RECADO À MULHER AMADA de manoel de andrade / curitiba

Eu te juro, amor meu

que eu amava o canto das cigarras em dezembro,

o aroma dos bosques e da chuva,

mas o tempo, como uma lança,

fez sangrar minha ternura

e era preciso devolver os golpes cara a cara.

Era preciso partir

e inaugurar a vida novamente.

.

Era preciso partir

eu te asseguro.

Partir de busca em busca até morrer.

Agora…, eis-me  aqui,

entre a poesia e um estandarte;

e contudo, desde o primeiro dia,

tu conheceste esse pedaço de minh’alma.

Tu sabias do meu despojamento

e da minha esperança;

sabias das minhas navegações

e que eu vinha com uma infância de barcos e marinheiros.

.

Sim… é verdade…

por algum tempo tu me fizeste ancorar por tanto amor,

mas eu sempre fui um habitante do vento e da distância

e somente te pude amar com um coração feito caminhos.

Ai amada…

eu nunca aprenderei a regressar…

a vida me ensinou a partir sempre

e a dizer adeus ao que amei.

Meu próprio canto é uma despedida…

é sempre um passo a mais para o combate.

Talvez eu volte quando comece a florescer a rubra messe

quando sentir que cessaram os tambores

e que regresso entre os sulcos de uma aurora.

.

Mas agora… amor

eu sou a voz e o sangue de um guerreiro

e bem quisera incendiar-te com esse sol que trago dentro.

Eu bem quisera

e já quis tanto

que além desta ternura

e da espera,

fosses também a companheira do meu sonho

e uma península do meu punho

e do meu canto.

Cali, setembro de 1970

Do livro POEMAS PARA A LIBERDADE, Editora Escrituras, 2009

2 Respostas

  1. Caro Tonicato…, o mar marcou toda minha infância na Praia de Picarras, correndo atrás de siris e gaivotas, chutando flocos de espumas, construindo castelos de areia, puchando redes, pegando os peixinhos de fugiam pelas malhas e buscando no horizonte as velas que voltavam (isso vai virar poema) e toda essa mágica paisagem encantou os versos da primeira parte do meu livro “Cantares”. Mas quanto a essa “forte presença do mar”, leia na Internet dois poemas deste livro: “Um homem no cais” e “Marítimo”(poema), publicados por este site.

  2. Prezado Manoel de Andrade,

    Interessante. Neste poema identifico forte presença do mar.
    Ainda que não fales diretamente nele, fazes simulacros marinhos nos versos,
    sempre em partidas e nas justificativas deste amor desbragado, mas ao fim largado aos ventos.

    Alguns versos, pela forma de suas construções, são inovadores para um poema escrito em 1970.
    “…e somente te pude amar com um coração feito caminhos.”
    “…e bem quisera incendiar-te com esse sol que trago dentro.”

    E o melhor deles:
    “…e uma península do meu punho…”
    Que coisa maravilhosa relacionar um acidente geográfico a uma pessoa.
    Penso que isto eleva-a à eternidade, pois a geografia do planeta nos é superior em longevidade, sempre.
    Mesmo assim a abandonaste no poema, não sei se também na vida real.

    Grande Abraço.
    TM

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