O Anão da Catedral – por tonicato miranda / curitiba

NÃO SABE DIZER QUANDO TUDO COMEÇOU, mas lembra que aquela idéia lhe ocorreu numa tarde ensolarada, dois anos atrás. Como uma sezão incontrolável, a idéia brotou na cachimônia, criou corpo, enraizou-se, tomando conta da sua vontade. Era preciso levá-la até o fim. E ele assim o fez.

Tinha algo a ver com sua estatura e as pontadas sarcásticas que lhe dirigiam as pessoas. Agora que a idéia virara realidade sentia-se bem; vivia um sentimento de vingança aprazível e um ar superior. Apalpava o próprio fêmur e sentia que crescia, junto com toda sua espinha dorsal. Imaginava-se com dois metros de altura, até mais. Talvez quinze; não poderia dizer ao certo.

Quando aquela idéia lhe tomou de assalto ainda tinha vergonha de seus cento e dez centímetros de altura. A idéia era simples. Ao olhar a primeira vez lá para o alto viu que os anjos que ali estavam deveriam ter sua altura. Tudo estava ligado a esta breve constatação.

No dia seguinte, como mais um, atravessou a praça, cruzou a rua em miúdos passos, entrou na Catedral. Dissimulando mesmo sem precisar procurou observar a arquitetura interna do templo, os desvãos da nave da igreja, na busca de detalhes e de uma escada para o alto. Cruzou a passarela situada em frente à imagem do Cristo ao fundo, benzeu-se, realizando breve genuflexão com seu joelho esquerdo, caminhando em seguida até o canto direito da igreja.

Esteve por menos de uma hora ali dentro. Às seis da tarde voltou. Pôde perceber que a catedral cerrava suas portas às dezenove horas. Saiu dali, passou numa papelaria do outro lado da rua, comprou uma agenda. Durante duas semanas anotou cuidadosamente todos os hábitos dos fiéis, do pároco, dos mendigos e de todos que penetravam regularmente naquela Casa do Senhor.

Com um amigo artista plástico que trabalhava no Solar do Barão, espaço cultural de formação e exposição de trabalhos de gravura e artes plásticas de Curitiba, obteve informações sobre como realizar um curso de escultura em pedra. Passou a frequentá-lo.

Em casa ficava horas e horas nu, em frente ao espelho, desenhando-se. Não saberia calcular quanto gastou com papéis e lápis especiais. Embora aquilo estivesse lapidando-lhe o parco salário, não havia mais como abandonar a idéia.

O primeiro molde, após a conclusão do curso de escultura, até que não ficara de todo mal. Via-se que progredira. Não se reprimia. Dizia de si para si que estava realmente ficando bom. Seu quarto há muito já apresentava nova fisionomia: estava uma loucura. Eram papéis e papéis espalhados pelo chão; pregados nas paredes; e até no teto, sobre a cama. O tema, sempre o mesmo: ele. Ele nu, do primeiro ao centésimo décimo centímetro. Junto a tudo isso, pedaços e pedaços de mãos, pernas, meia-bundas, rostos. Eram pedaços de orelhas, narizes etc. Todos esculpidos em barro.

Suas mãos já haviam criado calos e uma decisão tornara-se inadiável: era preciso mudar para uma chácara. Ia começar a fase mais difícil: tinha de fazer uma peça em tamanho natural, e de pedra. Antes, porém, era necessário fotografar o modelo. Isto é, a escultura original.

Assim, um ano e meio após aquela idéia, adentrou a igreja, oito minutos antes de ela fechar, numa tarde cinzenta de Abril, escondendo-se debaixo de uma mesa onde são acesas lamparinas e velas para Nossa Senhora Aparecida. Juntou quatro oratórios em linha, encostou a mesa à parede e aquietou-se. Chegou a rezar uma Ave-Maria, misturando desculpas e pedido de auxílio à sua intenção profana. De onde estava podia perceber parcialmente o movimento no interior do templo e considerava que sua segurança somente estaria afetada se alguém afastasse um dos oratórios. Ficou ali por mais de duas horas.

