Arquivos Mensais: fevereiro \28\UTC 2010

SONHOS DE UM MARINHEIRO SUECO por jorge lescano / são paulo

Bergman contou muito bem como lhe veio o final de um argumento (ou seja, como descobriu o que queria contar):

Primeiro vi quatro mulheres vestidas de branco, sob a luz do alvorecer, em um quarto. Movem-se e se falam ao ouvido, são extremamente misteriosas e eu não consigo entender o que dizem. A cena me persegue durante um ano inteiro. Finalmente, compreendo que as três (sic) mulheres esperam que morra uma quarta, que está no outro quarto. Revezam-se para velá-la.

Trata-se de Gritos e Sussurros. (Schwartz, 26)

A citação consta num artigo sobre a narrativa de Jorge Luis Borges. Vem a calhar, então, a lembrança de El Sueño de Coleridge, em que um palácio é sonhado e construído (de forma fragmentária) em diversos tempos e lugares por diferentes sonhadores e com materiais heterogêneos. A história é assim resumida por Borges:

Un emperador mongol, en el siglo XIII, sueña un palacio y lo edifica conforme la visión; en el siglo XVIII un poeta inglés que no pudo saber que esa fábrica se derivó de un sueño, sueña un poema sobre el palacio. (Borges, 144)

O caso referido por Piglia aproxima Ingmar Bergman de Fernando Pessoa. A cena descrita pelo sueco remete a esta rubrica escrita pelo português algumas décadas antes:

Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.

Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.

É noite e há como que um resto vago de luar. (Pessoa. 441)

É digno de nota o fato de Coleridge sonhar com o palácio depois de ter lido un pasaje de Purchas, que refiere la edificación de un palacio por Kublai Khan. (Borges. p.142)

En una página (do Compendio de Historias de Rashid ed-Din, que data del siglo XIV) se lee:  ‘Al este de Shang-tu, Kublai Khan erigió un palacio, según un plano que había visto en un sueño y que guardaba en la memoria’. (Borges. ibidem)

Apesar do palácio ser da matéria de que são feitos os sonhos, foi revelado através da escrita.

Bergman poderia ter lido O Marinheiro de Fernando Pessoa e tê-lo “esquecido”, conservando a imagem sem a referência literária. Assim, ele vê primeiro quatro mulheres que falam algo que ele não entende, depois três, pois a quarta está à morte, justificando a presença das outras, exatamente como na peça estática do português.

Suspeito que a Borges agradaria mais pensar que Bergman não conhecia a obra de Pessoa. Neste caso, a alma dO Marinheiro sonhado pela Segunda Veladora teria penetrado na alma de Bergman para lhe revelar a cena que lhe deu origem. Menos convincente seria a versão em que o personagem sonhado tivesse criado Bergman para que reproduzisse o momento fundador. Menos convincente, dissemos, não impossível. Todos criamos personagens que por sua qualidade onírica chamamos de ficcionais, por que um destes personagens não poderia criar personagens aos que chamássemos de reais?

Segundo esta alternativa, a equação é a seguinte: Fernando Pessoa imagina a Segunda Veladora que imagina O Marinheiro que imagina sua autobiografia para incluir Bergman, a quem revelará a cena que lhe deu origem para que a conte ao seu modo.

Assim como o palácio de Kublai Khan persiste em ser arquitetura, O Marinheiro persiste em sua natureza literária, pois:

Spinoza entendió que las cosas quieren perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere ser piedra y el tigre tigre. (Borges. p. 347)

O périplo deste sonho sueco-português talvez seja mais breve para oferecer ao leitor contemporâneo uma visão panorâmica do funcionamento do sistema. Atenderia, também, à poética de Borges, que sempre preferiu resenhar romances não escritos a escrever o próprio romance.

Desconfio que este marinheiro não deve ser aquele muito jovem do Nordstjärnan, de Malmö, descartado por Emma Zunz. Sequer o outro, mais baixo do que ela e grosseiro, que sem saber colaborou com a vingança frustrada desta discípula de Sófocles. Com certeza este marinheiro menos que o outro, pois não é improvável que seja finlandês. (Borges. p. 49) Demais, isto aconteceu numa Buenos Aires mítica e O Marinheiro de nossa história faz a rota Lisboa-Estocolmo.

BIBLIOGRAFIA

BORGES, Jorge Luis. Prosa Completa.  Barcelona: Bruguera, 1980, vol. 2.

PESSOA, Fernando. “O Marinheiro” in Obra Poética. R.J.: Aguilar, 1965.

PIGLIA, Ricardo. “Borges: a arte de narrar”. In: Schwartz, Jorge (org.). Borges no Brasil. São Paulo: UNESP, 2001, pp. 17-34.

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Dilma cresce e encosta em Serra na disputa pela Presidência, diz Datafolha


Ministra sobe cinco pontos em cenário com Ciro Gomes (PSB-CE).
Tucano segue na liderança, mas perde vantagem em todos os cenários.

Da Agência Estado

Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (27) mostra queda na diferença entre os pré-candidatos do PSDB, o governador paulista, José Serra, e do PT, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sucessão presidencial.

O levantamento, publicado na edição de domingo pelo jornal Folha de S.Paulo, aponta Serra com 32% das intenções de voto; Dilma Rousseff, com 28%; o deputado federal Ciro Gomes (CE), pré-candidato do PSB, com 12%; e a pré-candidata do PV, senadora Marina Silva (AC), com 8%. Na mostra anterior do Datafolha, divulgada em dezembro de 2009, Serra tinha 37%; Dilma 23%; Ciro 13%; e Marina 8%.
A pesquisa foi realizada entre os dias 24 e 25 de fevereiro. Do total de entrevistados (2.623), 9% disseram que vão votar branco, nulo ou em nenhum dos candidatos e 10% informaram que estão indecisos. O levantamento tem margem de erro de dois pontos porcentuais para mais ou para menos.
A pesquisa também apresentou um cenário sem a presença de Ciro Gomes. Nessa simulação, Serra tem 38%, Dilma vai a 31% e Marina Silva fica com 10% das intenções de voto. Na pesquisa de dezembro de 2009, o tucano tinha 40%, Dilma registrava 31% e Marina tinha 11%.
No cenário de segundo turno, numa eventual disputa entre Serra e Dilma, o tucano lidera com 45% das intenções de voto e a petista aparece com 41%. O levantamento realizado em dezembro apontava Serra com 49% das intenções de voto e Dilma com 34%. Em outro cenário de segundo turno, Dilma vence com 48%, contra 26% de Aécio.

De acordo com o Datafolha, o pré-candidato Serra registra o maior índice de rejeição entre os presidenciáveis, com 25%; seguido de Dilma com 23%; Ciro, com 21%; Aécio, com 20%; e Marina, com 19%.

A pesquisa avaliou também o índice de aprovação do presidente Lula. Na mostra, a aprovação ficou em 73% (de ótimo e bom). Na pesquisa de dezembro, este índice foi de 72%, o mais alto patamar de popularidade apurado pelo Datafolha.

“CARTA MAIOR” DIZ QUE:

As placas tectônicas da disputa presidencial moveram-se no Brasil neste final de fevereiro e um abalo sísmico mais forte que o do Chile atingiu a jugular da coalizão demotucana: Serra tornou-se o candidato mais rejeitado entre todos os presidenciáveis; em menos de 60 dias, sua vantagem sobre Dilma despencou de 14 pontos para apenas 4 pontos; entre o Datafolha de dezembro e o deste final de fevereiro, tucano perdeu cinco pontos; Dilma avançou cinco; uma fatia do eleitorado equivalente a 10 pontos mudou de lado na disputa e a reacomodação não favoreceu o conservadorismo nativo; temporada de inundações em SP lavou o verniz midiático que pintava Serra como estadista aos olhos da classe média; enxurrada revelou um político manhoso, tingido com o papel crepon de bom gestor, à frente de uma administração inepta, imprevidente e manipuladora. Quando o cristal se quebra sob o peso da decepção, fica difícil reverter o plano inclinado dos apoios tradicionais. O ‘estado de catástrofe’ está em curso no interior da coalizão demotucana.Difícil será conter as rachaduras…

(Carta Maior com informações Datafolha; 28-02)

LIBERDADE SEM PREÇO por orlando margarido / berlim

Em apenas 48 horas na metade do mês de fevereiro, dois casos exemplares nas telas mostraram o quanto as circunstâncias fazem a diferença no cinema. Aconteceu nos primeiros dias da 60ª edição da Berlinale, o Festival de Cinema de Berlim, quando dois nomes que reconhecidamente conquistaram o privilégio de fazer o que bem entendem atrás das câmeras exerceram tal direito com resultados diferentes. Na ordem de exibição, primeiro chegou O Escritor Fantasma, o filme de Roman Polanski, sem a presença do diretor, como se sabe detido em seu chalé na Suíça em regime domiciliar. Para compensar, quem sabe, a falta do momento estelar do cineasta franco-polonês, veio, no dia seguinte, um céu de estrelas pronto para os holofotes. Com Martin Scorsese à frente, surgiram seu atual predileto Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley e Michelle Williams, prontos para trocar elogios e demonstrar uma feliz união em torno de Ilha do Medo. Um encontro sem dúvida providencial que nos permite tirar uma lição da condição desses cineastas acima de qualquer suspeita.

Um indício evidente, mas não justificável de todo, é o impacto que ambas as obras e seus realizadores causaram no evento. Enquanto o filme de Polanski respondeu na tela a que veio, sem depender necessariamente da presença de seu autor, o novo Scorsese recorreu ao efeito midiático e à conhecida verve cinéfila do diretor para se impor. Verdade que este corria fora da competição, como geralmente cabe aos que alcançaram o mérito da maestria. Presente em concurso, O Escritor Fantasma sinalizava a intenção da comissão seletiva da Berlinale, depois confirmada com o Urso de Prata de melhor direção, de um desagravo ao encarceramento do realizador. Difícil não fazer a correspondência de um prêmio político, mas há qualidades suficientes no filme para que se justifique por si só.

Não é essa a situação de Scorsese. Sua aparição festejada em Berlim, com entrevistas concorridas e o tapete vermelho que mais frisson provocou, tem no elenco boa parte da razão. Ao cineasta coube discutir cinema, tema no qual é um entendido emérito. Afinal, temos um nome fundador do cinema moderno americano, ao lado de John Cassavetes e Francis Ford Coppola, por exemplo, realizador dos referenciaisTaxi DriverTouro Indomável, que a caminho dos 70 anos tateia nas mais recentes experiências em busca de um filme conjugador de sua independência de criação e do flerte com o grande público. Para tanto, elegeu uma face irregular de interpretação para ser o símbolo dessa ambição na tela. Leonardo DiCaprio, agora na quarta parceria com o diretor, serve à tentativa de resgatar um frescor cinematográfico de fonte geracional. Na conversa entre bons companheiros disfarçada de coletiva de imprensa em Berlim, reconheceram-se influentes um ao outro, com o ator reverenciando o mentor e amigo Marty ao lembrar sessões de seus primeiros filmes antes de conhecê-lo.

Scorsese, por sua vez, diz não imaginar outra face nos últimos anos para seus heróis culpados e em busca de redenção. Escalou DiCaprio para Gangues de Nova YorkO AviadorOs Infiltrados e agora como o investigador federal Teddy Daniels, que segue para a soturna ilha do título, base de um manicômio onde busca pistas do desaparecimento de uma paciente. Conta com um companheiro para a tarefa, interpretado por Mark Ruffalo. A afinidade entre os atores e DiCaprio dá o tom certo, por vezes de profundo desespero, o que evita a total nulidade do personagem. O intrigante, como se verá a partir de 12 de março, quando o filme estreia no País, é que cabe mais a Scorsese a falta de força dessa adaptação do livro de Dennis Lehane (Paciente 67). Mistério opaco, didatismo na explicação das pistas desvendadas uma a uma e um gosto por lançar infinitas armadilhas ao espectador são algumas ocorrências que banalizam Ilha do Medo. Mais compatíveis, por certo, a certo cinema contemporâneo de thriller e não a um trabalho de complexas relações do homem com seu destino a que nos habituou Scorsese.

Verdade que ele pisa aqui no gênero com o qual é menos acostumado. Embora com ambições psicológicas, o novo filme tem aquele tom dos suspenses noir dos anos 50 e 60 vistos avidamente pelo garoto Marty na Nova York em que crescia. Talvez seja possível aproximá-lo, numa curiosa coincidência de títulos, da refilmagem Cabo do Medo, de 1991. Mas aqui temos outro tipo de mente doentia do que nos fala o livro de Lehane, e nesse sentido é interessante a relação feita entre os pacientes da instituição e quem os trata, numa época em que estavam em voga recursos dessa medicina como a lobotomia. É o próprio Scorsese, no entanto, que dá as pistas da origem do seu interesse pela história e a linguagem escolhida para a versão cinematográfica. “O filme representa os meus anos 50. Era o período americano da Guerra Fria, da paranoia, quando havia medo e insegurança”, diz, reafirmando que experimentou tudo isso bem de perto e também no cinema.

O diretor aponta para uma lista infinita de influências que vão do horror de baixo orçamento dos filmes de zumbis à tradição de mestres como John Ford, Orson Welles e William Wyler. Há uma evocação explícita de Vampiro de Almas, clássico B de Don Siegel de 1956. Ainda atribui elementos de inspiração a Nicholas Ray, especialmente Delírio de Loucura, do mesmo ano, e um pacote com LauraFuga do Passado, Crossfire e o documentário Let There Be Light, de John Huston. Não por acaso, exibiu esses cinco últimos títulos ao elenco para conseguir se fazer entender. Uma lição superior de cinefilia, sem dúvida, mas de menos aplicação prática do que poderia se supor de um mestre que não denota o talento de outrora.

Dessa forma, é irônico que tal conjuntura se estabeleça com mais propriedade e conhecimento em O Escritor Fantasma, baseado em romance de Robert Harris. Temos aqui a atmosfera opressiva que Scorsese busca em seu filme por truques por vezes medíocres e Polanski conquista com a desenvoltura das experiências com O Inquilino, por exemplo. Assim como naquele título de 1976, a situação entre o real e o delírio é vista pelos olhos do protagonista, o homem errado no lugar errado. Personagem sem nome no filme, ele é contratado para finalizar as memórias do ex-premier britânico (Pierce Brosnan), depois que o escritor anterior aparece morto. Aos poucos enreda-se numa trama entre o mistério da morte e o envolvimento do político, agora retirado em sua casa num balneário exclusivo americano, com um escândalo de acusação por violar direitos humanos durante a Guerra do Iraque.

Ao demonstrar faro para uma situação de lances atuais e exímia habilidade no ritmo da trama, Polanski ganhou mesmo o beneplácito da coincidência, antes que sua prisão fosse decretada no ano passado. Na trama, o primeiro-ministro, ante a pressão dos problemas, diz que desejaria fazer uma viagem. Sua equipe de advogados, no entanto, o aconselha ir para um país que não mantenha acordo de extradição. Involuntário, quem sabe, o chiste remete à situação do próprio cineasta, exigido pelos Estados Unidos para julgamento por pedofilia. Mas há mais coerência em imaginar um humor negro casual, na medida em que o realizador deu as últimas ordens para montagem e finalização de seu filme por courrier, como lembraram seus produtores em Berlim.

Se a referência cinematográfica recai sobre si mesmo, pois não consta que Polanski tenha o apetite insaciável do colega pelo cinema do passado, este realizador consegue com recursos semelhantes a Ilha do Medo consumar a apreensão do espectador. Seu cenário também é cinza e desolador, e a princípio estamos numa praia frequentada pelos Estados Unidos da tradição e dinheiro. O protagonista, embora no início contrafeito, representa apenas um homem comum que enxerga a possibilidade de angariar sua primeira fortuna por um trabalho e não hesita em cair fora dele quando a situação se mostra insustentável. Mas a ideia de não conseguir pelas circunstâncias faz a trama derivar para a investigação inesperada.

Como comprova o final, talvez não surpreendente para quem conhece os truques do diretor, Polanski tem-se reservado o direito de testar velhas fórmulas que já lhe foram gratas (Chinatown) ou nem tanto (Busca Frenética) com a precaução dos sábios com a idade. Antes de enveredar neste projeto, cancelou outros dois devido à magnitude da produção, sendo o mais comentado a adaptação da saga histórica Pompeia. Scorsese não parece dar sinais da mesma consciência. Um dos factoides disparados pela imprensa em Berlim dava conta de um encontro do cineasta americano com seu colega dinamarquês Lars Von Trier em que este lhe teria proposto uma refilmagem de Taxi Driver. O próprio Scorsese dirigiria, mas baseado em algumas regras misturando ficção e documentário testado por Trier no filmeFive Obstructions, de 2003, em parceria com Jorgen Leth. Nada confirmado pelos protagonistas, exceto o encontro e a certeza de que Scorsese continuará a trilhar caminhos que podem amedrontar sua fiel audiência.

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GRANDE OTELO por hamilton alves / florianópolis

Grande Otelo (ou Mário Prata, como fora registrado quando nasceu) foi dessas pessoas destinadas à glória. Não foi apenas um grande ator, no teatro ou no cinema, mas foi também um grande humorista. Formou com Oscarito uma dupla invencível nesse gênero que, sem dúvida alguma, exige um talento especial.

No cinema, fez vários filmes e em todos sempre se saiu com êxito. Mas marcou definitivamente sua presença na sétima arte fazendo o personagem principal de Macunaíma,  colhido da obra de Mário de Andrade, que, por sua vez, tornou-se um marco da literatura nacional.

Quando Orson Wells veio fazer um filme no Brasil, que acabou, por vários motivos, não dando certo (teve acessos presumidamente de loucura ou de manifestações de alcoolismo), notoriamente quando, hospedado no Copacabana Palace Hotel, o mais grãfino à época do Rio, jogou todos os móveis do quarto em que se hospedara, por manifesto mau gosto, segundo ele, pela janela, caindo dentro da piscina ou muito próximo, Grande Otelo foi sondado para fazer um dos papéis do filme. Orson (comentava-se) encantou-se com Otelo. Esse episódio (o do Hotel), dada a fama de Orson, só rendeu-lhe maior popularidade, pois deve ter alcançado destaque na imprensa mundial.

Tive dois momentos com Otelo. Um, no Rio, quando o encontrei numa das ruas do centro, num momento em que sua fama atingia as culminâncias. Não chegamos a trocar sequer um cumprimento. Nem me aproximei dele para tentar uma abordagem como jornalista profissional que era então.

O outro foi aqui mesmo na Ilha.

Otelo se preparava para entrar num  auditório de estação de rádio, que estava superlotado. Aguardava o sinal de entrada em cena perto de uma escadinha, que dava acesso ao palco.

Otelo não se mostrava bêbado, no sentido de cambalear ou revelar tal tipo de conduta. Mas rescendia a cachaça (ou álcool) por todos os poros.

Nem precisa dizer, foi entrar no palco e a platéia vir literalmente abaixo.

Saiu-se como de rotina: bem.

Encantou o público, como encantaria qualquer platéia.

Era um ator portentoso e versatilíssimo.

IDEOLOGIA e IDIOPATIA por alceu sperança / cascavel.pr

O ex-deputado estadual Edgar Bueno (PDT), hoje novamente prefeito de Cascavel, teve toda a razão em dizer, como disse com vigor na Assembleia Legislativa, que abriu estrada e escola para sem-terra.

Fez muito bem: agiu como agem todos os que cumprem com suas obrigações. Quando ele assumiu, recebeu mais um pedido dentre tantos querendo empregos, cargos, mordomias e as contas pagas: “Pense nos que sofrem”, pedi. Ele, de fato, pensou.

Mas a certa altura do mandato o parlamentar disse acreditar que o pessoal da Via Campesina, em sua luta contra os transgênicos da suíça Syngenta, agia por “ideologia”. Na verdade, é o contrário: são as transnacionais invadindo o Brasil e ameaçando nossas riquezas naturais que agem por ideologia.

A ideologia, hoje, é ardilosa: é um monstro, mas se maquia, mente, seduz. Sua filosofia é o fim da história: “Não adianta você lutar, pois nós já vencemos”. Sua opção preferencial é pela guerra: “Vai lá e atira no teu irmão”. Sua lei é: “Para a estabilidade dos ricos é preciso a instabilidade dos trabalhadores”. Sua religião é o lucro. Seus templos são os bancos. Essa ideologia é o capitalismo em sua etapa superior e atual – o neoliberalismo.

Uma ideologia fracassada, posta de joelhos pela crise das bolhas, mas ainda arrogante e poderosa o suficiente para resistir, mesmo com o mundo se incendiando com protestos na Grécia, em Cuba, na Rússia, na Alemanha. Aliás, onde houver um só ser humano com sangue nas veias, incapaz de suportar mais tanta conversa fiada para sustentar uma formação política, econômica e social amplamente vencida pela própria incompetência em resolver problemas.

