Arquivos Diários: 10 janeiro, 2010

CONVERSA COM O ANO NOVO por hamilton alves / florianópolis

Tinha soado meia-noite no relógio da casa quando ouço uma batida à porta. Vou abri-la e dou com a presença do Ano Novo.

– O que deseja? – lhe perguntei.

– Estou entrando…

– Entrando assim sem mais nem menos, a essa hora?

– O senhor não me esperava?

– A bem da verdade…

– … Não esperava?

– Não é bem isso…

– O que é então?

– É uma coisa sempre meio inesperada… O senhor há de entender… Além do mais, minha atenção estava concentrada em tanta coisa que acontece por aí, calamidades aqui, acolá, por toda parte. É só notícia ruim. O quadro sucessório…

– … Que é que tem o quadro sucessório?

– Haverá um quadro sucessório mais desanimador do que o que ora se nos apresenta?

– Bem, todas as épocas têm lá seus bons ou maus momentos. É da condição dos tempos, nem piores nem melhores, sempre no meio termo.

– E o senhor o que nos traz de novo?

– Bem, devo confessar que já nasço de certo modo velho.

– Como assim?

– Carrego comigo toda essa tralha da história, que é inseparável do tempo que escoa.

O Ano Novo já tinha entrado, se aboletado numa cadeira estofada, olhou as horas, que já iam, a essa altura, longe. Revelava-se preocupado. Algo não lhe parecia estar bem.

– Sente-se incomodado?

– Entrar no tempo envolve sempre uma grande preocupação. O que terei pela frente?

– Se o senhor não sabe, imagine-se eu!

– Teremos a Copa do Mundo de futebol, isso não deixa de ser uma boa expectativa em torno de quem a vencerá. E os prognósticos já se fazem. A eleição para presidente… Mudanças aqui e ali.

– Mas tudo isso é muito pouco. E no plano internacional que traz o senhor de melhor?

– Sou o Ano Novo mas não sou adivinho. É um tema difícil de abordagem.

– A humanidade confia no senhor. Afinal de contas, para que serve um Ano Novo?

– Um Ano Novo serve para produzir a história, que se escreverá na medida da burrice ou da sabedoria humanas. Nem mais nem menos.

Foi assim que entrou o Novo Ano, com essa disposição muito realista. Depois que encheu bem o pandulho, tendo bebido além da conta, despediu-se lá pelo dealbar da madrugada, sem revelar-se muito animado com o que viu à entrada.

“LE MONDE” escolhe LULA como “HOMEM DO ANO DE 2009” ( e os DEMOS e TUCANOS choram na mídia brasileira)

‘Le Monde’ escolhe Lula como ‘homem do ano 2009’

É a primeira vez que jornal faz homenagem a personlidades.
Também neste mês, presidente foi homenageado pelo ‘El País’.

LULA e SARKOZY.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito o “homem do ano 2009” pelo jornal francês ‘Le Monde’. É a primeira vez que o veículo decide conferir a honraria a uma personalidade, como já ocorre uma vez por ano em publicações como a revista americana ‘Time’. No começo do mês, o jornal espanhol ‘El País’ também concedeu a Lula a mesma homenagem.

Em uma reportagem que ocupa a capa e quatro páginas da revista semanal do jornal, a publicação francesa diz que Lula mudou a cara da América Latina e transformou o Brasil em uma potência. O jornal ressalta ainda seu histórico de sindicalista, sua luta contra as desigualdades e a defesa do meio ambiente.

Entretanto, a publicação desta quinta-feira (24) cita os recentes escândalos de corrupção, casos de nepotismo e a desigualdade no país.

Em seu site, o jornal afirma que para avaliar quem seria seu primeiro homenageado em 65 anos de história decidiu abordar personalidades com contribuições positivas no cenário mundial. O nome do presidente americano chegou a ser cotado, conforme explica o texto. Entretanto, a publicação afirma que Barack Obama foi mais merecedor do título em 2008 do que em 2009.

g1.

