora

À sarjeta: nosso epitáfio

MEU CORAÇÃO por joanna andrade / miami.usa

Meu coraçao – uma bomba ativada pela dor do simples pensar

Se  existo no meio de um mundo hipocrita e imbecilizado pelas mediocridades alheias ao meu bom querer- que meu mundo nao caia em descrença

Nao deixe a dor no peito ensurdecida se transformar num longo suspiro de morte em busca de um consolo solitario

Impeça a ira e transforme minhas unhas  inoxidaveis e meu coraçao vudu em paz e os segundos de tormento em salvaçao de minha boa alma

Dualismo duelante dolorido decalcificante deliberado dicotomico

Meu coraçao – uma bomba comandada por um cerebro maquinado a exercer a funçao de guerreiro

Que as marcas das punhaladas recebidas continuem em minhas costas e eu nao grave in memorium o mau feitor-  a falsidade deve ser colocada para tras

Sendo a força do destino  propulsora em direçao aos objetivos e aniquiladora de defeitos e limitaçoes – livre-me do mal Amém!!!!

STILUS segrega deficiente, competente, na PARAÍBA !

Amiga(o)s,

A denúncia abaixo tem um significado especial para mim. A mãe de Mariana, Joana Belarmino, minha amiga desde 1984, é cega desde o nascimento. No entanto, é cantora, escritora, com várias obras publicadas, jornalista, doutora em Comunicação Social, professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba. Tem milhões de razões, portanto, para se indignar.

Um abraço

Alberto Moby

 

 

“Somos os pais de Mariana de Sousa Siqueira Santos e vimos denunciar fatos que afrontam direitos de cidadania, de igualdade e dignidade humana ocorridos com nossa filha. Mariana tem 23 anos e no mês de julho do próximo ano concluirá seu curso de Design de Interiores, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFPB, campus de João Pessoa.

Como a maioria dos estudantes do ensino superior do país, Mariana tem o seu currículo cadastrado para estágio no  Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE.
Na semana passada recebeu a notícia de que o seu perfil havia sido selecionado para uma vaga de estágio na empresa Stilus, em João Pessoa, localizada no Bairro dos Estados.

No próximo dia 25, às oito da manhã, os candidatos com perfil aprovado farão uma prova de seleção para a vaga de estágio. Entretanto, Mariana não estará entre eles. E por que Mariana não poderá fazer a prova? Recebemos um telefonema do CIEE informando que a empresa argumenta que “não há no momento, oportunidade para pessoas como Mariana, que tem uma deficiência auditiva”. Ainda que ela use prótese e – apesar da perda auditiva - seja oralizada, se comunicando plenamente.

Estudante aplicada, Mariana maneja com destreza, softwares como AutoCAD, Cinema D4 e realiza com perícia, tarefas de renderização, projeto e decoração de ambientes. Na empresa Stilus, no entanto, sequer vai ser lhe dada oportunidade para participar de uma seleção de estágio. Mariana tem uma trajetória de vida bem sucedida. Venceu inúmeras barreiras e destaca-se na sua formação. É uma pessoa consciente, cumpridora dos seus deveres de estudante, de filha, de cidadã.

No entanto, tem  enfrentado dificuldades múltiplas numa sociedade onde nem sempre pessoas como ela estão incluídas e reconhecidas. Mariana sabe que na sua vida, os desafios estão sempre a exigir coragem, disciplina e uma luta permanente na defesa dos seus direitos. Nós, os seus pais, somos os seus aliados incondicionais. Neste momento só temos a nossa voz de indignação, de protesto, de repúdio à prática excludente e mesquinha desse tipo de empresa. Queremos que essa nossa voz se espalhe. Que seja ouvida por vocês que são pais, filhos, amigos… queremos que nossa voz seja ouvida pelas pessoas com deficiência ou não, pelas autoridades jurídicas deste país, desta nossa cidade.

 

Além da denúncia pública, estaremos buscando  providências legais junto ao Ministério Público para que outros jovens, em condição semelhante, não venham a passar por tamanho constrangimento, impunemente.

 

Lau Siqueira e Joana Belarmino

 

JUIZ do MATO GROSSO censura BLOG por emitir OPINIÃO contra DEPUTADO CORRUPTO

Blogueiros vão recorrer contra mordaça em MT

Adriana e Cavalcanti vão ao TJ para tentar derrubar liminar que os impede de ‘emitir opiniões’ sobre deputado alvo de 92 ações por desvios de verba

Daniel Bramatti e Moacir Assunção

SÃO PAULO - Dois blogueiros de Mato Grosso vão recorrer na próxima semana ao Tribunal de Justiça do Estado para tentar derrubar a censura imposta no último dia 10 por decisão do juiz Pedro Sakamoto, da 13ª Vara Cível.

Adriana Vandoni e Enock Cavalcanti, responsáveis pelos blogs Prosa e Política e Página do E, respectivamente, vão apresentar agravo de instrumento ao TJ.

No dia 10, o juiz atendeu a um pedido de liminar do deputado José Geraldo Riva (PP), presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, que se disse vítima de dano moral. Os blogueiros foram proibidos de “emitir opiniões pessoais pelas quais atribuam (ao deputado) a prática de crime, sem que haja decisão judicial com trânsito em julgado que confirme a acusação”. O juiz também determinou que dois textos sobre o deputado fossem retirados do blog Página do E.

José Geraldo Riva é alvo de 92 ações civis públicas propostas pelo Ministério Público, nas quais é acusado de desviar cerca de R$ 450 milhões da Assembleia, segundo a ONG Movimento Organizado pela Moralidade Pública (Moral).

Ademar Adams, diretor da Moral e autor de artigos sobre supostos atos de corrupção que envolvem o presidente da Assembleia, também foi proibido de se manifestar pelo juiz Sakamoto, assim como o jornalista Antônio Cavalcanti e o advogado Vilson Neri, integrantes do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE).

Adams disse que pretende divulgar, na próxima semana, carta aberta ao juiz Sakamoto, na qual afirma que o Estado não pode interferir na opinião de um jornalista. Segundo ele, o deputado Riva o processou para atingir a ONG da qual faz parte – o MCCE é um dos promotores da campanha Ficha Limpa, que pretende impedir políticos processados por corrupção de participar das eleições.

Adriana Vandoni disse que considera a censura “um atentado contra a democracia”. Enock Cavalcanti se declarou surpreso com a censura prévia. O deputado Riva não foi localizado na Assembleia ontem, em virtude do feriado na capital mato-grossense.

 

grifos do site.

ALEPH NÃO QUER ME DAR O MUNDO – por zuleika dos reis / são paulo

Não sei quantos é Daniel: no mínimo dois. Ao segundo, que identifico, darei o nome de Aleph, nome da primeira letra do alfabeto hebraico, também de um livro e de conto de Jorge Luis Borges, conto no qual o termo Aleph indica o ponto no espaço de onde se podem ver todos os demais pontos do Universo.

Quando vi Daniel pela primeira vez, olhei seu rosto de musgo e neve e não pensei em nenhum profeta bíblico nem no rosto talhado entre os rochedos, nos rochedos do conto de Hawthorne.

O rosto mudo, de pedra, do conto de Hawthorne. Mas este é o rosto de Aleph, não o de Daniel. O rosto mudo de Aleph, ou melhor, a boca muda de Aleph, perdida de algum verbo original.

Não, não é exatamente muda. Dela, um sopro primeiro, leve sopro que vai virando respiração e, dependendo do que lhe digo, o que se tornou respiração vai se alterando muito, quase se transformando num grito, mas não chega a formar uma sílaba, que uma sílaba seria o começo da palavra, e a palavra já é o mundo. Aleph não quer isso, só me ouve como se eu fosse o Demiurgo. Aleph me ouve como se de minha fala lhe pudesse vir o ser, o ser dele mesmo ou o ser de Daniel, Aleph é consciente desta hipótese? Aleph quer que o mundo lhe venha de mim.

Eu tento, tento, mas sei que o que quero é chegar a Daniel, desesperadamente chegar a Daniel, através de Aleph. Chegar a Daniel, que não consegue nunca sonhar plenamente com seu próprio rosto, assim como jamais consigo sonhar plenamente com o meu próprio, coisa que só comecei a compreender de verdade depois da vinda de Daniel.

Qualquer semelhança é e não é mera coincidência. Escrevo tal frase assim como a advertência em um livro ou em novela de TV, para suportar o desespero, esse que me dá vontade de sair gritando pelas ruas ou de gritar a Daniel, pelo telefone, o seu verdadeiro nome, o nome que consta em sua certidão de nascimento, o mesmo pelo qual as pessoas o conhecem. O pavor de ter enlouquecido sozinha ou de ser a presa de uma outra Vontade, em um jogo inimaginavelmente cruel, obriga-me a um quase sobrenatural esforço, a fim de alcançar um mínimo de sensatez, e aí corro para Rubem, para enlouquecer do modo diametralmente oposto, sempre carregando e mantendo a certeza de que o meu pesadelo é maior do que os deles dois, somados. Rubem não sabe de Daniel-Aleph nem Daniel sabe o verdadeiro nome de Rubem e, de mim, cada qual colhe a metade que conhece e que sabe administrar.

O homem chamado Daniel não corre o risco de ser identificado, a não ser pelos seus porta-vozes, esses que ele utiliza para saber se estou aqui, em minha casa, com minha mãe, digamos num sábado à noite. É verdade que jamais descarto completamente a possibilidade de o mundo ter se tornado uma alucinação auditiva, embora tal hipótese seja algo indescritível, à Poe. Ligo todas as possíveis e impossíveis antenas para tentar apreender a verdade e creio que suportaria qualquer uma, qualquer, tendo, no entanto, que me resignar em cada segundo, na eternidade de cada dia, a este suplício inimaginado pelos deuses, até que o homem Daniel se transmute no Anjo da minha vida.

FILHOS, seus medos, meus medos – por marilda confortin / curitiba

Levei anos para convencê-los de que fantasmas não existam e que os barulhos que ouviam eram de seres vivos, inofensivos.

Fiz de tudo para que perdessem o medo do escuro, dormissem sozinhos, seguros.

 

E eles cresceram…

 

Hoje, sou eu quem teme os barulhos da noite.

Sirenes, disparos, gritos, freadas, gemidos, uivos, gargalhadas.

Morro de medo de ficar sozinha e não durmo enquanto não chegam em casa.

Desminto tudo o que eu disse sobre fadas e super-heróis. É pura crendice!

O que existe são homens cruéis, mulheres malvadas, seres invisíveis, drogas, pragas, vírus terríveis, doenças fatais.

O mal existe, meus filhos. E é muito real.

Riem como se meus conselhos fizessem cócegas, os pentelhos!

A menina, fica uma hora na frente do espelho,  diz que o chapeuzinho vermelho não ta com nada, que o lobo mau é um “coisarada”, tudo de bom, um cara legal.

Acha normal usar piersing na orelha, na sobrancelha, na língua, no umbigo, nos lábios (pequenos!), fez uma tatuagem nas costas, gosta de balada, ilha do mel, futebol, cerveja e o escambau. Diz que não é para eu me preocupar porque ela vai casar com um czar e morar num harém. Amém.

O menino, ainda acredita em super-heróis, vampiros, lobisomens, sei lá o quê e continua jogando RPG.

Pensa que aquela ruiva que conheceu na praia é uma sereia de saia.

Tadinho… Ainda não perdeu o medo de dormir sozinho.

Só dorme se for bem agarradinho com aquela cobra que me chama de sogra!

Sereia… Baleia, isso sim! Engoliu o meu filhinho!

Vejam só! Ela me disse que eu vou ser avó de um cardume de peixinhos!

Que hilário: Meus netinhos dentro de um aquário jogando beijinhos…

 

Filhos…  Filhos!

Nunca vêm com nota fiscal nem com manual de instrução.

Não avisam quando crescem e é só piscar, que desaparecem.

Mas uma coisa é certa: Mesmo que partam, quebrem, caiam, ou não saiam bem do jeito que a gente queria, não importa. Amor materno tem validade eterna.

Os filhos, estão sempre na garantia.

O QUE ESTE ARTIGO TEM A VER COM ÉTICA? – por joão batista do lago / são luis.ma

Por um bom tempo pensara o Ex-presidente Fernando Collor de Mello como o introdutor do pós-modernismo de governo no Brasil. Hoje vejo que estava literalmente enganado. Foi sim um Fernando, mas o Henrique Cardoso. Este é o verdadeiro “industrial” desse fenômeno, que, de posse de um capital intelectual de primeira grandeza, soube “estruturar” uma planta de fábrica capaz de produzir em série produtos novos para um mercado atolado na ignorância e na inconsciência de si devido ao seu baixo nível intelectual, cultural e, sobremodo, educacional. Mas também devido ao imobilismo dos produtores industriais-intelectuais nativos – mesmo os independentes – que não foram capazes de combatê-lo ou ficaram subsumidos pelo medo de serem considerados retrógrados.

Podemos dizer que esse capital intelectual de Fernando Henrique Cardoso é uma herança ontogênica. Ele o obtém a partir da corrente sociológica da USP, mais precisamente, da Escola de Sociologia de São Paulo, que tinha por ícone Florestan Fernandes. Foi exatamente aí que Cardoso aprendeu a “pensar o Brasil” dentro de uma matriz pós-moderna, noutras palavras, a considerar que “tudo” que “não” estivesse alinhado aos novos conceitos originados nessa Escola, era arcaico, velho ou, no mínimo, retrógrado e ultrapassado. A influência foi tamanha que engessou outras correntes do pensamento sociológico brasileiro e impactou, de certa maneira, a intelectualidade nacional.

Essa corrente sociológica paulista, ao pensar o Brasil, descobriu que tinha espaço para o fabrico de um produto novo no campo da Política. Era fundamental que, dali, surgisse um candidato que pudesse, efetivamente, conquistar, como novo Príncipe, a mais alta magistratura do Brasil: a Presidência da República (para definitivamente estabelecer um sistema de dominação hegemônico do pensamento paulista, sobre a política dos caciques do nordeste e dos caudilhos do sul).

Mas quem seria esse candidato?

A escolha recaiu sobre Fernando Henrique Cardoso por que, este, tinha (e tem) (sub) ligações com as Forças Armadas, recém apeada do Poder (1985), posto que, era (e é) um belo exemplar descendente de militares revolucionários de 1922 e 1930. Ora, isso, de per se, era um fermento muito saudável para a construção do político FHC, ao mesmo tempo em que se enunciava que a eleição de um metalúrgico, naquela época (1994), ainda não era bem vista pelos milicos de pijama com voz forte na caserna, assim como pela maioria dos generais da ativa.

Aliado a tudo isso, FHC, fora um professor de Sociologia exilado no Chile e na França, sendo posteriormente aposentado compulsoriamente pelo AI-5. Pronto, o “paletó” destinado a vestir o Presidente do Brasil cabia, finalmente, num integrante da corrente sociológica da USP.

 

* * *

 

Eleito Presidente do Brasil por duas vezes (1994 e 1998) FHC tratou de implantar o projeto político que nascera naquela escola sociológica. Ao mesmo tempo introduziu sua marca pessoal. E aos meus olhos o principal carimbo de FHC na sua primeira gestão (1994-98) não se encontrava necessariamente na sua forma de governar, mas na sua intenção de desconstruir quaisquer pensamentos, idéias, ideologias ou conceitos que, de alguma maneira, estivessem relacionadas – por mínimo que fosse – com políticas de tipologias varguistas, janguistas, brizolistas e janistas, por exemplo.

Não é, pois, à-toa que FHC, ao ser eleito declara em alto e bom som: “Esqueçam tudo o que escrevi”. Paradoxalmente essa sua frase desvela duas intenções: (1) admitir que, mesmo o que ele escrevera já era velho, portanto, tudo o mais era arcaico; e (2) que novo deveria ser entendido e compreendido a partir dele, portanto, somente a partir dele era que se deveria pensar no Brasil moderno, mais precisamente, no Brasil pós-moderno.

E como isso ocorre? Aos meus olhos reside aqui um conceito que o infiro como “supra-valia” do capital intelectual de FHC que é, e assim o demonstra, um “Sujeito” concatenado com o seu tempo-espaço, com o novo, com o moderno, com o pós-moderno… E por isso mesmo capaz de produzir novos conceitos, de certa forma intimidatórios, o que vai arrefecer (e muito) a crítica ou o “criticism” acadêmico brasileiro, e conseqüentemente, o político. Então, focado nesse seu “Eu”, FHC, introduz na nação o “self” (Jung), que não é um conceito sociológico de raiz, mas psiquiátrico, e que quer significar a centralidade do Ser-de-si, do Ser-para-si e do Ser-aí, isto é, ele, FHC, constrói-se como o único centro da personalidade do Estado brasileiro. Somente a partir dele o Brasil será resolvido.

Eu vejo nessa postura fernandiana (de então) algo parecido com o Rei Luis XIV, de França: “L’État c’est moi (O Estado sou eu)”. E assim ocorreu por um bom estádio.

É mesmo, até, possível interiorizar, neste artigo, para bem definir o padrão estrutural da personalidade e do caráter do então Presidente FHC, o conceito original do “self” formulado pelo médico psiquiatra suíço Carl Gustav Jung: “O Si-mesmo representa o objetivo do homem inteiro, a saber, a realização de sua totalidade e de sua individualidade, com ou contra sua vontade. A dinâmica desse processo é o instinto que vigia para que tudo o que pertence a uma vida individual figure ali, exatamente, com ou sem a concordância do sujeito, quer tenha consciência do que acontece, quer não”.

A ideação do “self” em FHC é tão forte que, ainda hoje, o Governo Lula, já no seu segundo mandato, é considerado uma “continuidade” do Governo FHC. Infelizmente, nesse ponto, Lula não consegue desconstruir o fantasma de FHC que o persegue obstinadamente.

Para encerrar este artigo introduzo aqui um fato assistido, visto e ouvido por todos os brasileiros – mas que não foi devidamente levado em conta ou analisado corretamente (segundo o meu pensamento) como o faço aqui e agora.

Após a vitória da primeira eleição do Presiente Lula – entre os meses de outubro (após dia 25), novembro e dezembro -, antes de passar definitivamente a faixa de Presidente, FHC inaugurou mais uma marca do seu “self”, ou seja, fez com que todos os seus ministros dessem declarações destacando que Lula iria receber um país, no mínimo, concatenado com a “nova” filosofia econômica mundial. E isso ficou claro – mas claríssimo mesmo – com as constantes declarações do Ministro Pedro Malan, que inisistiu ardorosamente (até a posse de Lula) na continuidade e na manutenção dos contratos acordados pelo Governo FHC.

Houve momentos, inclusive, em que vários setores da sociedade civil brasileira chegaram a defender a continuidade de Malan à frente do Ministério da Economia… Assim como defenderam a continuidade de Hermínio Fraga como presidente do Banco Central…

O que aconteceu depois? Deixemos para outro artigo pois daí já estaremos falando do Governo Lula.

Mas afinal, “o que este artigo tem a ver com a ética?”. Pense, analise e infira as suas conclusões.

 

 

 

Guerrilha em Curitiba nos anos 80 – de tonicato miranda / curitiba


 

Os trens arrebentaram pessoas ao ar e às paredes

na explosão política e suicida de Madrid às 10h 13 minutos

Na mesma hora arrebentou violentamente em mim

a bomba da saudade mortal por amigos, pelo jazz e por lutos

 

Em qual guerrilha da vida perdi os amigos, as minhas histórias?

Ai, esta dor lancinante ferindo-me a alma, açoitando-me a cara

Ela morde-me com sua boca de espinhos todas as memórias.

É a tristeza instalando-se, invasora, no meu pastel de Santa Clara

 

Guerrilheiros demolem prédios que espetam a bunda do céu

arrebentam tudo em nome da causa e do genuflexório a Maomé.

Nessas horas não há flores, nem pássaros, nem da odalisca o véu

tudo justifica a causa – em nome de Alá se mata, se morde, tudo é fé.

 

Mas nada mata mais do que ter sido perdido na agenda dos amigos

Não sabem onde moro, não sabem como estou morrendo saudoso

por um singelo copo de vinho e um resto de pedaço de queijo antigo

não importa se ele está agora, muito tempo depois um tanto rançoso

 

Os amigos me faltam como o ar, não como o alimento, as carradas,

nada é mais importante, estou nas ilhas da solidão, como Abrolhos.

Como me faz falta um bar, e as caras das mulheres descamadas,

com suas máscaras ossudas e sofridas no espelho dos meus olhos

 

Quando lhe faltam os amigos, faltam também os desatinos

e ninguém consegue sobreviver sem dois quilos de loucura.

Falar mal de si deveria ser ensinado na escola aos pequeninos

para terem tolerância e sobrevida quando doentes no parto da cura

 

Todos querem estar um pouco loucos de quando em vez.

Mas como representar no palco sem platéia a sua própria odisséia?

Como trabalhar o choque do trem de Madrid e ainda assim outra vez

entrar no bar, e pedir: dê-me uma dose de vinho, outra, e meia

 

Precisamos dos amigos como ouvintes, como dial do coração

que nos tombem sobre a cama após o nosso mais vergonhoso porre

para suportarmos as grandes catástrofes humanas de emoção

quando guerrilheiros atacam, explodindo tudo que sonha e corre

 

Sinto falta do Gerson Maciel, Helena, Lulo, Desirée, Nádia, Bia de Luna,

e tantos outros poetas que se explodiram nos trens das noites curitibanas

não esperaram a chegada dos guerrilheiros de Madrid, morreram suas lunas

em noites invernais, tornando-se todos cidadãos ocultos de pijamas

 

Sinto falta dos bares aonde se chegava devagar, como rato de cozinha

mordiscando um queijinho aqui, bebericando um aperitivo ali, sorrindo um riso lá

tudo sobre os olhos atentos da dona do boteco tão desamada e comezinha

quase rompemos a sandice do mar que não tivemos para ir até a Porta de Alcalá

 

 

HAICAIS de EDUARDO HOFFMAN /curitiba

Ao Reinoldo Atem:

 

 

 

tigre de bengala

 

de soslaio na soleira

 

da porta do bar

 

 

 

 

queria carne de onça

 

 

=

 

 

 

habeas coppus

 

 

graças

 

ao som

 

das taças

 

 

=

 

 

o céu

 

refletido na água

 

 

se passar uma peneira

 

 

quantas estrelas !?

 

 

=

 

 

arrimo

 

 

 

 

quanto eu

 

 

quanto in

 

 

quanto ai

 

 

assim murmurava

 

o samurai

 

 

=

 

 

mi Tarzan

 

 

you Jane

 

 

vamos dançar um orangotango ?

 

 

HÁ 46 ANOS : “John Fitzgerald Kennedy é assassinado em Dallas” – por max altman / são paulo

A primeira dama Jacqueline Kennedy raramente acompanhava o marido em seus compromissos políticos. Dessa vez, estava ao lado dele, em 22 de novembro de 1963, junto com o governador do Texas, John Connally, e sua mulher, na carreata que evoluía a 15 quilômetros por hora através das ruas centrais da cidade de Dallas.

Sentados em um Lincoln, os casais Kennedy e Connally conversavam e acenavam para a enorme e entusiástica multidão que se concentrava ao longo do percurso. No momento em que o veículo passava pelo prédio do Almoxarifado de Livros Escolares do Texas, exatamente às 12h30, ouviram-se três tiros, supostamente desferidos do sexto andar, por um tal de Lee Harvey Oswald, ferindo mortalmente o presidente Kennedy e atingindo seriamente o governador Connally. O 35º presidente dos Estados Unidos foi declarado morto 30 minutos mais tarde no Hospital Parkland de Dallas. Ele tinha 46 anos.

O vice-presidente Lyndon Johnson, que participava três automóveis atrás de Kennedy da carreata, prestou juramento como o presidente dos Estados Unidos às 2h39 de 23 de novembro, a bordo do avião presidencial estacionado na pista do aeroporto Dallas Love Field. O juramento foi assistido por cerca de 30 pessoas, inclusive Jacqueline Kennedy, que ainda trajava o vestido manchado com o sangue de seu marido. Sete minutos depois, o jato presidencial levantava voou para Washington.

No dia seguinte o presidente Johnson emitiu sua primeira proclamação decretando que o dia 25 de novembro seria um dia de luto nacional em homenagem a Kennedy. Naquela segunda-feira, centenas de milhares de pessoas alinhavam-se nas ruas de Washington para assistir à passagem da carreta puxada a cavalo, levando o corpo do presidente assassinado da rotunda do Capitólio até a catedral católica de St. Matthew para uma missa de réquiem. A solene procissão seguiu depois ao cemitério nacional de Arlington, onde líderes de 99 nações aguardavam a chegada do féretro para os funerais, com as honras militares.

Extrema-direita

O principal suspeito, Lee Harvey Oswald, nascido em Nova Orleans em 1939, alistou-se na Marinha em 1956. Deu baixa em 1959 e nove dias depois partiu para a União Soviética, onde tentou, sem sucesso, tornar-se um cidadão soviético. Trabalhou em Minsk, casando-se com uma russa. Em 1962 foi autorizado a retornar aos Estados Unidos com sua mulher e uma filha.

No começo de 1963, comprou um revólver calibre 38 e um fuzil com mira telescópica pelo correio. Em 10 de abril, em Dallas, supostamente atirou errando o alvo num ex-general do exército, Edwin Walker, uma figura conhecida por suas posições de extrema-direita. Mais tarde, naquele mesmo mês, Oswald viajou para Nova Orleans onde localizou uma pequena sede do comitê Fair Play for Cuba, uma organização pró-Fidel Castro.

Em setembro de 1963, foi para a cidade do México, onde, segundo investigadores, tentou conseguir um visto para viajar a Cuba ou regressar à União Soviética. Em outubro, retornou a Dallas, obtendo um emprego no Almoxarifado de Livros Escolares do Texas.

Menos de uma hora depois de Kennedy ter sido baleado, Oswald matou um policial que o parou para interrogar numa rua perto de sua residência. Trinta minutos mais tarde, Oswald foi preso num cinema como suspeito. Foi formalmente denunciado em 23 de novembro pelas mortes do presidente Kennedy e do oficial J.D. Tippit.

Em 24 de novembro, Oswald foi trazido ao sótão do quartel-general da polícia de Dallas a caminho de uma prisão de maior segurança. Centenas de policiais e jornalistas queriam testemunhar sua chegada ao edifício, com transmissão ao vivo por todas as cadeias de televisão.

Assim que Oswald entrou no recinto, Jack Ruby emergiu da multidão e o feriu mortalmente com um fanico tiro à queima-roupa de um revólver calíbre 38 que mantinha escondido. Ruby, que foi imediatamente detido, berrava que sua ação se devia à raiva despertada pelo assassinato de Kennedy. Alguns o consideraram herói, no entanto foi acusado de homicídio em primeiro grau.

Morte com premeditada intenção

Jack Ruby, originalmente Jacob Rubenstein, era dono de danceterias e casas de strip-tease em Dallas, mantendo discretas conexões com o crime organizado. Ele aparece como destaque nas versões sobre o assassinato do presidente e muitos acreditam que eliminou Oswald para evitar que revelasse detalhes de uma conspiração.

Em seu julgamento, Ruby negou esta acusação e declarou-se inocente com base em que sua dor pela morte de Kennedy provocou nele uma “epilepsia psicomotora”, atirando em Oswald inconscientemente. O juiz Fari considerou Ruby culpado de “morte com premeditada intenção” e o sentenciou à pena capital.

Em outubro de 1966, a Corte de Apelação do Texas reverteu a decisão com fundamento em admissões impróprias de testemunhas e pelo fato de Ruby não ter tido naquela ocasião um julgamento justo  em Dallas. Em janeiro de 1967, enquanto aguardava novo julgamento, Ruby morreu de câncer no pulmão num hospital de Dallas.

O relatório oficial da Comissão Warren, especialmente constituída pelo Congresso norte-americano, concluiu em 1964 que nem Oswald nem Ruby faziam parte de uma conspiração doméstica ou internacional para assassinar Kennedy, e que ambos agiram solitariamente.

A despeito das aparentes firmes conclusões, o relatório não conseguiu silenciar teorias de conspiração que cercaram o episódio. Em 1978 a House Select Committee on Assassinations concluiu, em relatório preliminar que Kennedy “foi provavelmente assassinado como resultado de uma conspiração” que poderia envolver atiradores profissionais e o crime organizado, mas sem apresentar provas concludentes. As conclusões desse comitê como as da Comissão Warren continuam até hoje a ser amplamente contestadas.

 

VENEZUELA : Chávez propõe criar uma “Quinta Internacional Socialista” – por lamia oualalou / rio de janeiro

O presidente venezuelano Hugo Chávez declarou  ontem (20) que “chegou a hora de criar uma Quinta Internacional, para aglutinar o movimento progressista planetário, e elaborar uma resposta à crise mundial”.

“Eu acho que a Quinta Internacional é uma necessidade, atrevo-me a convocá-la (…), acho que já está decidido”, afirmou Chávez frente a 150 delegados dos 52 partidos de esquerda reunidos em Caracas ao convite do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV).

“Estou oferecendo algo novo”, porque a “terceira via fracassou”, acrescentou o chefe de Estado, precisando que “esse encontro socialista tem que ser da esquerda verdadeira, disposta a enfrentar o imperialismo e o capitalismo”. “Nós viajamos no mundo intero e podemos dizer que a criação de uma Quinta Internacional é um clamor popular”, disse.

Chávez propôs também que os partidos de esquerda presentes no encontro constituam a base de um comitê preparatório para convocar formalmente a nova internacional. “A constituição deste comitê pode ser umas das conclusões deste primeiro encontro de partidos de esquerda” concluiu o presidente.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores criticou a iniciativa. Segundo o secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar, “se o texto ficar desse jeito, o PT não vai assiná-lo”.

o coronel hugo chávez.o coronel hugo chávez.

ilustração do site.

PT discorda da posição VENEZUELANA – por lamia oualalou / rio de janeiro


As duas primeiras versões do “Compromisso de Caracas”, cuja adoção deve encerrar o 1º. Encontro Internacional de Partidos de Esquerda, enfrentam críticas do Partido dos Trabalhadores, expressadas pelo seu secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar.

Ele já adiantou  que “se o texto ficar desse jeito, o PT não vai assiná-lo”, sublinhando, porém, a necessidade de esperar a publicação do texto final para se pronunciar oficialmente.

Um dos pontos polêmicos a criação de “uma secretaria política de coordenação que garanta o funcionamento de uma rede de contatos entre os partidos de esquerda, as organizações populares e os governos progressistas”. Para Valter Pomar, a idéia de criar uma secretaria política ou uma Quinta Internacional não é uma boa solução para coordenar a ação dos partidos de esquerda.

“Consideramos que a intenção é nobre, mas não estamos de acordo”, declarou ao Opera Mundi. Ele considera que “a experiência das Internacionais anteriores, a experiência das organizações partidárias atualmente existentes e as atuais condições do movimento socialista, indicam que construir uma Internacional não é a melhor maneira de coordenar os esforços da esquerda mundial”.

“Nós precisamos de unidade de ação e coordenação nas ações práticas. Não precisamos criar novas instituições. As organizações que existem são plenamente capazes de dar conta das tarefas”, afirma o secretário de Relações Internacionais do PT. Ele lembra da existência do Foro de São Paulo, que reune mais de 60 partidos de esquerda da América Latina.

Contra-ofensiva da direita

Valter Pomar também lamentou o tom bélico das primeiras versões do “Compromisso de Caracas”, que giram, em grande parte, em torno da instalação das bases americanas na Colômbia. Para ele, a esquerda cai numa armadilha quando superestima o caráter militar do confronto com os governos e partidos conservadores.

“Existe uma contra-ofensiva da direita latino-americana e dos Estados Unidos. Esta contra-ofensiva é política, não militar”, assegura Pomar. Sublinha que até os elementos militares, como as bases na Colômbia ou a reativação da Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos na América do Sul e Caribe, constituem elementos da contra-ofensiva política.

“Superestimar este aspecto, dar-lhe um caráter central, constitui um erro político”, acrescenta Pomar dizendo que tinha “encaminhado ao PSUV a opinião do PT, pedindo para que alterassem o texto”.

Apesar das discordâncias, o secretário de Relações Internacionais insiste no fato que o PT respeita as decisões do PSUV. “Se eles desejam impulsionar uma organização, é direito deles. O que nos interessa é que continuem participando do Foro de São Paulo”, declara.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini(d), e o secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, na reunião do Diretório Nacional do partido, na sede em Brasília (DF).

ilustração do site.

MAURICE POLITI lança seu livro ” RESISTÊNCIA ATRÁS DAS GRADES” em CURITIBA dias 26 e 27/11

O MELHOR CRONISTA por hamilton alves / florianópolis

Há pouco, um crítico literário, que mantém uma coluna diária num de nossos jornais, falando de um livro de crônicas, disse considerar o autor o melhor cronista do país.

Cada qual, obviamente, tem o direito de dizer o que quer. Ou o que pensa sobre isso e aquilo.

Mas direitos à parte, há um certo exagero em tal afirmação, até porque não se sabe exatamente quantos cronistas andam por aí, desconhecidos, que não foram devidamente catalogados ou qualificados pelo dito crítico.

Então, a partir daí fica muito vago dizer-se que fulano é o melhor seja no que for.

O autor do livro, ao ser assim distinguido, certamente se babou de vaidade, auto-considerando-se, certamente, o melhor ou que o crítico teria razões de sobra de assim julgá-lo.

A vaidade muitas vezes cega.

Não queria entrar no mérito desse assunto tão desprovido de interesse.

Isso é de uma banalidade de doer nos calos.

Eu, de mim, não me acho melhor em nada. Não acho também que alguém, seja no que for, possa ser tido o melhor no que faz.

Trata-se de uma questão quase sempre imponderável, que não permite um juízo de rigor ou justo sobre as possibilidades de uns e outros.

Por isso, o melhor é não arriscar palpite, que sempre pode levar o endereço errado. Ou esquecer que há valores que estão sempre um pouco acima daquele que somos capazes de perceber ou julgar como sendo o maior.

Já vou longe nessa catilinária inútil.

Preferível não atacar esse assunto tão mofino.

Preferível seria não ter lido a crítica do colunista. Passar por alto por ela.

No meu caso, se fosse me auto-julgar, gostaria de ser considerado o melhor cronista da minha rua. Todos me apontariam por onde diariamente passo:

– Olha, lá vai o melhor cronista de nossa rua.

Ser o melhor cronista de minha rua é já, segundo penso, um enorme galardão ou uma imensa responsabilidade, que carrego sobre as costas, de que o vulgo bem poderia me poupar.

Mas, enfim, que assim seja.

ENTRE A MOBILIDADE E A IMOBILIDADE, ANDAMOS OU DANAMOS? por alceu sperança / cascavel.pr

Capinzal. Simpática cidade do interior catarinense onde me nasceram alguns primos. Desde que acompanho, a cidade tinha uma tarifa de lotação de 65 centavos. Foi reajustada para 75, 80 centavos e agora está em um real. O volume de passageiros aumentou significativamente desde que a Prefeitura assumiu o transporte coletivo urbano em lugar das empresas ávidas por grana, e mais gente usando e pagando viabiliza ainda mais o sistema.

É possível, portanto, baratear o lotação sem ter que fazer tarifaços e caça desenfreada às carteirinhas dos direitos conquistados. Tarifaços resolvem o problema de caixa do sistema no momento, mas o volume de usuários tende a cair com a transferência de mais pessoas para o transporte individual. Assim, aumentar tarifa e cortar direitos não valem como solução duradoura. Ao contrário, apressam a aniquilação do sistema.

O transporte individual é, com os assaltantes, a carga tributária e político safado, o grande inimigo do cidadão. Mais de 500 carros por dia são incorporados às ruas de São Paulo, que terão quase 10 milhões de carros em 2024, ao ritmo atual.

Nem ruralista egoísta

Nos EUA, calcula-se que os engarrafamentos fazem o país perder 10 bilhões de dólares por ano, sem contar os prejuízos econômicos da poluição atmosférica dos automóveis, que atinge em cheio a agricultura e contribui para a morte de lagos, rios e florestas. Quer dizer, o automóvel arrebenta o agronegócio e ameaça o planeta. Nem ruralista egoísta aguenta isso.

Chinês nem a pau gasta 200 mangos por mês em mobilidade, para ir trabalhar ou estudar. E se os chineses resolvessem asfaltar a mesma quantidade de solo por habitante que os EUA, seriam cobertos de pedra e piche 64 milhões de hectares, mais de 40% da superfície agrícola chinesa. Nosso camaradinha chinês teria que comer telefone celular e chips de computador. Ou importar comida.

Vivemos a civilização do petróleo, ou seja, dos engarrafamentos de trânsito, do efeito estufa, da chuva ácida e dos atropelamentos de gente que quer fazer uma coisa bem simples: atravessar a rua.

Escrevia Cesar Bráulio, no Diário da Tarde, de Curitiba, em 6 de janeiro de 1913:

– Aí vêm os (bondes) elétricos, para terminações de martírio desses infelizes irracionais (mulas de carroças) e com esse próximo acontecimento desaparecerá, também, o resto de indolência do nosso povo, que atravessa vagarosamente as ruas, faz ponto no meio das mesmas, atravanca as calçadas e as esquinas; ficará sendo um povo ativo, às direitas, fugindo dos bondes velozes, apertando o passo para apanhá-lo nos pontos de parada, não obstruindo mais os passeios, etc, etc, será um verdadeiro circulez parisiense.

Pedágio urbano

Esse aprazível cenário de ruas curitibanas sem carroças e burros e com veículos elétricos degringolou para a realidade atual de que os acidentes urbanos ostentam números similares aos de uma guerra militar sangrenta. Causam perdas ao redor de 30 milhões de dólares por semana. Mas dá pra calcular o valor das vidas perdidas e pôr etiqueta de preço na dor de famílias desestruturadas?

Pesquisa na Alemanha mostrou que uma bicicleta comum exige de seu proprietário cerca de 22 calorias por quilômetro rodado. Caminhada de 1 km consome 62 calorias. Trem gasta 550 calorias por passageiro/km. Ônibus, 570. E um automóvel com um só ocupante gasta 1.150 calorias/km.

Torrar energia à toa não é crime? Isso fez a pátria de Marx subsidiar o transporte coletivo para ser melhor e mais barato. E também por aqui, como em Londres, logo virá o pedágio urbano, aproveitando a estrutura das zonas azuis, até alguém finalmente se tocar que transporte barato é inclusão social: pobre prefere ir a pé antes de entrar em lotação e pagar mais de oito reais ao dia. Esses R$ 8 fazem falta para as contas do mês.

Nossos vereadores se sacrificam indo à Europa em busca de nobres propostas para fazer suas cidades avançar. Que tal uma visitinha a Capinzal? Lá verão como é que os catarinas conseguem ter um lotação de 1 real – com passe livre a idoso e deficiente e meio-passe, sem frescuras e exigências bestas, aos estudantes.

Meio-passe, aliás, que deveria ser na verdade o passe inteiramente livre, viu, DCE? O transporte público é caro, aqui, em Londres ou Nova Iorque, mas o custo não deve ser repassado aos mais pobres. Ou ele barateia e melhora, para ser alternativa saudável ao caos urbomobilístico, ou nos danaremos todos.

SÉRGIO DA COSTA RAMOS convida para o lançamento de seu livro / florianópolis

O jornalista catarinense Sérgio da Costa Ramos leva a público, dia 24, o livro Piloto de Bernunça. Com selo da Bernúncia Editora, a obra terá lançamento com coquetel e presença do autor, às 18h30, na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis.

Compõem o volume 62 crônicas, algumas inéditas e outras publicadas no jornal Diário Catarinense, onde o escritor tem coluna assinada. Na capa, Piloto de Bernunça traz pintura de Vera Sabino, e no miolo há ilustrações de Dante Mendonça – imagens que serão expostas na noite do coquetel. O pianista Arthur Moreira Lima assina a orelha do livro, prefaciado por Deonísio Silva e com posfácio de Raul Caldas Filho.

Sérgio da Costa Ramos

Filho do também jornalista Rubens de Arruda Ramos, é membro da Academia Catarinense de Letras e Artes. Publicou o primeiro livro em 1986, Os civis pecisam voltar aos quartéis, pela editora da UFSC. Incluindo Piloto de Bernunça, Sérgio da Costa Ramos é autor de dez volumes.

Rumorejando (O jogador do meu Paraná inspirou a França a fazer gol com a mão para se classificar, constatando). – por juca (josé zockner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O Ratinho, há tempos, declarou – e sua frase teve ampla repercussão entre jornalistas, críticos, telespectadores, etc. – que se houvesse intenção de educar o povo brasileiro, utilizando essa notável mídia que poderia ser a televisão, os programas da Fundação Roberto Marinho, os tele-cursos, seriam levados ao ar em horário nobre e não praticamente na madrugada. E tudo ficou na mesma.

Constatação II (Para recitar pra ela).

Que estranho !

Ontem a conheci

E parece que a vi

Desde antanho*.

*Antanho = Antigamente, outrora.

Constatação III

Quando o septuagenário leu o texto do escritor uruguaio Mario Benedetti, intitulado Síndrome, se sentiu perfeitamente identificado com o autor:

“Todavia tenho quase todos os meus dentes

quase todos meus cabelos e pouquíssimas cãs

posso fazer e desfazer o amor

subir uma escada de dois em dois

e correr quarenta metros atrás do ônibus

ou seja que não deveria me sentir velho

mas o grave problema é que antes

eu não me fixava nestes detalhes”.

Constatação IV

A doce ilusão sempre acaba redundando amarga…

Constatação V

A loira burra que faz operação plástica, em certas regiões do corpo, quase sempre as mesmas, muda apenas o invólucro…

Constatação VI (De conselho isonômico).

Se você tem um filho de 20 anos que não quer estudar e, muito menos, trabalhar, não corte a mesada dele. Afinal, tá cheio de político e administrador que não faz nada e nem por isso ele tem os seus proventos cortados.