Não se trata de uma ideologia idiopática, como dizem os médicos sobre as doenças desconhecidas. É uma doença bem conhecida. São conhecidos seus agentes patogênicos, há um amplo histórico de males, febres, tumores e cancros que ela provoca.

Na face superaquecida do mundo, ela ataca a natureza e os recursos naturais. Aproveita-se da doença para enriquecer as transnacionais do remédio. Financeiriza tudo, gerando a neoescravidão do cartão – o tal “sinal da besta”, o famoso número-senha das tradições religiosas.

Põe a máquina no lugar do homem não para que o homem viva melhor, mas pior. Desemprega na mesma medida em que a tecnologia evolui. Não assiste, antes desespera, aos deslocados de seus postos de trabalho.

Precariza tudo. Instabiliza tudo, a não ser seus ganhos, que disparam, e a exploração, que gera novas modalidades de escravidão. E quando os povos reagem, são acusados de agir “ideologicamente”! Mas a única ideologia que existe é essa aí – o capitalismo.

Por que o PIB do Brasil não pode crescer 7% ao ano, como seria desejável? Porque essa ideologia não deixa. Por que o superávit primário, tentativa de retorno CPMF etc? Para pagar aos banqueiros, sacerdotes máximos dessa ideologia, os juros das dívidas astronômicas, que nós não fizemos.

Por que o Ibama multa e as madeireiras continuam extraindo madeira da Amazônia? Por que as queimadas? Por que a explosão de violência? Por que o trânsito caótico? Pergunte à ideologia. Como não ela não é idiopática, suas origens e malefícios são bem conhecidos.

Claro, idiopatia também quer dizer simpatia por alguma coisa. Só por uma insensata simpatia a essa ideologia pode-se explicar porque ninguém estranha quando fazendeiros matam índios e posseiros, mas é um escarcéu quando um índio resolve pegar num tacape em São Miguel do Iguaçu ou um sem-terra dispara um estilingue no Pará.

Ao contrário de idiopatizar com essa ideologia, é preciso reagir a ela de todas as formas, dizendo que estabilizar o trabalho é mais importante que estabilizar os lucros. Que a função da terra é social. Que o governo é do povo e não das transnacionais e das grandes empresas, dos grandes negociantes locais e estrangeiros. Que sem direitos humanos não há humanidade. Que irmão não deve atirar contra irmão, nem sócio contra sócio, nem trabalhador-segurança em trabalhador-agricultor.

TAKE THE “A” TRAIN – por antonio menezes / são paulo

“Chuffa, chuffa, chuffa. Choo choo. Woo woo.”
Kurt Vonnegut Jr

“Por que os trens do Metrô não podem apitar como as locomotivas a vapor?” pensou Júlia enquanto esperava na plataforma. “Seria divertido”. Sorriu. De qualquer modo, quando se tem dezenove anos, e se está no primeiro ano da faculdade, pode-se perfeitamente pensar tais coisas. Como também esquecer o bilhete magnético nas páginas de um livro. E então ter que comprar outro, e logo reencontrar o primeiro e pensar: “Que tonta que eu sou! Agora tenho o bastante. Que bom!”

Na mesma plataforma, mas pelo menos dez minutos adiantado, estava Fábio. Mais velho, vestia um terno xadrez desalinhado, o jornal tentando escapar da pasta, o guarda-chuva portátil de prontidão. Fábio gostava de jazz e justamente naquele momento recordava uma de suas músicas favoritas: “Take The ‘A’ Train”, de Duke Ellington.

Fábio admirava o Metrô: sua racionalidade concreta de aço escovado; seu elegante e democrático piso de granito polido. Mesmo assim nunca lhe ocorreu associar uma coisa com a outra. Duke Ellington eram as noites de piano solo de sábado e as manhãs de domingo com a orquestra a todo volume; o Metrô era o cotidiano, de segunda a sexta, no que havia de mais imediato e permanente.

Fábio tinha ainda o curioso hábito de evitar as escadas rolantes. Não por medo. Certa vez perguntaram-lhe: “Por quê?” “Não sei. Não se deve evitar esse tipo de esforço”, respondeu. “E pelo menos nisso obedeço à minha cardiologista”, acrescentou. Daí enfrentava com resignação as longas escadarias. “Não sou melhor do que ninguém.” E até gostava desse exercício de paciência na contra-mão de toda pós-modernidade e suas decepções.

Finalmente, o trem chegou e ambos (e todos os demais) embarcaram. Júlia desceu na Sé, enquanto Fábio desceu na Paraíso para seguir até a Consolação. Também poderia ser o contrário (as vantagens da ficção) e os trens do Metrô poderiam de fato apitar como queria Júlia e terem a letra A e Duke Ellington como queria Fábio estar com Júlia. Se ao menos, também ele, pudesse encontrar um bilhete esquecido nas páginas de um livro, como uma flor.

MUDEZ VESTIDA de joanna andrade / miami.usa

Meu corpo inteiro palpita menos o coração

Sangue e’ lagrima corrente

Alma e’ vestido branco

O mundo cheio de pegadas

Eu o caminho zerado

Meu corpo inteiro sente menos a dor

A agulha tatoo  cócegas

Que até o retrato se rasga de rir

Nesta terra de palmeiras  minha sabedoria fica ao chão

Meu corpo inteiro menos da boca para fora reclama

Joga as cartas da manga a paciência  em mudez vestida

As  cifras dos olhos alheios regulam minhas imposições

Os labios se colaram com as bobagens ejaculadas

Meu corpo stainless steel reflete a polidez de uma alma vaga nada mais……………destituo-me.

VENDO a BRIGADA STEGOMYA – por lima barreto*

No Brasil tudo é grande, assegurava Tobias Barreto, exceto o homem, o que ele corroborava com a imagem feliz que bem parecíamos um moço com cabelos brancos. Fora verdade o que sentenciara o tudesco da Escada.

Tudo definha sob o nosso céu de fogo: as auras embalsamadas das florestas parecem trazer sobre as nossas cidades o letárgico veneno da mancenilha; os eflúvios ardentes do nosso sol derramam sobre nós o princípio entorpecedor do ópio; a natureza esmaga-nos – pensamento e corpo.

Que são entre nós as grandes instituições dos Argus?

A filosofia – um bimbalhar de frases ocas e campanudas ou um citar pasmoso de autores estrangeiros de quarta ordem.

A nossa literatura e arte são planetas mortos que gravitam para intermitentes e variáveis sões da estranja.

A política resume-se num descaroçar de atas falsas, na expressão de um profissional, ou numa discurseira vazia de inteligência mas cheia de palavrões e sentenças acacianas.

As grandes obras do pensamento humano, chindo nos nossos intelectos, não proliferam em outros maiores – estiolam-se: o Plutarco, por exemplo, foi lido pelo Sr. Pelino Guedes para afirmar que “a biografia é a história da vida de um homem” ou que “a idéia de Deus não é incompatível com o amor à pátria”; o que dá padrão para imaginarmos o que dirá ele se conseguir por milagre ler a Crítica da razão pura ou a Política de Aristóteles.

Somos uma gente que definha e decresce como aquele cadáver conservado à Índia, que vai, com o tempo, diminuindo, encarquilhando até ficar reduzido a proporções diminutas…

E vieram-me vindo essas idéias, ao ver nas ruas, às calhas trepadas, os rodamentos da Diretoria de Saúde.

Tinham todos o ar galhardo de campeões em batalha; nas suas faces havia a satisfação sadia de um hiplita que venceu em Maratona, as de Aquiles, garanto, não exprimiriam tão feroz júbilo, após ter arrastado sete vezes, em torno de Íon,

os despojos sagrados de Heitor vencido.

E o chefe?… Que belo estava! Jovial e sorridente, manifestava, nos largos gestos em que sublinhava as ordens dadas em voz alta ao adjudante o contentamento feliz do estratego de cujos planos dependera o ganho da batalha mortífe-

ra. Era como um Napoleão vencedor dos mosquitos; parecia um Alexandre que viesse de esmagar pernilongos em Arbelles.

E se, porventura, alguma dor n’alma lhe vier ter, provinda da perda de peleja, a badine delgada, que transporta, abrirá entre dous tijolos de uma cimalha a brecha de Roncesvales.

Ao começo vendo aquela fúria sagrada e aquele garbo no guerrear mosquitos – pensei com Frei Luís de Sousa vendo a carantonha hedionda de um leão a escorrer as fauces límpidas e tranqüilas águas: “é de ver aquele rosto feio coberto de guedelhas crespas e medonhas, que ameaça sangue e morte, feito ministro de mansas águas”.

É de ver…

Mas, por fim, fazendo as considerações expendidas e convencido que a nossa exuberante natureza custa-nos o pensamento e nos comprime o corpo, descobri que já tempo era nesse estiolar e definhar sem fim, de estarmos reduzidos à proporção de mosquitos zumbidores. Desse modo era bem razoável que, com os chefes e soldados da Brigada Stegomya, houvesse aquele contentamento e aquele furor de guerrear pernilongos, pois, se poetas por poetas sejam lidos, mais razoável será que mosquitos sejam [por] mosquitos combatidos.

Tagarela| 9-7-1903.

DEMOS, TUCANOS e “viuvas” de FHC, o culto, dão partida na campanha para presidente / editoria

“eles” estão de volta! e fazem suas propostas de campanha a partir da imagem acima. é claro, não teem mais nada para propor porque o que tinham já o fizeram e não cumpriram nos 8 anos do fhc, o culto. venderam as empresas de telecomunicações, energia, vale do rio doce e outras por menos da metade do preço de mercado (ações). não conseguiram vender o banco do brasil, a caixa econômica e a petrobrás porque  a nação reagiu. querem voltar a praticar a farra com o dinheiro público! como sempre fizeram desde a primeira república. são eles de novo, herdeiros dos antigos assaltantes dos cofres do país, novas gerações, novos métodos, mas os mesmos objetivos de seus antepassados: o assalto ao estado brasileiro. estão há 8 anos fora das possibilidades de enriquecimento fácil: CORRUPÇÃO! CORRUPTORES e CORRUPTOS associados numa grande teia criminosa e apoiados por algumas centenas de alienados militantes! desta vez, a nação estará vigilante, RETROCEDER NUNCA!

MARINHA, CAVALO E HAMLET de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Há três sabores de som

no quadro,

uma marinha cinza,

escolho uma concha

cheia de marulho

e sinto saudades do oceano.

Pego minha chave

parece com uma moeda.

(Nunca antes tinha achado a chave parecida com uma moeda).

Vejo na radica de minha porta

demônios, extraterrestres e sexo.

Tenho medo de minha porta.

Corro pelas escadarias

não quero ser encaixotado pelo elevador.

Sou perseguido por demônios, extraterrestres e sexo

até derrubar o general

e sair cavalgando sobre a estátua eqüestre da praça

cheia de pichação e cheiro de urina.

À beira-mar, o cavalo em bronze

ficou colorido, leve de papel machê.

Respirar a maresia era respirar cores

como um camaleão que respira gramado

e fica verde, respira céu e fica azul.

A cavalgada que era tambor

virou dança sem música na areia.

Após a multidão

um menino solitário me sorri.

Minha angústia rega

suas linhas de expressão, que logo viram

rugas e cresceram em seu rosto como heras,

fazendo dele um velho.

A transformação me vez lembrar de uma menina que vi

pescando anjos com orações.

Perguntei a ela.

-Pode ser qualquer oração?

-Não, só as impregnadas de poesia e um pouco de vinho.

– E os anjos estão no céu ou na terra?

– Os anjos moram nos reflexos.

Depois avisto

um hindu, que reza para

uma escultura de quatro braços.

Falo.

– Não Breton, você não

criou nada, o surrealismo.

nasceu com a religião!

Ao longe

abandonado ao sol

um cadáver na restinga quente.

Uma rosa nasceu de seu umbigo.

Primeiro achei poético, depois lógico

as fezes no intestino alimentavam

as raízes da rosa.

Desço e descanso.

Faço um castelo de areia, cimento e cal.

Vejo saltar um peixe dourado

escamas feitos de dobrões espanhóis.

Quando continuei

encontrei ainda

um pintor chinês que olhava o mar, e com os pincéis

escrevia um poema na tela.

Três deuses

Marte, ele usava brutalidade

para conseguir mel.

Vênus, ela usava mel

para fazer maldades.

E a deusa que dá odor ao mar

lavando sua vulva na água.

Também Hamlet, que erguia a leveza da morte,

era a vida nele que pesa como chumbo.

Concentração é uma venda,

a distração nos faz ver muito mais.

Finalmente fiquei só com o oceano.

Olho sonhador

queria ir morar na distância,

na casa que encontraria na distância

gramada com mar, canteiros com copos-de-leite.

Mas a distância é uma miragem

que se afasta um passo

a cada passo meu.

Retorno, sonhos longos

são tediosos.

Pareço uma flor, querendo

morder o rabo de seu perfume.

A QUARESMA DE UM CIENTISTA por marcio campos / curitiba

UM CIENTISTA LÊ A BIBLIA

A maioria, ou pelo menos boa parte dos cristãos está agora celebrando a Quaresma, um tempo de 40 dias que antecede a Semana Santa e tem ênfase especial na penitência e na mudança de vida. É verdade que, em algumas paróquias, as pessoas só percebem que estão na Quaresma porque está escrito no folheto e porque o padre usa roxo, já que os instrumentos musicais seguem à toda, assim como a bateção de palmas – anteontem mesmo estive numa missa dessas. Mas, para quem está disposto a viver esse período de forma mais séria, existem várias coletâneas de meditações nas livrarias ou na internet. Uma delas é o assunto dessa resenha, e aqui faço um mea culpa: esse texto devia estar no Tubo há uma semana, mas só agora consegui tempo para finalizar a leitura.

Pela própria natureza do livro, Um cientista lê a Bíblia é dirigido aos cristãos. Não sei se um ateu tiraria o mesmo proveito dele. Seu autor, John Polkinghorne, é um dos maiores nomes no debate atual sobre a relação entre ciência e religião. Físico cuja especialidade é a Física de partículas, ele também é clérigo anglicano, ordenado em 1982. Um cientista lê a Bíblia (edições Loyola, 159 p., apenas R$ 9 na Saraiva) é de 1996. Como eu já tive a chance de mencionar, é uma coletânea de meditações para cada dia da Quaresma – não foi feito para ser lido de uma tacada só, embora não seja longo (os textos para cada dia têm duas ou três páginas) e possa ser lido de uma vez, como eu fiz. Os textos têm todos uma mesma estrutura: começam com algum trecho bíblico, seguem com a reflexão do autor e terminam com uma oração curta.

Embora esse não seja propriamente um livro sobre ciência e fé como os que têm sido resenhados aqui no blog, em muitos pontos Polkinghorne ressalta as semelhanças entre uma e outra. Logo na introdução, por exemplo, o autor diz que, assim como o cientista busca a verdade sobre o mundo pela evidência científica, a Bíblia também é, por assim dizer, a “evidência” sobre Deus e sobre Cristo. “Há uma concepção atual estranha de que fé é uma questão de fechar os olhos, cerrar os dentes e acreditar em coisas impossíveis, porque alguma autoridade inquestionável diz que é preciso fazer isso. De forma alguma! O salto da fé é um salto para a luz, não para a escuridão. Envolve o compromisso com o que compreendemos,para que possamos aprender e compreender mais“, diz Polkinghorne (itálico do autor). Na meditação do sábado após a Quarta-Feira de Cinzas, o autor lembra a primeira carta de São Paulo aos tessalonicenses, em que recomenda examinar tudo e conservar o que é bom. Mais uma vez Polkinghorne diz que a busca pela verdade é um componente essencial na religião – é curioso como algumas pessoas se mostram chocadas quando uma religião ou uma igreja pretende ser a única verdadeira, mas essa é uma pretensão perfeitamente válida, até porque é impossível que duas religiões que digam coisas opostas sejam igualmente verdadeiras. Mas, enquanto o cientista faz todo tipo de experiência para comprovar sua teoria, na religião não se “testa” Deus. O mesmo vale para os relacionamentos humanos (Cervantes já sabia, basta lembrarmos da história do “curioso impertinente”, no Dom Quixote). Ainda assim, o que une o cientista e o religioso é a sede de entender o mundo. Também é interessante a semelhança que Polkinghorne vê entre os Evangelhos e a pesquisa científica (não vou entregar tudo aqui, já que o objetivo de uma resenha é levar vocês a ler o livro).

Os dias entre o início da Quaresma e o primeiro domingo são dedicados a temas mais ou menos variados (em um dos textos, descobrimos por que Tolstoi é infinitamente superior a Manoel Carlos), mas as semanas seguintes são dedicadas a temas específicos: Criação, Realidade, Busca, Oração e Sofrimento, até chegar à Semana Santa. Na semana dedicada à Criação, é impossível escapar dos comentários sobre o texto do Gênesis e a evolução. Polkinghorne afirma que o propósito dos relatos da criação não é ser científico (do contrário não teríamos como escapar da contradição entre os dois relatos), mas explicar o porquê das coisas. Usando o exemplo da lareira (“o fogo queima na lareira porque processos físicos e químicos atuam na madeira” e “o fogo queima na lareira porque estou recebendo amigos” não são explicações incompatíveis entre si), o autor diz que não é preciso escolher entre o Big Bang e o “faça-se a luz”. Ao comentar a evolução, Polkinghorne diz que Deus poderia ter feito o mundo todo pronto, mas preferiu criar um mundo que faz a si mesmo. Quando o autor do Gênesis diz que o homem foi formado “do pó da terra”, estabelece uma continuidade entre a natureza e o ser humano. Polkinghorne mostra pistas de Deus na beleza das equações matemáticas que regem o universo – é um trecho com o qual eu me identifico. Eu não sei ver beleza em equações (detestava Trigonometria na escola técnica), mas adoro Van Gogh e Mozart. Nem todo mundo me acompanha na admiração por um quadro ou uma composição musical, assim como para mim passa batida a beleza existente em outros aspectos da vida, que os demais reconhecem muito melhor que eu. E o autor encerra a semana com considerações sobre propósito e acaso – este último, diz Polkinghorne, está longe de ser negativo: é “o espaço de manobra que Deus concedeu às suas criaturas ao permitir que fossem elas mesmas”, afirma.

Na sequência da obra, o autor aborda temas como o maravilhamento diante das coisas do mundo, a diferença entre senso moral e senso cultural (sim, é possível ser uma pessoa boa sem ter religião nenhuma, mas como se nega a existência de certos padrões morais universais a todas as culturas?), a função da Teologia Natural, o emprobrecimento causado pelo Iluminismo na cabeça das pessoas ao desvalorizar o entendimento subjetivo e a experiência pessoal. Mas um capítulo que eu gostaria de comentar é o da semana dedicada ao Sofrimento, já que andamos discutindo o assunto aqui, por causa do Haiti. Polkinghorne se baseia especialmente nos Salmos e se pergunta: por que, no terremoto de 1755, Lisboa foi devastada justamente num Dia de Todos os Santos, quando milhares de pessoas estavam em igrejas que desabaram, matando os fiéis? “O que Deus estava fazendo com o terremoto em Lisboa? Acho que a resposta é que Ele estava deixando a crosta terrestre se comportar de acordo com a sua natureza”, diz o autor. Um Deus que não é “tirano nem mágico” permite que o mundo criado por Ele possa se desenvolver sozinho. Mas o salmista fica perplexo não apenas com os desastres naturais: ele percebe que coisas más ocorrem com pessoas boas. Pior ainda: coisas boas acontecem a pessoas más – que nadam “em mar de contentamentos”, como escreveu Camões. Nós também experimentamos essa perplexidade em vários níveis quando vemos desde autênticos cachorros atraírem o interesse das melhores garotas até mensaleiros sendo reeleitos. Como se resolve isso? Não basta nos consolarmos pensando que na vida eterna as coisas se encaixarão nos seus devidos lugares: se fosse assim, Nietzsche teria razão ao chamar o Cristianismo de religião de escravos conformados. Mas a resposta de Polkinghorne ao filósofo do século 19 eu deixo para vocês descobrirem ao ler o livro.

Ainda estamos no começo da Quaresma. Aos leitores cristãos, eu recomendo que procurem o livro e, depois de recuperar o tempo perdido, comecem a seguir as meditações dia após dia. Garanto que será um período de muitos frutos.

EDUARDO HOFFMAN e seus haicais / curitiba

ah minha vizinha

como é bom ouvir um blusão

tirando sua blusinha

=

simplicidade havia

bastava um cotonet

pra se ouvir a cotovia

estudo para sol maior

.

um frio de dar dó

você lá, longe, meu violão

quando nosso sol  ?

HQ & IDEOLOGIA por dioclécio da luz /são paulo

Violência na Turma da Mônica


Existe uma certa condescendência por parte da imprensa – e mais ainda da crítica – em relação à Turma da Mônica. Muito provavelmente por razões nacionalistas – não é de hoje que os quadrinhos brasileiros tentam se impor no mercado nacional diante das grandes empresas norte-americanas. Ocupar o mercado nacional, porém, não é mais problema para a Turma da Mônica – ela é hoje a revista infantil mais vendida do país, desbancando Disney e companhia.