Rumorejando (Vai ano, vem ano e os políticos ficam na deles, que não é o do povo, constatando). – por juca (josé zockner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES

Constatação I

Certa vez, eu estava na Boca Maldita, em Curitiba, jogando conversa ao léu com o Leo, que não vem ao caso agora saber exatamente quem ele é, quando chegou um empreiteiro, que também não vem ao caso agora saber quem ele é, mas que, hoje, é uma das maiores fortunas deste país, dizendo: -“Agora sim. Agora, eu não corro mais o risco de quebrar. Minhas dívidas com os bancos chegaram a um volume tal que, se eu quebrar, levo junto comigo uma porção de gente. E mais, o governo também não vai me deixar quebrar, pois vai ter que, de ora em diante, levar em conta oproblema social. A partir de hoje, vai dar sempre para empurrar a dívida com a barriga. E eu vou ficar muito rico”.

Se o Brasil que já recebeu empréstimos do FMI, bancos particulares, etc., na ordem dos bilhões de dólares, conforme a sua necessidade, para tapar os seus furos, a tese do empreiteiro, estará corretíssima e penso – data venia, como diriam nossos juristas – que ele mereceria se candidatar, senão ao Prêmio Nobel de Economia, pelo menos, a algum similar de finanças…

Constatação II (Ah, esse nosso vernáculo, entreouvido no Palácio Real).

-“De sorte que Vossa Douta Pessoa, príncipe consorte, é uma pessoa de sorte, já que eu vou virar sua consorte”.

Constatação III

E como exclamava a redatora daquela repartição pública: -“O cara de broa só come pão porque não gosta da anteriormente referida”.

Constatação IV (Em homenagem aos amigos Newton Sérgio Finzetto e Ivens Fontoura).

Em continuação à relação de cenas que considero antológicas e que “pagaram o filme”, independente de ser um filme bom ou ruim – geralmente bom –, foi publicado, recentemente, em órgão de divulgação de uma video locadora, em Curitiba, mais uma pequena série, da participação deste assim chamado escriba, que transcrevo a seguir:

–         A expressão de mal-estar do garoto, ao assistir um espetáculo de marionetes em que um boneco surrava outro com um bastão; mais tarde aparece a cena do personagem do nazista Klaus Barbie, o “carrasco de Lyon”, torturando violentamente prisioneiros da Resistência Francesa, também com um bastão, no filme Lucie Aubrac, do diretor Claude Berri (Germinal, A casa de minha mãe, Jean de Florette).

–         A violência, somente expressa em palavras, sem mostrar a imagem por causa da forte neblina, em que matam um garoto na presença dos pais, na guerra entre sérvios e croatas; anteriormente, a afirmação de um personagem de que a neblina permitia que as pessoas saíssem, pois encobria a todos e, assim, cessavam os tiros dos franco atiradores e logo a cena da orquestra tocando música clássica no parque, na neblina, e as pessoas em volta assistindo, no filme Um olhar a cada dia, de Theo Angelopoulos.

–         O lirismo da cena em que o ator e diretor Jacques Tati direciona o reflexo do sol da sua janela para uma gaiola, ensejando que o passarinho se ponha a cantar, no filme Meu Tio.

–         O suspense das notas musicais se aproximando, na cena em que um cidadão seria assassinado com um tiro na parte do tema musical em que a percussão encobriria o som do tiro, no filme O Homem que sabia demais, de Alfred Hitchcock; do mesmo diretor, o filme Os Pássaros, quando a mocinha está descendo num conversível em direção ao mar numa estrada cheia de curvas, levando um casal de pássaros que estão numa gaiola e que movem por igual as cabeças conforme o lado em que é feita a curva.

–         O espetáculo da natureza no pôr-do-sol do filme, de Otar Iosselani, E a luz se fez.

–         A chance que o diretor dá ao espectador, repetindo a cena várias vezes, para que ele também possa se dar conta como é que o policial descobriu quem era o assassino no filme Cobiça, com Ives Montand e, se a memória não falha, Jeanne Moreau.

–         A tão decantada corrida de bigas no filme Ben Hur.

