FILHOS, seus medos, meus medos – por marilda confortin / curitiba

Levei anos para convencê-los de que fantasmas não existam e que os barulhos que ouviam eram de seres vivos, inofensivos.

Fiz de tudo para que perdessem o medo do escuro, dormissem sozinhos, seguros.

 

E eles cresceram…

 

Hoje, sou eu quem teme os barulhos da noite.

Sirenes, disparos, gritos, freadas, gemidos, uivos, gargalhadas.

Morro de medo de ficar sozinha e não durmo enquanto não chegam em casa.

Desminto tudo o que eu disse sobre fadas e super-heróis. É pura crendice!

O que existe são homens cruéis, mulheres malvadas, seres invisíveis, drogas, pragas, vírus terríveis, doenças fatais.

O mal existe, meus filhos. E é muito real.

Riem como se meus conselhos fizessem cócegas, os pentelhos!

A menina, fica uma hora na frente do espelho,  diz que o chapeuzinho vermelho não ta com nada, que o lobo mau é um “coisarada”, tudo de bom, um cara legal.

Acha normal usar piersing na orelha, na sobrancelha, na língua, no umbigo, nos lábios (pequenos!), fez uma tatuagem nas costas, gosta de balada, ilha do mel, futebol, cerveja e o escambau. Diz que não é para eu me preocupar porque ela vai casar com um czar e morar num harém. Amém.

O menino, ainda acredita em super-heróis, vampiros, lobisomens, sei lá o quê e continua jogando RPG.

Pensa que aquela ruiva que conheceu na praia é uma sereia de saia.

Tadinho… Ainda não perdeu o medo de dormir sozinho.

Só dorme se for bem agarradinho com aquela cobra que me chama de sogra!

Sereia… Baleia, isso sim! Engoliu o meu filhinho!

Vejam só! Ela me disse que eu vou ser avó de um cardume de peixinhos!

Que hilário: Meus netinhos dentro de um aquário jogando beijinhos…

 

Filhos…  Filhos!

Nunca vêm com nota fiscal nem com manual de instrução.

Não avisam quando crescem e é só piscar, que desaparecem.

Mas uma coisa é certa: Mesmo que partam, quebrem, caiam, ou não saiam bem do jeito que a gente queria, não importa. Amor materno tem validade eterna.

Os filhos, estão sempre na garantia.

Uma resposta

  1. Prezadíssima Marilda,

    Este seu poecrônica é de fato maravilhoso.
    O final é apoplexo “Os filhos estão sempre na garantia”.
    Fazendo gracejos com a verdade, seu humor vai nos convencendo devagarzinho.

    Puxa, que jeito gostoso de refletir, de poetar e de ser.
    Ah, Marilda, tivesse mais intimidade e anos de convivência com você,
    de vez em quando sentaria uma tarde inteira à sua frente para fazer uma terapia do riso.

    Grande Abraço, amiga.
    TM

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