Na verdade, a exemplo da Disney, a Turma da Mônica, há muito tempo é bem mais que um grupo de personagens de Histórias em Quadrinhos (HQ). Estamos tratando de uma marca fazedora de dinheiro de uma grande empresa – Maurício de SouzaProduções – que se manifesta em brinquedos, sabonetes, xampus, fraldas, pentes, parques temáticos… Enfim, uma gigantesca quantidade de produtos infantis.

A questão, porém, não é a dimensão ou os negócios da empresa. Não é o que interessa no momento. Vai se tratar aqui dos personagens da Turma e, em especial, da relação desses personagens com a violência.

O principal deles é, claro, a própria Mônica. A garotinha tem uma característica: ela resolve as coisas na porrada. Tudo. Este é um elemento educativo complicado. Ao invés do diálogo, da negociação, apela-se para a violência. Quando está em apuros, é no braço, ou fazendo uso do seu coelhinho, que Mônica resolve. Moral da história: em situações de conflito, ganha o mais forte.

Hábito que aprendeu com o pai

A Mônica é exemplo de um fenômeno muito comum entre as crianças, em especial nas escolas: o bulling. Pode se dizer que o bulling é uma agressão verbal e sistemática à criança, quando se apelidos que a incomodam, pejorativos, nomeando-a por algo que ela não gosta. No caso, Mônica é chamada de “dentuça”, “gorducha” e “baixinha”. Isso a deixa irritada. E ela resolve, claro, na porrada. É evidente que, na vida real, nenhum psicólogo iria sugerir o método Mônica para resolver os problemas do bulling. Seria por demais primitivo. No entanto, espantosamente, ele está presente nos gibis da Turma da Mônica. Tudo indica (seria preciso uma pesquisa mais aprofundada) que a solução pela violência é o tema mais recorrente nas histórias em que a garotinha aparece.

Ao que parece, os adultos leitores ou pais de crianças que lêem os gibis da Mônica são condescendente com esta prática da violência. Afinal, para uns, “é uma menina”. Isto é, violência feminina pode, masculina não. Na verdade, estamos transferindo para o mundo infantil uma cultura do mundo adulto. A lógica é: se o nosso mundo adulto é machista, com extraordinários índices de violência masculina contra a mulher, é bom que as mulheres reajam. Esse pensamento comete um erro grave: a violência contra a mulher não pode ser corrigida com a mulher também sendo violenta. Quando ela usa as mesmas armas do homem-machista está se igualando a ele. Claro, há momentos em que é preciso se defender, reagir, partir para a luta e aí vale tudo – porque pode ser uma questão de sobrevivência, inclusive. Mas não creio que seja bem aceita na sociedade a mulher que tem por hábito, como o homem violento e machista, resolver tudo na porrada.

De qualquer forma, esse é um problema do mundo dos adultos. Ainda não faz parte do universo infantil. Corrija-se: faz sim, quando as crianças observam os pais e como eles agem para resolver seus conflitos. Se o pai resolve na porrada, o filho ou a filha vão saber que é assim que deve ser feito. É desse modo que se constrói a personalidade. Enfim, numa leitura superficial pode se dizer que se a Mônica tem o hábito de resolver as coisas na porrada, a princípio, direta ou indiretamente, ela aprendeu isso com seu pai ou sua mãe – pela ação ou omissão, atos ou palavras. A princípio, porque teríamos que fazer uma análise mais aprofundada do seu caráter.

A ótica do hormônio

A Mônica, porém, não é um caso, uma personagem de gibi. Ela é um símbolo. Milhares de crianças lêem a Mônica. E o que estão aprendendo?

1) as coisas se resolvem na porrada;

2) a regra é olho por olho, dente por dente;

3) o bulling deve ser praticado;

3) a inteligência ou a sensibilidade não devem ser usados para resolver conflitos.

É o caso de se comparar a Turma da Mônica com outras turmas. Pode-se pensar na Mafalda, do argentino Quino. Mafalda é brilhante. Mesmo sendo uma HQ para adultos, os conflitos são resolvidos com inteligência e muita sensibilidade. Alguns personagens são cruéis, mas dificilmente alguém sai no tapa; não é comum, mas ocorre. Mas nenhum deles tem na violência sua marca, como é o caso da Mônica.

Outra turma brilhante é a do Calvin, do norte-americano Bill Watterson. Não é exatamente para crianças, mas elas também podem participar das histórias de um garotinho nada fácil que vive questionando as nossas regras morais ou sociais. Por exemplo, Calvin costuma fazer compras de bazucas e metralhadoras por telefone… Calvin tem uma “amiga”, a Susie, a quem vive importunando. Quase sempre ele leva a pior. Mas, se observa, é uma questão de gênero – os meninos na sua idade não gostam de brincar com meninas. Eles pensam coisas diferentes do que elas pensam; cada qual vê o mundo diferente – pela ótica do seu hormônio. E, às vezes, ela sai no tapa com ele. Mas a violência não é um traço seu. Susie não é a mandona da rua ou da escola.

Desvios comportamentais

É importante registrar que Calvin e Mafalda são personagens com fundamentos sociais revolucionários; são filósofos – eles fazem o leitor refletir sobre o mundo, sobre a sociedade, o nosso modo de vida, a política, os costumes, e claro, a relação dos adultos com as crianças. A turma da Mônica não tem nada disso. Essa gurizada é extremamente conservadora e moralista. Reproduzem as tradições, os costumes, as modas e modos sociais, sem questionamentos. Talvez por isso, a violência com que a Mônica lida com os conflitos seja uma prática comum.

Na escola de Calvin há uma criança, Mool, um grandalhão que costuma bater nas outras crianças e resolver tudo na porrada. Mas seu autor, Bill Watterson, coloca-o no seu devido lugar: Mool é tratado como um grosso, sem nada na cabeça, um gorila. Ele é o resumo caricato de todo cara (ou instituição) que adota a força para se impor sobre os outros. No caso da Mônica ocorre exatamente o contrário: a palavra final, a decisão sobre os conflitos, quem dá é o personagem que tem mais força, isto é, a Mônica. E essa sua característica de violência é transformada numa virtude – devidamente premiada com a solução dos conflitos em que se envolve e a satisfação dos seus desejos.

O outro aspecto a se observar na Turma da Mônica é o abuso dos clichês. Pelo menos três personagens são clichês: Mônica, como se viu, a que resolve as coisas na porrada; Cascão, que odeia água; Magali, a comilona. Antes de tudo, note-se que são clichês negativos. Ninguém da turma é conhecido por ser inteligente, criativo, sensível, cuidadoso, gentil, amável, isto é, por qualidades humanas, por virtudes humanas. Na verdade, temos, mais uma vez, o incentivo ao bulling – esses três personagens trazem consigo motivos para discriminação e para serem agredidos pelos colegas.

O problema dos clichês nos personagens é que eles não existem fora disso. Cascão ou Magali (e a Mônica) não existem fora dessas suas “virtudes”. As observações, as visões do mundo, as idéias, as sugestões, tudo isso que dá personalidade a um personagem, não existe na Turma da Mônica. A gente sabe que é Magali quando ela fala em comida; a gente sabe que é Cascão por seu ódio à água; a Mônica aparece quando é hora da porrada. Mas essas características de Cascão e Magali, como veremos mais adiante, não são exatamente traços de personalidade, e sim, desvios comportamentais. A violência da Mônica, sim, está mais próximo de um problema de personalidade.

Por que Magali não engorda?

A Magali merece uma observação mais cuidadosa. Ela é uma menina que tem obsessão por comida. E como as histórias da Maurício de Souza Produções abordam isso? Como algo normal. Ter obsessão por comer, para a Maurício de Souza Produções, não é problema.

Há uma confusão no discurso da Magali (o dela e o de quem a faz falar): a obsessão por comida é considerada um traço da sua personalidade, mas não causa efeitos negativos sobre a saúde. Esse é o problema. Se uma criança que tenha obsessão por comer se identificar com Magali, não vai se esforçar para romper com essa obsessão.

O que se percebe é que o assunto – o desejo de comer sempre mais – é muito sério para ser tratado da maneira como trata a Turma da Mônica. O Brasil tem uma população obesa de adultos que ultrapassa 50%. Entre os pobres, os percentuais podem chegar a 60%. No ano passado, o Ministério da Saúde fez uma campanha contra a obesidade das crianças. E obesidade é doença, reconhece a Organização Mundial da Saúde. Magali, porém, embora tenha essa obsessão pela comida, não é uma menina obesa. Isto é, os roteiristas e desenhistas eliminaram das histórias o que é consequência natural de quem come demais. Todo mundo que come bastante engorda. Magali, não. Porque a Maurício de Souza Produções eliminou essa parte da história da Magali? Pode-se pensar em várias alternativas: para focar no clichê da obsessão por comida; para não discriminar leitores e leitoras que têm essa obsessão; para não ferir os interesses comerciais da revista que costuma publicar anúncios de biscoitos e guloseimas para o público infantil. Seja como for, a abordagem é extremamente perigosa para o leitor, principalmente para aquele ou aquela que tem obsessão por comida.

As marcas das personalidades

A questão da personalidade merece mais atenção.

Observando os clássicos dos quadrinhos pode se notar que os personagens têm personalidade. Não é necessário olhar a imagem para distinguir nos balões se quem fala é Batman ou Robin, Tarzan ou Guran, Flash Gordon, Fantasma; Miguelito, Felipe, Mafalda ou Manolito. A bem da verdade, diga-se que Quino também usa clichês, como Suzie (que é tudo que a mulher passiva deve ser) e Manolito (o capitalista radical). Mas, está bem claro aí que esses personagens são símbolos caricaturados de uma proposta de sociedade que ele (o autor) condena. De fato, estes dois aparecem como representações semióticas do cenário político TURMA DA MÔNICA JOVEM.ideológico da sociedade criticada por Mafalda e sua turma. Seriam o contraponto ao mundo que Mafalda (Quino) pensa. E mesmo assim não se pode dizer que não tenham personalidade. Suzie e Manolito pensam e agem conforme a postura ideológica de cada um. Eliminem-se os desenhos na HQ e o leitor que costuma ler Quino irá identificar os dois. Eles têm opinião, idéias, posturas. Todos os personagens de Mafalda têm personalidade – cada um pensa diferente. As boas histórias em quadrinhos criam personagens fortes – e são considerados fortes porque se impõem pela singularidade, pela personalidade. Vide a turma de Hagar, o horrível, de Dik Browne; ou os personagens criados por Laerte (Piratas do Tietê, Zelador, Gato & gata) ou Angeli (Rê Bordosa, Rhalah Ricota), F Gosales (Niquel Naúsea); ou gibis mais antigos como Manda-chuva e Os Flinststones. Tira, cartum ou HQ, os personagens têm personalidade.

E quanto aos principais personagens da Turma da Mônica? Não têm nada disso. Quais são as marcas das personalidades deles? Não existem. A única que se sabe tem uma personalidade é Mônica, mas por seu desvio. Quando ela não está dando porrada, também não existe.

A demanda bélica do Pentágono

Podemos pensar em outros personagens. Chico Bento, por exemplo, revela a vida no campo, mas como clichê. As situações vividas por ele mais parecem narradas por um observador instalado na Rua Augusta, um urbanóide que nunca botou os pés na terra. Por isso, o meio rural é tratado como um outro planeta. E se alguém perguntar as características da personalidade de Chico Bento não vai ter resposta. No máximo vai fazer uso do clichê – que ele é um matuto, um caipira paulista, algo genérico. Chico Bento é uma visão burguesa – distante e elitista – do campesinato. Ele não existe, o que existe é o meio em que vive, forjando todos iguais a ele. (Ele não existe porque não pensa, tomando de empréstimo o cogito cartesiano.) Não pensa como uma pessoa chamada Chico Bento, mas como o protótipo de um ser qualquer, genérico, que vive no meio rural. A gente identifica Chico Bento por causa do ambiente, da roupa, do sotaque caipira. Mas Chico Bento pode ser qualquer um.

Esta visão de personagem que não pensa, não tem opinião, mas apenas age e, conforme o meio, vem dos anos 50, 60 ou 70 do século passado, quando a turma da Marvel já fazia sucesso. Além dos citados Batman, Tarzan, Fantasma, havia Hulk e uma enormidade de gibis de cowboys. No Brasil, a melhor experiência de HQ infantil foi a Turma do Pererê, de Ziraldo, que já ia além dos personagens clichês, fazendo-os ter personalidade.

Hoje são outros tempos. E os personagens mudaram. Batman ainda é cultivado pela garotada mais nova, porém avançou em traços mais exuberantes (Frank Miller, por exemplo) e adquiriu uma personalidade dark. O mesmo aconteceu com Hulk. E com a grande maioria dos antigos heróis. De fato, eles evoluíram porque o público também evoluiu. Os desenhos (e filmes) de Batman contêm muita violência, mas, regra geral, agora se tenta explicar isso como traço de personalidade (revolta pela morte de parentes). Isto é, Batman tem personalidade. Super-heróis puramente ideológicos, como é o Capitão América, criados para atenderem à demanda bélica do Pentágono, são mortos e depois revividos conforme os interesses bélicos do momento.

Um exagero na idolatria

Neste sentido, a Turma da Mônica é um retrocesso. É um monte de clichês, como era comum principalmente nos personagens de Walt Disney – sem opinião e naturalmente conservadores. Sim, Disney foi um histórico conservador, conhecido por delatar aqueles que lhe pareciam comunistas na época do presidente McArthur. Tio Patinhas é o símbolo maior da Disney.

A personagem Mônica não tem uma obsessão como a do Tio Patinhas (pelo dinheiro), mas os dois têm algo em comum – Mônica sugere que os conflitos do mundo devam ser resolvidos através da violência. E isso pode ser visto como uma postura bélica, característica histórica e cultural dos Estados Unidos. Afinal, o big stick, a solução de conflitos através da porrada, tem sido a forma diplomática dos Estados Unidos agirem nos últimos séculos.

Tio Patinhas, salvo engano, é de meados do século passado. Mas Tio Patinhas, mesmo assim, ainda é um avanço em relação a Cascão ou Magali porque, como o Manolito de Quino, a sua necessidade de juntar dinheiro é uma ideologia, e o medo da água de Cascão ou a fome de Magali, são apenas bullings reverenciados pela Maurício de Souza. É muito provável que Maurício de Souza tenha se espelhado em Walt Disney para criar os seus. Talvez haja um exagero nessa idolatria: há uma semelhança física (forjada ou não) entre o criador da Turma da Mônica e o criador do Pateta. Isso não explica o porquê da Mônica ser violenta ou dos personagens da sua turma não terem personalidade. Mas deixa o alerta sobre o que nossas crianças estão lendo.

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HQ = histórias em quadrinhos.

ilustrações do site.

desenhos de Mauricio de Souza.

AVESSO de otto nul / palma sola.sc

No meu avesso

Está meu todo

No meu direito

Estou eu torto

Movo-me de um lado

E de outro

De avesso e

De direito

No desejo de me encontrar

Mas um é a contra face do outro

Na busca de mim mesmo

Fico sem nunca acabar

VIÚVA ASSEDIADA por sérgio da costa ramos / florianópolis

A proprietária do dinheiro público é, também, pública mulher, muito assediada nesta época de pré-campanha: é a Viúva, que tem fama de ser rica e de ter a chave de um cofre recheado, por cujo conteúdo almejam todos os ordenadores de despesa, especialmente os que compram panetones.

Por ser público, entendem alguns dos chamados “representantes do povo”, o dinheiro é de todos – e de ninguém. É de quem chegar primeiro…

Sabendo que a impunidade é um direito muito “humano”, no Brasil, os arrecadadores de campanha assediam o cangote da Viúva, sequiosos por sugar-lhes a carótida – e sentir o inebriante perfume de mulher.

A Viúva é um sucesso. Fabrica um dinheiro sem dono, nem lastro, mas nem por isso inválido ou imprestável para os “tesoureiros dos partidos”.

Ela, a herdeira de todos os impostos, pode exibir várias formas, várias máscaras, vários disfarces, mas a sua bolsa é inconfundível. Ninguém resiste em afundar a mão naquela sacola mágica, tão generosa e tão elástica – pois de lá sempre vem uma boa pescaria.

A Viúva é mulher quase oblíqua, que os políticos cortejam de esguelha, pois não convém dar muito na vista – logo agora que a “Opinião Pública”, essa desmancha-prazer, anda de olho nos alcances e na insopitável “mão boba”. Os tribunais de contas – casas de políticos regenerados – gostariam de diminuir o assédio à dissimulada senhora, mas é sempre muito difícil controlar a volúpia dos necessitados de uma graninha para a campanha. Querem passar a mão na Viúva até mesmo com a autorização de uma lei futura – e bandida: a que regulamentará o “financiamento público de campanha”, mais uma brecha para enfraquecer o chamado último reduto das posses da assediada senhora.

Todo mundo quer transar com a Viúva para ver se das dobras do seu sutiã escorre aquele dinheiro leitoso, farto e sempre disponível. É só fazer o movimento de sucção e ir mamando. A teta da Viúva é tão pródiga quanto o úbere de uma vaca holandesa ou os seios da Gradisca, aquela sensual criatura de Fellini em seu Amarcord.

Dinheiro, principalmente o ganho biblicamente, com o suor do rosto humano, é gasto sempre com parcimônia, pois foi muito difícil de ganhar. Já o da Viúva pertence a um “câmbio” à parte. Quando burocratas das comissões de licitação abrem as chamadas “concorrências”, o câmbio geralmente é duplo, para a mesma moeda. O dinheiro da Viúva compra muito menos, pois para “ela” os preços são outros, muito mais caros e proibitivos.

Alguém está pagando por esse leite derramado, pois, como gostam de dizer os economistas da escola de Chicago, “não existe almoço grátis”, nem mamada (ou mamata) eleitoral sem um custo – o conhecido Custo Brasil.

Alguém está pagando a conta, mas esse alguém não tem cara. Ou como aquele velho ator, James Cagney, tem mil caras, que é a melhor forma de não ter nenhuma.

Ninguém, nem mesmo aqueles hábeis desenhistas da polícia, acostumados a dar vida ao rosto dos suspeitos, se arrisca a fazer o “retrato falado” desse desconhecido, o contribuinte, o marido oculto da Viúva.

Mas desconfio que ele pode ter a minha cara, leitor. Ou a sua.

Em qualquer hipótese, é a cara de um tolo.

CALHAU de joão batista do lago / são luis


Meus caminhares levam-me em direção ao mar

Lentamente vou descortinando o véu que te sempre me segredou

Ou – quem sabe?! – jamais eu ousara ver-te assim desnuda

E de cara ao vento

E de cabelos soltos

E de pés livres

Pisando areias cascalhadas

E enferrujadas

Entre as linhas das redes que servem de passarelas

Para o teu corpo leve desfilar

De repente assusta-me tua atitude:

Pulando entre os calhaus

Furtas carinhosamente das mãos dos pescadores

A rede que lhes produz o peixe da vida

E partes em direção a mim…

Olhas-me fixamente

E sem uma palavra lanças a rede sobre mim

Arrastas-me

Eu nenhum esforço faço para desenlaçar-me

Deixo que me leves para o teu crepúsculo

Que se eterniza num final de tarde

Entre o sol e a lua…

Agora já é madrugada

Somos apenas eu e tu

E a praia…

No dia seguinte

Seremos apenas o cascalho

Que servirá de assoalho para pés

Desnudos e descalços

Fermentarem com seus passos

Nossa história de amantes

O MULHERÃO – por martha medeiros / porto alegre


Peça para um homem descrever um mulherão.Ele imediatamente vai falar do tamanho dos seios,na medida da cintura,no volume dos lábios,nas pernas,bumbum e cor dos olhos.Ou vai dizer que mulherão tem que ser loira,1,80m,siliconada,sorriso colgate.Mulherões,dentro deste conceito,não existem muitas:Vera Fischer,Leticia Spiller,Malu Mader,Adriane Galisteu,Lumas e Brunas.Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um mulherão e você vai descobrir que tem uma a cada esquina.

Mulherão é aquela que pega dois ônibus por dia para ir ao trabalho e mais dois para voltar,e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome.Mulherão é aquela que vai de madrugada para a fila garantir matricula na escola e aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco para buscar uma pensão de 100 Reais.
Mulherão é a empresária que administra dezenas de funcionários de segunda a sexta, e uma família todos os dias da semana.Mulherão é quem volta do supermercado segurando várias sacolas depois de ter pesquisado preços e feito malabarismo com o orçamento.Mulherão é aquela que se depila, que passa cremes, que se maquia, que faz dieta,que malha,que usa salto alto, meia-calça,ajeita o cabelo e se perfuma,mesmo sem nenhum convite para ser capa de revista.Mulherão é quem leva os filhos na escola,busca os filhos na escola,leva os filhos para a natação,busca os filhos na natação,leva os filhos para a cama,conta histórias,dá um beijo e apaga a luz.Mulherão é aquela mãe de adolescente que não dorme enquanto ele não chega, e que de manhã bem cedo já está de pé, esquentando o leite.
Mulherão é quem leciona em troca de um salário mínimo,é quem faz serviços voluntários,é quem colhe uva,é quem opera pacientes,é quem lava roupa pra fora,é quem bota a mesa,cozinha o feijão e à tarde trabalha atrás de um balcão.Mulherão é quem cria filhos sozinha, quem dá expediente de oito horas e enfrenta menopausa,TPM,menstruação.Mulherão é quem arruma os armários, coloca flores nos vasos,fecha a cortina para o sol não desbotar os móveis, mantém a geladeira cheia e os cinzeiros vazios.Mulherão é quem sabe onde cada coisa está, o que cada filho sente e qual o melhor remédio pra azia.

