Arquivos Diários: 11 janeiro, 2010

TELA PARA ESCREVER por sérgio da costa ramos / florianópolis

Imagine-se um homem debruçado sobre a escrivaninha, preparando-se para escrever.

Vale-se de uma caneta de “época”, um bico-de-pena mergulhado num tosco tinteiro. Para alumiar a bancada, um lampião a óleo de baleia, como nas mais antigas armações do mundo.

Quem seria? O poeta Shelley, com seus versos marinheiros?

Hermann Melville, iniciando a saga da obsessiva perseguição do capitão Ahab à baleia Moby Dick, um clássico da literatura universal?

Quando o homem começa a escrever, opera-se um pequeno milagre de forma e de método: suas marinhas não se derramam em pinceladas coloridas, mas em letras de caligrafia redonda.

E, no entanto, sua pena não é mais uma caneta. Num lance de abracadabra, a pena se transforma num pincel…

Ninguém diria que aquele senhor de testa alta e bigode luso, embrulhado num vetusto terno, colarinhos pontudos e gravata em laçarote fosse o mesmo marinheiro em calças de zuarte e camisas zebradas, a bordo do navio argentino Mercedes ou do inglês Theodore, a singrar os sete mares.

Em 1876, o ilhéu Virgílio dos Reis Várzea matriculou-se, aos 13 anos, na Escola Naval do Rio de Janeiro, dela saindo aos 16, para correr o mundo, do Cabo Horn às Antilhas, do Atlântico ao Índico e ao Pacífico, com passagens pelos Açores e pelos também lusófonos Arquipélagos do Cabo Verde.

Esse verdadeiro Mestre dos Mares haveria de se transformar num “Mestre das Letras”, ao retornar à sua Desterro em 1881 e tornar-se amigo e empreendedor literário, em parceria com João da Cruz e Sousa. Os dois passaram a editar, em sociedade, os “jornaizinhos” Colombo e Tribuna Popular, baluartes da causa abolicionista.

Dono de uma obra imortal, Traços Azuis (1884, poesia), Tropos e Fantasias (prosa, 1885, com Cruz e Sousa), O Brigue Flibusteiro e Os Argonautas (contos, 1904 e 1909), entre outros textos relevantes, Virgílio Várzea deixou de presente para a Ilha de Santa Catarina uma espécie de memorial descritivo, em que o escritor “pincela” as praias, as enseadas, os promontórios, as freguesias e as lagoas, os altiplanos e os baixios – num livro que é, ao mesmo tempo, um “quadro” e uma “carta”, num estilo que se poderia caracterizar como “prosa-pictórica”.

Em 1900, aos 37 anos, Virgílio Várzea “pinta” A Ilha com aquele amor dos que a tiveram por berço e âncora – despido da habitual modéstia dos seus nativos:

– Poucos lugares do globo possuirão praias tão bonitas e de um desenho mais interessante e caprichoso como os da costa catarinense – preliba, antes de seu hino de amor à Ilha.

Majestade e grandeza viviam na alma de Várzea, amigo dos seus amigos. É ao amigo “marinheiro” que recorre um desesperado Cruz e Sousa, escrevendo-lhe do Rio de Janeiro, onde, em vão, “espera sem fim por acessos na vida, que nunca chegam”.

“Estou profundamente mal, e só tenho a minha família, só te tenho a ti e a tua belíssima família (…) Só dessa linda falange de afeições me aflige estar longe, e por isso morro, sim, de saudades.”

O sufocado verão que se instalou na Ilha, nestes primeiros dias de janeiro, homenageia, apesar das carrancas da natureza, o magnífico aquarelista, de alma marinheira e caráter nobre, destituído de qualquer salitre.

Virgílio Várzea, o marinheiro que escrevia com um “pincel” na mão.

O CARA É UM “BANANA” por alceu sperança / cascavel.pr

Ele fica soltando foguetes quando inaugura pela milésima vez a mesma obra e manda tirar fotos para o próprio álbum.

Lembra-se de quando foi feliz: na campanha eleitoral, quando “ganhou”. Orgulha-se de fazer de conta que faz alguma coisa.

Fez, pois não mandou fazer? Não gostou da cor. Claro, quem é o sobrinho da loja de tinta? Mandou pintar. Quem é o sócio da loja de ferragens? Mandou desferrar, e ferre-se quem não gostar.

Vereador? Deve ter algum… Talvez um ou outro. Votos vencidos, e, aliás, muito vencidos e meio quietos.

Ele mandou, ordenou raspar aqui ou ali, pintar o descascado. Está feito, publique-se.

Lança mão de todos os artifícios para dar publicidade não ao que fez, porque nada fez. Não ao que gastou, porque foi você quem gastou.

Ele dá publicidade a si mesmo. Não à obra ou a você, que gastou nela.

Esse é o prefeito, o governador, o presidente. Claro, o prefeito incompetente, o governador relapso, o presidente igualitário – igual aos anteriores.

Gente séria precisaria gastar dinheiro do povo à toa, para prover/promover a si mesmo?

Manter em operação, funcionamento, pagar servidor ou dar uma pinturinha numa obra deveria ser um dever tão óbvio quanto respirar.

Prefeito que inaugura “revitalização” deveria levar um puxão de orelhas dos próprios filhos. Como eles hoje ainda não podem puxar, puxemos nós.

Assim, quando um prefeito “revitalizar” alguma obra e inaugurar a revitalização, ou revitalizar a inauguração, diga aos filhos dele que merece um puxão de orelhas.

Eles puxarão. Um dia puxarão.

Ele que revitalize as orelhas puxadas.

É um banana. Um dia será descascado.

As bananas e os bananas anteriores foram todos descascados, não foram?