MR. KURTZ – por hamilton alves / florianópolis

A Novela de Joseph Konrad, “O coração das Trevas”, sobre a qual Paulo Mendes Campos escreveu possivelmente a melhor e mais bela resenha, indo ao fundo do significado desse personagem misterioso, Mr. Kurtz, um homem que, em busca do marfim, que se colhe das presas dos elefantes, embrenha-se pela mais selvagem selva do Congo, na África, e ali (será só por isso?), envolve-se com o povo indígena nativo, para o fim de comercializar com esse precioso material.

Marlow, que empreende uma viagem para encontrar Mr. Kurtz ou substituí-lo em seu posto, para o que fora contratado pela empresa que se envolve com o marfim, é o narrador dessa história, que antecipa os escritores que virão depois, como Kafka, por exemplo.

O local onde embrenhou-se Mr. Kurtz é de indescritível rudeza. Para ele ou para a sua personalidade se volta a imaginação de Marlow. É impensável que um homem civilizado tivesse abandonado as cidades modernas para viver num meio absolutamente inóspito em troca somente da riqueza que o marfim lhe pudesse proporcionar.

Kurtz era um homem adorado pelos selvagens, como se, para eles, fosse um deus.

Quem é, afinal, esse Kurtz? – é logo a pergunta  que se propõe o narrador. E haverá certamente de formulá-la, logo às primeiras páginas, o ledor, a indagar-se por que um homem vivido no meio civilizado escolheu viver num ambiente hostil, entre silvícolas?

Depois de uma longa viagem pelo rio Congo, cheia de peripécias, de imprevistos, de problemas no motor do barco, que, a certa altura, encalha por problemas mecânicos, tendo que ficar à mercê de que seja conseguida uma peça para de novo seguir sua trajetória, ameaçados seus tripulantes de um ataque, que nunca vem, dos selvagens, consegue-se, a duras penas, um contato finalmente com Mr. Kurtz e realizar a viagem de volta com ele, vindo a sucumbir durante o transcurso.

Marlow entra em contato com a mulher de Kurtz, depois de tentar com dificuldade encontrá-la em Nova York.

A primeira pergunta que lhe é feita por essa senhora é sobre se Kurtz ainda se lembrava dela.

– Sim, disse-lhe, foi a última coisa que ouvi de sua voz a referência, muito amorosa, que fez ao seu nome.

Marlow mentira para que a mulher guardasse de Kurtz uma boa imagem. Ou que sua memória ainda de algum modo estivesse viva em relação a ela.

Mas ao fim e ao cabo, a personalidade de Kurtz, para o leitor, continua um enigma, esse homem que abandonou a civilização para viver na mais aterradora região do planeta.

Na literatura universal, Kurtz é um personagem que não tem paralelo, e “O Coração das Trevas” marca o momento inigualável de Joseph Konrad como escritor.

2 Respostas

  1. Sra. Zuleika dos Reis,

    Penso como a senhora. Obrigado. Hamilton

  2. Maravilha a evocação da figura enigmática, para sempre insondável, na profundidade verdadeiramente abissal de sua natureza, do personagem Kurtz , de O Coração das Trevas, de Joseph Konrad. De personagens abissais assim é que sempre se construiu a melhor literatura, ao longo dos tempos, a literatura que trabalha com os poços mais sem fundo do ser. Parabéns pela oportuníssima evocação, em tempos de louvação quase só das coisas rasas.
    Zuleika dos Reis.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: