Arquivos Diários: 27 janeiro, 2010

ISTO É UM HAICAI? por zuleika dos reis / são paulo

ISTO É UM HAICAI?

Os anões de pedra,

ciranda abraçando as águas.

Canta o chafariz.


I

A questão que me coloco, a partir dos princípios do Grêmio Haicai Ipê, ao qual pertenço, é a seguinte: Isto é um haicai?

O Grêmio Haicai Ipê, nascido em 1987 e tendo como seu principal co fundador o Professor H. Masuda Goga, procura seguir os princípios inaugurados a partir do trabalho de Matsuo Bashô (Japão : 1644-1694) os quais estabelecem que:

1. O haicai deve transcrever, o mais fielmente possível, uma imagem da natureza, natureza cujos aspectos mudam o tempo todo obedecendo, não obstante, ao ciclo das estações.

2. Cada haicai deve conter um “kigo”, como é chamado o termo da estação. Exemplo: “Paineira”, kigo de outono, porque as paineiras florescem no outono; “chuva de granizo”, kigo de verão, porque é quando tais chuvas ocorrem (abstraindo-se a presença das mudanças climáticas, originadas pelas ações do homem, que vêm alterando aspectos  dos ciclos vitais); “cartão de Natal”, chamado kigo vivencial porque se refere a eventos sociais específicos ( nesse caso também kigo de verão), e assim por diante.

3. O haicai deve, preferencialmente, ater-se à tradição métrica 5/7/5.

4. O haicai deve prender-se ao momento presente, à descrição o mais objetiva possível do  fenômeno observado, evitando considerações explícitas de natureza filosófica, emocionais do “eu” poético, etcétera.

Evidentemente, estes princípios não esgotam os preconizados pelo Grêmio Haicai Ipê, embora sejam, talvez, os mais importantes para os que praticam o haicai  segundo a “filosofia” desta escola.

Devo deixar claro que, embora seguindo os princípios de determinada práxis haicaística, não me considero no direito de julgar do valor do trabalho dos que pertencem a outras escolas. Na história do haicai brasileiro, o poeta Guilherme de Almeida criou uma tradição poderosa que exerce, ainda hoje, bastante influência  (o uso da rima, por exemplo, pertence a esta tradição). Muitos outros poetas brasileiros utilizaram e utilizam o haicai como forma de expressão e cada um deles acaba por influenciar a práxis de outros: assim Leminski, assim Millôr, para citar apenas dois. Há poetas que intitulam seus haicais, outros tantos falam da natureza em geral, sem especificar o termo da estação;  há os que não consideram fundamental o rigor no uso da métrica…, e se multiplicam as abordagens de tão breve forma poética.

II

CONSIDERAÇÕES SOBRE ISTO É UM HAICAI?

O poema que encabeça este artigo pode ser considerado um haicai?

A favor desta hipótese:

– Segue a métrica 5/7/5.

– Tem o kigo da estação = chafariz (fonte luminosa)= kigo vivenvial [ relacionado a experiências sociais ligadas a objeto fabricado pelo homem, objeto que abriga  elemento da natureza (água)].

No entanto, esse terceto não surgiu  de uma observação imediata da natureza, nasceu de imagem retirada de um romance, o CIRANDA DE PEDRA, de Lygia Fagundes Telles. A autora descreve um chafariz “abraçado” por anões de pedra, imagem que dá origem ao título do romance.

Estamos diante de uma observação indireta, “terceirizada” da natureza. Em defesa do meu poemeto enquanto haicai posso indagar: Não ocorre o mesmo quando se faz um haicai a partir de uma fotografia? Alguns ou muitos dirão: Não, não ocorre o mesmo: a fotografia é uma representação icônica de elemento ou de cena da natureza; no presente caso trata-se do aproveitamento de uma descrição verbal ( da imagem de um chafariz) que, talvez, jamais tenha existido para além do romance em que aparece descrito.

Finalizando: Eis uma questão aberta, para mim. Houvesse menos lacunas neste pequeno artigo ( ou ensaio, como prefiram), haveria mais elementos para a ampliação de possibilidades de respostas.

III

Os anões de pedra,

ciranda abraçando as águas.

Canta o chafariz.

ISTO É UM HAICAI?

(*) Peço desculpas: deveria ter escrito haikai, para seguir a nova norma ortográfica que estabelece a volta do k à ortografia oficial do português. Por idiossincrasia, rebeldia ou porque o pessoal do Grêmio ainda não aderiu oficialmente à nova norma, mantive a grafia  “haicai”,  utilizada tradicionalmente no Brasil.

Zuleika dos Reis

Papa João Paulo II se flagelava com frequência, diz livro de monsenhor / roma.it


Pontífice teria assinado termo prometendo deixar cargo se ficasse doente.
Revelações estão no livro do padre que cuida do processo de canonização.

O papa João Paulo II se flagelava regularmente para imitar o sofrimento de Cristo e teria assinado um documento secreto comprometendo-se a renunciar ao pontificado, em lugar de ocupá-lo de modo vitalício, se ficasse incuravelmente doente. As revelações estão contidas em um livro recém-lançado.

O livro, intitulado “Why a Saint?” (Por que um santo?), foi escrito pelo monsenhor polonês Slawomir Oder, o funcionário do Vaticano encarregado do processo que pode levar à canonização de João Paulo, e inclui alguns documentos inéditos.

O Papa João Paulo II, em imagem de 2005 (Foto: Reuters)

João Paulo II morreu em 2005 e esteve doente, passando por sofrimento físico, durante vários momentos de seu pontificado. Ele foi baleado e quase morto em 1981, foi submetido a várias cirurgias, incluindo uma devida a um câncer, e sofreu da doença de Parkinson por mais de uma década.

Lançado nesta terça-feira (26), o livro revela que, mesmo quando não estava doente, João Paulo se flagelava, algo que no cristianismo é conhecido como mortificação, para sentir-se mais próximo de Deus.

“Tanto em Cracóvia como no Vaticano, Karol Wojtyla se flagelava”, escreve Oder no livro, citando depoimentos de pessoas do círculo mais próximo de João Paulo na época em que ainda era bispo em seu país de origem, a Polônia, e depois de ser eleito papa, em 1978.

“Em seu armário, em meio a suas vestimentas, um tipo especial de cinto ficava pendurado num cabide, e ele o usava como açoite”, escreve Oder.

Ainda segundo o autor, quando era bispo na Polônia João Paulo frequentemente dormia no chão duro para praticar o asceticismo.

Muitos santos da Igreja Católica, incluindo São Francisco de Assis, Santa Catarina de Siena e Santo Inácio de Loyola, praticavam a flagelação e o asceticismo como parte de sua vida espiritual.

O livro também confirma que, quando sua saúde ficou fragilizada, João Paulo redigiu um documento para seus assessores afirmando que renunciaria ao pontificado se ficasse incuravelmente doente ou permanentemente incapacitado de cumprir seus deveres de papa.

Ele assinou o documento em 15 de fevereiro de 1989, oito anos após o atentado fracassado contra sua vida. A existência do documento foi motivo de muitos rumores e relatos ao longo dos anos, mas o texto foi publicado na íntegra no livro, pela primeira vez.

No final, o papa decidiu permanecer em sua função até sua morte, dizendo que isso era para o bem da Igreja. Se tivesse renunciado, teria sido o primeiro pontífice católico a fazê-lo por vontade própria desde 1294.

João Paulo chegou mais perto da canonização no mês passado, quando o papa Bento aprovou um decreto reconhecendo que seu predecessor viveu a fé cristã heroicamente. Foi um dos passos chaves no procedimento pelo qual a Igreja reconhece seus santos.

O próximo passo será o reconhecimento de um milagre atribuído a João Paulo. O milagre envolve uma freira francesa que foi inexplicavelmente curada do mal de Parkinson depois de fazer uma oração para o papa.

Depois de o Vaticano reconhecer o acontecimento como milagre, João Paulo poderá ser beatificado. A beatificação é o último passo antes da canonização.

Da Reuters.

RÁDIOCAOS: TAVINHO PAES e BETINA KOPP em curitiba