Caminhando em direção ao altar principal da igreja virou-se e olhou para cima, em direção ao grande órgão lá no alto. Certamente estava ali a passagem para os níveis acima dos balcões da catedral. Voltou a caminhar para a entrada da igreja e tentou abrir uma porta de madeira situada ao lado da imagem da padroeira do país. Estava fechada. Lembrou-se de outro nicho, ao lado da porta onde havia um portão de ferro. Saltou o portão e, diante de uma grande escada de pintor, decidiu escalá-la. Já no alto notou que havia um alçapão no teto. Forçou-o e, sem dificuldade, abriu-o. Ficou de pé no piso do primeiro andar, por trás do grande órgão. Movido pela curiosidade, foi até o parapeito do balcão. Percebeu que alguém caminhava com uma lanterna na passarela central da catedral, lá embaixo. Silenciou os movimentos atrás de três tubos do grande órgão e meia hora mais tarde continuou sua escalada.

Do lado direito da porta de entrada, no que imaginou ser uma das torres da catedral, subiu por uma escada e deparou com uma janela muito comprida. Era ali. Sua certeza jamais lhe havia surgido com tanta força. Destravou a lingueta da fechadura, forçou a janela para o alto e a abriu, descortinando a noite escura e as luzes da rua. Equilibrando-se, caminhou por estreita platibanda ao lado da torre e pulou. Ficou por breves instantes suspenso com as duas mãos segurando o beiral do telhado principal da nave da igreja. Com dificuldade, aprumou-se e subiu as duas pernas no beiral. Refeito do susto, reiniciou a caminhada, desta feita com cuidado de gato. Logo atingiu os ornamentos do frontispício. Preparou sua câmera e o flash; tirou as fotografias. À uma da manhã já estava de volta no interior da catedral. Às seis horas e quarenta e sete minutos saía da igreja feliz e realizado, no rumo do quarto escuro que montara em sua chácara.

Reveladas as fotografias passou a estudá-las com afinco e iniciou a fabricação da sua escultura.

Quarenta dias depois da primeira aventura voltava ele à catedral, carregando numa carroça emprestada ao polaco Stanislaw que morava perto de sua chácara, a escultura de pedra feita à sua imagem e semelhança.

Assim, às três da manhã atravessou toda a extensão da Rua Cruz Machado, indiferente aos olhares das putas que faziam a noite por ali.

Às seis horas e quinze minutos conseguiu colocar sem ser muito observado a sua escultura para o interior da catedral.

Através de artifício semelhante ao da experiência vivida quando fora fotografar a imagem original, escondeu a nova estátua embaixo da mesa situada na frente de Nossa Senhora Aparecida. Saiu da igreja por volta das sete horas, retornando a ela às dezoito e quarenta e quatro minutos. Pretendendo para si melhor sorte do que a vivida anteriormente foi abrigar-se num nicho ao lado esquerdo da entrada da catedral, lá onde tem um vitrô com a imagem de São João Batista. Ficou ali, atrás de uma coluna.

Silenciou por exatas três horas e vinte e sete minutos. Era um fervoroso crente dos horários quebrados. Assim, às vinte horas e doze minutos sacou para fora seu corpo gêmeo, retirando-o de sob a mesa e da companhia dos oratórios. Munido de cordas, pranchas de madeira e de uma roldana, improvisou um andaime e através de subidas e descidas ao alçapão, levantou seu corpo de pedra ao piso dos balcões.

Foi uma tarefa árdua que lhe consumiu quase sete horas de trabalho. No entanto, às cinco e trinta e dois da manhã a nova estátua já ocupava o lugar da antiga escultura. Às seis e quinze o antigo anjo já estava deitado no carroção do polaco, e ele e o cavalo seguiram modorrentos pelas ruas, no rumo da chácara, debaixo de uma garoa fina, inteiramente abençoados.

Agora, lembrando-se daquela aventura, debruçado sobre a janela daquela privilegiada sala de escritório, ali na Praça Tiradentes, encantava-se ao ver as pessoas pararem e sorrirem para as duas estátuas presas no alto da Catedral. Valera à pena tanto esforço. Não ligava mais se o chamavam de tampinha de garrafa. Seu orgulho nu voava por sobre a cidade. Ele era o mais alto entre tantos que cruzavam a praça aos seus pés.

Uma resposta

  1. Tonicato,
    Você é culpado por eu ser confundida com turista na minha propria cidade…. dei de ficar olhando pra Catedral toda vez que passo em frente.
    Abraços

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