O PÁSSARO BRANCO de vera lúcia kalahari / portugal


Um pássaro de asas brancas, desdobradas,

Anda a dançar na praia…

Há o rumor de ondas desgrenhadas,

Há espuma fervente e fria

E silêncio de ventos que não existem.

O barco da minha vida

Caravela d’esperança

Naufragou naquela praia,

Sem mar, só com o cantar doce, amargurado,

Do meu pranto.

Esse pássaro que nasceu comigo

Não mora numa gaiola,

Não nasceu nos verdes bosques,

Não é um pássaro de penas.

É um pássaro que canta

Nas longas noites sem luz,

Um canto de risos e prantos,

Um pássaro que agarrei

Com mãos trémulas de criança

E d’esperança.

Larguei para que voasse

E cantasse

Em todas as almas,

Fizesse nelas brotar flores,

Estrelas e amores.

O meu pássaro branco…

Branco como nuvens esvoaçantes,

Como um pássaro tecido de fios de luar…

Fugiu das minhas mãos trémulas de criança

Que se fechavam

E procuravam encurralá-lo

Em qualquer ninho de amor.

É agora um pássaro triste e desolado…

Um pássaro vagabundo

Açoitado por um vento furioso

Que o assusta e o arrasta p’ra solidão.

Um pássaro de asas murchas,

Roxas como lírios macerados,

Como um céu esfarrapado

Sem estrelas, sem luar.

Não houve ninhos que o abrigassem

Nem mãos trémulas d’esperança que o agarrassem.

De nada serviram meus prantos e minhas dores…

O meu pássaro branco, alvo como nuvens esvoaçantes,

Dança na praia que não existe,

A praia da solidão,

Ferido de dor e de morte,

Curvando as asas brancas

Que não são brancas,

Largando às ondas e aos ventos, as suas penas.

3 Respostas

  1. Querida Lúcia: Muito obrigada pelo calor humano, poético calor do teu comentário sobre o meu comentário sobre o teu belo poema. Assim, camada por camada, uma tessitura de flor a duas mãos.
    Beijo de carinho
    Zuleika.

  2. Querida Zuleika,

    Teu comentário tocou-me profundamente, primeiro, por ser ele também um pequeno poema, duma beleza serena mas melancólica.Segundo, por confessares que quedas muitas vezes na tua praia solitária, esperando, quem sabe, receber algo mais, trazido pelas ondas e pelos ventos, do que
    aquilo que, provàvelmente tens recebido da vida. Que o pássaro branco que vive na tua alma de poeta,
    tenha sempre asas que o levem mais alto e não as perca, largando as suas penas em marés de equinócio ou vendavais tormentosos.
    Um abraço apertado de grande amizade.
    Vera Lucia

  3. Tão profundamente belo este teu pássaro branco, tão dorida e pungentemente belo, querida poeta Vera Lúcia Kalahari, que me quedo aqui, da minha praia desolada, a olhá-lo, o voo deste pássaro a percorrer-me algo como um refrigério-prece, pelos sonhos que se foram, uma prece pelo pássaro nunca póstumo,sempre-vivo no poema, que para a imortalidade de pássaros de toda natureza, existe a poesia.
    Grande abraço
    Zuleika.

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