Constatação VII (Via pseudo-haicai).

Quem se julga o tal,

Não dá outra:

Boçal.

Constatação VIII

O mais grave da ignorância é não se dar conta dela.

Constatação IX (Teoria da relatividade para principiantes).

Se a sabedoria pode conduzir à loucura, é muito melhor morrer louco do que burro.

Constatação X

Pobre é caloteiro; rico é inadimplente.

Constatação XI

Perguntou o médico psiquiatra ao seu paciente: -“E então ? Como é que vai indo ?”

Respondeu o paciente: -“Mais ou menos. Tenho administrado razoavelmente minhas crises conjugais, depressivas, financeiras e existenciais”.

Constatação XII

A humanidade é ineducável.

Constatação XIII (Ah, esse nosso vernáculo, via pseudo-haicai).

Na Alfama,

Havia uma azáfama

Em busca de fama.

Constatação XIV

Ronca a mulher,

Ronca o cachorro.

O que mais se quer ?

Que, pelo menos, em coro.

Constatação XV

Rico tem necessidades imperiosas; pobre, é afoito.

Constatação XVI (Via pseudo-haicai).

Quando ouviram meu canto,

Os críticos, com a ousadia,

Fizeram cara de espanto.

Constatação XVII (Ah, esse nosso vernáculo).

O abúlico, metido a áulico, não sabia jogar bolinha de búrico. (No Rio de Janeiro, prezado leitor, se diz búrica).

Constatação XVIII (Via pseudo-haicai).

Truco, sem lúpulo,

É falta total

De escrúpulo.

Constatação XIX

Em certos países, quem consegue trabalho, consegue; quem não consegue, não consegue e fica por isso mesmo. Elementar, meu caro Watson…

Constatação XX (Via pseudo-haicai).

Alma, já não havia.

Mostrou, até,

Sua radiografia.

Constatação XXI

A grande incidência

De assaltos na rua

É uma verdade nua e crua,

Uma eterna reincidência.

Constatação XXII (Via pseudo-haicai).

Sua conversa opaca

Enchia a paciência

Paca.

Constatação XXIII (De alguma derrota de algum dos nossos times, algures, via pseudo-haicai).

Ficamos todos aturdidos

Com os três a zero.

Até hoje, ardidos…

Constatação XXIV (Ah, esse nosso vernáculo).

No decurso das férias, ela fez um curso para não mudar o curso das coisas. Acabou mudando o curso da minha história. Vou entrar com um recurso, sem decurso de prazo e sem muito discurso. Depois, participar de um concurso. Espero não ficar no percurso, pois creio que a banca não fará papel de amigo urso. Afinal, não se pode perder o “purso” (Perdão, leitores).

Constatação XXV (Via pseudo-haicai).

Até sem nitidez,

Deu para perceber:

Pura frigidez.

Constatação XXVI

E como dizia, via pseudo-haicai, o adepto do ócio total:

“Desocupação

Nunca gera

Preocupação”.

Constatação XXVII (gauchesca).

Me creia:

O doidivanas

Volta e meia

Se embriagava

Pois tomava

Dúzia de carraspanas

E ficava

De cara cheia.

Que “peleia”!

Constatação XXVIII

E já que falamos no assunto, em outra constatação, com a onda de violência, o perigo não está somente nas ruas; também, nas calçadas…

Constatação XXIX (Via pseudo-haicai).

Me abalo,

No trânsito,

Com tanto gargalo…

Constatação XXX

Rebola,

A Jane do Tarzan,

Toda gabola.

Até parece

A Chita pela manhã.

E quando anoitece..

TEMPO BOM por sérgio da costa ramos /florianópolis

Costuma haver uma certa atmosfera de paz, as pessoas recuperam a cordialidade perdida no escaninho de algum burocrata. E há a solenidade ritual da montagem dos presépios. Feitos em casa, com areia fina, papel de embrulho pintado, barba-de-velho, conchas e espelhinhos representando lagos serenos, cercados pela rala vegetação verde de papel crepom.

O espírito do Natal costuma se refletir na cintura dos “fiéis” desses novos tempos. Se, durante a Semana Santa, o jejum é uma forma de penitência, uma espécie de luto pela morte do Redentor, no Natal o seu renascimento é comemorado exatamente por uma celebração antípoda – a comilança.

Imaginem se todo recém-nascido abrisse na família um tal apetite que demandasse a montagem de ceias, opíparos jantares e um festival de proteínas capazes de alimentar a Etiópia por um ano. Ia faltar proteína na terra e peixe no mar, o Menino teria que antecipar o milagre da multiplicação de pães e peixes muito antes de assumir a sua chamada “vida pública”.

Assim será o Natal. A pretexto de celebrar o Menino, daremos de mamar à Menina – isto é, a nossa barriga.

Na base do “Amém, Jesus”, vai todo mundo se forrando, o “renascimento” servindo de pretexto para justificar o pecado da gula – que é o vício de comer e beber com sofreguidão.

Estaremos todos absolvidos. Atire a primeira pedra quem não comeu e bebeu à tripa forra na Noite do Menino Jesus. E que não repetiu a ceia, no dia seguinte. A pretexto de elevar o espírito, ocorre a satisfação da matéria. O próprio Menino já deve ter se acostumado com o apetite dos seus adoradores. E todos os anos perdoa a volúpia dos glutões.

Ao longo da história, e, principalmente, da literatura, a boa mesa sempre esteve presente à boca dos homens de boa vontade e excelente estômago.

A melhor descrição em O Crime do Padre Amaro, de mestre Eça de Queiroz, é a dos talheres, pratos e pratarias na mesa do Abade de Cortegaça, um pio sacerdote, que deveria cultivar as virtudes da abstinência.

Ali se destaca o fornido jantar oferecido pelo abade aos colegas do clero: o caldo de galinha, a famosa Cabidela, uma invenção reivindicada pelo próprio sacerdote. E mais os “bacorinhos” (leitões) ao forno, o porquinho à moda da Bairrada, os vários tipos de bacalhau – o da batata aos murros e à maneira Gomes Sá.

E os vinhos, então? O escritor desfila diante da sede dos leitores os Paços do Cardido, os Covas da Ursa, os Quinta da Bacalhôa, os Duque de Viseu, os “lvarinhos e Ferreirinhas – todos brancos, secos honrados ou tintos de grande linhagem.

Em torno da manjedoura (que se deriva de “manger”), se reúnem os abades e todos nós – os fiéis – para imaginar os pratos que ainda sacrificaremos durante “as festas”.

Até lá comeremos tudo – até mesmo a “Crise”.

Ú L T I M O C A P Í T U L O por jorge lescano / são paulo

Ana cruza as mãos sob o queixo. Os cotovelos fincados na estante das partituras servem de tripé ao olhar, distante, e ao mesmo tempo, fixo no vidro da janela. Por cima do bosquezinho de pinheiros que isola a  casa, nuvens arroxeadas semelham vastas cenografias em movimento.

As luzes do grande lustre, no centro da biblioteca, são acesas.

No quadrado de vidro reflete-se a cena vivida às costas de Ana. Por um momento ela tem a sensação de não estar ali, ou de ver e ouvir as vozes como se viessem de um romance. Não estivesse o vidro secionado em quatro triângulos por finas ripas de madeira, o brilho lembraria um aparelho de televisão. Sorri ao se imaginar personagem invisível. Para captar toda a cena inclina a cabeça sobre o ombro esquerdo.

As figuras se deslocam com soltura. Cada gesto afirma a familiaridade com o espaço e as outras pessoas. A luz é generosa para a observadora. Sem dificuldades percebe traços de fadiga e irritação nos rostos que não devem expressar emoções. Atendem a um compromisso e pretendem cumpri-lo com ar de negligência ou, quando menos, não demonstrando excessivo interesse no desfecho.

Ana sabe que cada um deles guarda motivos para desconfiar, invejar ou odiar os outros. Mesmo os casais têm receios do parceiro. Cada qual esconde uma culpa em relação ao seu par, ou desejos para cuja realização o outro é um empecilho.

Abelardo e sua irmã Beatriz mostram hostilidade recíproca sem se preocupar com as convenções. Camila, a companheira de Abelardo, finge observar atentamente os títulos dos livros fechados num móvel envidraçado. A atenção, no entanto, permanece presa aos acontecimentos. O cristal revela a cena às suas costas, incluindo a contemplação estática de Ana.

Num ângulo da sala está Drummond, o anacoreta, sóbrio no terno escuro. Talvez por causa da estatura elevada e do rosto de intelectual de início do século, gosta de não ser notado. Mantêm-se de pé, a cabeça calva inclinada, como se observasse as pontas dos seus sapatos. Camila sabe que ele preferiria não estar ali. Na outra extremidade, Fernández, o macedônio. Esta mistura de filósofo socrático e violeiro autodidata, duplica a imagem de Drummond. Indo de um para o outro, vagarosamente e como para consultá-los ou confirmar uma informação, Erikssen, o iconoclasta. Pressentem-se nele paisagens frias e desoladas. Seu aspecto´é de jovem envelhecido prematuramente ou de velho que se recusa a admitir a idade. Difícil acreditar que alguma vez foi criança. Ana não sabe o quê poderá vinculá-los aos demais, sequer tem clara a relação entre si. A presença dos três parece-lhe arbitrária, como se obedecesse ao capricho ou a uma secreta noção de simetria de algum encenador onisciente. Confia em que, após a leitura, ficará conhecendo as razões da convocação deles.

Genoveva deve apropriar-se de um segredo de Heitor. Ibraim espera ansioso que ela o prejudique na ascensão vertiginosa dentro da empresa para pular ao posto que considera seu de direito. Genoveva   deseja-lhe   sucesso.  Desse  modo  a  harmonia  do  casamento  estará  a  salvo,  pois  não

duvida  do reconhecimento do seu marido, para quem é indiferente se ela acrescenta uma nova traição às muitas que se obrigou a cometer em troca de um lugar na sociedade. Heitor não ignora o perigo e já arquitetou seu plano de defesa, que implica vários dos presentes.

Jéssica tem uma dívida e não poderá saldá-la no prazo estipulado. Não é improvável esta seja a última vez que use o colar de pérolas;para salvá-lo, tem a alternativa de ceder aos insistentes requerimentos de Beatriz, a qual não ignora a chantagem de Abelardo. Entre Jéssica e Lena encontra-se Kelly, a bela taverneira vinda do norte. Sua cutis morena  e o cabelo negro contrastam com a palidez doentio das outras duas. Kelly sorri a alguém invisível para Camila. Talvez o sorriso apenas seja de satisfação por estar entre pessoas que sua origem social, até bem pouco tempo, lhe fazia ver como personagens de ficção. Lena leva o cigarro aos lábios e a luz rebrilha, rubra, na pedra do anel.

Múcio, Nemo, Otacílio; é quase impossível imaginar antagonismo entre eles, são como partes de um mesmo ser. Nemo, retratista da sociedade, é notório conspirador. Acredita-se que mais de uma associação, incluindo casamentos, teve fim prematura graças à sua arte oratória, capaz de destruir sólidas reputações. Múcio é seu discípulo ou valete, segundo alguns, sua eminência parda, na versão de outros. Em todo caso, espécie de sombra do pintor. Otacílio vive à procura de informações que o localizem nesse universo de interesses e forças opostas, no qual ingressou em virtude do seu nascimento. Alguma vez cogitou tornar-se artista. Talvez não seja de todo gratuito o comentário de que seu senso estético se realiza pagando as dívidas de Nemo. O futuro deste e do seu duplo poderá estar comprometido se Otacílio não agir com tato. Isto explicaria o comparecimento do trio à reunião e as mesuras de Nemo, que não pára de circular pela sala com sério risco de colidir com Erikssen.

O velho Administrador da família deposita à sua frente, na mesa central, um cofrezinho de metal dourado. Ana vê como coloca, aos lados das mãos, um envelope de papel marrom e um pacote retangular, não maior que um livro em brochura. Um romance, pensa Camila. Um jogo de xadrez, acredita Ana.

Todos conhecemos a desmedida ambição destas pessoas, e Ana não é exceção – escreveu há tempos o Autor convidado. – Porém não somos unânimes quanto ao valor que atribuem à hierarquia social; são ambíguas como as manchas de nanquim de uma pintura chinesa. Isto faz com que as tratemos com deferência ou respeito. Podem ser perigosas ou aliadas inestimáveis.

Ana e o Autor convidado se aproximam do Administrador, que está ajustando os óculos. Os quatro espelhos triangulares do teto, dispostos de maneira a formar a cúpula interna de uma pirâmide, na qual o lustre cria iridescências de luxo e prazer, duplicam a localização de todos os presentes em torno da mesa.

Ao empunhar o estilete e o envelope, os dedos do velho Administrador tremem. Ana lhe adivinha a emoção. Também a sorte dele depende da leitura que se dispõe a iniciar, deduz Camila.

O grande lustre se apaga. Ouve-se um tiro e o som de um corpo que cai.

No laudo policial, a vítima está corretamente vestida e segura nas mãos um livro aberto no último capítulo.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER por joão henrique vieira / teresina

abriu a porta. entrou. pôs sobre a mesa o livro que trazia. ficou pensando. gozar de olho aberto ou fechado?

- oi meu amor

- olá minha querida

depois de uma conversa sobre como foi o dia. começa a conversa que vai desaguar no amor. na hora do gozo. a duvida. gozar de olho aberto ou fechado? no meio do sexo oral, sentindo todo o delicioso gosto do cheiro, se perguntava: olho aberto ou fechado. deslizava os dedos na barriga, sentia os arrepios. olho aberto? olho fechado? roçou o rosto no púbis, na barriga, entre os seios, mordeu o queixo, lambeu os lábios. olhou nos olhos de seu amor. fechar os olhos, abrir os olhos. um riso cínico no instante em que seu pau deslizava nas curvas a procura da buceta.

o deslize a dentro.

beijava. gemia. respirava. roçava. esfregava-se. ora de olhos abertos, ora de olhos fechados.

vinham os sussurros que antecedem o gozo. o frenesi. o não saber e ser guiado pelo instinto. aquilo que guia o homem quando ele pára de tentar ser racional.

olhos abertos. olhos fechados.

no instante do gozo fechou os olhos de desespero, sentido desmanchar-se dentro da fêmea. do amor. do sexo. do gozo.

dali a instantes estaria deitado olhando o teto. suado. deslizando os dedos nos mamilos, brincando de círculos.

- meu bem, o Milan Kundera está me enlouquecendo

- meu amor, você é doido, mas eu te amo.

depois que a amada caiu no sono. ele levantou e foi ao banheiro. lavou o rosto e se olhou no espelho. disse à própria imagem:

- tu vai ver Kundera, amanhã eu gozo de olho aberto.

voltou a cama. viu as curvas de um belo corpo. deitou-se junto. quase dentro. dormiu grilado. gozar de olho aberto ou fechado?

sobre a mesa repousava A insustentável leveza do ser

OTTO NUL e sua poesia / palma sola.sc

A LADEIRA

Quando desço a ladeira

Quando a subo

São dois momentos

Que parecem iguais;

É que tanto na descida

Quanto na subida

Há um componente

De significativa beleza;

Há umas árvores

E pássaros na ladeira;

Dir-se-á que isso

Há em toda parte;

Na ladeira, porém,

É diferente – árvores

E pássaros têm

O feitiço da ladeira.


-.-


PREMONIÇÃO

Apanha no ar

Ainda fresca

A idéia luminosa

A sombra indefinida

O resto que sobrou

Ao dia que se foi

A alegria que findou

A tristeza que ficou

A palavra consoladora

Com que se empolgou

A paixão que desvaneceu

Na tarde que esmoreceu

Uma leve premonição

Que tolda o coração

-.-


ERA UMA RUA

Era uma rua

Não tinha nada

Minha amada

Nela morava

Era uma rua

Que dava medo

Que assombrava

Como um degredo

Era uma rua

De pouca luz

Sem quase gente

Com uma cruz

Era uma rua

Sem muita paisagem

Tão sossegada

Parecendo miragem

Era uma rua

Onde te conheci

Em certo tempo

Ali nasci

Era uma rua

De muita flor

Nela se vivia

Com paz e amor

MAESTRO RONALD MAGALHÃES se apresenta na BIBLIOTECA PÚBLICA do PARANÁ / curitiba

A TRISTEZA PERMITIDA por martha medeiros / porto alegre

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down…” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

ESSES HOMENS, ESSAS MULHERES… / editoria

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, nos educamos mutuamente.”
Paulo Freire

“Antes de desejarmos fortemente uma coisa, devemos examinar primeiro qual a felicidade daquele que a possui.”
La Rochefoucald

“Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.”
Edgar Poe

“Não há nada mais terrível do que uma ignorância ativa.”
Goethe

“Nada perturba tanto a vida humana como a ignorância do bem e do mal.”
Cícero

“Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.”
Epicuro

“É mais importante fazer as coisas que devem ser feitas do que fazer as coisas como devem ser feitas.”
P. Drucker

“Devemos seguir adiante, penetrar no desconhecido, no incerto e no inseguro, e utilizar nosso entendimento – o que temos – em fazer planos tanto para a segurança como para a liberdade.”
Karl Popper

“Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.”
Lavoisier

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.”
Cecília Meireles

“A verdade nunca é injusta; pode magoar, mas não deixa ferida.”
Eduardo Girão

“A repetição não transforma uma mentira numa verdade.”
Roosevelt

“Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de ser feito.”
Albert Camus

“Um mau começo leva a um mau final.”
Eurípides

“Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos.”
Bronson

“A paz não pode ser mantida à força; só pode ser conseguida pela compreensão. Isso vale até pra dentro da sua casa!”
Bronson

“Há homens que lutam um dia, e são bons;Há outros que lutam um ano, e são melhores;Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;Porém há os que lutam toda a vida;Estes são os imprescindíveis.”
Bertold Brecht

“Só é realmente corajoso o homem que suporta a desgraça.”
Marcial

“Semeia um pensamento e colherás um desejo; semeia um desejo e colherás a ação; semeia a ação e colherás um hábito; semeia o hábito e colherás o caráter.”
Tihamer Toth

“Você precisa fazer aquilo que pensa que não é capaz de fazer.”
Eleanor Roosevelt

“Uma grama de ação vale mais que uma tonelada de teoria.”
Friedrich Engels – filósofo alemão

“Uma conduta desregrada aguça o engenho e falseia o juízo.”
De Bonald

“Um homem nunca deve envergonhar-se por reconhecer que se enganou, pois isso equivale a dizer que hoje é mais sábio do que era ontem.”
Jonathan Swift

“Um homem com fome não é um homem livre.”
Adlai Stevenson (1900-1965)

“Um hábito não faz o monge, e há quem, vestindo-o, seja tudo menos um frade.”
François Rabelais

“Um fracassado é um homem que cometeu um erro e não é capaz de o transformar em experiência.”
E. Hubrard

WERNER HENNIG – mais uma aventura, agora no mar / rio do sul.sc

O publicitário aposentado Werner Hennig, 58 anos, começou uma aventura inusitada na segunda-feira. Hennig saiu de Balneário Camboriú, no Litoral Norte de Santa Catarina, e pretende chegar a Florianópolis a nado. Caso não consiga percorrer os cem quilômetros, o aposentado diz que não irá se sentir frustrado se parar no meio do caminho.

Sentado na areia da Praia da Ilhota, em Itapema, ele desabafou: — Não imaginei que seria tão difícil. Vou seguir em frente, mas se eu conseguir chegar até Bombinhas já estarei muito satisfeito.

Hennig saiu de Balneário Camboriú levando apenas uma câmera fotográfica, uma filmadora, um aparelho de GPS, telefone celular e alguns mantimentos que transporta em uma prancha presa ao corpo. Após nadar e mergulhar cerca de 13 quilômetros, parou na quarta-feira em Itapema para recuperar as energias. — A maior dificuldade está sendo a mudança de correnteza do mar. Quando nado contra a corrente, o esforço que faço é muito maior — explicou. Por precaução, Hennig nada sempre perto das margens. O aposentado sabe das dificuldades que terá pela frente, principalmente depois que passar a região de Porto Belo, onde deverá encontrar menos praias e mais costões de pedras.

Como mantimentos, Hennig carrega garrafas de água, biscoitos, barras de chocolate e linguiça. — Trouxe para matar a fome e a sede quanto estiver longe das praias. Esta não é a primeira aventura do riosulense. Em 1991, ele percorreu de bicicleta dezenas de países da Europa. Há quatro anos, pedalou durante 58 dias, de Blumenau até a cidade de Ushuaia, na Argentina, a 3 mil quilômetros ao sul de Buenos Aires. Hennig pratica sempre alguma atividade física e admite não ter feito uma preparação específica para o desafio. Quanto a roteiros ou planejamento, ele tem a resposta: — Em aventuras não há muito o que planejar, não há como prever os acontecimentos. Estou com a natureza, é ela quem define meu roteiro e quando devo parar.

dc.

PROFESSOR CORUJA – por barbosa lessa / porto alegre

De família bastante pobre, Antônio Álvares Pereira nasceu em Porto Alegre em 1806. Seus pais conseguiram matriculá-lo na escolinha do Padre Tomé – onde os alunos costumavam ganhar um apelido que os diferenciasse dos não-estudantes – e lá chegou o guri, para a primeira aula, vestindo uma casaquinha marrom muito feia, quase horripilante. Estava pedindo para ser chamado de “Coruja”. E assim ganhou um nome que perdurou não só durante o curso, mas para o resto da vida.

Por trás da casaquinha marrom, porém, batia um coração muito forte e, sob a firme orientação do Padre Tomé, o menino foi desenvolvendo uma inteligência incomum. E, ao despedir-se da escola, já decidira: iria ingressar na carreira de professor.

Por essa época, na Corte do Rio de Janeiro, vinha sendo adotado, como novo sistema de ensino, um revolucionário método de Lancaster – destinado a solucionar o problema da escassez de professores. Se, pelo sistema tradicional, o mestre precisava dar atenção individual a cada aluno – atendendo, vamos supor, a uns dez guris – pela nova fórmula ele se fazia assessorar por alguns de seus melhores alunos, então nomeados “decuriões”, e essa prática de ensino mútuo já permitia que se atendessem, vamos supor, a uns quarenta guris. Que genial solução!

Para tirar a limpo se esse tal de “ensino mútuo” realmente funcionava bem, lá se foi para a Corte o jovem Pereira Coruja. E voltou para Porto Alegre aos 21 anos de idade, em 1827, alardeado seu diploma de professor régio. Abriu sua escola, aqui pioneira no método Lancaster, e foi em frente.

A par do magistério, Pereira Coruja passou a desempenhar atividades complementares que logo o projetaram na sociedade sul-riograndense. Em 1831, redator do jornal “Compilador de Porto Alegre”. Pouco depois, lançava seu primeiro livro didático, de ampla repercussão: “Compêndio de Gramática da Língua Nacional”. Em 1835, eleito deputado à Assembléia Provincial. Não escondia sua simpatia para com a grei dos farroupilhas e, em 1836, por ocasião da reação legalista, teve o castigo de ser um dos deputados deportados para a Corte do Rio de Janeiro.

Privado de realizar seus sonhos no Rio Grande do Sul realizou-os, porém, no Rio de Janeiro, com uma eficácia notável. Começou por fundar e dirigir sua própria escola, o Liceu Minerva. Depois, deixou marcos tais como a Sociedade Imperial Amante da Instrução, a Sociedade Literária do Rio de Janeiro e – congregando a colônia gaúcha – a Sociedade Sul-Riograndense. Não tardou a obter o reconhecimento público, atingindo o grau de Comendador da Ordem da Rosa.

Incansável autor de livros didáticos. Além do já citado “Compêndio de Ortografia da Língua Nacional”, “Aritmética para Meninos”, “Lições de História do Brasil” e “Manual dos Estudantes de Latim”. Mas suas obras de mais ampla adoção nacional foram o “Manuscripto”, as “Taboadas” e o “Livro de Leitura”, podendo-se afirmar que, por mais de meio século, as gerações de jovens brasileiros se ampararam, em boa parte, em tais livros. E, quando algum aluno cometia um erro feio, logo comentavam: “Deu uma facada no Conja”.

Embora vivendo afastado do Rio Grande do Sul, jamais esqueceu sua terra natal e enriqueceu-se com notáveis obras de pesquisa e divulgação. Pelas páginas do “Anuário da Província do Rio Grande do Sul”, de Graciano Azambuja, publicou lindos ensaios tais como “Senadores e Deputados da Província”, “As Ruas de Porto Alegre”, “Alcunhas de Porto Alegre”, etc. E alcançou projeção com sua “Coleção de Vocábulos e Frases Usados na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul”, com 1ª edição em Londres (1856) e mais três por aqui mesmo. Ali apareciam, por primeira vez em letra de fôrma, verbos tais como “acolherar”, “amadrinhar”, “abombar”, “apojar”, “bombear”, e por aí afora.

O Comendador Coruja faleceu no Rio de Janeiro em 4 de agosto de 1889.

LÍDERES DE PAÍSES RICOS DESCARTAM ACORDO DEFINITIVO EM COPENHAGUE – por claudia trevisan / são paulo


Metas obrigatórias de redução de emissões devem ficar só para 2010, em uma próxima conferência.

Líderes políticos da região asiática, dos Estados Unidos e da Europa descartaram ontem a possibilidade de assinar um novo tratado climático internacional em Copenhague, no mês que vem. No linguajar diplomático, fala-se agora em um acordo “politicamente vinculante”, em vez de “legalmente vinculante”, o que ficaria para uma próxima conferência, em 2010.

Na prática, isso significa que as metas obrigatórias de redução de emissões de gases do efeito estufa para a segunda fase do Protocolo de Kyoto seriam definidas só no ano que vem.

“Dado o fator de tempo e a situação de alguns países específicos, deveríamos, nas próximas semanas, focar esforços no que é possível fazer, sem nos deixar distrair por aquilo que não é possível”, disse o primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen. Anfitrião do encontro do próximo mês, Rasmussen fez ontem uma viagem não programada a Cingapura, para conversar com os governantes das 21 nações que compõem a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) – grupo que inclui os Estados Unidos e a China, os dois maiores emissores de gases do efeito estufa.

O possível, segundo Rasmussen, seria um acordo político em Copenhague que estabelecesse diretrizes básicas e um novo prazo para negociação de metas específicas de redução de emissões. O impossível seria fechar essas metas já no mês que vem, antes que o projeto de lei sobre mudança climática dos Estados Unidos possa ser votado no Congresso americano.

“Mesmo que não consigamos definir todos os detalhes de um instrumento legalmente vinculante, eu acredito que um acordo político de caráter obrigatório, com compromissos específicos de mitigação e financiamento, fornecerá bases sólidas para ação imediata nos próximos anos”, disse Rasmussen.

Esse documento político, que poderia ter de cinco a oito páginas, criaria mecanismos para o enfrentamento imediato do problema, “antes mesmo que uma nova estrutura legal seja acordada, assinada, ratificada e efetivada”, completou o primeiro-ministro dinamarquês.

A opinião dos governantes que se reuniram sábado e domingo em Cingapura foi transmitida pelo vice-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Mike Froman. “Os líderes avaliaram que seria irrealista esperar um amplo acordo internacional legalmente vinculante entre agora e o início de Copenhagen (no dia 7)”, disse o norte-americano, segundo as agências internacionais.

Na verdade, as negociações começaram há dois anos, após a conferência de Bali, na Indonésia, que estabeleceu 2009 como prazo legal para renovação das metas do Protocolo de Kyoto. Vários países industrializados, porém, condicionam a definição de suas metas à participação dos Estados Unidos – algo que depende da votação da lei americana no Congresso.

A disposição internacional de aprovar metas ambiciosas e obrigatórias de corte de emissões diminuiu depois da crise econômica de 2008. Os países ricos estão preocupados com a situação econômica e resistem a assumir compromissos que possam prejudicar a retomada do crescimento.

