Arquivos Diários: 28 janeiro, 2010

CLETO DE ASSIS e “PILOTO DE BERNUNÇA” / curitiba

Saudade no papo da Bernunça

No segundo dia do ano ainda recebi presente de Natal. Quando visitei o bom amigo J. B. Vidal no seu recanto sempre acolhedor, lá nos Ingleses da ilha do Desterro, ganhei dele um livro autografado pelo autor, com um nome incomum: Piloto de Bernunça.

Para quem não sabe, a Bernunça ou Bernúncia é um dos bonecos do auto popular do Boi de Mamão, a versão catarina do Bumba-meu-boi nordestino. Ela tem uma cabeça enorme, lembra um dragão, na sua simplicidade artesanal, e engole gente à medida que a dança vai se desenrolando.

No primeiro momento, pensei que se tratava de um estudo folclórico, mas ao folheá-lo percebi logo ser de uma coletânea de crônicas, assinada por um consagrado escritor catarinense, Sérgio da Costa Ramos, e ilustrada pelo nosso querido amigo Dante Mendonça, em edição realizada pelo Vinicius Alves. Como férias convidam ao descanso acompanhado de bons livros, deixei de lado os que havia levado a Floripa e iniciei a leitura do livro de Sérgio.

Eu estava em uma casa na praia do Meio, em Coqueiros, exatamente a região que abrigou parte de minha infância e foi emocionante percorrer o passado descrito nas crônicas e relembrar personagens ilhéus que também conheci na década de 50, quando retornei a Florianópolis para estudar no Colégio Dias Velho. Quase no final do livro, encontrei a crônica Coqueiros era assim. Lembro de Coqueiros apenas como uma faixa de praias coleando os morros ao fundo, estes com poucas residências e misteriosas furnas formadas por superposição de pedras enormes, local constante das brincadeiras de meninos. As praias, naquela época, eram limpíssimas e, sem os ventos do Sul, eram piscinas espelhadas para onde vinha boa parte da população da ilha, uma vez que os balneários hoje badalados não eram facilmente acessíveis. A praia da Saudade era o point dos mais jovens. Nada de asfalto, com o lembra Sérgio: “O ‘gostosão’ – frente embutida e motor ‘pra dentro’ – subia a Filipe Schimidt, a rapaziada em pé no corredor, recendendo a óleo dos bronzeadores, resposta ao Verão que chegava. O trajeto incluía passagem sobre o assoalho de taboas da ponte – e, depois, sob a sua estrutura, na estrada de terra que serpeava até o aclive da igrejinha, ponto em que o ônibus ‘esvaziava’, bem em frente ao Praia Clube”.

Foi esse um dos cenários de minha infância. O Praia Clube era uma sede praieira do Clube 12, se não me engano, e era o último edifício do lado norte. À sua frente, ficou em construção, por vários anos, a base de um trampolim. Na pequena elevação a seu lado ficava a residência do polêmico jornalista Manoel de Menezes, pai do também jornalista Cacau Menezes (que não deve lembrar, certamente, pois era bem pequeno, mas chegamos a brincar juntos muitas vezes, com suas irmãs Kátia e Mirela).

Apenas um reparo: a igrejinha a que se refere Sérgio ainda não havia sido promovida a tanto. Era simplesmente a Capela e dava nome para a região, como um subdistrito de Coqueiros. Que começava no Saco da Lama, logo após um prédio da Marinha, passava pela Palhocinha, chegava à Capela, descia para a praia da Saudade, seguia até a praia do Meio, depois Itaguaçu – a bela Itaguaçu semeada de pedras, onde também havia uma pequena capela – e, morro acima, ia até a praia do Bom Abrigo, escondida ao pé do morro. Dali em diante era território estrangeiro, que só podia ser penetrado em companhia dos pais. Se fôssemos adiante, passaríamos pelo Abrahão e seguiríamos até São José e Palhoça. Mas isso já era viagem intermunicipal. O ônibus de Coqueiros só chegava até o Bom Abrigo.

Eu morei em Coqueiros (onde nasceu minha mãe) em duas épocas distintas. A primeira, na praia da Saudade, lado sul. Era só atravessar a rua e estava de cara com o mar. Menino criado no frio da serra catarinense, eu não respeitava nem o vento Sul do inverno e causavam espanto nos vizinhos os meus banhos malucos, eu sozinho na praia para aproveitar as ondas maiores, ainda pequenas em relação às do “mar grosso”, como contavam meus pais.

Obrigado, Sérgio, por essa viagem a um passado onde, como disse mestre Ataulfo, a gente era feliz e nem sabia.

Mas seu livro também me premiou com passagens gostosíssimas, como na crônica sobre o “espírito galhofeiro” do florianopolitano, sem perder oportunidade para tascar um apelido em todo mundo, sempre aproveitando características invulgares da vítima. Lá assisti a desafios de apelidos, nos quais os dois contendores trocavam “elogios” mútuos, para fazer gargalhar a platéia improvisada. Ato que só terminava quando a genitora de um dos apelidantes era subitamente lembrada e a brincadeira corria o risco de acabar em briga.