LUMAS,BRUNAS,CARLAS,LUANAS E SHEILAS:Mulheres nota dez no quisito lindas de morrer, mas MULHERÃO É QUEM MATA UM LEÃO POR DIA

Afora-aforismo – de lucas paolo / são paulo


Ato I – De se anunciar na iminência

Cena 1 – A Imensa sentença

(Três atores devem calar)

HOMERO – Silêncio! Cadavérico, cadaver-se-á em versos.

Cena 2 – A empapada pomposa proposta

(Entra em cena o Rei Humberto III)

TORCEDOR RUBRO-NEGRO – Emanuel Humberto Atalarico, para desempenhar seu árduo papel, deves se apedantar, se glorificar, se agigantalhar, e etc…, por conseguinte, deve ultrajar os vizinhos, esbofetear a mulher, queimar dinheiro ensebado de suor perfunctorial, deve se sultanizar em sumptuosas roupas, se arrinitiar da poeirenta escória social, se ensotaquear de mon amour, se atirar em tiranias, e enfim, e etc., e és o tal.

(Afronta-se com o reflexo do não-eu sem entender o eu-não)

HUGO PAQUECK – Sumir-se-ão tuas faces: Humberto Atalarico. Serás mais brilhante que ouro e mais repugnante que bosta. Meu nobre Atalarico.

Cena 3 – Furúnculos Furosos Fazem

(Entra em cena Dentuçinho)

EMBUSTOS DOMECQ DOMADOR – Apenas ser. Entrar em contato com o cosmo. Em chama animalizar-se.

(Desliza a sombra cinzenta e sem massa cinzenta pelo tablado florestal)

TIRADENTES – Arranquemos esses, embotemos aqueles maiores. Prontinho!

(Analisa-se um rabo)

Cena 4 – O maravilhoso muro Shakespeariano

(Entra em cena A Bota e Dani Figura. Dani Figura prepara o cenário em azul-marinho e recorta A Bota em suas lateralidades)

A BOTA – La poltrona e pantofole sono i rest dell’uomo!

Não-Ato I – Luz, câmera, ação!

Cena 1 – Englobado o universo

(Entram em cena A Bota, Dentuço e o Rei Humberto III. Gesticulam e falam simultaneamente com o cuidado meticuloso de pronunciarem ao mesmo tempo o final das frases)

DENTUÇO – Não vamos perder tempo com discussões inúteis! Vamos fazer alguma coisa, não é todo dia que precisam de nós. Outros poderiam tratar o assunto tão bem, ou melhor, que nós. Esses gritos de socorros que ainda me reboam nos ouvidos foram dirigidos à humanidade inteira! Mas neste momento, neste lugar, a humanidade inteira se resume a nós. Queiramos ou não. Vamos fazer o melhor que pudermos, antes que seja tarde demais! Vamos representar com dignidade, pelo menos uma vez na vida, O papel que um destino cruel nos reservou. Que é que você me diz? É evidente também que, se ficarmos de braços cruzados e sem fazer nada, pesando os prós e contras, também faremos justiça à nossa condição. O tigre se precipita em socorro de seus congêneres. Sem a menor reflexão. Ou então, esconde-se no recesso mais fundo da floresta. Mas a questão não é essa! O que estamos fazendo aqui? Essa é a questão! E nessa imensa confusão, uma coisa é clara: O rato roeu.

REI HUMBERTO III – O que é mais nobre? Sofrer na alma as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de dores pondo-lhes um fim? Morrer, dormir, nada mais. E pôr ponto final aos males do coração e aos mil acidentes naturais de que a carne é herdeira, num desenlace devotadamente desejado. Morrer! Dormir. Dormir, dormir, sonhar talvez. Mas aqui está o ponto de interrogação: no sono da morte que sonhos podem assaltar-nos uma vez fora da confusão da vida? É isso que nos obriga a refletir. É esse respeito que nos faz suportar por tanto tempo uma vida de agruras. Pois quem suportaria as chicotadas e o escárnio do tempo, as injustiças do opressor, as afrontas dos orgulhosos, a tortura do amor desprezado, as demoras da lei, a insolência do oficial e os pontapés que o paciente mérito recebe do incompetente quando o próprio poderia gozar da quietude dada pela ponta de um punhal? Quem tais fardos suportaria, preferindo gemer e suar sob o peso de uma vida fatigante, a não pelo medo de algo depois da morte? Esse país desconhecido de cujos campos nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade e nos faz suportar os males que temos, em vez de voar para o que não conhecemos? Assim a consciência nos faz a todos covardes. E assim as cores nascentes da resolução empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento. E os planos de grande alcance e atualidade, por via desta perspectiva, perdem a roupa do rei.

A BOTA – Denomina-se: “A Constipação”. É assim: meu cunhado tinha do lado paterno, um primo alemão, cujo tio materno tinha um pai em segundo grau, cujo avô paterno tinha se casado em segundas núpcias com uma jovem indígena, cujo irmão tinha encontrado, numa de suas viagens, uma moça pela qual se apaixonou e com a qual teve um filho que se casou com uma farmacêutica intrépida que não era outra senão a sobrinha de um inspetor de quarteirão que a Marinha Britânica não conhecia e cujo pai adotivo tinha uma tia que falava correntemente o espanhol e que era talvez, uma das netas de um engenheiro que morreu jovem, sendo ele próprio neto de um proprietário de vinhas, que produzia um vinho ordinário, mas que tinha um sobrinho-neto caseiro, ajudante, cujo filho havia desposado uma mulher jovem e muito bonita, divorciada, cujo primeiro marido era filho de um patriota de Roma.

Cena 2 – Um solipsismo realista

(FIM).

LA CASA – de alfonsina storni / argentina


Circundada por selvas, bajo el cielo
siempre azulado, nuestra casa era
algo como el plumón y el terciopelo:
un tibio corazón de primavera.

Se hablaba quedo en nuestra casa; cierto.
Cierto que cobijaba tantas aves,
que nos salían las palabras suaves
como si las dijéramos a un muerto.

Pero nada era triste: la dulzura
poníamos tan dócil armonía
que hasta el suspiro tenue presentía
en sus patios sombreados de verdura.

El mármol blanco de los corredores
parecía dormir un sueño largo.
Las fuentes compartían su letargo.
Soñaban las estatuas con amores.

Cedían los sillones blandamente,
como un pecho materno, y era fino,
muy fino el aire, así como divino,
cuando filtraba el oro del poniente.

¡Cómo me acuerdo de la noche aquella
en que entré sostenida por tu brazo!
Moría casi bajo el doble abrazo
de tu mirada y de la noche bella.

¡Moría casi! Me llevaste tierno
por largas escaleras silenciosas
y ni tuve conciencia de las cosas:
era un cuerpo cansado y sin gobierno.

No sé cómo llegamos a una estancia.
La penumbra interior, los pasos quedos,
tus besos que morían en mis dedos
me tornaron el alma una fragancia.

Abriste una ventana: allá, lejano,
plateaba el río y el silencio era
dulce y enorme, y era primavera,
y se movía el río sobre el llano.

Caminaba hacia el mar con tal dulzura
que parecía una palabra buena.
Iba a darse sin fin; la quieta arena
mirábalo pasar con amargura.

Y mi alma también rodó en el río,
se hundió con él en perfumadas frondas,
siguiéndolo hasta el mar cayó en sus ondas,
y suyo fue el divino poderío.

Se curvó blanda en el enorme vaso,
de allí, se desprendió como un suspiro,
ascendió por los buques y el retiro
de otras mujeres sorprendió de paso.

Subió hasta las ciudades de otro mundo;
dormían todos, todo estaba blanco,
luego vio cada mundo como un banco
de arena muerta en el azul profundo.

Y desde aquel azul que todo abisma
miró en la tierra esta ventana abierta;
¿quién era esa criatura medio muerta?
Y se bajó a mirar. ¡Y era yo misma!

Cuando volvió del viaje, envejecida
de tanto haber vagado unos instantes
la esperaban tus ojos suplicantes:
se hundió por ellos y encontró la vida.

¿Recuerdas tú? La casa era un arrullo,
un perfume infinito, un nido blando:
nunca se dijo la palabra cuándo.
Se decía, muy quedo: mío y tuyo.

OS CINCO SENTIDOS ( ANTIGO CONTO DE NATAL) – por zuleika dos reis / são paulo

– Papai Noel não veio…

– Veio, mas já foi embora.
-… não veio…

A voz desolada sobe, pequenina, e é assim recolhida por uma das janelas do sexto andar. No meio, a fala impiedosa.
O olhar, através da janela, percorre o musgo que recobre o muro do fundo do prédio, por onde subiu, com dificuldade, a pequenina voz, o muro por onde se alastra o verde úmido, com trilhas para formigas e outros insetos. Do lado oposto, janelas laterais se alongam ao sol.
OS PASSOS INVISÍVEIS.
Noventa graus à esquerda: os livros se aninham, calmos e distantes. Os passageiros. Papéis recolhidos nos envelopes e nas pastas repousam, por ora, do olhar que cotidianamente os vasculha em busca de indícios, em busca de respostas para as perguntas que a memória gostaria de esquecer.
AS CIDADES MEDIEVAIS.
… não veio…
A voz, retornando, mais pequena ainda, tentando  aceitar o fato irreversível: Papai Noel veio, mas, já foi embora.
As mãos pegam, ao acaso, o livro mais próximo. Na página, o dedo pousa de leve. ONTEM. A palavra salta, junto com a lembrança da outra, na língua incompreensível que, dos cinco, só Elisa conhece. No quarto permanece o cheiro dos pêssegos e na boca ainda o gosto do chocolate suíço, presente de Rubem.
Cento e oitenta graus. Lentamente, os olhos se erguem até se encontrarem no espelho: Ana vê o próprio reflexo. Onde o rosto de Daniel?
O ESPELHO.
Márcia, a louca de Daniel, em algum lugar… melhor não saber.
Elisa, perto do polo norte, onde nasceu Papai Noel.
Daniel, há algumas horas daqui,no solar diante do vale verde.
Rubem, do outro lado desta cidade.
Ana, os olhos no espelho onde nunca viu o rosto de Rubem, seu companheiro, seu amante.
Os dedos tateiam a superfície fria em busca da abertura por onde Alice passou para o Outro Lado.
OS CHAMADOS.
O vinho. As taças púrpuras. A boca de Daniel.
Em algum lugar, perto do polo norte, Elisa se lembra de que, há quase um ano, estava nesta cidade, com Rubem.
Em algum lugar… melhor não saber… Márcia… melhor não saber…
Há algumas horas daqui, Daniel tenta se lembrar, mas, também o rosto de Ana lhe escapa do espelho.
Do outro lado desta cidade, Rubem caminha; talvez entre num bar, para tomar um expresso; mentalmente procura uma palavra de encaixe perfeito no texto que a aguarda; quem sabe pense em Elisa cujo olhar, neste instante, se perde na neve, ou em Ana, que se lembra das formigas.
Aqui, os olhos já se desviaram do espelho.
ANTIGAMENTE, O MURO DOS FUNDOS DO PRÉDIO FOI BRANCO.Há muito tempo, também o musgo começou, verde e fresco.
A voz infantil não regressou. Dos outros cômodos do apartamento, o silêncio compacto como um monolito.
O quarto inteiro pulsa aqui do outro lado desta cidade há algumas horas no vale verde lá onde Márcia esteja perto do polo norte, onde nasceu Papai Noel.
Amanhã, quando ele estiver a caminho, de volta ao seu longínquo país, com a mesma roupa vermelha e a mesma barba branca, as infinitas pequenas formigas continuarão, para sempre, a percorrerem a trilha onde, certa vez, o muro dos fundos do prédio foi branco, antes que o musgo verde e fresco tomasse conta de tudo.

A POETA MARILDA CONFORTIN e o violonista GEGÊ FÉLIX na PRAIA DOS INGLESES em FLORIANÓPOLIS/ editoria

o poeta JB VIDAL, a poeta MARILDA CONFORTIN e o vilonista GEGÊ FÉLIX no restaurante PAIXÃO DE VERÃO na praia dos ingleses em floripa. MARILDA e GEGÊ foram hóspedes de JB e , em dias de muita alegria e altos papos sobre musica e poesia. obrigado pela visita, voltem sempre. verão 18/2/10.

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GEGÊ FÉLIX e MARILDA CONFORTIN assumiram a pilotagem da cozinha na residência dos amigos. quitutes excelentes!!  verão 17/02/10.

DOUTOR CAVALCANTI por hamilton alves / florianópolis

Dos médicos pediatras mais conhecidos ou mais populares ou mais respeitados profissionalmente ou mais procurados, a seu tempo, especialmente por pessoas pobres, o nome do  doutor Miguel Cavalcanti andava por toda parte.

Qualquer sinal de doença em criança, fosse o que fosse, uma amigdalite, asma brônquica, problemas intestinais, etc., acabava, inevitavelmente, no consultório do dr. Cavalcanti, ou era chamado às pressas em algum lugar da cidade, fosse onde fosse, para atender um cliente. Subia morro, ia nas favelas, não tinha lugar onde não pisasse seus santos pés, no combate a enfermidades terríveis, num tempo em que os recursos terapêuticos da medicina ainda engatinhavam. O doutor Cavalcanti tinha que inventar (ou criar) soluções.

Em uma palavra, o doutor Cavalcanti era humano da cabeça aos pés.

Era comunista e não sei se arrastava na sua ideologia também a idéia materialista, envolvendo a descrença na providência divina.

O dr. Cavalcanti era ele mesmo um santo e impossível imaginar que não tivesse alguma espécie de fé qualquer.

Seu comunismo talvez decorresse de se deparar inconformado com as clamorosas injustiças do mundo, ainda hoje existentes e nunca serão satisfatoriamente extirpadas, certamente.

O fato é que houve um tempo nesta cidade que o nome do dr. Cavalcanti andava de boca em  boca, como se fosse um demiurgo (ou mesmo um curandeiro contemplado com o dom da cura).

Era nortista, de algum daqueles Estados miseráveis do nordeste brasileiro, de onde veio para o sul, depois de fazer a Faculdade de Medicina no Rio.

Onde morou num quarto, dividindo-o com Rubem Braga, soube-o pouco depois que morreu por via de uma crônica em que o “Sabiá da Crônica” narra esse fato referido ao amigo “Cavalcanti”, “com quem morei num quarto aqui no Rio”.

Quando recém-casado, chamei o dr. Cavalcanti para atender um filho, o primogênito, atacado de amigdalite, com febrão de 40 graus. Era um modestíssimo funcionário público a esse tempo. Deve ter reparado pelo aspecto da casa de que socialmente era pouco menos que classe média.

Atendeu meu filho, receitou-lhe uma medicação, perguntou, a seguir, onde era o banheiro, lavou as mãos, enxugou-as, enquanto fui buscar o talão de cheques para pagar-lhe a consulta.

Procurei-o aqui, ali, por toda parte.

Notei que sumira, como o vento.

Esse era o humaníssimo dr. Cavalcanti, grande amigo de Rubem Braga.

Vida de gado-cidadão – por alceu sperança / cascavel.pr

Já se sabia que há gente encurralando – no sentido de meter em curral –, a população de bairros inteiros. São dirigentes de associações de moradores desavergonhados, que transformam as entidades de bairros e distritos em correias de transmissão de partidos políticos, seitas religiosas ou quadrilhas de bandidos.

O que já se sabia, mas um resto de pudor ainda os continha, é que alguns deles, além de encurralar a população, vendem o gado: afirmam que vão faturar um bom dinheiro entregando o bairro a quem pagar mais.

Não bastando transformar o cidadão em rês para dar leite ou virar bife, levam-no a um leilão de feira onde se bate o martelo em favor de quem, partido ou candidato, der o melhor lance.

A Prefeitura de Cascavel fez a grande bobagem da temporada ao criar um esquisitíssimo “Conselho Comunitário das Associações de Moradores de Cascavel”, aproveitando que as pessoas estavam distraídas com o Natal.

Na prática, é o seguinte: o Município criou para si próprio, e sob seu controle, um substituto da União Cascavelense das Associações de Moradores (Ucam). Uma espécie de “estatização” da Ucam, uma entidade de direito privado.

A Prefeitura, através do Conselhão, monitora até as eleições para as diretorias das associações de bairros que o Município escolher para fazer parte da coisa. Stálin não teria feito pior.

Não se compra mais dirigente de associação de bairro: toma-se algum apaniguado e elege-se o peão para cumprir esse mistér, seu Míster!

**

Para o governo, o cidadão é um contribuinte. Para o político, um eleitor. Para a polícia, um suspeito. Para o religioso, um fiel. Para o clube, um torcedor. Para os bandidos, um otário. E para certa casta de dirigentes de bairro, é simplesmente gado marcado, povo feliz.

Nossa colega Ederlize Reis, em admirável comentário no jornal Hoje, de Cascavel, viu que para a estrutura de poder reinante nós não passamos de números – os das estatísticas, das senhas, o valor que temos no banco etc.

Na canção The Prisoner (Iron Maiden), o carcereiro preenche um formulário e atribui números aos presos. Um deles se rebela: “Eu não sou um número. Sou um homem livre!” Em resposta, ouve uma estridente gargalhada.

É certamente essa mesma gargalhada que devem dar aqueles que avaliam o gado-cidadão dos currais-bairros nos leilões da compra e venda de votos.

Ignorando a verdadeira origem de seus problemas – um sistema injusto que a todos oprime –, o cidadão-rês aceita ser gado. Participa do leilão espontaneamente, marchando feliz ao matadouro da urna eletrônica.

Para gado marcado, data do abate marcada no calendário eleitoral.

O POETA MANOEL DE ANDRADE comenta em: “MATADORES DE BORBOLETAS AZUIS” de SOLIVAN BRUGNARA

Comentário:

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“PAI, PERDOAI-OS PORQUE NÃO SABEM O QUE FAZEM”

Diante da morte, e do julgamento mais inícuo da história,  o inocente Nazareno perdoa  incondicionalmente a seus algozes.

Mas quem de nós pode perdoar a cruz imposta a Cristo?
Como perdoar o desprezo e o falso julgamento de Caifás
e as mãos lavadas de Pilatos.?

Estes são os legítimos ressentimentos, as razões daqueles cujas bandeiras estampam as cores  da justiça e da verdade.
São também, entre tantas, nossas razões de poetas, os motivos pelos quais cantamos, nossas licenças literárias,  nosso encanto e desencanto, nosso íntimo e angustiante tribunal.
Sabem os homens justos e sabemos os poetas que nossas denúncias e testemunhos, nossos líricos veredictos se escorrem, ignorados ou esquecidos, pelos ralos da inconsciência humana.

Sabemos que o perdão pessoal é o único passaporte que cruza a fronteira da paz interior e da liberdade do espírito, e por isso a justiça deve ser impessoal e ser entregue aos tribunais inexoráveis da própria vida. Mas ainda não consegui vistar esse precioso documento.

Como perdoar a cicuta imposta a Sócrates,
os que gargalharam no Coliseu ante os cristãos devorados pelas feras,
como perdoar os crimes de Torquemada
e a fogueira acesa  a João Huss e a Giordano Bruno.

Nunca poderei perdoar uma Hiroshima arrasada
nem Auschwitz e nem Trebinka,
e crianças ardendo em napalm  na  Saigon bombardeada.

‘A Grande Alma’ da Índia,  abençoando o assassino.   Ele perdoou…, e você?
E o tiro em Luter King?  Chico Mendes? Doroty Stang? Por certo foram perdoados.
mas, na memória de Allende e dos mártires chilenos, não perdoo Pinochet.

Não perdoo tanta dor por Caupolican empalado
Tupac Amaru, numa praça esquartejado
e Otto René Castillo, durante três dias queimando.

Federico Garcia Lorca…, já não tinhas mais abrigo,
campo frio, amanhecendo, caminhavas entre os fuzis….
e naquela hora em Granada fomos crivados contigo.

Morremos com Lord Byron,  pela liberdade da Grécia.
Morremos com Victor Jará,  com Ariel Santibañez
torturados até a morte  nas prisões de Santiago.

Javier Heraud, ainda infante, cinco livros publicados
o poeta guerrilheiro, no verde vale do Cuzco,
com vinte e um anos apenas ele caiu emboscado.

Não perdoo,  não perdoo, por tantos poetas sangrados,
pelas vidas silenciadas nos horrores dos DOI-CODI,
e os carrascos do Regime, só aqui anistiados.

Não perdoo, não perdoo, os crimes da ditadura
nem a MEMÒRIA perdoa
e a PÀTRIA jamais perdoa  seus filhos sem sepultura.

CONSOLA-ME ACREDITAR QUE, APESAR DA IMPUNIDADE DOS CÓDIGOS DA TERRA E DA NOSSA IMPOTÊNCIA ANTE A CRUELDADE HUMANA, HÁ UMA INSTÂNCIA SUPERIOR DA JUSTIÇA ONDE SE COLHE, OBRIGATORIAMENTE, OS FRUTOS AMARGOS DOS ATOS HUMANOS, SEMEADOS  LIVREMENTE, MAS SEM A NOÇÃO DO DEVER.

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Leia o texto comentado AQUI

O MALA – de marilda confortin /curitiba

Tem mala pesado, sem alça

Mala de ombro, mala tiracolo

Malinha que cabe no bolso

E mala que se carrega no colo.

Mala que fala pelos cotovelos,

E aquele que vive de boca fechada.

Tem mala que bebe feito um camelo

E mala chato que não bebe nada.

Mas o pior mala é o enrustido

Que fica sempre num canto

Falando mal dos amigos

E fazendo pose de santo.

Tem mala que é irmão.

Mala mulher e “mala man”

Mala casado, mala solteirão

E malacompanhado também.

Mala chefe, ninguém merece!

Mala puxa-saco, é covardia!

Peão mala,  é um estresse!

Estagiário mala, afe Maria!

Filho mala, é eterno.

Mãe que agüenta, vai pro céu.

Pai que sustenta, vai pro inferno

E a família toda leva o troféu!

Mas tem mala pior, meu amigo…

Você não perde por esperar:

Cunhado mala! É um castigo!

Só tua santa irmã pra carregar

E pescador mentiroso, então!

Filósofo de boteco, quem gosta?

Mala fanático por religião?

E torcedor de timinho de bosta?

Ex-fumante metido a dar conselho?

E aqueles que se acham gostosões?

Radicais, racistas e outros pentelhos

Quem agüenta seus sermões?

Malas que falam mal de seus pares

E ainda querem saber  tua opinião

Tem que cortar nas preliminares

Pra não se envolver na confusão

Músico que faz cu doce pra tocar

Até na casa de amigos cobra chachê!

E vizinhos que só sabem reclamar

E falar mal dos outros. Ah!Vai se fudê!

Poeta mala então, é um desaforo!

Ai de quem não goste de poesia!

E crítico literário mala,  socorro!

Só vê defeitos, só vive de teoria.

Mala depressivo, mal amado

Óh céus! Oh vida! Oh azar!

Interne numa zona o desgraçado,

Quem sabe pare de incomodar!

Parente mala, é uma merda.

É uma baita falta de sorte

É uma sina que se herda

E se carrega até a morte.

Mala que se preze, não tem sexo:

Tanto faz homem, mulher ou viado.

O que pesa não é o tamanho do anexo,

Mas sim a chatice do desgraçado.

Mas tem mala que não tem preço:

Mala do peito, mala irmão

Mala que se vira do avesso

P´ra não nos deixar na mão.

Quem não tem um mala amigo,

Um malinha de estimação,

Aquele que está sempre contigo

E que mora dentro do coração?

Quem nunca carregou um mala

Não tem histórias pra contar

Pois todo o mala é uma bengala

Prum mala bem maior se apoiar.

Pra terminar essa bobagem,

Eu peço palmas, minha gente:

Muitas vaias em homenagem

A todos os malas aqui presentes.

LESMA – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

falar :signo: uma coisa

conhecê-lo outra inscrevê-lo no tempo

olhar pra dentro do filho da matéria

língua pensamento

conhecer suas faces escondidas

espelhos nos espelhos

espectros nos espectros

o núcleo da amêndoa doce

:um toque na tépida luz:

significância extensa

voragem de efeitos vertigem

de reflexos no teto

nas paredes os traços finos

ao chão microsemas rúspitos

o signo virado lesma a compor

significados novos o signo de arrasto

túmido de conceitos

virados fala

a vida passa :uma graça de ditos:

o corpo em si dizendo tudo

o corpo é quem faz o dito

o corpo extenso em signos

ser só linguagem

só linguagem-pensamento

como uma lesma em trânsito

ciscos pós esporos

acumulados ao corpo lângue

uma língua muitas linguagens em si

formadas nesse lento trânsito.

BARQUEJANDO ÁGUAS RASAS – de tonicato miranda / curitiba


para a namorada de Cabo Frio

TM, anos 80 do Séc. XX

.

navegar em teu olhar

é balançar curtas distâncias na lagoa

é estar preso à corda e à âncora

sem vontade de aventuras

navegar em teu olhar

é te cheirar maresia

é te observar nas nuvens

passando no azul que vai e volta

em cada luz eclipsando noites

onde passamos a murmurar

a beleza de estrelas

presas no céu

soltas no mar

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA – por vera lúcia kalaari / portugal

O mundo reafirma a sua fé nos Direitos Humanos fundamentais e a criança confia em que o homem envide os esforços para lhe proporcionar melhores condições de vida, dentro duma liberdade mais ampla.

Mas que faz, na realidade, a sociedade em prol da infância? Que outros Direitos existem se não aqueles constantes dos estatutos que mais não são do que princípios? E que, especificamente, se insurge contra as violações que, diariamente, se fazem no Mundo a esses mesmos Direitos?

PRINCÍPIO – 1º – A criança gozará de todos os direitos enunciados nesta Declaração. Todas as crianças, absolutamente sem qualquer excepção, serão credoras destes direitos, sem distinção de raças, cor, sexo ,língua,  religião, opinião política ou de outra natureza ,origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição, quer sua ou de sua família.

A REALIDADE- Que protecção especial é esta de que falam estes Direitos? Que condições são criadas pelos homens, visando que a infância seja protegida? Cava-se um fosso cada vez mais profundo na sociedade. A deterioração gradual dos princípios morais do mundo adulto, faz com que, em muitos casos, a criança de hoje não tenha infância. Ela é ,a partir dos primeiros anos de vida ,um adulto nos vícios que ganha, no ambiente de miséria, que desde os primeiros passos, a rodeia.

PRINCIPIO – 2º -A criança gozará protecção especial e ser-lhe-ão proporcionadas

oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico e mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade. Na promulgação de leis visando este objectivo, levar-se-ão em conta, sobretudo, os interesses superiores da criança.

A REALIDADE- Em todas as latitudes se verifica uma descriminação não só social como  rácica,  que não exclui a criança. Esta tem a situação muito mais agravada na maioria dos países africanos e árabes, onde o racismo, disfarçado em religião, é evidenciado em todo o seu barbarismo, sem que alguém se preocupe com isso.

PRINCIPIO – 3º   Desde o nascimento, toda a criança tem direito a um nome e a uma nacionalidade.

A REALIDADE – Quantas crianças existem que outro nome não conhecem senão aquele que ganharam na rua? E quantas são expulsas das suas próprias terras, sem outra razão que não seja a invocada pelo ódio, fruto duma eclosão de violência? Onde está essa apregoada nacionalidade?

PRINCIPIO – 4º – A criança gozará os benefícios da previdência social. Terá direito a crescer, criar-se com saúde e para isto, tanto a criança como à mãe, será proporcionada

Protecção especial, inclusive adequados pré e pós natais. A criança terá direito a alimentação, habitação, recreação e assistência médica adequadas.

A REALIDADE – Que Previdência existe e onde se localiza, quando o espectáculo degradante de mães  mendigas, com filhos raquíticos e famintos se nos depara ao virar de cada esquina? Que Previdência é essa, que deixa crianças apodrecerem entre a terra batida e o telhado de zinco sem que esse apoio passe do estipulado em papel, nos tais estatutos?

PRINCÍPIO – 5º –    À criança incapacitada física ou mentalmente, ou que sofra de algum impedimento social , serão proporcionados o tratamento, a educação e os cuidados especiais exigidos pela sua condição peculiar.

A REALIDADE – Os deficientes,  marginalizados, esquecidos daquilo que possam querer ou exigir como seres humanos, testemunham o olvido a que foram votados. São o espelho de tantas crianças vegetativas que  outra coisa não possuem senão o direito de sobreviverem.

PRINCÍPIO – 6º – Para o desenvolvimento completo e harmonioso da sua personalidade, a criança precisa de amor e compreensão. Criar-se-á, sempre que possível, sob o cuidado e responsabilidade dos pais e sempre num ambiente de afecto e de segurança moral e material; salvo circunstâncias excepcionais, a criança de tenra idade não será separada da mãe. À sociedade e às autoridades caberá  a  obrigação de proporcionar cuidados especiais às crianças sem família e àquelas que carecem de meios adequados de subsistência .É desejável a prestação de ajuda oficial ou de outra natureza para a manutenção dos filhos de famílias numerosas.

A REALIDADE  – ´´Dai a César o que é de César…´´ A cada mãe o seu filho, a cada mulher as condições que lhes possibilitem aquilo que todas anseiam mas que poucas possuem: O direito de ser mãe. Não apenas mãe procriadora, mãe educadora e companheira. Onde está isso?

PRINCÍPIO – 7 º -A criança terá o direito de receber educação gratuita e obrigatória, pelo menos no grau primário. Uma educação capaz de promover a sua cultura geral e capacitá-la a emitir juízo e o senso de responsabilidade e tornar-se um membro útil à sociedade. A criança terá ampla oportunidade para estudar, brincar e divertir-se, visando aos propósitos da sua educação. A sociedade e autoridades públicas empenhar-se-ão a promover o gozo deste direito.

A REALIDADE – Quantos pequenos homens se cruzam connosco, ombros  fragéis curvados pelo fardo da sua labuta, expressão confusa, pedindo uma explicação sobre os motivos que lhe causaram a ele, criança que não é igual às outras, devido à rejeição forçada à sua infantilidade?

PRINCÍPIO _ 8º – A criança figurará, em qualquer circunstância entre os primeiros a receber protecção e socorro.

A REALIDADE – A protecção de uma criança indefesa deve vir dos adultos que a rodeiam. Mas ondas consecutivas de violência destroem todos os princípios de apoio e defesa à sua integridade física e são um desafio àqueles que os afirmam como leis a serem cumpridas. E essa violação tem lugar todos os dias.

PRINCÍPIO – 9º – A criança deve ser protegida contra qualquer forma de negligência, crueldade e exploração. Não será jamais objecto de tráfico, sob qualquer forma. Não será permitido à criança empregar-se antes duma idade mínima conveniente. Em nada que lhe prejudique a saúde, a educação, ou que interfira no seu desenvolvimento físico, mental ou emocional.

A REALIDADE –  Que fazemos nós, homens, para proporcionar a cada criança a alegria de se sentir criança?  Tudo o que se passa neste momento no mundo, é do conhecimento geral. E toda essa realidade, está presente no terror das suas expressões, sem que se tomem medidas de força, por parte dos Governos,  para porem este Princípio em prática.

PRINCÍPIO 10º – A criança gozará protecção contra actos que possam suscitar discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza. Criar-se-á num ambiente de compreensão, de tolerância, de amizade entre os povos, de paz e fraternidade universal e em plena consciência que o seu esforço e a sua aptidão devem ser postos a serviço dos seus semelhantes.

Proclamado pela Assembleia das Nações Unidas no dia 20 de Novembro de 1959.

A REALIDADE –  Milhares de crianças fogem das suas terras, como gaivotas fugindo da tempestade, quando o ódio alastra entre os povos, culminando em guerras, sem que uma voz infantil seja ouvida. Como evocar o ambiente de paz e fraternidade universal se ele nunca existe ou existiu entre os homens?

CONCLUSÃO : Este artigo, mais não traz do que a  já tão conhecida ‘’Declaração dos Direitos da  Criança’’.  Acreditamos que o idealista que a concebeu, tivesse sido imiscuído

das melhores intenções e fosse duma ingenuidade tal, que brada aos céus. Talvez fruto do seu tempo. Mas o que nos parece incrível, é que perante a realidade e a ficção destes

princípios, ainda haja Organizações que têm a coragem   de evocarem estes mesmos Direitos. E que nós, Povo, passemos ao largo,  façamos parte deste exercito de  inertes

anónimos que continuamos a consentir que nos tratem como tal. Esta Declaração serve também, para comprovar outra coisa: Que os Congressos, Reuniões e outros acontecimentos afins, organizados  pelos ‘’cérebros’’ que nos governam, donde saiem

Convenções, Acordos, etc. etc., sobre os mais diversos  problemas  com que presentemente nos debatemos ,no fundo, não passam de palavras mortas, sepultadas em  milhares de documentos, para nunca serem cumpridas. …  É evidente que após semanas de encontros, beberetes, jantares, seguranças, hotéis, etc. etc., alguma coisa tem que  sair cá para fora, para se apresentar  trabalho feito. Mas valia a pena que fossem contabilizadas as despesas feitas com essas reuniões internacionais. E valia ainda mais a pena que fosse feito um estudo para se saber o que se fez ou o que se concretizou daquilo que  ficou estipulado ser feito, para bem da Humanidade e do planeta Terra.

E o exemplo mais marcante, o vergonhoso e ignóbil exemplo, está nesta Declaração que reproduzi, para termos a real consciência do que valem, na sua essência, aqueles que nos governam e têm o nosso destino nas mãos.

MÚSICA DA IDADE MÉDIA

UM clique no centro do vídeo:

MARCAS por “o ruminante” / belém.pa


Procuro nos traço de meu semblante

Algo que me mostre novamente

Aquele que outrora um dia eu fui

Não falo simplesmente de lembranças

Mas de alguém que não consigo mais enxergar

No meu semblante vejo as marcas

Marcas que o meu passado deixou

Mas não consigo ver o meu passado

Vejo rugas impiedosas traçadas por toda parte

Avisto o prateado tom de cabelos descolorindo

Se não vejo meu passado em mim

Somente as marcas de quem fui um dia

Não sou mais eu quem está aqui

Por isso não me vejo mais em minhas marcas

Marcado eu fui para não saber mais quem sou

Que outras marcas o futuro me dará?

Será que nestas, afinal, me reconhecerei?

Caso outra vez não me veja

Não reagirei como no presente agi

As marcas da experiência me acalmarão

Porém, caso o futuro me seja um presente

Se as marcas me fizerem lembrar

Do semblante que hoje eu perdi

Mais marcado eu quero ser

Assim, eu jamais esquecerei quem eu sou.

PENA DE MORTE por hamilton alves / florianópolis

Volta e meia, vem à baila a questão momentosa da aplicação da pena de morte, uma das formas, a mais severa de todas, de aplacar os crimes hediondos que hoje se tornaram rotina em nossa outrora pacata cidade.

Nesta semana, duas pessoas inocentes (uma delas ainda bastante jovem, mãe de uma menina), quando ia para o trabalho, no terminal de ônibus de Canasvieiras, por uma bala disparada por um bandido contra um desafeto, talvez pelo motivo torpe de contrabando de droga, por disputa de ponto ou por um desses motivos futilíssimos, veio a alcançar essa jovem senhora, matando-a ali mesmo.

Em outro ponto da cidade, de novo, uma bala perdida atingiu uma pessoa, pelo mesmo ou motivo semelhante, envolvendo certamente tráfico de droga, disparo de um bandido contra outro traficante ou usuário de droga. Sempre a droga tem sido o fator gerador de tais crimes, com perda de vidas preciosas, de pessoas que ainda vivem a fase da mocidade.

O quadro de criminalidade não se resume a esses dois episódios. Uma médica faz algum tempo sofreu na Trindade assalto de um bandido, reagiu, pelo que o assaltante disparou-lhe um tiro, ferindo-a mortalmente.

Outro caso foi de um crime de morte num local próximo ao centro, na Agronômica, em que o caso envolvido foi também tráfico de droga.

Pergunta-se: a polícia resolveu todos esses casos? Fez o inquérito que lhe cabia, foi levado à consideração do juizado, foi formalizada a autoria, dando à sociedade o sentimento de que tais bandidos serão punidos com todo o rigor da lei?

Fica-se sem saber que rumos tomaram as providências policiais. O máximo de que se fica informado foi do crime. De mais nada.

Todo o dia se tem uma nova notícia na imprensa de homicídio por uma ou outra causa.

Os bandidos contam com a impunidade ou com o despreparo notório da polícia em levantar dados que levem ao culpado.

E o que faz o poder público, a Secretária de Segurança, o governador do Estado, informados desse estado geral de insegurança e da notória e preocupante incidência na prática de crimes violentos e cruéis?

Nada se sabe a tal respeito.

Para o combate a esse tipo de crime, homicídios qualificados ou não, que envolve principalmente a futilidade ou a hediondez do motivo, o deputado Benjamin Farah, há um tempo, no Congresso Nacional, batia-se pela adoção da pena de morte. Era a única voz que se erguia, naquela casa, pela introdução dessa medida em nossa lei penal.

O deputado está morto, mas sua ideia de vez em quando é levantada para combate mais rigoroso a esse tipo de criminalidade, tendo como vítimas na maioria das vezes pessoas inocentes.

Até quando se assistirá à passividade do poder público?

(fev/10)

MATADORES DE BORBOLETAS AZUIS de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Não perdôo, não perdôo os soldados franceses

que colocaram suas línguas ferinas

nos canhões

e destruíram

a estátua eqüestre de Leonardo.

Argila mais bela desde Adão.

Destruíram

a escultura

que era das coisas mortas, a mais viva.

Porque não recolheram os fragmentos amorosamente

ate  a invenção do superbonder?

Os críticos que jogam ausências são filhos e netos destes soldados.

Não perdôo os fascistas, não perdôo

com  fuzis  atiram dentes de leopardo em  Lorca

e a multidão de poemas ainda em casulos

dentro dele

agora são mortalhas.

Matar um poeta é queimar livros antes da publicação.

Não perdôo, não perdôo o vândalo

que destroçou o rosto de Pasolini  como um vaso vermelho.

Dentro deste canopo tinha tantos filmes e poemas viscerais

que foram quebrados antes da descoberta.

Não perdôo Maiakovski, não perdôo,

teu sangue tem cheiro de poemas mortos.

Você também assassinou um poeta

com seu suicídio.

S E M – por jorge lescano / são paulo

S  E  M

Para os meus Colaboradores

No livro póstumo Seis Propostas para o Próximo Milênio, do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985) – série de palestras que não chegou a pronunciar nas Conferências Norton –, o autor refere que teria gostado de compilar uma antologia com os contos mais breves do mundo. Ilustra a idéia com a que se dá como a mais famosa das narrativas do escritor mexica-guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003):

O dinossauro

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

A intenção de Calvino se viu frustrada por não encontrar outras peças com a brevidade e qualidade desta obra prima.

O escritor brasileiro Luiz Arraes compôs 40 variações sobre o texto do mexicano em Tentando entender Monterroso. Na abertura deste livrinho (cabe no bolso da camisa), depois de citar O dinossauro, comenta que ele é tido como o conto mais curto jamais escrito, e afirma: Não é. O conto Nada,  de Raimundo Carrero, publicado na Antologia dos contos mínimos, merece esse título.

Não conheço esta obra, contudo, pelo contexto em que está inserida, imagino que se trate de um conto concreto, isto é,  título e conto são uno:

nada

Se assim não for, proponho a minha leitura como re-escrita dele ou variação do tema.

As bem humoradas variações de Arraes me estimularam a competir com a criatividade destes autores. Creio que consegui escrever o conto mais breve em pelo menos duas línguas (literaturas): portuguesa, castelhana:

S E M

S I N

A sonoridade produzida na leitura corrida das duas versões é um benefício extra que o aproxima da poesia. Valerá a pena tentar o registro de SEM no Livro dos Recordes?

O Dr. Marcelo Pasquali qualifica SEM tão perfeito quanto Jorge Luís Borges A invenção de Morel, do seu amigo Adolfo Bioy Casares, e diagnostica com precisão de goleador: a obra está irremediavelmente excluída da competição Nobel pois não pode ser traduzida para o sueco, requisito sine qua non.

A dileta amiga do autor, Dra. Carminda André, depois de algumas considerações sobre certos aspectos da obra em pauta, informa que hordas de esclarecidos leitores já estão fazendo circular um abaixo assinado em favor da inclusão da mesma no Guinness. A autor agradece e se dispõe a participar desinteressadamente dessa democrática empreitada em favor das Belas Letras Pátrias.

Contagiado pelo espírito da coisa, o Prof. Abrahão Freitas adaptou antigo slogan das célebres Pílulas (não pastilhas, cápsulas, drágeas, comprimidos) do Dr. Ross: Chiquitito pero cumplidor!.

Do seu conto SEM/SIN se pode comentar que além da sonoridade em qualquer idioma, mesmo que não tenha qualquer sentido em chinês (a conferir), essa sonoridade, por certo, provocará impressão especial, afirma o poeta e escritor (sic!) Raul Longo, e aproveita o ensejo para aditar uma anedota sobre seu amigo Luiz Arraes.

Grave falha na versão anterior de SEM, aponta o Dr. Maurício Ayer, e diz que SIN é pecado, culpa, maldade, transgressão, falta, ofensa, na língua da rainha Vitória. Nada mal para um monossílabo!

O Leitor Anônimo (como tal assina) envia sua colaboração que, para dizer o menos, sofre de algum didatismo, como os filmes norte-americanos que nos impingem moralismo e seu Código Penal sob o pretexto de cinema onde sempre triunfa o Advogado de Defesa, exceto nas histórias de Al Capone, graças a Deus. Incluem-se aqui seus esclarecimentos apenas para não trair o espírito democrático dominante na Comunidade Internacional, da qual o autor de SEM pretende vir a fazer parte assim que descobrir o que seja ela: SEM, tem o mesmo som do número CEM no idioma da Martona, Melhor Futebolista do Mundo em 2009, versão venusiana, pela quarta vez consecutiva. SIN, nome do Celeste Império na língua de Kung-Fu-Tzu e  Shih  Huang-ti.

Anos atrás Raul Longo recebeu uma breve carta da Bélgica. Uma estudante de lingüística procura hospedagem em Florianópolis para residir durante o tempo que dure sua bolsa de estudos. Ela assina Sien, a grafia soa como o número 100 em castelhano. Agora Raul, Sien e a carta são parte de uma narração em andamento. Atualmente, o autor desta resenha traduz um conto que tem a Bélgica como ponto de partida, na carta de Sien acredita ver certa continuidade temática. Na literatura toda coincidência é controlada, construída, matuta enquanto levanta andaimes sem planta do edifício, a menos que o edifício seja de andaimes: textos desconexos de um diário ideal, que de fato registre o processo mental do autor. Sente-se como o personagem de Jarry, que foi estudar francês e acabou aprendendo belga. Sien esclarece que seu nome se pronuncia Sim e não sabe explicar porque.

Rogério Rodrigues, apesar de ator e dublador confessa ter ficado Sem palavras e cumprimenta o autor respeitosa se não ironicamente. Sua mudez não é empecilho para que continuemos pois até agora ninguém sabe como isto vai acabar!

Na biblioteca da escritora Zuleika dos Reis encontro o livro com o anacrônico título Os cem menores contos brasileiros do século; São Paulo, Ateliê Editorial, 2004. A página 79 deste volume contém o conto de Raimundo Carrero citado por Luiz Arraes, cujo título correto é Quatro Letras. Ei-lo:

Quatro letras

Nada.

Assim sendo, parece que a minha versão de nada é mais breve e, obviamente, não pode nem deve ser considerada plágio, apenas variação do mesmo tema (ou da ausência dele).

Houve um erro deliberado, piada que não funcionou, e um terço da extensão do conto mais curto do mundo teve que ser sacrificado, o que ganhou em brevidade perdeu em intensidade. A atriz Marcela Salzstein, que ainda não leu estas notas, diz: pode ser o mais curto mas tem a maior das apresentações.

O autor desconfia que existe uma sutil relação de motivos ou sub motivos entre todos os livros da biblioteca universal; por que alguns deles coincidem em determinado texto? Para relaxar, decide ler um  conto. Há uma  mulher que mente  através de  uma fotografia:  Oh, eu sei –disse  ela pegando a foto

com as duas mãos. — Gosta? Faz tanto tempo. Estou na Bélgica, fazendo Wagner. A obra é de Ricardo Piglia, título: O fim da viagem. O conto que está traduzindo é de Marco Denevi, também autor argentino, o triângulo amoroso parodia o humor melancólico de Tchekhov, a anedota acontece numa viagem de Ostende a Bruxelas. (Enviar cópia da tradução aos amigos para que não me acusem de maneirista.) Os escritos dormiam espalhados numa teia invisível, por que Georgie os reúne precisamente agora?, quer saber o homem de Praga. Narra-se uma viagem ou um crime, que outra coisa se pode narrar?, diz Piglia. Ler é muito perigoso. Se viver é fatal, a literatura é arte de alto risco. Flecha em busca do alvo no escuro. Deve-se escrever segundo a lógica secreta da vida, a estrutura interna do erro, as bifurcações da linguagem. Evitar toda aparência de realidade. Depois acrescentar a carta, a viagem e a residência da bolsista em Florianópolis. O resultado será diverso do realismo: o cotidiano aperfeiçoado pela ficção, fato autônomo, auto-suficiente e mais duradouro que o evento histórico, tal o objeto estético.

O Dr. Marcelo tece a crítica minuciosamente, como a aranha tece seu ninho. Recupera antigas conversas com o autor na calma e clara intimidade do seu estúdio (dele, Dr. Marcelo Pasquali) na rua Lovegreen. Traz à baila o sisudo realista Tolstoi, o alegre mago Joyce, o irônico e sutil Tchekhov, o mirabolante Macedonio. O escriba receia que seu ego esfarele sob tal massagem. Subitamente lembra que Bustos Domecq participou do último encontro e sorri a meia boca.

Na versão anterior subsistem resíduos de instâncias eliminadas na presente, reconhece o autor, embora a Dra. Carminda André afirme não perceber diferenças entre uma e outra. Ele atribui sua confusão a distrações, esquecimentos, trocas inadvertidas e suspeita sintomas de senilidade (precoce, quer acreditar). As aliterações podem ser um aviso. Sem ser hipocondríaco admite que a freqüência desses percalços deveria merecer mais atenção de sua parte. Promete-se que esta será a penúltima versão definitiva da obra, que de simples conto está se transformando em internovelet, gênero precário no seu juízo, caso exista.

Os comentários contaminam o enredo, modificam a trama. A narrativa seria urdida com os e-mails supracitados, a síntese da carta postada na Bélgica e as confidências de Raul pela internet. Suspeitamos um romance truncado entre a moça de cabelos de linho e o poeta que lhe deu albergue. Ela seria tímida, pálida e silenciosa, a ele nada custa imaginá-lo alto, esguio, belas madeixas negras a se debruçar sobre a fronte trigueira, olhar melancólico, como se já conhecesse o destino que lhe está reservado. O caso teria acontecido à beira-mar. No crepúsculo vespertino, Sim, translúcido cristal de Flandres, esvai-se, deixa em pós de si aura de tulipas. O resto é silêncio, rubrica o inglês em rubro.

Se vale a pena a poesia SEM ser registrada no Guinessssss?, indaga Joana Toda Pura, com cerveja!!!!!! kkkkkkk, responde. Promete ficar torcendo pelo Jorjão e se despede Feliz com sua visita. Bjs.

Atenção!,o computador acusa nova mensagem. Leitor retardatário propõe um conto ainda menor que SEM: NÓ. Assim,  não faltará quem sugira E (Y) como narrativa. Antes, arquivar o tema.

Continuam chegando insistentes contribuições (mais uma, de Lucas Paolo). Ele diz que “ “ superaria E (Y) em brevidade. Reproduzimos a proposta para não trair o sistema desta obra, contudo, o leitor atento poderá perceber facilmente que além de ser maior (três toques no teclado), viola a poética de SEM, ao tempo que cria novo sistema ou temática (do silêncio expressivo, pode-se dizer). Grato, L.P.

Agora, CHEGA! Publique-se!

CONVERSA DE HOMEM E MULHER por hamilton alves / florianópolis

Acho curioso quando um homem e uma mulher, casados, amantes, namorados ou amigos se defrontam frente à frente em qualquer lugar, num bar, num restaurante, num café ou outro semelhante com esse propósito de por as coisas que têm para se dizer em pratos limpos. Ou que não seja isso, mas para confrontar idéias ou até mesmo dificuldades que possam ter em qualquer plano da vida.

Não só é apenas curioso, mas sem dúvida há um certo fascínio nisso.

Hoje, à tarde, por exemplo, enquanto numa mesa próxima de um desses casais deglutia um lanche, fiquei observando os dois, ele mais do que ela, que estava de costas para mim. Por isso, me dificultava acompanhar a expressão de seu rosto. Me pareceu tratar-se de assunto que revestia alguma seriedade pelo modo como o homem franzia o sobrecenho, como a olhava longamente através das lentes dos óculos para de vez em quando por o olhar em cima da mesa, onde ficava bolindo com uma coisa ou outra, como se assim quisesse pesar ou encontrar o rumo para o que dizia. Enquanto ela me parecia expectante ou atenta ao desenrolar do discurso.

De qualquer modo, mostrava-se ele mais palrador do que ela.

De que assunto tratavam?

Havia expressões, como conseguia ouvir uma que outra, que compõem qualquer papo, seja de que natureza for, como, por exemplo: “o problema é o seguinte” – dizia ele, a certa hora.

Erguia os olhos, contemplava a cara da mulher.

Parecia convencido de toda a verdade de suas palavras. Um homem ou uma mulher traem, sem querer, tantas vezes, aquilo que querem que assuma aos olhos do outro um tom de autenticidade. Ou de honestidade. Nunca somos rigorosamente verdadeiros ou honestos no que dizemos a outras pessoas em qualquer circunstância.

Mas aquele homem, ao dirigir-se a sua interlocutora, me parecia que estava absolutamente convencido de que tudo que dizia era palpável, tanto quanto a luz do sol.

– Por essa luz que nos ilumina estou sendo verdadeiro. – parecia dizer.

Como bem o reparava, tinha o dom de imprimir aos seus traços fisionômicos uma confiança absoluta.

Quando me ergui de meu canto, andei alguns passos. Voltei-me para ver o rosto da mulher. Parecia-me dessas criaturas simplórias, que engolem qualquer lero-lero.

Ou estaria muito enganado.

Mas mais que tudo, valeu-me o espetáculo do que vira, desse encontro ou desencontro de duas almas num bar, num restaurante, num café ou em qualquer lugar desse tipo.

Inteligência brutal – por alceu sperança / cascavel.pr

Graciliano Ramos (1892–1953) achava que se o capitalista fosse apenas um bruto, ou seja, apenas burro e grosseiro, até seria tolerável. “Aflige-me”, escreveu o Velho Graça, em Memórias do Cárcere, “é perceber nele uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas”.

Pois o capitalismo, hoje em sua fase superior, neoliberal, está mostrando ser tão bruto, além de violento e malandro, que seguramente nem o grande e generoso escritor brasileiro conseguiria tolerá-lo.

Afora seguir alugando inteligências canalhas, através da ideologia vai impondo suas novas regras de ouro:

1) “Teu irmão é teu inimigo, vai lá e atira nele”;

2) “Para haver a estabilidade econômica dos ricos, é preciso haver a instabilidade dos que trabalham”.

E como irmãos têm atirado em irmãos! E como estão instabilizando a vida de quem trabalha! Todos os dias, nas cidades e nos campos, há tiroteios fratricidas, alimentados pelas inteligências canalhas de que falava Graciliano.

Todos os dias, os parlamentos de vários países, a mando dos patrões que os manipulam desde Londres e Nova Iorque, aprovam “reformas” restringindo direitos humanos. Liquidam o emprego estável. Cassam, limitam ou reduzem aposentadorias que garantiriam a sobrevivência do idoso ou incapacitado para o trabalho.

Parque Nacional

Sonegam, dificultam e corrompem a assistência médica. O ensino se universaliza na mesma medida em que também se precariza. Não creio haver muitas brutalidades e canalhices maiores que essas. Talvez só os espancamentos das mulheres no Zaire, como avisa a professora Rosana Nazzari.

Dezenas de jovens morrem tragicamente em duelos ferozes nas periferias das médias e grandes cidades, sob a indiferença geral. Mas quando morrem dois em um atrito irresponsavelmente provocado para defender uma transnacional, como ocorreu na Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, é o fim do mundo.

Não faz a menor diferença nossos jovens se trucidarem, mas ai de nós se a transnacional ficar de mal com a gente! Não importa que o emprego se torne instável e o estresse inunde as famílias, transformadas em neoescravas de bancos, tributos, taxas etc. Mas que ninguém ouse questionar as experimentações duvidosas de uma transnacional na beira do Parque Nacional do Iguaçu.

O Parque é mil vezes fechado ao trânsito dos colonos, tratados a porrete e bordoadas, mas pode ser invadido pela suspeita porcaria transgênica, sobre a qual não se tem a menor idéia de como agirá no ecossistema e no organismo humano.

Felizmente, a própria Syngenta teve mais juízo que os “ruralistas” responsáveis pelos crimes − dois jovens mortos, um sem-terra e um “segurança” de ruralista − e transferiu a área ao desenvolvimento da agricultura orgânica familiar.

A flexi

O cidadão, aqui, nos EUA, na Europa, tem plena liberdade para se deixar escravizar. Suprimem-se os seus direitos, perde o emprego, tenta sobreviver com negócios cada vez mais ilegais e vai para a cadeia. Há gente comemorando que nos EUA cerca de 2% da população já esteja na cadeia e lamentando que menos de 1% estejam presos no Brasil.

Isso também é falso, pois aqui há milhões presos nos grilhões da neoescravidão, condenados à doença física e mental, à insatisfação de uma vida que não pode ser plenamente vivida, à angústia de tudo ser caro e difícil, o rancor e o medo disseminados de propósito na classe média.

“Su” da temporada na Europa, vem aí, em sua plenitude, por entre a guarda aberta do esquema traidor luliberal, a flexiinsegurança. Alvo: arrasar os sindicatos e flexibilizar as relações laborais sem compensação para quem perde emprego e renda.

A consequência é o desespero, a doença, a insegurança. O mundo do trabalho está sob ataque. Um ataque comandado por inteligências brutas e canalhas, a gente finíssima lá do hemisfério Norte que aluga as daqui.

IF ? – de jb vidal / florianópolis

I glance at the Universe

expecting to feel it,

pulse together, be limitless, be complete

be it,

slowly, the image fades away

with no horizon, the retinae cannot remain focused

vision becomes heavy, eyes close, head over heels,

I spin inside myself

sweat rivers of salt,

feel and do not feel,

see everything and nothing

poorest, I  am  great,

great, I am my own Cosmos

look at indeed, look at myself

infinite seconds abducted me

react, return not!

misery not, war not,

starvation not,  plague not,

love not, hate not,

live not, die not,

conscience not!

life, life indeed

If I am, and I do not know where I am

I am what I do not know, where I am not in

==

SE?


lanço um olhar ao cosmos

na expectativa de senti-lo,

pulsar junto, ser infinito, ser todo,

sê-lo,

lentamente a imagem se reduz,

sem horizonte, as retinas não suportam fixar

o olhar se cansa, os olhos se fecham, a cabeça tomba,

giro dentro de mim

transpiro rios de sais,

sinto e não sinto,

vejo tudo e nada,

ínfimo, sou grande,

grande, sou meu próprio cosmos

olhar sim, olhar-me

segundos infinitos me abduziram

reajo, retornar não!

miséria não, guerra não,

fome não, peste não,

amor não, ódio não,

morrer não, consciência não!

vida, vida sim!

se sou e não sei onde sou,

sou o que não sei,  onde não estou

.

translation by joanna andrade

O POETA MANOEL DE ANDRADE é convidado para participar de encontro latinoamericano de literatura

CORRE, CORRE! de otto nul / palma sola.sc

Corre hora

Corre dia

Corre noite

Corre mês

Corre ano

Corre tempo

Corro eu

Corres tu

Aqui, acolá,

Para onde?

Corre João

Corre José

Corre a roda

Corre o carro

Corre a vida

Não adianta segurar

E vai que vai

Aos trancos

E barrancos

Nem quero chegar

SONHO DO SONO ETERNAL de laércio zaramela / são paulo

Me faça um afago na face
E afugente de mim o cansaço
Que insiste em permanecer.

Assim, nas areias molhadas
Das águas salgadas do mar
Eu sonho que adormeço
O sono eternal.

Se tenho a face cansada
Me faça um afago
E me ajude a dormir.

Assim, fielmente prometo
Sonhar o mais lindo dos sonhos
Que um dia eu possa ter
Com você.

QUANDO AS NUVENS FECHAM de jorge barbosa filho – curitiba


quando as nuvens fecham o céu

e meus olhos choram, são chuvas, sempre chuvas

onde você deitou, chorou e escorregou.

em meu peito molhado, ficando carregado

de tantos trovões, com teu amor.

quantos estouros, não sei porque!

queria um beijo que fosse sincero.

não um beijo, mais do que um beijo,

um beijo para ser eterno… e terno.

mesmo no inferno… e mesmo no inferno.

a tempestade do meu ser, acho,

deve te dar algum prazer…

algum prazer! uhunhuhn algum prazer!

o céu está cinza. pra quê tantas chuvas,

se admiro isto distante, distante,

e me molhar no meu amor num instante

apenas por um instante.

apenas por um instante.

os pingos das chuvas me dão o lazer

pra brincar com você, para ser o quer você ser…

o seu ser… as nuvens se fecham,

meus olhos se cerram e as nuvens se fecham

nunca mais verei as luas, as luas…

quando as nuvens se fecham,

e minhas pálprebas também…

A GRIPE SUÍNA e ZÉ SERRA, o presidenciável

o governador de são paulo, zé serra, que foi ministro da saúde do fhc, o culto, que privatizou as empresas brasileiras, assim se expressou sobre a gripe suína, assunto que domina sobremaneira:

UM clique no centro do vídeo:

FAMOSAS e FORMOSAS – por sérgio da costa ramos / florianópolis

Essa volúpia de ser bela e famosa está levando as mulheres a uma atitude robocop. Claro, beleza é fundamental, já dizia aquele decreto poético de Vinícius de Moraes.

Mas convém não exagerar. Parece haver entre as mulheres jovens – e entre as nem tão jovens assim – um compromisso “mortal” com a aparência. A qualquer preço, mesmo ao custo da perda de identidade. Elas admitem metamorfoses estéticas que as transformem até mesmo em outras pessoas, desde que sejam belas.

E ninguém quer ser a Susan Sontag ou a Clarice Lispector, mulheres belíssimas, mas, antes de tudo, “mulheres-cabeça”.

No máximo, aspiram ser apresentadoras de tevê, como Adriane Galisteu ou Luciana Gimenez.

Tudo começa com um peito novo. Depois, vem uma lipo na barriga, um bumbum novo, um lábio a la Angelina Jolie (ou a Brigitte Bardot nos tempos idos) e pronto: uma versão feminina de Frankenstein estará em gestação.

Como a Miss Brasil de poucos anos atrás: Juliana Dornelles Borges, gaúcha de 22 anos, metro e oitenta de altura e confessas 20 plásticas. Ela própria já nem sabia se era Juliana ou Anajúlia. Ou se, dentro do seio turbinado com 250 ml de silicone ainda batia um coração. A moça só confirmava ter feito “duas dezenas de intervenções cirúrgicas” para ficar com a forma que hoje exibe.

Ora, nem Mary Shelley, a criadora de Frankenstein, teria tido ideia mais “reformadora”, aplicando em sua humana besta nada menos do que 20 alterações no projeto original.

Primeiro, Juliana corrigiu suas orelhas de abano. E o orgulhoso autor da reforma geral, o cirurgião Almir Moojen Nácul, foi enumerando as benfeitorias que acumulou na cliente: colocação de 250 ml de silicone em cada um dos seios; lipoaspiração do abdômen, alta cintura e costas; remoção, via lipo, de gorduras localizadas acima das nádegas; extração de três sinais do corpo e do rosto; preenchimento de “clareiras” em regiões de tecido mole por substâncias siliconadas; escultura com silicone para preenchimento das maçãs do rosto, visando torná-las mais pronunciadas; modelação do queixo, pelo mesmo método, para torná-lo arredondado; preenchimento da linha que contorna a mandíbula, para acentuar a separação entre rosto e pescoço; e recheio do lábio superior, par torná-lo mais carnudo – ufa!

Juliana ainda se viu na obrigação de perder peso e afinar a cintura. Com um novo rosto e um par de seios “zerinho”, a robô resultante pôde, afinal, comemorar o título de Miss Brasil com sua supermamãe.

Em vez de Exupéry, Juliana lê, provavelmente, a revista Mecânica Popular. Ou, num arroubo de sofisticação, Expedição ao Planeta Terra e Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, o “Exupéry” da sciece fiction.

A nova valorização dos seios grandes não partiu da Associação de Bebês Lactentes, nem da multinacional Parmalat ou de Anita Ekberg, a “peituda” feliniana de A Doce Vida. Partiu de um novo senso estético que reclama mulheres mais cheinhas, assim como as Maja de Velázquez ou as gordinhas de Peter Paul Rubens, o gênio holandês das mulheres opulentas.

Também eu saudei a redescoberta do seio nos desfiles de modas, com as “taças mais cheias” de Gisele Bündchen e Ana Cláudia Michels. Mas está claro que, nesta matéria, há espaço para as explicações de Freud: de tanto se sentir perdida e insegura, a humanidade está precisando de um consolo “oral”, o seio materno.

