UM POUCO DE SILÊNCIO de lya luft / porto alegre


Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho,
gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar,
ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos
uma infinidade de obrigações.

Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas
que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora
da ciranda: os que não se submetem mas questionam,
os que pagam o preço de sua relativa autonomia,
os que não se deixam escravizar, pelo menos sem
alguma resistência.

O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado.

É indispensável circular, estar enturmado.

Quem não corre com a manada praticamente nem existe,
se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho.

Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião
alheia, disparamos sem rumo – ou em trilhas determinadas
feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença.

Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça
quem leva um susto cada vez que examina sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que
não se arrumou ninguém – como se amizade ou amor se
‘arrumasse’ em loja.

Com relação a homem pode até ser libertário: enfim só,
ninguém pendurado nele controlando, cobrando, chateando.

Enfim, livre!

Mulher, não. Se está só, em nossa mente preconceituosa
é sempre porque está abandonada: ninguém a quer
.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude.

Logo pensamos em depressão: quem sabe terapia
e antidepressivo?

Criança que não brinca ou salta nem participa de
atividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós.

Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas
pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas,
ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos.

Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas
atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar,
praia ou campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado,
algo além desse que paga contas, transa, ganha dinheiro,
e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!)
vai morrer.

Quem é esse que afinal sou eu?

Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?

No susto que essa idéia provoca, queremos ruído, ruídos.

Chegamos em casa e ligamos a televisão antes
de largar a bolsa ou pasta.

Não é para assistir a um programa: é pela distração.

Mas, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego,
descobre – em si e no outro – regiões nem imaginadas,
questões fascinantes e não necessariamente ruins.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou
a mão no meu ombro de criança e disse:
– Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo.

A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz
para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases,
às tarefas, aos amores.

Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom
para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes,
e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos
e da música de todos os sentimentos.

Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo
à tona sabe Deus que desconserto nosso.

Com medo de ver quem – ou o que – somos, adia-se
o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

Boa Semana, em silêncio sim, por quê não?

Uma resposta

  1. Meu caro poeta,
    É inegável que teu belo poema reflete à realidade de nossa atual e conturbada civilização. Contudo se buscarmos nas maravilhosas e antigas bibliotecas, podemos encontrar uma solução para este moderno e sério dissabor, exemplo: A Vida Retirada – Sêneca.
    Com apreço,
    Hunaldo

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