CLAUDE LEVY STRAUSS – por philomena gebran / curitiba

Reminiscências de um querido Mestre

A triste notícia, dada friamente, como acontece com todas as noticias – afinal é ofício do repórter, apenas informar:

“morre em Paris o grande intelectual Claude Levy Strauss”. Uma notícia como qualquer outra? Para muita gente, sim.      Para mim, não. Ele sempre será uma pessoa muito especial que continua viva, como sempre esteve em minha lembrança e em meus conhecimentos. Muito do que sei devo a ele, quando fui sua aluna em Paris.

Existem pessoas que não morrem. São imortais para nós. Levi Strauss é uma dessas pessoas. A notícia trazia uma lembrança que agora já é saudade. Uma vontade de voltar no tempo e vivenciar tudo outra vez.  A notícia, me fazia mais viva sua presença.

Às vezes é difícil cair na real ou aceitar os fatos e a realidade. A notícia me trazia de volta aquele que foi meu grande e sábio professor no Collège de France Paris. Figura humana impar e muito especial. Para alguns um intelectual polêmico, controvertido, e às vezes, até arrogante e prepotente.

Para mim não.

Impossível não ser reconhecido por todos, como um dos mais lúcidos intelectuais, do século XX; brilhante antropólogo, filósofo, etnógrafo, historiador, enfim, um sábio.

Viajei no tempo e me vi em Paris num pequeno auditório cheios de pessoas, esperando a entrada do famoso        professor. O silêncio era geral. Logo depois entra um homem simpático, muito elegante, terno escuro, óculos, magro, cabelos grisalhos e apresenta-se: “eu sou o professor que vou ministrar esse seminário a vocês”; como se precisasse de apresentação, “meu nome é Levi Strauss”, simples assim. Meu coração bateu descompassado. E acho que nesse dia perdi muito do que foi falado, tal a emoção.

Era o primeiro dia de um Seminário que se tornaria inesquecível para mim. Terminada a aula como é comum entre os franceses, ninguém fala com ninguém, e todos saíram em silêncio. Fiquei perturbada. Não sabendo direito o que fazer, timidamente, falei para mim: é “agora ou nunca”; tomada a decisão, fui lentamente, como fazem os tímidos, me aproximando de sua mesa e muito, sem jeito, mas com a ousadia da juventude, a voz quase nem saindo de tão baixa, pois sentia um misto de emoção, nervoso e medo.

Então, de repente cheia de coragem falei, creio que atropelando um pouco as palavras, tal a emoção; “gostaria de falar com o senhor”. Olhou-me curioso, pois na França não é nada comum alunos se dirigirem ao professor, sem antes, terem agendado um encontro.

Enfim, falei: – mesmo porque, já era tarde, para qualquer arrependimento: _conheço e já li seu livro Tristes Trópicos; gosto muito dele. E imediatamente, antes de perder a coragem, emendei: – sou brasileira e estou estudando aqui.          Passada sua surpresa pela ousada interpelação, ele perguntou, se eu era da Universidade de São Paulo. Disse-lhe que era do Rio de Janeiro e só então me lembrei de pedir desculpas pela informalidade de minha abordagem.

Para minha surpresa convidou-me a sentar, perguntou o que eu estudava, desde quando estava em Paris, se havia gostado de sua aula, etc., etc., e disse que eu ficasse a vontade para falar com ele sempre que precisasse e que depois das aulas, estaria pronto para esclarecer minhas dúvidas ou para debater questões.

Pronto. Era tudo que eu queria; perguntei se poderíamos conversar sobre seu livro, então ele me revelou que considerava Tristes Trópicos apenas um relato de sua viagem pelo Brasil; assim como, uma longa crônica. Contestei logo. –Pode até ser, mas uma crônica ou relato brilhante!

Dando minha opinião contraria, elogiando o livro que foi muito esclarecedor e que todos no Brasil o utilizavam em suas bibliografias. E ainda admirada de minha coragem, fiz tudo para “segurar” a conversa.      Falamos um pouco do Brasil das comunidades nativas, dos meus estudos lá e aqui, e o gelo foi quebrado. Perdi o medo e me pareceu que já éramos amigos; claro, guardando o indispensável distanciamento; em seguida me passou uma lista de seus livros que eu encontraria na biblioteca ou que poderia adquirir em livrarias, ainda brincando que estudante não tem condições de comprar muitos livros. Pura verdade, até hoje é assim.