Inventor do silicone em 1904 –embora com outros propósitos –, o médico inglês Kipping jamais imaginaria que a principal utilidade de seu invento seria adubar essa plantação de melões em hortas planas.

ESPERO O VENTO de otto nul / palma sola.sc

Espero o vento

Que vem dos grotões

Ou de onde seja

Para me levar

Espero o vento

Ainda que tardio

Ou vagaroso

Para as distâncias

Espero o vento

Que me conduza

Aos cafundós do mundo

Espero o vento

Embora lento

Na asa de um catavento

Sobre BIG BROTHER BRASIL – por zuleika dos reis / são paulo


Ando ligeiramente cansada dos comentários que ouço a respeito do BIG BROTHER BRASIL: “É uma baixaria só.”; “Corrompe a moral e os bons costumes.”; “Programas como este não deveriam existir.” e assim por diante.

Sempre que ouço tais coisas, me vêm os seguintes pensamentos:

1º) Para que as pessoas possam fazer seus comentários é preciso que tenham visto e ouvido o referido programa, visto e ouvido “muito bem” e demoradamente. Sem pretender generalizar nada, deduzo que para parte dos telespectadores, o visto e ouvido deve ter causado alguma espécie de prazer.

2º) Quando as pessoas dizem “Programas como este não deveriam existir” estão propondo, inocentemente ou com intenção, a volta da censura prévia. Ora, quem presenciou e/ou viveu na pele as consequências da censura prévia, que serviu de alicerce a períodos de Terror no País, sabe que nada pode justificar o seu retorno, o nefasto retorno da tal censura prévia.

Já prevejo os contra-argumentos: “Então, todo mundo deve fazer o que quiser?” A televisão e os meios de comunicação devem prosseguir com sua exibição de baixarias, de cenas de sexo quase explícitas, dos palavrões e seus congêneres?

Penso que, em um mundo movido por grandes patrocínios, em que os altos índices do IBOPE garantem a sobrevivência dos programas, na TV e nos demais meios de comunicação, só há uma receita legítima, eficaz e que não atenta contra a Liberdade: o uso inteligente e lúcido do velho controle remoto ( quando não haja qualquer opção televisiva para os nossos níveis de exigência, o simples toque de desligar decide tudo).

Se os índices de audiência e de participação de espectadores começarem a cair drasticamente, para programas como B.B.B. e congêneres,  das duas, uma: ou tais programas deixam simplesmente de existir, ou alteram, na essência, suas características e seu padrão.

Tudo, em suma, depende apenas de nós, das nossas opções; creio, sim, que seja possível mudar, para melhor, a qualidade da nossa TV e de programas nos demais meios de comunicação, rádio, jornais, revistas, etecetera, sem o sacrifício da coisa mais fundamental da democracia que é a Liberdade de Expressão.

CONVERSA COM UM VELHO RIO – de marilda confortin / curitiba

Toda vez que passo na frente daquele riozinho

Ele pergunta:

– Passeando dona louca?

Atiro uma pedra nele e continuo minha caminhada.

Mais adiante ele se enfia debaixo de uma pinguela

E me provoca novamente:

– Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?

Nem tenho tempo de responder.

Ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez.

Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe

e rola até meus pés para brincar.

A velha rocha silenciosa, apenas observa.

Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.

Um bando de garças adolescentes

faz cocô na minha cabeça.

Os bem-te-vis caem na gargalhada.

Um ipê florido, me xinga de careca.

Pode deixar… Eu me vingo na próxima estação…

Cumprimento uma roseira solitária.

Nem me dá bola.

Sempre esqueço que as rosas não falam.

Em compensação,

os beijos brejeiros se enfileiram

para me mostrar suas novas flores.

Como se multiplicam!

São como ratos, pombas e crianças de rua.

Antigamente era raro vê-los por aqui.

Aqui era um mato.

Agora virou um canteiro urbano.

Asfaltaram os carreiros,

arrancaram árvores,

prenderam o rio.

Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito.

Antes, corríamos livres

e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui.

O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre ele,

ouvindo suas histórias de águas passadas.

Ele me chama de louca, mas quem perdeu o rumo foi ele.

Tem que andar por onde mandam,

parar onde querem que pare,

se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo…

Se eu não te conhecesse, meu velho rio Belém…

– Vá tomar banho, sua doida varrida!

Não posso mais tomar banho contigo, querido.

Não posso nem me sentar ao teu lado.

Tudo é proibido.

E se me pegarem falando contigo,

me  internam num manicômio.

Ele me chama de doida que fala com as coisas,

mas ambos sabemos que insanos mesmo,

foram aqueles que nos represaram,

nos poluíram,

expulsaram as gralhas,

cortaram as araucárias,

plantaram pinus pra dar luz elétrica

em vez de pinhão.

Aqueles que taparam nossa boca

e nossos caminhos com asfalto

para que perdêssemos o rumo.

Aqueles que nos condenaram a esse…

… esse barulho ensurdecedor.

Irmãozinho negro tem papagaio de papel – de noémia de souza / moçambique




O papagaio é de papel.
Tem a cor viva de caju maduro
E é brilhante como o sol de poente.
O papagaio é de papel
E voa, voa para o céu,
Arrastado pelo vento…
E longa cauda enfeitada
Dança um bailado oriental, lento
Como o serpentear da cobra mamba…

Irmãozinho negro de cabeça redonda,
De umbigo saliente
E olhar curioso…
Irmãozinho negro de olhar curioso tem
O papagaio bem preso e seguro
Pelo fio,
Na mãozinha quente.

Irmãozinho negro é pobrezinho, não tem nada seu…
Só o papagaio de papel
Que voa, voa para o céu
Como um sol ou uma estrela…

Ai, irmãozinho negro é pobrezinho, mas também
Sonha, também, coitadinho!
Sonha que há de ir alem
Ao céu, no papagaio que é como uma estrela…
E que há de brincar com tanta coisa linda
Que ele adivinha lá longe e nunca viu…

Ai, irmãozinho negro é pobrezinho,
Não tem nada seu…
Só um papagaio de papel,
Tão belo e brilhante como uma estrela cadente.

Um papagaio de papel
Que voa, voa, voa
E não leva consigo irmãozinho negro.

L. marques, 30/6/1951

In o brado Africano, ano xxxvi, nº 1545, 30.04.1955

RIQUEZA por hamilton alves / florianópolis

O homem morava só numa rua estreita, numa casa de madeira, pintada de azul, com detalhes em branco (os beirais eram brancos) e parecia ser plenamente feliz.

Para configurar melhor seu patrimônio, possuía duas cabras e um cavalo, de que se servia para puxar uma carreta pequena, com a qual vendia uma ou outra coisa (latas de bebidas e papelão), com que melhorava sua parca renda, que era constituída de uma pensão modesta.

De todas as casas vizinhas, a dele era a mais simples. Tinha um quarto, um banheiro e sala e cozinha conjugados.

– Onde estão suas cabras?

– No pasto aqui perto.

– E o cavalo?

– Também está lá.

– Você dá água para o cavalo e para as cabras?

Fiz-lhe essa pergunta porque sabia que era meio desligado.

– Acabei de dar água para eles.

O cavalo e as cabras, recolhia-os ao entrar da noite numa pequena estrebaria, que construiu ao lado da casa – e que, como fiquei sabendo, tem sido motivo de protestos dos vizinhos, devido ao cheiro que emana do local.

A casa era cercada de objetos que vendia (papelão e latas de bebidas).

Unira-se a uma senhora já de idade (mais velha que ele) para ter uma companhia. Mas o deixou por causa de seus modos de vida, segundo  confessou a pessoas amigas.

Ao que se notava, no contato com ele, ter ou não uma companheira era-lhe indiferente.

Era um sábado quando o entrevistei, indo e vindo de dentro de casa, para onde levava uns pacotes de compras para se abastecer.

Sem que lhe formulasse qualquer pergunta, confessou-me que vai vender as cabras.

Quis saber como foram parar com ele.

– Tinha uma cabrinha que deu cria, com dois cabritos.

– E o cavalo, o que pretende fazer com

ele?

– O cavalo é para puxar a carreta.

Deduzi que um homem que possui duas cabras e um cavalo, no mundo de hoje, de que mais precisará?

O cuco avisou, mas ninguém ligou – por alceu sperança / cascavel.pr

A vitória da extrema-direita nas eleições parlamentares da Suíça, em 2007, deu um murro na cara dos “socialistas” luliberais. Eles tentam fazer crer que suas artimanhas têm algo a ver com socialismo ou sua perspectiva, mas o governo brasileiro, definitivamente, é um anestésico ideológico para o povo. Nessa condição, serve unicamente aos ricos, especialmente os mais ricos – os banqueiros e as grandes corporações.

Por que a extrema-direita venceu as eleições na Suíça, país que, diferentemente do Brasil, não tem graves problemas estruturais, o desemprego é baixo, a economia cresce e as cidades estão seguras? Porque o mundo está submetido a um esquema em que disseminar o medo favorece à ânsia de violência da  direita.

“Estás com medo? Eu vou lá, desço o porrete nos negrinhos, nos muçulmanos, nos diferentes e nos outros pobres e ficarás feliz!” Na Suíça foi assim: houve a vitória da criminalização dos moreninhos, prevalecendo a ideia desumana de que “teu irmão é teu inimigo”.

Tomara o desastre dos fajutos “socialistas” suíços servisse de inspiração para as pessoas sinceras, mas iludidas, que ainda apóiam a traição cutista-lulista.

Só assim poderiam iniciar um processo de revigoramento da luta, a partir de um Enclat, pois a grande maioria recebe salários aviltados, outros sofrem com o desemprego ou sua perspectiva e muitos trabalham em evidente regime de escravidão.

No mundo de hoje, a ideologia impõe a tese de que só há um caminho possível: o de que a estabilidade da economia depende da instabilidade de quem trabalha.

O caminho em que os aplausos do tal “Mercado” ao governo lulo-amantegado afirmam a sustentabilidade da macroeconomia fundada sobre a vulnerabilidade crescente dos cidadãos em caso de acidente, doença ou desemprego. E o medo acompanhando tudo isso.

O mundo do trabalho está sob ataque. Há uma evidente manobra do “sistema” para submeter as pessoas a um novo tipo de escravidão, que é a submissão consentida.

Faz parte dessa nova escravidão liquidar os sindicatos e os partidos políticos, para que se digam diferentes e tenham as mesma práticas. Que diferença real existe entre o PMDB e o DEM? No poder, fazem as mesmas coisas. Quem consegue acreditar que Blairo Maggi e o megaatacadista João Lista-Negra Destro são “socialistas populares”?

Cabe transcrever um depoimento do sindicalista Hilmar Adams, do setor de transportes:

“Urge acabar com o atendimento deficitário no INSS na hora do encaminhamento do pedido da aposentadoria ou da pensão. É necessário alterar a estrutura das juntas de recursos do INSS em todo o Brasil, pois seus representantes são responsáveis por ações contra a cidadania, que envergonham a nacionalidade”.

Seria infantil acreditar que os burocratas da Previdência não estejam agindo de acordo com as ordens recebidas dos governantes locais, manipulados pelo comando neoliberal planetário. Uma diretriz que provoca o desmantelamento das estruturas “socialistas” europeias e a vitória da direita com apoio não em ideias, mas no medo.

Para transformar o mundo inteiro num globo amedrontado, vão lançar mão de todos os mecanismos que o dinheiro pode assegurar, da Internet à compra do dirigente de bairro, passando por igrejas e clubes.

O medo será explorado ao máximo, para que a tese “teu irmão é teu inimigo” prevaleça. Com isso, pretendem instituir um governo ditatorial eleito pelo voto. O sonho irrealizado da velha e suicida Arena.

VERÃO CAUDALOSO de tonicato miranda / curitiba


para Ticiano Jalos


faz tempo

o ar não andava tão pesado

meu passo não era tão marrom

o sol não era assim causticante

meu corpo não vertia água e som

.

faz tempo

o piano não me emocionava

tu não voltava-me um romance

o ano não era a grande promessa

nem eu era teu sorriso de relance

.

faz tempo

abacaxis não eram assim tão bons

frutas mais adoráveis que bombons

queria muito o gelo refrescando o corpo

adorei tanto as frutas e seus variados tons

.

faz tempo

não fazia calor demasiado assim

águas jorrando do céu em cachoeiras

enchentes no final de tarde, todo calendário

notícias assustando o dia se verdadeiras

.

é bom tempo

para amar até emagrecer a alma

beber bebida gelada, uma limonada

ligar ventilador ir pra baixo de um coqueiro

balançar na rede, balançar e mais nada

.

é bom tempo

para abrir um livro, ficar contigo

raspar a barba cortar todo o cabelo

caminhar no final da tarde e escurecer

teu sorriso guardar como um belo selo

.

é bom tempo

para desconfiar da dor dos homens

acreditar mais na mulher risonha

aquela capaz de te doar sorrisos

fazendo alegre tua cara antes tristonha

.

é bom tempo

para botar porta fora velhas cartas

iniciar um novo amor, ser todo passageiro

embarcar num transporte sem destino certo

ir a Ushuaia lá no sul, gastar todo Fevereiro

PODE EXISTIR SOCIALISMO CRISTÃO? – por dom aloísio roque oppermann scj / uberaba.mg

Recebo uma revista católica, que leio religiosamente. Destina-se aos Jovens. É escrita por uma equipe de pessoas de bom nível intelectual e didático. Mas lá no fundo, a linha de pensamento me deixa preocupado. Entre outras coisas, mensalmente sai um artigo que louva certas revoluções, de viés claramente esquerdizantes. É um estímulo aos jovens, para canalizar suas energias, de modo bem suave, para o socialismo. A mesma impressão me causa o Stedile, com seus sequazes nem sempre de origem rural. Novas terras para cultivar, é o que menos interessa. O que se busca é uma nova ordem social, evidentemente socialista. (Ou seria anarquista?) Em todas as latitudes, em qualquer ramo, sempre que se apresenta um corifeu do socialismo, ele se auto-reveste das características simpáticas de moderno, avançado, restaurador da justiça, criador da abundância para todos, enfim, da prosperidade agora ao alcance da mão.

Felizmente, já temos no mundo uma vasta experiência socialista, de duzentos anos, que se instalou em vários países, e deixou rastos de sangue e de atraso. Assim conhecemos sua face. Vejamos as características de tal linha econômico-política. Ela é invencivelmente de alma atéia. E como não consegue convencer a população, via raciocínio, então lança mão do cerceamento da liberdade.  Esvazia tudo o que é de ordem particular, para destinar todos os bens para a administração da sociedade. Como, no seu entender, a livre iniciativa só visa o lucro pessoal e o egoísmo, então o Estado é que deve planejar a produção e a distribuição dos bens. Cabe-lhe ditar regras para a imprensa, selecionar a linha ideológica da escola, e impor a revolução violenta, para implantar o regime dos miseráveis. Para o triunfo do socialismo, a via democrática se mostrou um caminho inviável. Só a coação, para eles, é que resolve. É claro que existem vários tipos de socialismo, mas suas semelhanças são enormes. Com essa descrição também não posso aprovar o capitalismo grosseiro. Mas este admite reformulações, deixa espaço para os partidos de tônica social, e aceita (às vezes constrangido), em aperfeiçoar-se pela Doutrina Social da Igreja. Gente, vamos encurtar caminhos: a via socialista, definitivamente, não é solução. Quem é socialista propõe uma via, comprovadamente retrógrada.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG

A MALA DO MALA por charles farias / são luis.ma

Pescando na Internet coisas que meus seis leitores (um de Bora-Bora, dois de Oeiras, no Piauí, dois de Icó, Ceará e minha querida mãezinha) não têm tempo de ir buscar, achei a matéria que transcrevo agora: “O endereço Is this Your Luggage mostra os looks de gente que perdeu a mala e não se preocupou em buscar. O blogueiro Luna Laboo arremata valises não reclamadas e publica na rede o guarda-roupa alheio.”

Lembrei-me do mais recente amigo de infância que conheci, o Elesbão “Podeixá”. Tem este apelido herdado de sua profissão: carregador de malas no Aeroporto de Brasília. Era com esta frase que o estabanado profissional pedia para carregar as bagagens dos incautos que aterrissavam na Capital dos Sonhos (deles, claro!).

Numa bela manhã de sol, numa de minhas obrigatórias escalas pelo Planalto Central, resolvi tomar o último café no Brasil, ali no Palheta, antes de continuar meu vôo para o exterior (é, amigo, quer queiram quer não, Paraguai ainda é deles, os paraguaios) quando vejo Elesbão. Foi logo segurando minha Vuitton que sempre levo a tiracolo e dizendo: Pódeixá, que carrego pra “vocelência”. Iniciamos o diálogo que se segue:

– Aê, Elesbão, tá me desconhecendo, mermão? Falei tirando meu Paco Rabanne da cara.

– Nãããããoooo!!! Charlão??? Vem de onde? Ta indo prá onde? Sim, porque daqui tu queres é distância, pelo que te conheço. Comunista como és…

– Não. Não sou mais comunista, não. Derrubei meu muro ideológico. Dobrei em quatro minhas cortinas de ferro. Mas a distância…Bem, ainda a quero. È só uma escala. Vou ao Paraguai. Comprinhas para o final do ano.

– Sei. Vuitton, Paco Rabanne. Versace para madame Charlão. Então tens tempo para batermos um papo?

– Tenho, sim. O avião entrou em conserto e não sei quando me chamarão.

– Então estás só no avião?

– Não. Tem mais dois passageiros. Um que está vindo da embaixada do Brasil em Honduras, um tal de Zapata, Zapatalaia, Zé Issua Laia, sei lá, e vai pedir asilo em outra embaixada do “Cara”, e uma zinha dona de um puteiro pras banda de Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Mas diga lá, o que tem feito, além de carregar malas no aeroporto?

– CBF.

– Do Havelange, do Teixeira?

– Qual! Quem sou eu, um pobre torcedor do Vasco. No máximo junto com o Miranda…

– CBF é o quê?

– Confusão de Bagagens e outras Fuleragens…

– Seja mais explícito, Elesbão.

– Esse negócio de explícito só conheço sexo. Mas vou ser mais claro. É o seguinte: Aqui no aeroporto tem mais autoridade que no Congresso. Eles chegam na terça e na quinta já estão de volta. Usam mais o saguão do aeroporto que seus gabinetes. Fazem tanta confusão com as bagagens que igual só vi na Constituinte, só sobra pra nós. Chegam a esquecer malas e mais malas no saguão. Então nós, da CBF, pegamos as malas e levamos prum cafôfo que temos em Ceilândia. Lá aguardamos a reclamação, que chamamos, só de fuleragem, de “um rigoroso inquérito”. Quando há o tal “rigoroso inquérito” aí devolvemos, com as desculpas que “eles” nos ensinam diariamente: “não sabíamos, não lembramos, não sabemos do que se trata, deve ter sido nossa secretária, estão usando politicamente o caso, não assinamos isto”, estas coisas. Mas, sem antes fazermos o nosso próprio “rigoroso inquérito”, ou seja o baculejo do que tem lá dentro.

– Ôps! Então deves ter umas boas histórias pra contar…

– Sô! Se tenho… Um dia um Zinho lá esqueceu uma mala cheia das “verdinhas”, do “alface” das “Tomás Jefferson”…

– Dólar?

– Fala baixo.

– Devolveram?

– Não. Tamos aguardando o Barbosinha, aquele do STF, julgar o caso. Se ele for condenado nós devolveremos. Se for absolvido, nós repartiremos pelos sócios da CBF, assim teremos cem anos de perdão…

– E o Sarney?

– Esqueceu uma 007…

– Fala. O que tinha dentro? Elesbão? Volta aqui, Elesbão. Peraí, cara. Diz só pra mim…

– Tá. Umas pastas.

– O quê continham?

– Papéis.

– O quê tinha escrito nas capas?

Elesbão, sussurrando no meu ouvido: “DÊ Ó ESSE ESSE I Ê S”

– De quem? Elesbão? Volta aqui, rapaz. Pelamordedeus, volta…

Jamais reencontrei Elesbão. Tenho sempre recebido cartões postais dele. De Las Vegas, Saint Tropez, Punta D’Leste de Maldonado, Cancún… É, acho que esta ele devolveu sem ser preciso um “rigoroso inquérito”.

O medo da mídia golpista: uma gritaria para manter o monopólio – por mario augusto jakobskind / são paulo

Os leitores possivelmente estão acompanhando a gritaria dos grandes veículos de comunicação relacionada com uma suposta ameaça de censura ou algo do gênero. Na verdade, atrás disso esconde-se uma estratégia destinada a enganar a opinião pública e dessa forma evitar avanços na área da mídia, cuja regulamentação está totalmente defasada e precisa ser atualizada.

Ou seja, no fundo os barões da mídia presentes principalmente em O Estado de S. Paulo, O Globo eFolha de S.Paulo, TV Globo, Record, etc. querem apenas defender privilégios e em nome disso misturam o conceito de liberdade de imprensa com o de liberdade de empresa.