–         A cena do filme Sem Novidades no Front, baseado no livro de Erich Maria Remarque, em que, após ter matado um soldado alemão, na 1ª Guerra Mundial, o personagem, cheio de remorso, tira do seu bolso uma foto de uma mulher com uma criança, o que faz com que aumente, ainda mais, o seu remorso.

Constatação V (Ah, esse nosso vernáculo).

A jovem se encrespou porque o cabeleireiro não encrespou o seu cabelo: -“Ele me enrolou porque apenas enrolou o meu cabelo”.

Constatação VI

De acordo com uma entrevista concedida à revista Playboy, o escritor português José Saramago contou que Camões – nome de um dos seus cachorros – gosta muito de livros. Ele já comeu dois volumes e a lombada de um terceiro, declarou o escritor laureado do Prêmio Nobel de Literatura.

Constatação VII (Teoria da Relatividade para principiantes).

Quando você tem 4 anos e existe uma pessoa com 18, a diferença de idade entre ambos é grande; quando você tem 60 anos e existe uma pessoa com 74, a diferença de idade entre ambos é pequena…

Constatação VIII

Disseram os amigos, tentando convencer o ricaço:

-“Vamos fazer esse cruzeiro marítimo pelas Ilhas Gregas. Afinal, são os teus filhos que vão te pagar toda a despesa”.

Retrucou o ricaço: -“Como os meus filhos, se eles dependem totalmente de mim ? O mais velho está com 16 e a mais nova com 14”.

-“Nós sabemos disso. Mas quando você bater com as dez, você deixará um pouquinho menos da tua imensa fortuna para eles”…

Constatação IX (Via haicai).

O cara caradura,

Ao passar a mão,

Diz que é só ternura.

Constatação X

O nervo grande-hipoglosso, de acordo com o Aurelião é o “nervo motor, o duodécimo dos chamados cranianos, que inerva os músculos da língua e os da região infra-hióidea”. Agora, que o nome parece ser outra coisa, isso lá parece…

Constatação XI (Que absolutamente não é uma queixa).

Depois que ela, sentada no meu colo, disse que ia comer um doce de ambrósia, ao invés de dizer ambrosia, eu cheguei a conclusão que ela costuma pôr o acento e o assento conforme o seu bel-prazer…

Constatação XII

Quando a viticultora, que estava colhendo uva, não quis nada com o conquistador barato, ele fez um muxoxo e com um menear de ombros proferiu a frase auto consoladora: “Essa uva está verde, mesmo…

Constatação XIII

Rico pratica polo; pobre, pulo.

Constatação XIV (Com rima diminutiva e, por essa razão, um pouquinho apelativa).

Um nitrido

Bem comprido

Soltou

A eguinha.

Ela cumprimentou

O cavalinho,

Do outro lado,

Da cerquinha.

Coitado!

Pobrezinho!

Tão sozinho…

Constatação XV ( De quem viu as fotos da Flavia Alessandra).

Vê-la nua, por um lapso,

Foi suficiente pro ancião

Quase ter um colapso.

Embora, tivesse sido muito bom.

Constatação XVI (Via pseudohaicai).

Do filme, fez curta resenha:

“Impossível que o espectador

Na cadeira se contenha”…

Constatação XVII (Via pseudohaicai).

O despertador toca a sirene:

Hora de sonambular

Pro trabalho perene…

A TRISTEZA PERMITIDA por martha medeiros / porto alegre

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down…” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

REVEILLON de charles silva / florianópolis


qual o artifício desse fogo

o céu já tá queimando

fiz até comício pro teu jogo

fui me declarando

não vou ficar na sacada

ligando as acrobacias

foi muita noite virada

um ano de euforia

vem cá

tatua teu batom

me pega pelo flanco

me dá teu reveillon

me tira desse branco

vem cá

qual é tua opção

o nome do teu santo

me mostra a região

me dá teu entretanto

À ESQUINA de otto nul / palma sola.sc

Só à esquina

A vida escoou

O vento soprou

Triste à esquina

A luz apagou

Um homem passou

Isolado à esquina

O sol se evaporou

O dia murchou

Indeciso à esquina

O tempo parou

A sorte voou

Mudo à esquina

O barulho cessou

O mundo acabou