O tema está na agenda do presidente americano Barack Obama, que desembarcou ontem em Pequim para um encontro com o presidente chinês, Hu Jintao. Anteontem, os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da França, Nicolas Sarkozy, criticaram uma suposta estratégia dos colegas americano e chinês de negociar um acordo climático bilateral, em detrimento de um tratado internacional em Copenhague.

Metade do milho brasileiro pode ser transgênico em 2010 – por herton escobar / são paulo


Consultoria Céleres estima que uso de sementes geneticamente modificadas ultrapassará 50% já no próximo plantio de inverno; agricultores relatam bons resultados na safra 2008-09.

 

O milho que vai brotar no Brasil em 2010 terá algo de diferente. Especialmente para as lagartas. A expectativa é que mais da metade das plantas já serão geneticamente modificadas, com um gene embutido em seu DNA que as tornará resistentes ao ataque desses insetos. A safra de verão, que está sendo plantada agora, deverá ser 30% transgênica e a próxima, de inverno, 53%, segundo estimativas da consultoria Céleres.

Na safra anterior – primeira em que o milho transgênico pôde ser plantado legalmente no Brasil – a taxa de adoção foi de 19%. “A velocidade com que essa tecnologia está sendo adotada é surpreendente”, avalia o economista José Maria da Silveira, professor da Universidade Estadual de Campinas e membro do Conselho de Informações sobre Biotecnologia, ONG ligada ao agronegócio.

“Quem plantou uma vez vai plantar de novo”, diz o agricultor João Carlos Werlang, presidente institucional da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho). Ele mesmo conta que plantou 40 hectares com transgênicos na safra passada, “só para experimentar”. Este ano, vai plantar 250 hectares – a fazenda inteira. “O rendimento foi muito melhor do que com o milho convencional”, afirma Werlang. “E o manejo é muito mais simples. Dá uma tranquilidade danada.”

Onze tipos de milho transgênico já foram aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) desde 2007, mas só um tinha sementes disponíveis no mercado para a safra passada: o MON 810, da empresa Monsanto. Ele traz em seu DNA um gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), responsável pela síntese de uma proteína que é tóxica para certos tipos de lagarta que atacam a lavoura – porém inofensiva para o homem e outros animais. Assim, a planta produz seu próprio inseticida orgânico. Quando a larva tenta se alimentar do milho, ela morre, reduzindo a necessidade de pesticidas químicos.

“A semente transgênica é mais cara, mas acaba compensando porque você usa menos inseticida”, diz Werlang, cuja fazenda fica nos arredores de Brasília. A média na região, segundo ele, é de seis a oito aplicações de inseticida por plantio. Com o milho transgênico, ele acha que pode chegar a zero. “No ano passado eu fiz uma aplicação só por desencargo de consciência, mas nem precisava. O transgênico daria conta sozinho.”

Outros dois milhos transgênicos estão disponíveis para esta safra: o Bt 11, da Syngenta, e o Herculex, da DuPont/Dow. Também foi aprovado recentemente o milho Bt11xGA21, da Syngenta, o primeiro que combina dois genes em uma mesma planta: um de resistência a lagartas e outro, de tolerância ao herbicida glifosato. Isso permite que o produto seja aplicado sobre toda a lavoura para o controle de ervas daninhas, sem prejudicar o milho.

Nos Estados Unidos, 85% do milho plantado já é transgênico, com várias combinações de genes. Na Argentina, 60%.

No caso da soja, a previsão da Céleres é de que a porção de transgênicos na produção brasileira aumente de 65% na safra passada para 71%, na safra 2009-10. A soja transgênica é plantada legalmente no País desde 2003 e ilegalmente, desde o fim da década de 90, com sementes inicialmente contrabandeadas da Argentina.

A única tecnologia disponível é a Roundup Ready (RR), da Monsanto, cuja liberação comercial no País foi bloqueada durante cinco anos – entre 1998 e 2003 -, por causa de ações judiciais movidas por organizações ambientalistas e de defesa do consumidor. Outras quatro variedades estão sendo avaliadas pela CTNBio, incluindo uma desenvolvida em parceria pela Embrapa e a Basf.

A soja RR tem o gene de uma bactéria que a torna resistente ao glifosato. No Rio Grande do Sul, onde o problema com ervas daninhas é mais grave, a adesão aos transgênicos é de quase 100%. Já em Mato Grosso, a soja convencional ainda é a mais plantada. A parcela de transgênicos no Estado foi de 42% na safra passada e poderá chegar a 48% neste ano, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

A preferência deve-se a dois fatores, segundo o diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Marcelo Monteiro. Um é a falta de variedades transgênicas bem adaptadas ao clima do Estado, onde a soja convencional é extremamente produtiva. Outro é a estratégia comercial de algumas empresas de produzir soja convencional para suprir nichos de mercado na Europa.

É o caso do Grupo André Maggi, que “reservou” uma rota de escoamento e uma região inteira no oeste do Estado só para a produção de soja convencional. A empresa faz parte da recém-criada Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange). “Não somos contra a tecnologia de forma alguma, desde que se respeite o direito do produtor de plantar o que quiser e o do consumidor, de comprar o que quiser”, diz o engenheiro agrônomo Ivan Paghi, diretor técnico da Abrange.

 

“O TEMPO e o ESPAÇO” e “DE REALEZA e de LOUCO…” por raymundo rolim / morretes.pr

O tempo e o espaço

 

A manhã passava depressa apesar do sol radiante. Veloz como uma corrida de bigas. O jardineiro não conseguiu colher mais que uma dúzia de flores (quando a média beirava às dezenas de dúzias). O padeiro conseguiu vender apenas um quinto do pão costumeiro e o homem que ordenhava as vacas não chegou ao final do segundo balde de leite. O relógio andava na mesma balada, mas, algo não estava bem. Era preciso descobrir o que houvera, pois os telefonemas eram interrompidos assim que chamavam. Um físico acusou uma rachadura no tempo que se dividiu em dois: antes e depois. Os que ficaram com o antes, adquiriram a primeira parte da manhã e por lógica simples, a outra parte com os que optaram pelo depois. Não sem muitas e exaustivas negociações, (explica-se): O fato suspeito teve desdobramentos nas relações interpessoais, pois partilhar as manhãs, não era tarefa de pequena monta. Os que tinham mais urgência do tempo compravam-no dos que dele dispunha, e passou-se a comercializar até mesmo semanas futuras de anos bissextos. Alguém teve uma grande e luminosa idéia e convocou os concidadãos a opinarem. Em conseqüência, fizeram relógios que andavam para trás. Assim o dia começava tarde e terminava com todos no berço e no colo do espaço, à medida que o tempo engatinhava rumo ao sol nascente.

 

De realeza e de louco…

 

Por mais que se tentasse extrair do infeliz uma confissão feliz, ele jurava inocência. E dizia sempre a mesma história e tão repetidas vezes e de tal modo nos mesmos detalhes, que a sua versão passou a ser aceita como a mais completa até então. O júri havia se reunido pela décima sétima vez. Fazia-se necessário e urgentemente por um final àquelas sessões infindas. Entrariam num acordo, desde que o sacana não expusesse desta vez como dantes, as suas lágrimas, que a todos comoviam para finalmente entrarem num choro compulsivo e coletivo. Passaram aos autos do processo que se sabia de cor parágrafo a parágrafo, volume a volume, quando o danado teve uma idéia. Mudou o curso de tudo até então dado por certo e definitivo. Disse que desta vez falaria a verdade! Houve tumulto, tentaram adiar a sessão. Juízes eram acometidos por chiliques e cacoetes pessoais. Não havia quem se conformasse! Ninguém queria outra versão por ser a atual de interesse geral – segundo alguns – e particular segundo outros. Além do que, a todos agradava o final que o confesso autor deitava à própria história de um realismo fantástico, cujo fecho de ouro, apontava para uma série de dúvidas que ainda pairava sobre o caso. Absolveram-no por exclusiva falta de provas conclusivas, por mais que ele insistisse em dizer que era uma espécie de mordomo clássico e único culpado pelos deslizes amorosos dos súditos e que se esforçava sempre pelo reino e por todos que estavam presentes naquela sala! Internaram-no com uma certa urgência. O rei delirava!

O PAGADOR DE IMPOSTOS por sérgio da costa ramos / florianópolis

O ilhéu, assim como todo o povo brasileiro, cedo se acostumou a pagar o quinto, o dízimo, a parte de César, chame-se César de Visconde de Barbacena, Marquês de Pombal, Lula ou Dário.

O IPTU engorda todo mês de janeiro, a uma taxa sempre superior ao IPCA. O preço das passagens de ônibus também seSÉRGIO DA COSTA RAMOS 1 reajustam por um número cabalístico, quase sempre uma pancada de “dois dígitos”. O único interesse que não é consultado é o do “pagador”. Aquele deserdado que um dia, na cabine eleitoral, imaginou estar bem protegido, ao passar “uma procuração” ao presidente, ao governador, ao prefeito.

Que lógica preside a majoração de um imposto, de uma passagem de ônibus em nível muito acima da inflação? A lógica de uma tirania fiscal, como a que inspirou o Marquês de Pombal.

Os impostos chegaram ao Brasil com as caravelas, os selos, as taxas, os emolumentos e as obrigações reinóis – tudo compondo uma imensa carga fiscal, infligida aos súditos de uma monarquia tão cartorária quanto a portuguesa.

Próximo dos 40% do PIB, o volume de impostos sugados do brasileiro já beira os US$ 400 bilhões – algo como R$ 1 trilhão –, “tesouro” este retribuído em “magníficos” serviços, ótima assistência médica e previdenciária, excelente base educacional e impecável segurança, com direito a “apagões” periódicos.

Mas até mesmo a Metrópole hoje se constrangeria em admitir que, entre 1790 e 1795, criou “impostos” especialmente dirigidos à Vila do Desterro, “para ajudar na reconstrução de Lisboa”, arrasada por um terremoto em 1755.

Toda a “baixa” Pombalina, junto ao Tejo, foi reconstruída com as gotas do nosso suor, num momento em que a vila padecia de endêmica pobreza.

É como registra mestre Oswaldo Cabral, em sua saborosa Notícia de Nossa Senhora do Desterro:

“Equivalia a, nada mais, nada menos, do que retirar o couro de quem já perdera a camisa…”

A mesma autoridade que comunicou o “imposto para Lisboa”, o vice-rei, Conde de Resende, não satisfeito com a “féria”, mandou à Câmara da vila uma pesada crítica ao povo desterrense, exatas 3.757 almas:

“Parece-me útil dizer a vosmicês que, sendo de sua obrigação cuidarem do bem comum e da utilidade desse povo, não o perca de vista para o apartar do ócio em que vive, obrigando-o, ao menos, à plantação dos mantimentos de sua subsistência.”

Além de colocar a mão no bolso dos ilhéus, o vice-rei – certamente um “trabalhador” – ainda chamava o povo de “vadio”. E o mandava plantar mais batatas…

Sábio, o desterrense não teve medo de perder o pescoço, como Tiradentes. E boicotou o “quinto” de Lisboa, guardando os seus parcos caraminguás.

A vila enfrentou a escassez praticando a desobediência civil – e festejando como podia. Durante a “grande fome”, Desterro possuía 666 casas, 18 lojas de fazendas e… 44 tavernas.

Se não havia muito o que comer, a turma se esmerava em encher a caveira. Só na Rua Menino Deus – caminho obrigatório para quem fosse rogar a bênção do Senhor dos Passos – havia 11 botecos com alambiques próprios, onde a “caninha” rolava solta.

Como aperitivo, a “raça” se virava com carne de macaco, um petisco para a época de vacas magras, saboreado com os “carás” e os “inhames” fritos.

As pestes não eram incomuns – a febre amarela, o cólera, a sífilis bubônica –, mas a visita mais temida era a das caravelas de sua majestade, trazendo impostos.

Fora essa “peste tributária”, a vida na Vila do Desterro podia ser vagarosa e despreocupada, do tipo “ganha-se pouco, mas é divertido”.

O ATEU D’ARCAIS por hamilton alves / florianópolis

O filósofo ateu Paolo Flores D’Arcais submeteu-se a uma entrevista, intermediada por um jornalista, Gad Lerner, com o Papa Bento XVI. Naturalmente, sem querer resvalar à parcialidade, no cômputo geral de que um e outro disseram pode-se concluir, sem muita dificuldade ou esforço intelectual, que o Papa Bento XVI passou-lhe à frente folgadamente.

Houve um momento em que, por exemplo, na discussão do aborto, D,Arcais mostrou as unhas de nihilista materialista:

- “A mim, por exemplo, parece até repugnante a ideia de considerar um aborto como homicídio; nunca, jamais o consideraria equivalente, e até acho – eu, pessoalmente – imoral quem sustenta uma coisa dessas”.

O Papa Bento XVI lhe deu o troco:

- “Flores D’Arcais disse que quem considera o aborto um homicídio comete um ato imoral. Não aceito isso”.

Em outra ocasião desse debate, que poderia ter sido mais brilhante se D,Arcais estivesse um pouco mais à altura do Papa Bento XVI, procurou-se situar o momento decisivo em que o aborto devesse ser praticado.

Para D,Arcais nos dezesseis primeiros dias o embrião não está sequer constituído… são células indiferenciadas. Ora, como aceitar que, para uns, o homicídio se caracterize desde a concepção.

A essa objeção novamente as palavras do Santo Padre foram, a meu ver, perfeitas:

“Para Santo Agostinho e espero que para todos nós, é absolutamente certo que, se alguém é homem, é intocável. Depois, vem a outra questão, que é: a partir de que momento se é um homem?”.

E concluiu:

“Segundo meus conhecimentos de biologia, na realidade, esse ser leva consigo, desde o primeiro momento, um programa completo do ser humano, que mais tarde se desenvolve. Mas o programa já está lá, e por isso se pode falar de um indivíduo”.

Seria oportuno lembrar-se que todos os códigos penais da grande maioria dos países civilizados, inclusive o do Brasil, inclui o aborto como crime por estar envolvido o problema da violação do direito à vida do feto, que não pode ser de modo algum interrompido, seja qual for a fase em que se encontrar.

Pretender demarcar, por exemplo, como quer o Sr. D,Arcais, em que momento se pode dar a eliminação do feto, que Aristóteles, em sua doutrina, dizia poder-se falar da existência de uma alma entre os três até seis meses, como querendo dizer que antes disso não existe a formação de um ser humano, é uma teoria que não vinga mais em nosso tempo – e hoje se consagra tal crime independentemente de saber-se o estágio do embrião.

Mas para o Sr. d,Arcais é até imoral quem pense em termos de homicídio no caso do aborto. E, assim, com ele, se alinham todos os ateus materialistas, certamente.

O que, em última análise, revela a diferença abismal entre a posição cristã relativamente à materialista sobre um tema que ainda agora tem sido longamente debatido pelas mais diferentes correntes de pensamento.

Rumorejando (Que pena que o apagão não apagou os políticos, lamentando). – por juca (josé zokner) / curitiba

Constatação I (Sem apelar…)

E quando a pobre da mulher vinha se aproximando do bar para bronquear e levar o marido pra casa que, naquelas alturas, como de praxe, já estava com o “caco cheio”, ele se agarrou na ponta da mesa e, pseudohaicaimente, se pôs a gritar:

“Me acuda!JUCA - Jzockner pequenissima (1)

Lá vem a miss bocona,

A bocuda!”

Constatação II (Passível de mal entendido).

“Ela estava com o Chico”.

Constatação III (De conselhos úteis, óbvios).

Para curar a sua dor de garganta, minha senhora, não tome a medicação indicada pelo seu médico com água gelada. De nada !

Constatação IV (De conselhos úteis, não tão óbvios).

Nunca subestime o teu interlocutor. Afinal, o vigarista que passa o conto do pacote ou o do bilhete premiado se faz de bobo para ser “enganado” e passado para trás pelos “espertos”, ou melhor, pelos incautos. De nada!

Constatação V

Rico fala das condições meteorológicas; pobre, do tempo.

Constatação VI

Não se pode confundir receio com recheio, muito embora quando se come um pastel sempre se tem receio de que o recheio seja de vento e, com isso, arrisca de, já na primeira mordida, se apanhar um resfriado, gripe, ou algo desagradavelmente similar.

Constatação VII

E como dizia, pseudo-haicaimente, aquele operário, salário mínimo, que passou sua vida sem amealhar um p. centavo, depois de se politizar por esforço próprio, naturalmente:

“Do trabalho, o fruto

Resulta pra outrem

O usufruto”…

Constatação VIII

Não se deve confundir talento com tá lento, muito embora muita gente de talento viva escutando: “Tá lento”.

Constatação IX

Não se deve confundir gama com cama, muito embora exista uma gama de tipos e modelos de cama para todos os gostos. Ressalte-se, ainda, a bem da verdade, que a finalidade de todas é – mais ou menos: mais menos do que mais, ou, talvez, até mais, mais do que menos – a mesma, isto é, dormir. Creio, caro leitor, que ficou mais ou menos claro essa tão didática explicação.

Constatação X (Ah, esse nosso vernáculo).

Súplice,

A tréplica

Do cúmplice,

Embestou.

Não contestou

A réplica.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (Cuja resposta é de transcendental importância para o futuro da Humanidade…)

Tem gente que, quando espirra, não diz “atchim”, como é de praxe, mas apenas “atchi”, suprimindo o “m”. Seria o que se pode chamar de um espirro capenga ?

Dúvida II

Sob condição

Normal

De pressão

E temperatura,

Ela, afinal,

É candura,

E ternura,

Quando carente,

Somente

Na posição

Horizontal ?

Dúvida III (Via pseudohaicai).

Urdiu uma trama

Pra levá-la*

Pra cama ?

*A coberta, prezado leitor, apenas a coberta. Não o que o prezado leitor estava pensando. Aliás, prezado leitor, vamos parar de pensar só naquilo, tá ?

Dúvida IV

Quem será que inventou essa mentira de “quem com ferro fere, com ferro será ferido” ? E também aquela outra: “Quem semeia ventos, colhe tempestades” ?

Dúvida V

Os candidatos que se apresentam na televisão são atores – alguns maus; outros péssimos – e nunca se deram conta disso ?

Dúvida VI

-“Opa!

Cadê a sopa ?

Será que enfurnou

O cozinheiro ?

Ou, por ser ligeiro,

O caldo entornou ?”

Observação: Em certos países, as palavras “sopa” e “cozinheiro” podem ser substituídas por outras mais condizentes com a situação local.

Dúvida VII (Via pseudo-haicai).

Fazer regime,

Em dia de festa,

É, de lesa-pátria, um crime ?

Dúvida VIII (Via pseudo-haicai).

Orgulhosa, impávida,

Foi a invicta

Que apareceu grávida ?

Dúvida IX (Via pseudo-haicai).

Preciso do seu préstimo:

Daria para me fazer

Um pequenino empréstimo ?

Dúvida X (De cultura geral, via pseudo-haicai).

Foi o Tarzan

Que esgrimou com o pirata ?

Ou foi o Peter Pan ?

Dúvida XI

Rumorejando está constituindo um concurso para ver qual foi o político que mais mudou de partido em termos mundiais, Brasil, Paraná, etc. Quem você acha que ganha ? (Cartas à redação). Como prêmio, o vencedor fica dispensado de assistir o programa de propaganda política.

Dúvida XII

Sinceramente, o que é que você pensa do motorista que não te agradece quando você “cede o passo”, o deixando passar na sua frente ao sair duma garagem, entrar na preferencial, ou algo assim ?

Dúvida XIII

Para que é que serve mesmo a bomba atômica ?

Dúvida XIV

Plutocrata é o sujeito que só assiste desenho animado do Pluto ?

Dúvida XV

Quem afirma que até hoje não perdeu um texto que havia batido no computador é um refinado mentiroso ?

Dúvida XVI

Foi o Homem das Trevas que, ao ver pela primeira vez a luz do sol, não só ficou ofuscado como, também, levou um baita susto da sua própria sombra ?

Dúvida XVII

O suspeito era um cidadão confiável. Tava acima de qualquer suspeita ?

Dúvida XVIII (Lucubrativa).

Você não acha, prezado leitor, que a palavra “porciúncula”, que quer dizer pequena porção, porçãozinha, por ser polissilábica, deveria significar grande porção, porçãozona ?

Dúvida XIX

Por que será que tem tanta gente com cara de caricatura ?

Dúvida XX

Será que não foi um disco voador que provocou o apagão?

De Todos os Genros a Todas as Sogras – de “o ruminante” / belém

Eu, aqui representando todos os infelizes que tem a obrigação de conviver com suas sogras, venho por meio desta expressar toda a realidade que existe por trás desta guerra, sim se trata de uma guerra que por milênios sobrevive de batalha em batalha e, creio eu, esta  só terminará com o findar da humanidade.

Sou sabedor que todas as sogras negarão o que revelarei aqui, mas não me importo, pois é uma parte da guerra necessária à sua adequada continuidade.

Desde os primórdios da sociedade existe a notícia da existência da sogra, inclusive nos mitos da criação não é incomum termos a alegoria de um representante deste ser tão desprezível aos olhos dos genros.

Quem não conhece a história de Adão, Eva e a “serpente”. As pessoas que brincam que Adão que foi feliz por não ter tido sogra é que se enganam, a desgraçada está representada na serpente que influenciou sua esposa e desgraçou de vez com a vida dele.

As batalhas acontecem no dia-a-dia, não existe a chance de um só momento de paz. Trata-se de uma guerra silenciosa por parte delas, mas cheia  influências e jogos sinuosos incrivelmente inteligentes. Nós genros somos menos habilidosos em esconder a guerra, daí nossa declarada aversão a sogras, somos assim, sempre transparentes.

Essa transparência nos impede de ganhar esta guerra, pois enquanto vamos ao embate frontal, estas víboras se aproveitam disso para se fazer de vítimas e nos colocar como tiranos que tiraram a sua filha do melhor caminho que outro homem poderia ter dado a nossas esposas.

As sogras são tão hábeis em suas artimanhas que conseguem, por vezes, levar membros do mundo dos genros para seu lado, então ouvimos absurdos como: “Eu adoro minha sogra! Ela é uma mãe para mim!”

Pior ainda é quando as sogras treinam suas filhas para se tornarem excelentes cozinheiras, engordando e enfraquecendo um combatente que, por fim, acabara morrendo cedo por problemas de saúde.

Os genros, por outro lado, fazem de tudo para que elas sempre vejam em nosso grupo tudo o que elas jamais desejaram para suas filhas. Desta forma tornamos suas vidas um desgosto total.

Essa luta não gera vítimas diretas, pois as mortes que ocorrem não são por conta de ataques frontais, mas pelas coisas que ocorrem naturalmente na vida. O prazer de um genro é que sua sogra viva muito, assim ele pode atormentá-la por mais tempo. Para uma sogra, o prazer está em viver o suficiente para ficar totalmente dependente dos cuidados de suas filhas, atazanando incrivelmente a vida do casal que elas tanto querem separar.

Para vocês sogras, digo-lhes que não adianta separar sua filha de seu genro, pois outro será recrutado ao lugar do derrotado, porém agora mais voraz nos ataques, pois um companheiro de batalha fora derrotado.

Por fim, gostaria de dizer-lhes que, se acaso um de nós venha a perecer antes de sua sogra, saibam que foi uma grande honra lutar contra tão poderoso oponente. Caso contrário, uma péssima morte para vocês (isso nós vamos tentar garantir).

 

De Todas as Sogras a Todos os Genros*

*Carta em resposta ao texto: De Todos os Genros a Todas as Sogras

Aos nossos prezados genros.

Gostaríamos de expressar nosso espanto ao receber tão ameaçadora carta, pois desconhecemos qualquer guerra em curso que envolva nossas pessoas.Brincadeirinha! Isso foi só para garantir que vocês leiam o resto da carta totalmente irritados com nossa mais poderosa habilidade: a dissimulação.

De fato, desde o princípio da sociedade estamos disfarçando nossas artimanhas, estratégias e truques para mantê-los acuados na posição de defesa que todos vocês vivem. Enquanto isso, seguimos vitoriosas em saber que nenhuma de nós jamais se rendeu verdadeiramente, pois não há entre nós alguém que realmente gostou de um genro.

Quanto à história de Adão e Eva que vocês citam, saibam que assumimos a responsabilidade por tal evento, pois como poderíamos permitir que um ser tão deprimente vivesse em tão belo paraíso. Inadmissível!

Nossa maior vitória é ouvir de um genro que ama a sua sogra. É uma doce e prazerosa vitória que nenhum de vocês jamais poderá ter.

Não entendo quando dizem que em nossa guerra não há vítimas diretas. É só ver as estatísticas que apontam que os homens morrem mais cedo que as mulheres, que a maioria das mortes “acidentais” é de vítimas masculinas.

É claro que adianta separar vocês de nossas filhas, pois o estresse gerado e a pensão que vocês terão que pagar acabará por adiantar sua morte. Enquanto nossas garotinhas buscam outra vítima outro marido.

Não nos importa quem venha a morrer primeiro, pois nossa missão há sempre de ser cumprida. Não gostaríamos que vocês morressem cedo, mas não há como evitar diante a tanta estupidez. Quando um de vocês se vai, uma companheira nossa de guerra fica um bom tempo sem diversão.

Ficamos felizes por vocês nos reconhecerem como grandes oponentes. Infelizmente, para nós vocês são apenas inimigos medianos que servem para nos divertir. Que graça teria a vida sem importunar vocês.

Desde já agradecemos a abertura que nos deram para expressar nossos desafetos, dos quais continuaremos a negar. Inclusive acho que foi um de vocês que escreveu esta carta para nos incriminar, não foi?

Com muito amor e carinho.

De Todas as Sogras

 

OS DONOS DO BRASIL – por francisco xarão

A divulgação dos resultados preliminares do censo agropecuário 2006 precisa de muito estudo e análise para “tirar” dos números o seu significado político e sociológico na compreensão da dinâmica de desenvolvimento da estrutura agrária e os resultados da política agrícola das últimas duas décadas. Contudo, alguns elementos são de fácil entendimento, embora de difícil aceitação.

Os números divulgados confirmam o que os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, vêm debatendo e apresentando como causa da alta concentração de terras no Brasil: a ausência de uma política agrária que enfrente as oligarquias do campo e um modelo agrícola centrado na grande empresa capitalista em detrimento do modelo da agricultura familiar.

Gestado pelo mercado, com apoio do Estado, nos anos de ouro do neoliberalismo no Brasil, o agronegócio para produção de commodities se orgulha da modernização que promoveu no campo substituindo o jegue, o boi e o jeca pelo trator, colheitadeira e agrotóxicos em larga escala. No entanto, bastou o governo federal acenar com a possibilidade de cumprir a legislação e rever os índices de produtividade das propriedades rurais para que a bancada ruralista, no senado e na câmara dos deputados, saísse em gritaria uníssona de que querem roubar a terra de quem trabalha.

Essa cortina de fumaça que os deputados e senadores, defensores do arcaico modelo agrário e da “improdutiva” política agrícola baseada na grande propriedade e nos agrotóxicos, montaram serviu para esconder o que o censo agropecuário acabou por revelar: a segurança alimentar dos brasileiros é garantida pela pequena propriedade familiar. Se dependesse do agronegócio, de formato capitalista, o povo brasileiro morreria de fome porque só poderia comer os restos da exportação. A lavoura capitalista não produz alimentos, produz mercadorias.

A novidade do censo agropecuário 2006 foi realizar uma radiografia mais completa e em conformidade com a lei que define agricultura familiar. Com isso foi possível fazer comparações com os resultados de 1985 e 1996 e apresentar uma fotografia onde a agricultura familiar aparece com sua cara própria. Os dados apresentam uma realidade da agricultura familiar que devem servir de base para uma reorientação completa da política agrícola e agrária em curso no país. Senão vejamos: apesar de representar 84,4% do total de estabelecimentos rurais ou 4.367.902 propriedades, a agricultura familiar ocupa uma área de apenas 24,3% da área total dos estabelecimentos rurais cadastrados. Ainda assim, nessa pequena lavoura se produz 38% do valor bruto da produção agrícola do país e emprega 74,4% da mão de obra no campo. As propriedades com menos de 10 hectares ocupavam em 2006 apenas 2,7% (7,8 milhões de hectares) da área total dos estabelecimentos rurais, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares concentravam mais de 43% (146,6 milhões de hectares) da área total. Se tomarmos o número total de estabelecimentos (cerca de 5,2 milhões de propriedades), próximo de “47% tinham menos de 10 hectares, enquanto aqueles com mais de 1.000 hectares representavam em torno de 1% do total, nos censos analisados” resume o informe do IBGE.

