Arquivos Diários: 29 janeiro, 2010

UM a ZERO por charles silva / florianópolis

Atravessou a sala da emergência do hospital e, desesperado, invadiu o consultório médico:

– Doutor, me ajude, tem um gol dentro de mim!

– Como é que é?!

– Um gol, doutor, um gol!

– Você engoliu uma bola, foi isso?

– Não, doutor, é um golaço, daqueles de placa!

– Você engoliu um rádio?

– Por favor, doutor, me ajude!!!

– Só posso ajudar depois que você disser o que está sentindo!

– Eu sinto o Maracanã de pé! Foi gol, doutor, foi gol!

– Olhe, você só pode estar de brincadeira. Por favor, retire-se imediatamente do meu consultório!

– Não, doutor, eu preciso muito da sua ajuda! Isso já dura uma eternidade! Vou acabar enlouquecendo com essa narração absurda! O senhor precisa fazer alguma coisa!

– Narração?

– Do gol, doutor.

– E quem está narrando, Luciano do Valle ou Galvão Bueno?

– Galvão.

O velho médico recordou as tardes de domingo diante da TV Globo, onde um gol narrado por Galvão parecia valer, no mínimo, o dobro. Não importava se o gol fosse para esse ou aquele time, se fosse legal ou não. A emoção do locutor dava-se do mesmo jeito: “Goooooooooollllllllll!!!!!!!!!! É do….” Rubro-negro, o grito de Galvão era, para os flamenguistas, a música que guardava o sol carioca nas redes crepusculares daquelas tardes. Enternecido pela lembrança, o doutor disse:

– Sente-se ali, por favor. Deixe-me auscultá-lo… Sabe quem joga?

– FlaFlu

– E você é…

– Flamengo, lógico!

– Respire fundo… Segure… Solte. Mais uma vez, bem fundo. Segure… Solte… ai, ai, ai!

– ?!

– Ih…

– O que foi, doutor?

– Essa, não! Aí é dose!

– Que cara é essa, doutor?! O que está acontecendo?!

– Pênalti para o Fluminense…

– Ah, não, essa não!!!

– E ainda expulsou dois do Flamengo…

– Ladrão! Juiz filho da mãe! Só assim mesmo, para o Fluminense ganhar! Só comprando o juiz e os bandeirinhas! E quem é que vai bater?

– Fred.

– Vai errar.

– Arrumou a bola com carinho, olhou pro goleiro, Atenção!… Correu, bateu…

Não foi possível saber o resultado, pois o homem chegou como o vento e saiu como um raio. Algumas horas depois, o estranho paciente irrompeu no consultório médico outra vez, olheiras profundas, olhos esbugalhados, visivelmente perturbado. O médico, que não havia cobrado pela consulta anterior, perguntou com cara de poucos amigos:

– O que foi dessa vez?

– Doutor, me ajude, tem uma trave dentro de mim!