Estava aberto um precedente, e quando os colegas mais próximos souberam, ficaram encantados com minha informalidade e logo aproveitaram a oportunidade de se aproximar do grande Mestre. Depois das aulas, ficava um grupo para esclarecer questões e a as perguntas eram muitas; os debates se sucediam sem pressa de ir embora; pois como eu todos queriam saber e saber cada vez mais sobre a nova antropologia e, principalmente sobre o novo método criado por ele; o estruturalismo, cujo estudo eu viria retomar e aprofundar no Mestrado, através de outros pensadores que foram por ele influenciados, como Michel Foucault, Marta Hanecker, Jacques Derrida, Louis Althusser e outros.

Porém, foi com ele que aprendi muito, não só sobre estruturalismo, mas sobre antropologia em geral; as aulas eram mais formais, ao estilo “Frances” mesmo; mas os debates que se seguiam, por pura generosidade sua e grande exploração dos poucos alunos que ficavam eram incríveis.E o papo se tornava mais coloquial, descontraído e, nada formal.

Lévi – Strauss se dizia não marxista, assim como, não se considerava um antimarxista, acho que não queria abrir demais sua ideologia. Tudo bem, graças a isso, estabelecíamos grandes e enriquecedoras discussões, já que a maioria do grupo era marxista. E, também não se dizia o pai do estruturalismo; se bem que insistíamos com ele que todos o viam como tal.

Seu objetivo era a criação de uma teoria “formal”, ou seja, partindo da elaboração mental para a realidade; negando assim, a base empírica. Para ele “estrutura significa o sistema relacional latente no objeto.” Estabelece então diferenças entre a noção de “estrutura social e relações sociais”. Dito em outras palavras, o modelo estrutural é uma construção teórica que não se relaciona com dados empíricos, como na História. É quase uma abstração do real, como explicava em nossas discussões.

O problema não depende da etnologia, mas da epistemologia”, dizia ele.

Atribuía a criação do conceito aos pais da lingüística Saussure e Mauss; mas, está claro que Lévi-Strauss “consagrou” o método no campo das ciências humanas, e mais, enunciou os conceitos de “sincronia e diacronia” para as sociedades sem escrita, o que elucida muita coisa.

Foi com ele que tomei conhecimento das teorias antropológicas, como por exemplo, do funcionalismo de Malinowski, do historicismo de Franz Boas, o evolucionismo (cultural) de Tylor e Morgan, etc., não o evolucionismo de Darwin; mas essa já é outra história;

Eu, particularmente, queria discutir com ele as relações entre História e Antropologia, no meu entender ciências que se completam, e uma influenciam a outra. Mas a questão é que por muito tempo, por “falsas” questões epistemológicas eram tratadas como disciplinas e de forma compartamentalizadas, com práticas e métodos, que mesmo no início do século passado  não contemplavam as exigências acadêmicas.

Consegui expor meu ponto de vista levantado à questão do embricamento entre História e Antropologia, pois para uma pesquisa necessitamos de ambas; e para analise de sociedades diferenciadas seria importante nos livrarmos, para sempre, do “mal” do positivismo e propor, não apenas a interdisciplinaridade, mas a colaboração entre História e Antropologia. Confesso que para meu espanto ele concordou plenamente comigo.

Neste sentido, houve uma abertura de Lévi – Strauss em nossos debates que nos permitiu “entrar” em sua obra para discutir seus livros como “Antropologia Estrutural” “Pensamento Selvagem”.

Sua famosa trilogia: “Mythologiques”, três grandes volumes sobre o homem, alimentação, costumes culturais , mitos, símbolos, enfim sobre como as diferentes  culturas se comportam e realizam a construção de suas sociedades, considerando a organização social, os sistemas econômicos e os sistemas míticos e a cultura material, por exemplo, foi extraordinariamente enriquecedor.

Devo porém, acrescentar, que a discussão sobre sua tese de doutorado: “Les Structures Elementaire de La Parente”, para mim, sua obra mais completa e abrangente, foi o ápice do Seminário e de nossas discussões e dos debates sobre estruturalismo. Foi um Curso que deixou muita saudade e que ninguém ficou feliz quando terminou, ao contrário, a tristeza foi geral.

Mas, a compensação é que todos saíram muito mais ricos em conhecimento científico, e em nossas reflexões; claro que muitas obras, não foram abordadas profundamente, como gostaria, porque nem haveria tempo.

Para mim houve um fator ainda mais rico e importante, que eu viria a formular mais tarde em minhas pesquisas; a reformulação de conceitos que considero equivocados e cheguei rapidamente a falar sobre isso com o grande mestre; apesar de ter discordado comigo em alguns pontos, foi mais positivo sua concordância em outros que agregaram em minhas pesquisas e estudos novos valores.