Mesmo cultivando uma área menor com lavouras (17,7 milhões de hectares) a agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% da produção de milho e também é responsável por 50% da produção de frangos, 59% da produção de suínos e 30% da produção bovina, apesar de cultivar uma área menor com pastagens. O censo revela ainda que o valor bruto da produção da agricultura familiar e sua participação no valor bruto da produção total obteve crescimento de 38% para 40% em 10 anos (1996-2006). Segundo informativo do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA: “A agricultura familiar gera um VBP [valor bruto de produção] de R$ 677,00/ha que é 89% superior ao gerado pela agricultura não familiar (R$358,00/ha).”

Entende-se agora a virulência dos ataques dos latifundiários e seus aliados às propostas da sociedade civil para limitar o tamanho das propriedades no Brasil e a proposta do governo federal (MDA) de rever os índices de produtividade, pois qualquer cidadão medianamente informado é capaz de concluir que existe no país uma concentração absurda da terra que é contra o processo de desenvolvimento sustentável. O índice de Gini do uso do solo no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração.

Portanto, não há o que se comemorar. A tentativa do governo, na divulgação do censo, de “dourar a pílula” apresentando os exitosos números da agricultura familiar como uma prova de que a política de crédito e a reforma agrária começam a dar frutos é outra cortina de fumaça para esconder a ineficácia da política agrária e a quase ausência de uma política agrícola específica para a produção de alimentos da cesta básica. Verdade seja dita, os agricultores familiares é que apesar do mercado e apesar do governo viabilizaram suas propriedades como equipamento altamente produtivo. Evidente que o censo 2006 avalia apenas três anos do atual governo, talvez por isso se possa autorizar o discurso: “se não fosse nós seria pior”. Mas querer atribuir a sobrevivência da pequena propriedade familiar à política agrária e agrícola deste ou dos governos passados é, sem sombra de dúvida, um exagero. Analisando a repartição do orçamento público, especialmente no período pesquisado, verifica-se uma distribuição francamente desproporcional em favor do agronegócio.

Antes mesmo da divulgação do censo agropecuário 2006, um estudo, resultado de tese de doutorado do geógrafo Eduardo Girardi, intitulado Atlas da questão agrária brasileira, lançado no primeiro semestre deste ano, mostrava que “Em 2003, os pequenos imóveis, com tamanho médio abaixo de 200 hectares, representavam 92% do total de propriedades, mas ocupavam apenas 28% da área agrária. As propriedades de médio porte, de 200 a 2 mil hectares, respondiam por 6% do total de imóveis e 36% da área. Já aquelas acima de 2 mil hectares, embora não chegassem a 1% do total, ocupavam 35% da área do setor”. Com pequenas variações regionais que não alteram o quadro geral, o censo 2006 confirma os resultados do estudo de Girardi. O que isso implica para o debate da reforma agrária?

A legislação brasileira proíbe desapropriação de área menor que 15 módulos fiscais (que varia de região para região, mas situa-se, na média, em torno de 500 hectares). Sabendo que existem aproximadamente 5,2 milhões de imóveis rurais cadastrados no país e aceitando que todas as médias propriedades (acima de 500 hectares e menor que 2000 hectares) cumprem sua função social, ou seja estão dentro dos índices de produtividade atuais e respeitam a legislação ambiental, restam para desapropriação os imóveis rurais acima de 2000 hectares, que representam menos de 1% do total de imóveis rurais, ou seja, em torno de 50 mil propriedades.

Então toda a gritaria dos deputados, senadores associações de produtores rurais é para defender o “direito de propriedade” de 50 mil privilegiados contra o “direito de propriedade” de mais de 4 milhões de pequenos e médios proprietários e sem terras? Absurdamente é isso. Na democracia dos atuais deputados e senadores 50 mil proprietários são mais donos do Brasil que os outros quase 5 milhões.

A estrutura agrária tem intima ligação com a política agrícola. A concentração de terra – confirmada pelo Censo 2006 deriva da necessidade que tem o agronegócio voltado para exportação — soja, cana-de-açúcar e pecuária — ocupar grandes extensões em planícies que facilitem o uso intensivo de máquinas e agrotóxicos para produção em escala. Para competir lá fora o agronegócio precisa destruir aqui dentro. Essa concentração continua expulsando os trabalhadores do campo. Em dez anos, deixaram de trabalhar nas lavouras 1,363 milhão de pessoas. Permanecem ainda 16,5 milhões ou 18,9% da população ocupada do país em 2006.

O discurso dominante não vê limites para as “conquistas cientificas” que, descobertas hoje no laboratório, amanhã já se transformaram em tecnologias para produção de mercadorias. Clonagem, transgenia, agrotóxicos, tudo é possível. Não há barreira ética e moral capaz de frear “a marcha do progresso”. A agricultura familiar aparece para estes senhores pseudocientistas e “mudernos” como uma ingênua nostalgia bucólica. Paradoxalmente, aqueles que acham tudo possível na ciência e na moral acreditam ser impensável uma outra estrutura agrária e uma outra política agrícola. Sua condição política e cegueira ideológica, sim, é que atravancam o desenvolvimento de um país com soberania alimentar. É o latifúndio pós-moderno onde tudo é possível e relativo menos a contestação da absurda concentração de terras.

Mas, se “ouvirmos” os números do censo 2006 e imaginarmos um país com distribuição de renda, sem fome, com menos agrotóxicos, preservando as florestas é inexorável mudar de rumo. É uma imposição social e política desconcentrar a propriedade da terra. Sem isso não há desenvolvimento social, apenas mais concentração de terra e renda.

O primeiro passo é resolver rapidamente o problema dos acampamentos da reforma agrária. Segundo dados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras existem hoje 230 mil famílias acampadas. Como já avaliamos, se adotássemos uma política agrária determinada a desconcentrar a propriedade da terra teríamos de intervir naquelas com mais de 1000ha que representam menos de 1% do total de propriedades no Brasil. Assim, para assentar as 230 mil famílias, considerando um módulo médio de 25ha por família seriam necessários menos de 6 milhões de hectares o que representa menos de 4% do total da área ocupada pelas fazendas com mais de 1000ha. Só para exemplificar: o paranaense Eraí Maggi Scheffer comanda uma empresa que planta em 250 mil hectares dos quais 100 mil são próprios e o restante arrendado de outros agricultores. Se, ceder 4% da sua área para reforma agrária o “rei da soja” ainda terá ao seu dispor 240 mil hectares e nos 10 mil hectares disponíveis à reforma agrária daria para assentar 400 famílias em lotes de 25ha cada. Pergunto: foi agredido o senhor “rei da soja” em seu direito de propriedade e de produzir? Repartir a produção de 10 mil hectares com mais 400 famílias irá dissolver o negócio do senhor “rei da soja” pela concorrência? Ora, não estamos falando de uma revolução no campo, de uma coletivização forçada, mas de multiplicar o número de proprietários com a clara intenção capitalista de ampliar o número de unidades produtivas e diversificar a oferta de alimentos. Trata-se de uma reforma agrária que é realidade em todos os países onde houve uma revolução burguesa (capitalista). É claro que essa é uma exigência mínima, porque o que deveríamos fazer é cumprir a constituição.

Há muito que a legislação brasileira não reconhece mais o direito de propriedade da terra mas a sua função social, que significa que um pedaço de terra é uma unidade produtiva, ou seja, deve produzir alimentos ou seu dono não pode exigir a propriedade sobre a mesma. Ainda assim, a força desta minoria é tão grande que a própria lei não é aplicada. Tribunais crivados de latifundiários ou de amigos deste seleto grupo de ricos que se acham “donos do Brasil” insistem em interpretar a constituição de acordo com suas conveniências e a criminalizar os movimentos que lutam pela terra.

No entanto, como a constituição do país prevê o direito de produzir, de ter um pedaço de terra que cumpra com sua função social, os movimentos sociais não fazem mais que exigir que se cumpra a lei. Isso os legitima sim a ocupar, resistir e produzir. Mas, para além da lei, a legitimidade e necessidade de sua luta se estriba num direito humano fundamental: o direito a vida; deles e de todos os brasileiros. Porque, como revelou o censo 2006, se não fosse a pequena propriedade familiar e a importação de alimentos (um absurdo para um país como o Brasil) os brasileiros passariam fome.

A sociedade brasileira se quer deixar para trás o desonroso título de país com o quadro de segunda maior concentração da propriedade fundiária em todo o planeta (atrás apenas do Paraguai) e caminhar para uma democracia de verdade, precisa dar um basta a estes privilegiados. É urgente que se estabeleça um limite do tamanho máximo da propriedade rural e que se assente, pelo menos, as famílias acampadas.


* Professor de Filosofia da Rede Municipal de Porto Alegre; Mestre em Filosofia política pela UFMG e aluno do PPG em Filosofia da UNISINOS.

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Referências:

ALMEIDA, Cássia, LINS, Letícia, PINTO, Anselmo Carvalho. Brasil: muita terra na mão de poucos. Publicado jornal O Globo 01/10/2009. Disponível on line:

http://www.biodiversidadla.org/content/view/full/52225 acessado em 08/10/2009

BENJAMIN, Cesar. Impactos do latifúndio. Disponível on line:http://www.ecodebate.com.br/2009/10/06/impactos-do-latifundio-artigo-de-cesar-benjamin/ acessado em 08/10/2009.

BRASIL. Censo Agropecuário 2006. IBGE. Disponível on line:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006/agropecuario.pdfacessado em 05/10/2009

BRASIL. Agricultura Familiar no Brasil e o Censo agropecuário 2006. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Disponível on line:http://www.mda.gov.br/arquivos/2246422214.pdf acessado em 05/10/2009

GIRARDI, Eduardo Paulon. Atlas da questão agrária brasileira. Disponível on line:http://www4.fct.unesp.br/nera/atlas/ acessado em 05/10/2009.

 

RUDI BODANESE e DRUMMOND DE ANDRADE, fotopoema 143 / florianópolis

RUDI BODANESE - poema&foto143

TONICATO MIRANDA e seus poemas / curitiba

TONICATO MIRANDA - Barquejanto

 

-.-

 

A Voz da Rã

 

Começo o ano com Janis Joplin

começo o ano com saudades minhas

e da goela dela reverberando no meu peito

nos botões da camisa, nas pregas das linhas

fechando-me o sangue nas veias do coração

 

“Summertime” não é deste mundo

uma lápide de mármore dura e branca

Janis quase não canta, quase se encanta

Negra voz sibilante, em breve castidade

Sussurro rouco, bafejando-nos sua imortalidade

 

Mas todos os sobreviventes

ainda estão por aqui

querendo se despregar da cruz

morrendo no dia-a-dia, na ponta das espadas de luz

sob o sol que teima em furar o cerco das nuvens

 

Os sobreviventes são bandos de mentirosos

Calem-se, calem-se, façam-se mudos

nada mais quero ouvir além da canção

quero da voz de Janis, a sua benção

quero ouvir os porões da minha mente

 

“Summertime” don’t me “cry”

“Summertime” o amor chora-me um ai

porque o amor é uma forma de sofrimento

o corpo perdendo o movimento

quando toda a máscara arrancada da cara, cai

 

“Summertime” escorre em meu peito um verão de saudades

e já não me reconheço no turbilhão de fatos, anos depois

não sou eu chorando por meu passado, mas o retrato do que fui

e fujo como sapo ligeiro, nos charcos dos campos de arroz

fujo da rã cantora agonizando-me a dúvida da sobrevivência

 

“Summertime”

Ahhh! Por que já não me reconheço?

Onde enterrei meu passado?

Ahhh!! Janis!! Ahhh! Janis Jasmim!

Quantas ausências sinto dentro de mim!

 

-.-

 

O Bicho da Goiaba

às poetas das noites Curitibanas, anos 80

 

Ela quer arrancar do meu coração

as angústias que pastam nos meus relvados

ao calar e sumir serra abaixo, pras bandas de Morretes

no rumo dos rios pedregosos e encachoeirados

 

Ela não sabe dessa dor que rói

traça que depois de mariposa

mastiga as madeiras e até os próprios dentes

comendo a si mesma antes de ser esposa

 

Ela não sabe que as cigarras passam

cinco anos debaixo da terra, raízes a comer

até que brotando do chão cantam e chamam

os companheiros para fornicar e logo morrer

 

Ela não sabe que estou pronto para a morte

mas queria ao menos me deleitar no malho

roupas arrancadas aos urros e nos sussurros

ser o rei, a besta, o coringa, todo o baralho

 

Não sabe ela que estou pronto para o jantar

e não mais importa quem vai comer ou beber quem

se minha boca vai comer ou beber a comida

serve também que ela mesma seja a comida

 

Não sabe ela que comprei um vinho especial

para esta particular folia fora de época, meu carnaval

onde sou o Rei Momo, o Arlequim, o passista

vinho amoroso, para saciar meu lado menos animal

 

Não sabe ela que morro de saudades dela e de mim

eu, tão idiota, que não sei de morros e de morretes

de estradas lamacentas, de marimbondos e goiabas

ela tão airosa, alucinando minhas pontas e aríetes

SINAL DE ETERNO de otto nul / palma sola.sc

 

 

 

Entro no bar sem

Cogitar de eterno

Antes olhei à direita

E à esquerda

Na leve suposição

De encontrá-lo

De um lado uma rua

Infinitamente longa

De outro, o céu

Sem nuvem

Ali, sim, havia

Todos os motivos

Para que, enfim,

O eterno se mostrasse

Um sabiá trinou

Numa árvore

De um certo modo

Era uma canção eterna

Aqui e ali despontava

Algo pretensamente eterno

Mas no fundo de tudo

Havia um sinal de eterno

 

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