Na ilha nada escapava a esse humor espontâneo. Sérgio lembrou que o assoalho da ponte Hercílio Luz era pavimentado por grossas tábuas de madeira. Creio que o piso foi uma das únicas contribuições materiais brasileiras na construção da ponte, inaugurada em 1926, pois toda a sua estrutura foi fabricada nos EUA e de lá trazida pelos engenheiros projetistas. O assoalho tinha que ser consertado periodicamente, em razão do tráfego já mais pesado, naquela época. Em uma dessas reformas (creio até ter sido a primeira tentativa de asfaltar a pista de rolagem), quase na cabeceira da ponte, chegando à ilha, formou-se um degrau de dez ou quinze centímetros, que ali permaneceu por muito tempo, pois as obras foram paralisadas, talvez por falta de verba. Os veículos eram obrigados a dar uma paradinha e, em primeira marcha, descer vagarosamente o degrau, como hoje se faz nas lombadas rodoviárias. Mas os ônibus, bem mais pesados, não podiam evitar o salto, que sacudia todos os passageiros. Não era raro formar-se um coro de vozes para acompanhar o rotineiro evento e o humor logo deu nome ao degrau: era o “soluço da ponte”…

Também me lembro de outros apelidos engraçados. Um rapaz que tinha o rosto provavelmente marcado por crateras herdadas de uma catapora, recebeu rapidamente o apelido de “areia mijada”. E outro, com um problema nos olhos que o obrigava a manter um dos dois semicerrado, ficou conhecido como “olho de espiar garrafa”.

Ah, linda Florianópolis, onde ficaram meus passos de guri e por onde passeio a minha saudade, de quando em quando. Saudade adoçada por Sérgio da Costa Ramos e suas crônicas, bom presente de Vidal neste começo de ano.

MAESTRO WALTEL BRANCO “O SHOW”

Dia 3 de fevereiro, sobem ao palco do Espaço Santander, em Porto Alegre, Waltel Branco, Cláudio Menandro, Paulo Porto Alegre (violonista erudito de São Paulo) e Ulisses Rocha. Um recital inteiro, apenas com músicas do parnanguara Waltel.

Este mesmo show deve ir a Curitiba apenas em novembro, com os quatro violonistas, mais o paranaense Mário da Silva. Aqui serão três apresentações no Teatro da Caixa (projeto foi aprovado em edital da Caixa Cultural). A produção é deAlvaro Colaço, que já promoveu, em 2008, o lançamento de um livro de partituras com composições de Waltel.

A Caixa Cultural também garantiu o patrocínio ao projeto de CD de Waltel Branco, aprovado pela Lei Municipal, e que conta com 18 violonistas e um quarteto tocando as músicas dele. O time é composto por (ordem alfabética): Alisson Alípio, André Prodóssimo, Cláudio Menandro, Eva Fampas, Ezequiel Piaz, Fabiano Zanin, Fabrício Mattos, Guinga, Hestevan Prado, Israel Bueno, João Egashira, Luiz Cláudio Ribas Ferreira, Marcello Guima, Marco Pereira, Mário da Silva, Paulo Bellinati, Quarteto Maogani, Ulisses Rocha e Waltel Branco.

As gravações começam em março, no Estúdio Trilhas Urbanas. O disco terá 2 mil exemplares. Produção de Alvaro Colaço, fotos de Gilson Camargo e direção de arte de Adalberto Camargo.

SOBRE O LULA: “Em carta ao ‘NYT’, Lurian rebate críticas ao filme sobre o pai” / florianópolis

Lurian Cordeiro da Silva, filha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, rebateu, em carta ao jornal americano “The New York Times”, as críticas ao filme “Lula, o filho do Brasil”, publicadas no dia 11 de janeiro.

De acordo com o “NYT”, o filme falha ao não mencionar que Lula abandonou sua namorada, Miriam Cordeiro, mãe de Lurian, aos seis meses de gravidez.

“Primeiro, minha mãe não foi ‘abandonada’. Apesar do fim do relacionamento com meu pai, ele pagou todas as despesas médicas, incluindo pré-natal e o parto. Ele também me registrou no mesmo dia em que nasci. Isso não se encaixa no perfil de alguém que abandona mulheres grávidas”, diz Lurian, na carta.

Ainda de acordo com o “NYT”, a produtora do filme, Paula Barreto, disse que não incluiu o episódio por a família de Miriam Cordeiro teria ameaçado entrar com uma ação na Justiça.

Lurian argumenta, no entanto, que nenhum dos outros filhos de Lula aparece no filme.

“Por que eu deveria (aparecer)? Se o filme é sobre a trajetória do meu pai, um imigrante pobre que se torna líder sindical, onde eu e meus irmãos nos encaixamos?”, questiona.

Na carta, ela diz ainda que adorou o filme.

“Apenas fortaleceu minha admiração por esse homem, que não é somente meu pai, mas um líder mundial, simbolizando o ‘homem comum’.