Só para citar um e não me alongar demasiado nesse ensaio, nada científico, mas apenas a expressão das minhas reminiscências. Consegui ao longo de minha vida profissional mudar o conceito de sociedades “primitivas”, como conceituado historicamente pelos antropólogos para sociedades “ágrafas”.

Desprezando, com a aquiescência de Levy- Strauss: “povos sem história” “povos vencidos”, “aculturados” e o pior, “primitivos” e ainda “sociedades simples”, para diferenciar as culturas que sempre foram marginalizadas pela História, das culturas ocidentais, ditas “complexas” como “culturas inferiores”. Nada mais equivocado.

Existem entre nós, culturas ágrafas que guardam grande sabedoria e são muito mais complexas e sofisticadas em suas organizações sócio, político, econômico e mítica que nossa “bela civilização ocidental”, plena de descriminações e preconceitos.

Por isso, graças ao Seminário com o Grande Levy Strauss adquiri a coragem necessária para mudar meu campo conceitual: “primitivo”? Jamais. “índio”? Nunca. Nativos sim, como somos todos. Sofro contestações? Inúmeras. É difícil  as pessoas  aceitarem novas propostas; o novo é sempre complicado, mais fácil ficar acomodado, não pensar muito e ficar repetindo o que já está cristalizado pelo tempo.

Mas, a exemplo do Mestre insisto, e sigo em frente com minhas inovações.

Não tinha intenção de discutir isso aqui, mas foi apenas uma digressão, para ilustrar o resultado do aprendizado; minha intenção é apenas a de prestar uma homenagem ao cientista, que já no início do século passado, soube tão bem chamar a atenção do mundo acadêmico para o absurdo das idéias positivistas ao considerarem que existem homens melhores do que outros, e sociedades superiores e inferiores, seja pela cor, seja pela escrita, seja pelos mitos, seja pelos símbolos, ou seja, pela cultura.

Para terminar uma sábia frase do sábio Homem:

…“hoje meu único desejo, é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele.”

 

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ilustração do site.

4 Respostas

  1. Agradeço aos queridos amigos ´pelos comentáros sobre meu despretencioso depoimento sobre o grande e incomparável intelectual Levi Strauss um dos mais brilhantes acad~emicos do século XX; obrigada pelos cometários é sempre muito bom receber um retorno de pessoas sensíveis; e a você Vidal agradecimentos especiais por sua gentileza em estar smpre pronto abrindo espaços nete seu maravilhoso blog
    beijos a todos

  2. Querida Philomena,

    Você, sempre íntegra, sempre emocionante, sempre maravilhosa.

    Um grande beijo.

  3. Minha Querida Philomena…

    Que invejável experiência acadêmica você viveu em Paris, não somente neste campo da antropologia, mas também pelos teus estudos sobre a filosofia da história e da arte. Você já me comentou sobre teus trabalhos sobre cultura andina e eu aproveito para te perguntar: O que teria feito José Carlos Mareáteghi, morto com apenas 35 anos, se tivesse vivido os 100 anos de Levy Strauss? Aos oitenta anos da primeira edição de seu livro SETE ENSAIOS DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE PERUANA, suas teses constituem ainda as grandes referências da realidade social e do problema indígena peruano e latino-americano, dentro da originalidade do seu pensamento socialista.

    Muito pertinente a colocação da Zuleika ao explicitar esta lamentável desproporção de valores de um mundo que endeusa os mitos e desterra a memória dos grandes homens.

  4. Que belíssimo, tocante, mais que oportuno depoimento! É mais que doloroso presenciar o descaso dos meios de comunicação, a pouca importância no anunciar a morte de um dos maiores pensadores do século XX. Mais triste ainda é observar a importância desmesurada conferida a outras figuras, absolutamente inexpressivas,por ocasião de suas mortes. Assim ocorreu, por exemplo, há cerca de uma década, com o desaparecimento, por desastre de avião, do grupo “musical” brasileiro, “Os Mamonas Assassinas”. Claro, a morte é sempre triste, era um grupo de jovens, no entanto a alarde em torno de suas mortes – a TV Globo até apresentou um Especial sobre o “trabalho musical” do grupo – foi absurdamente desproporcional à importância de tal trabalho, que não passava de brincadeira inconsequente. Quanto a seres da estatura de Levy Strauss, para quê destacar a sua morte? Foi apenas um grande pensador, um cientista que criou novas bases para pensar a trajetória da Espécie. Afinal, em um mundo de coisas e de seres descartáveis, porque e para quê prantear a memória de um ser de estatura tão própria, tão autêntica, tão enriquecedora na história do pensamento humano?

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