DE JEITO… por omar de la roca / são paulo

Puxei o cordão, e a cortina se abriu. Havia paisagem atrás.Mas o dia estava encoberto e eu prestei mais atenção ao céu chuvoso do que as arvores e as flores.Fechei as cortinas como se isso fosse afastar as nuvens carregadas.Olhei para a cama,para o corpo que ainda  sonhava.Me deitei com cuidado puxando as cobertas devagar.Não que estivesse frio,mas
como se me escondendo daquele tempo encoberto.Ela se virou,abriu os olhos brilhantes,e
tornou a fechá-los.Aconcheguei-me e ela passou o braço por cima do meu peito.Me dificultava um pouco a respiração mas eu não queria perder o momento mágico daquele toque.Mas precisei tira-lo e usei como desculpa afagos e beijos percorrendo-o.Ela resmungou qualquer coisa e se virou.
Encostei meu corpo no dela e comecei a falar baixinho sobre chuvas que teimavam em cair
quando precisávamos de sol.De trovões assustadores em lugar da respiração das ondas do mar.
Falei de luzes fortes,de chuvas cortantes,de brisas e garoa fina.E ela fingia que não ouvia.
Meu dedo percorria agora as costas dela,sem pressa,sem cócegas.E quando ameaçava descer até as profundezas insondáveis,apertava seu corpo contra o colchão,impedindo a passagem.
Parei e comecei a falar que queria deitar me com ela num campo florido,num vale iluminado onde a claridade penetrasse fundo na escuridão dos cantos escondidos. Incendiando pétalas, abrasando pedras, fervendo o lago. Mas logo lembrei me da chuva,e tudo tomou tons de cinza.
Mas ela dormia agora.Que bom,pensei,pelo menos não ouviu sobre o cinzento.Ai disse a ela que queria tomá-la numa praia deserta,de areias brancas.Onde o ritmo das ondas quebrando se confundia com o ritmo de nossos corpos procurando dançar juntos.E depois que a bussola parasse de rodar,orientada, nos deitaríamos olhando as gaivotas passando rápido,as palmeiras agitadas pelo vento contando novidades que dele ouviam.Mas o vento também trouxe uma nuvem,e precisamos nos cobrir de frio.Agora ela sonhava e se agitava.
Deitei-me com os braços ao longo do corpo.E ela,como sentindo falta da conversa,do aconchego,acordou.
Fingi que dormia,mas ela sempre sabia pela minha respiração.E começou e brincar comigo,me apertando o nariz,de leve,por saber que eu não gosto.E descobriu meu pescoço e peito querendo brincar com meus pelos.E eu fingia dormir.Quando ela me descobriu mais,fingi estar irritado e peguei a mão dela,afastando-a de mim.Mas era só brincadeira,eu queria mesmo que ela me tocasse, olhasse nos meus olhos.E segurei sua mão com mais jeito,fazendo-a percorrer as trilhas obscuras.Logo ela se chegou da maneira certa,fez o movimento certo,colou-se a mim e assim ficamos.Contei de novo a ela as estórias de praias distantes,ilhas perdidas em oceanos perdidos,chuvas invertidas,perolas roubadas,trovões silenciosos,conchas brancas e coloridas,pedras que se soltavam fácil do chão.cavalos correndo a beira mar,pássaros voando sem tiras prendendo as patinhas,folhas verdes e acobreadas,flores brancas que se abriam quando passávamos.Mas tudo isso em uma palavra,num gesto,num olhar,que o movimento exigia silencio e concentração.Ate a palavra final.

Uma resposta

  1. Sim, mais um texto com a textura mais do que sensível e sutil do teu erotismo, meu querido amigo Omar. Não são muitos os que falam do desejo e do corpo como tu falas.
    Beijo da amiga
    Eva do Vale.

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