Quando da realização no mês passado da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), quase diariamente os jornais e televisões se dedicaram ao muro de lamentações midiático de entidades que exatamente se recusaram a debater questões de interesse de toda a população.

Aí a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), capitaneada pelas Organizações Globo, juntamente com a Associação Nacional dos Jornais, não pararam de acusar a Confecom infundadamente, ou seja, com mentiras deslavadas sempre tendo como norte a suposta ameaça à liberdade de imprensa e de expressão.

E isso quando ocorria exatamente ao contrário, isto é, os participantes da Confecom — representantes de movimentos sociais, do governo e setores empresariais não vinculados ao esquema Abert/ ANJ — aprovavam 655 propostas a serem encaminhadas ao Congresso para debate e aprovação ou não. A Abert e a ANJ simplesmente recusaram-se a participar da Conferência, exatamente porque se negavam a debater, o que é uma contradição total para quem se diz democrata.

Os jornalões, os mesmos que apoiaram o golpe de 64, como O Globo, Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, dedicaram editoriais com premissas mentirosas e totalmente distorcidas, para criticar a Confecom e, como se não bastasse, logo em seguida o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Bóris Casoy, que nos anos 60 militava no Comando de Caça aos Comunistas (CCC), e até Joelmir Beting entraram no jogo da manipulação com mentiras e no mais puro estilo de babar ódio.

Mais uma vez foi colocado em pauta o falso argumento das ameaças à liberdade de imprensa e de expressão. Eis, portanto, uma adjetivação que se repete em vários países das Américas e sob o patrocínio de ideólogos recomendados a consolidar mentiras até que virem absolutas verdades. Na Argentina, os papagaios de pirata não param de inventar histórias, que são repetidas pelos quatro cantos da América Latina.

Um item chamou muito a atenção de quem tenta analisar os fatos: a repetição da alegação de que a imprensa estaria ameaçada pelo projeto de direitos humanos. Uma mentira que não resiste à menor análise. Os barões da mídia vestiram a carapuça.

O projeto do 3º PNDH, na parte referente à mídia, apenas defende a regulamentação de um artigo da Constituição com a indicação no sentido de apontar punições para violações dos direitos humanos. Uma determinação, diga-se de passagem, que consta da Convenção de Direitos Humanos, o Pacto de São José, do qual o Brasil é signatário.

Portanto, nada propriamente de novo no front, apenas medidas preventivas no sentido de evitar que se utilizem as concessões públicas com o objetivo de desrespeitarem os direitos humanos, como ocorre em certos programas de TV que jorram sangue e têm média de grande audiência.

A mídia conservadora ligou todas as baterias para contestar o fato de se questionar a existência do monopólio na área de comunicação. Aí apareceu um parlamentar que se imaginava ter se regenerado pelo que fez no passado, tomando as dores dos big-shots do setor midiático, ao afirmar que “no Brasil não há monopólio”.

O parlamentar mencionado é Miro Teixeira, do PDT, que saiu em campo para negar a existência de monopólio dizendo que no país há concorrência no setor, etc. e tal. Consciente ou inconscientemente, o deputado que no passado ascendeu à política pelas mãos do então governador Chagas Freitas, exemplo concreto de fisiologismo e linha auxiliar da ditadura, fez o jogo favorável a um poderoso grupo midiático. Tem espaço garantido nos telejornais da TV Globo, o que é de grande serventia para os políticos em ano eleitoral.

Teixeira alguns meses atrás ganhou tremendo espaço na mídia conservadora ao defender com unhas e dentes a revogação da Lei da Imprensa, utilizando nesse sentido o argumento do gênero meia verdade, ou seja, que era necessário remover um entulho da ditadura. Certamente que foi importante a remoção, mas só que nada foi colocado no lugar e o direito de resposta ficou prejudicado.

Ou seja, se alguém agora se sentir prejudicado em algum comentário ou matéria e quiser responder vai penar. É o caso então de se perguntar: não seria justo remover de vez o entulho autoritário e deixar uma mínima regulamentação para evitar o hiato atual na questão do direito de resposta? Por que então não se removeu apenas o entulho autoritário e se aprimorou uma lei de imprensa como existe em vários países democráticos?

Na questão do monopólio, na prática, Teixeira simplesmente limpou a barra das Organizações Globo, a mesma empresa que tem propriedade de rádio, televisão e jornal numa mesma área, o que caracteriza o monopólio. O parlamentar desconhece que o poder da Globo é tamanho que consegue marcar hora para o início de partida de futebol, usa o espaço eletrônico, seja no jornalismo ou na teledramaturgia, para defender poderosos interesses econômicos.

E tudo isso acontece na prática em detrimento de uma verdadeira democracia, não aquela defendida pelo patronato midiático conservador, que em tempos passados apoiou o golpe de Estado que derrubou o presidente constitucional João Goulart e lançou o país numa noite escura de desrespeito aos direitos humanos.

É sempre importante lembrar esse fato, porque para se conhecer melhor o presente é preciso também não esquecer fatos relevantes da história nacional. Até porque, nos momentos em que o país se esforça para consolidar a democracia e avançar nas transformações sociais necessárias neste século 21, a mídia conservadora volta ao esquema golpista muito parecido ao de 46 anos passados.

Oração pela santificação do sublime – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Senhor

das humildes e singelas

estátuas santificadas

que dão fé e milagres ao povo

concedamos pedir graças ao magnífico.

Oh! Virgem Maria sublime de Leonardo da Vinci.

Rogai por nós.

Sagrada Família de Rafael.

Rogai por nós.

Os Profetas de Aleijadinho.

Rogai por nós.

Oh! Cristo que veio do maculado

coração de Caravaggio.

Rogai por nós.

Auto-retrato de Frida Kalo que parece

dolorosa MARIA sem concepção.

Rogai por nós.

RUA 13 – de vera lucia kalaari / portugal

O beco é escuro…

Rua 13…Rua 13…

Bocas que sugam sangue

Olhos que choram sangue

Solidão e miséria.

É noite…

Sinto qu’é noite.

Não porque o sol s’escondesse

Não porque a sombra descesse

Mas porque no meu coração

O brado dessa miséria

Se fundiu, se faz sentir.

É a noite que nos arrasta.

Não é só a noite…

É noite. Uma noite espessa, sem paz.

Sem Deus, sem afagos,

Sem nacos de pão, sem nada.

Uma noite sem distâncias…

Apenas noite.

Mas por trás dos altos montes

A aurora vem surgindo.

Tudo o que à noite perdemos

O dia nos traz novamente.

Surgem  aves chilreantes

Badalar manso de sinos

Cantos suaves do mar.

No alto da Rua 13

Brilha tremendo uma luz.

É o sol…A esperança,

Que um dia aquela rua

De almas sem luz e sem sol

Também veja o alvorecer.

ON and OFF de joanna andrade /miami.usa

Ao sumir das vistas,

vestida  de vermelho a culpa,

em finos saltos altos,

laminosos,

precisos,

incisivos feito caninos,

disfarçada  nas covas dos sorrisos pre-ambulantes,

fugindo da dor e na dor se estendendo em comiseração,

arrasta a própria história em sangue.

Escapatória captiva do ser e seu fantasmagórico cenário

On and Off

DILMA empata com Serra em cenário com Ciro na disputa, diz CNT/Sensus / são paulo


No 1º cenário, Serra sobe de 31,8%, em novembro de 2009, para 33,2%.
Dilma foi de 21,7% a 27,8%; Ciro Gomes (PSB) caiu de 17,5% para 11,9%.

a ministra DILMA ROUSSEFF. “vou votar na mulher do LULA” diz o povo brasileiro entendendo que com ele o país avançou, saindo da estagnação e das perdas de 30 anos. (foto da ag. da presidência).

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Na corrida eleitoral pela sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), está tecnicamente empatada com o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), quando o deputado Ciro Gomes (PSB) está na disputa, mostra pesquisa CNT/Sensus divulgada nesta segunda-feira (1º).

Dilma cresceu pelo menos cinco pontos percentuais nos dois cenários testados pela pesquisa. O governador de São Paulo ainda lidera nas duas pesquisas estimuladas, mas a margem entre os dois diminuiu. Ela já passou o governador na pesquisa espontânea.

No primeiro cenário, Serra cresce de 31,8%, em novembro de 2009, para 33,2% em janeiro deste ano; Dilma subiu de 21,7% para 27,8%; Ciro Gomes (PSB),caiu de 17,5% para 11,9%; e Marina Silva (PV) subiu de 5,9% para 6,8%. Houve queda no total de pessoas que votam nulo ou branco (de 11,1% para 10,5%). A diferença entre os dois primeiros colocados, que era de 10,1 pontos percentuais, caiu para 5,4. Como a margem de erro está em 3%, os dois estão tecnicamente empatados. “Há uma intersecção da margem de erro”, disse Ricardo Guedes, do Instituto Sensus.

Na avaliação do cenário eleitoral a margem de erro difere da registrada na pesquisa sobre a popularidade de Lula e do governo, que é de dois pontos percentuais.

No segundo cenário, em que Ciro está fora da disputa, Serra fica praticamente estável, crescendo 0,2 pontos percentuais, com 40,7% em janeiro. Dilma cresce cinco pontos percentuais entre novembro e janeiro, e registra 28,5% nesta última pesquisa. Marina também cresce, de 8,1% para 9,5%, Brancos e nulos caíram de 13,8% para 11,4%.

Na pesquisa espontânea, em que não é apresentada nenhuma lista de candidatos ao entrevistado, o presidente Lula –que não pode se candidatar- registra 18,7%; logo depois, pela primeira vez, vem Dilma, com 9,5%, acompanhada de Serra, com 9,3%.

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), tem 2,1%; Marina, 1,6%; e Ciro, 1,2%. Outros candidatos registram todos 1,9%, e o total de brancos e nulos chega a 2,6%. Os que não souberam ou não responderam chegam a 53,1%.

Segundo turno

No cenário de segundo turno em que Serra e Dilma estão presentes, a ministra registrou um crescimento de 8,9 pontos percentuais e fica praticamente empatada com o governador, por conta da margem de erro. Em novembro, a disputa ficava em 46,8% do tucano contra 28,2% da petista. Nesta pesquisa, Serra registra 44% e Dilma, 37,1%. Se a margem de erro for aplicada, o governador está entre 41% e 47%; a ministra, entre 34,1% e 40,1%.

Já com Dilma fora da disputa –e no caso de o segundo turno acontecer entre Ciro e Serra- o tucano ganha com 47,6% contra 26,7%. No cenário sem Serra, Dilma tem 43,3% e Ciro, 31%. “Ela caminha pra uma consolidação da candidatura”, afirmou Guedes.

Avaliação de Lula

A avaliação positiva do desempenho pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu de 78,9% em novembro de 2009 para 81,7% em janeiro deste ano, de acordo com a pesquisa CNT/Sensus. Esta é a segunda melhor marca da série histórica. Em janeiro do ano passado, Lula era aprovado por 84% dos entrevistados.

Houve redução no total de pessoas que desaprovam o desempenho do presidente: de 14,6%, em novembro de 2009, para 13,9%, em janeiro deste ano. É a segunda queda seguida na desaprovação.

Esse crescimento na aprovação pessoal foi acompanhado também pelo total de entrevistados que avaliou de forma positiva o governo: de 70% para 71,4%, no mesmo período. Novamente, é o segundo melhor resultado da série histórica, só perdendo para janeiro de 2009, quando o índice era de 72,5%.

A pesquisa mostra também que 22% dos entrevistados avaliam o governo como regular — em novembro de 2009, esse índice era 22,7% — e 5,8%, como negativo — em novembro, esse número era 6,2%.

g1.

ilustração do site.

CARNES e APERITIVOS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Festa dita pagã, o Carná é carne. Ensaios nas escolas de samba e gritos de Carnaval são os aperitivos. E a eleição das Rainhas e suas principescas mulatas é o bota-gosto. Nos salões e nas churrasqueiras, a comida está na brasa, no maislato dos sentidos.
É a permissão para transgredir quase todos os códigos, com a promessa de uma remissão feita de cinzas, na quarta-feira.

No primeiro dia da Quaresma, o Todo Poderoso chama suas ovelhas tresmalhadas e as unge com as cinzas purificadoras, que esterilizam o germe da devassidão, entranhado na carne. Começa então o grande jejum, especialmente de carne vermelha – a preferida de todos os churrascos dominicais.

Quem nunca abusou da carne num domingo pré-carnavalesco, que atire a primeira “demão” de sal grosso. Dizem que o diabo adora uma picanha mal passada, temperada com o sal de Sodoma, o mesmo sal que petrificou a mulher de Ló – aquela que, morrendo de curiosidade, não podia “olhar pra trás”.

Isso não quer dizer muita coisa, a não ser que boa parte da humanidade mantém uma certa intimidade com o Tinhoso, quando as carnes liberam aquele cheirinho irresistível, que se desprende das brasas e domina todos os ambientes e todos os palatos.

Irônico como todo demo (não confundir com o partido político), o próprio “Marrom que fuça” descamba para a galhofa:

– Mais cinzas na tal quarta-feira depois da festa? Nada disso. Tudo o que os homens precisam é de mais “carvão”. Que é pra picanha ficar um pouco mais passada. Afinal, nem todo mundo é vampiro, como eu…

Vendo as fotos da grande anarquia nos jornais, chegaremos todos à óbvia conclusão de que o Carnaval é um “espeto corrido”: nele, a carne se revela nua e crua na churrasqueira dos bailes. A carne dança. Avança. Balança. Provoca. Revela. Convida. A carne abunda na vitrine frigorificada do Carnaval, livre das amarras morais e entregue aos “radicais livres” da devassidão.

“A carne é fraca” – já descobrira o apóstolo Matheus, provavelmente na madrugada de uma terça-feira gorda, entre Zara e Betsabá – foliãs que encontrou no Grande Gala de Herodes…

O tríduo que se instalará no dia 13 é, antes de tudo, uma improvável estatística do IBGE: nele não há desemprego, nem déficit habitacional, nem inadimplência ou excesso de cáries. O que há é a almejada felicidade coletiva, como se o Brasil, num passe de mágica, amanhecesse transformado nas Ilhas de Thomas Morus e Campanella – dois conhecidos endereços de todas as boas utopias.

Fora o ranger de dentes entre as escolas de samba na hora da apuração dos votos, o Carnaval quase não enfrenta discórdias. Ao contrário, Momo é um “pacificador”.

O Carná é um claro armistício. É anárquico, mas não prega a luta de classes, antes as aproxima e entrelaça. Pode até ironizar a autoridade constituída num bloco de sujo. Mas não conspira contra o Estado. “Intica” com o governo, mas não organiza passeatas contra os Palácios dos mandatários.

Na Quaresma, a festa se transforma em penitência. Bem me lembro da semana de “cinzas” no Colégio Catarinense, anos 1960. O venerando padre Werner ouvindo confissões, corcunda e exausto – um “vovô Gepeto” lidando com os pequenos Pinóquios.

Intrigava-me o fato de que o padre se interessava mais pela quantidade do que pela qualidade do delito “pecatorum”. Exigia detalhes estatísticos dos pecados cometidos em nome da lascívia:

– Quantas “vezes”, meu filho?

Os pequenos penitentes, reféns carnavalescos dos hormônios de Onã, o bárbaro, reduziam drasticamente os “juros” daquela operação:

– Uma vez só, seu padre…

A absolvição saía barato. Por meia dúzia de Ave-Marias deixávamos a condição de pequenos Satãs para ingressar no Paraíso dos coroinhas da Cruzada Eucarística.

OCASO – de eunice arruda / são paulo

Utópica Intuição (VI) – de joão batista do lago / são luis

Há um mundo lá fora…

Bem lá fora, bem distante

Onde aconchego minh’alma

Torturada

Amargurada

Angustiada…

É lá neste mundo que me acalmo

Que me encontro como ser

Que me o vejo jogado na minha prima casa:

Meu corpo

Leve e translúcido como o instante do nascer

E nesta minha casa

Tenho tantos e quantos compartimentos…

Mas onde gosto mesmo de ficar

É na soleira donde posso ver e auscultar

Todas as minhas dores compartimentadas

Todas minhas paixões… todos meus amores…

Todos pendurados no meu umbral

O OLHAR ME SORRIU de tonicato miranda / curitiba


para Ângela, perdida na minha infância

não, não me quero mais assim

cara de infeliz, com lenço e atchim

arranca de dentro a minha carranca

inverta-me a cara e a caveira branca

as bobas pernas em jeans ancoradas

precisam destravar, pedalar caminhos

a camiseta e os cabelos em desalinhos

braços e tronco precisam suar a camisa

construir utilidades, ao corpo dar trabalho

movimentar esta alma, espírito e músculos

mudar para rugosa a pele que jaz muito lisa

preciso me tirar daqui, do meio deste baralho

estou quase concha, fazendo meus moluscos

.

não, não me quero mais assim

preciso criar novas guerras, para isto vim

cinzas no capim e ali, nos verdes da mata

vejo na porta do olhar muita gente de lata

mais do que as nuvens de tempestade no céu

e sou o mais metálico, porém o rasgador do véu

único capaz de abduzir os dois coringas da carta

fazê-los bailar aqui, rindo à beça, bebendo à farta

e eles dançando-me, rodopiando o velho coração

e nossos pés riscam o chão, agulhas na emoção

teu sorriso passou aqui, na cantiga que embalava

te vi criança, e quando tu sorrias tudo se calava

já posso sentir e dizer que me quero bem assim

fecha a cortina já voltei para a vida, este é o fim

REENCARNAÇÃO: “VOCÊ JÁ SABE DISSO ou AINDA IGNORA?” – enviado por léo chaves / porto alegre

UM clique no centro dos vídeos.

PARTE  I:

PARTE  II:

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Para se inteirar do que se trata você deve ler : O LIVRO DOS ESPÍRITOS de Allan Kardec, se achas que possuis uma alma, caso contrario aguarde o tempo necessário.

Léo Chaves.

Neurocirurgião.

O PREÇO DA DESISTÊNCIA DO AÉCIO NEVES – por laerte braga / são paulo


A MALA DE SERRA, O PÓ DE AÉCIO E O “AVISO” DE ARRUDA




zé serra e o seu sorriso imbecil para seu ídolo o “EXTERMINADOR DO FUTURO”

O governador de São Paulo José Jânio Serra movimentou toda a sua equipe de propaganda, com dinheiro público evidente, convidou a senadora do DEM Kátia Abreu, envolvida em desvio de verbas para o fomento da agricultura em proveito próprio (sua campanha política) e rumou para Copenhague, onde num roteiro previamente traçado posou de autoridade, de especialista no assunto e encontrou-se com o governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger .

Serra e o ator, conhecido pelo seu desempenho em O EXTERMINADOR DO FUTURO, afirmaram que a conferência de Copenhague “já é um sucesso”. Contrariam a opinião de milhões de pessoas em todo o mundo que já assinaram petição cobrando atitudes dos governantes das chamadas nações ricas e consideram Copenhague um mero embuste para ganhar tempo.

Serra é candidato a presidente do Brasil, está envolvido em grossa corrupção, chantagem (como autor e vítima), e o californiano administra um estado falido que tenta, desesperadamente, arranjar algum, em meio à crise, com o presidente Barack Obama.

A viagem de José Jânio Serra foi precedida de algumas “providências” para por fim à disputa pela indicação presidencial em seu partido, entre elas a de deixar uma recheada mala de dinheiro para a cobertura de sua presença em Copenhague na edição de terça-feira, dia 15, no JORNAL NACIONAL. O noticiário sobre a conferência deu maior destaque ao governador paulista (lógico, tudo pago) que ao encontro em si e a governantes de países como a China, a Rússia, etc, etc.

Uma das “providências” tomadas pelo governador paulista foi fechar o cerco ao governador de Minas Aécio Pirlimpimpim Neves, seu rival dentro da quadrilha PSDB na disputa pela indicação para 2010. A ofensiva começou com a nota plantada na coluna do jornalista Juca Kfoury (parceiro de Serra nos jogos do Palmeiras), relatando um fato e sugerindo que Aécio usa cocaína (já havia sugerido antes, quando o Mineirão cantou em coro em 2008: “Ô, Maradona, por que parou? Parou por quê? O Aecinho cheira mais do que você”).

O mineiro foi advertido que, se continuasse a peitar o paulista dentro do PSDB, outras notas e alguns escândalos viriam à tona, colocando-o em situação insustentável, motivo pelo qual deveria contentar-se com uma candidatura ao Senado. Aécio, que mora Rio e governa Minas, vai tentar e conseguir, lógico, exceto por um grande acidente de percurso, eleger-se senador.

Quando tudo parecia resolvido, Aécio afastado de cena, eis que surge o governador de Brasília, José Roberto Arruda, corrupto de carteirinha, parceiro de FHC no processo de privatizações, beneficiário de “contribuições” várias, todas devidamente agradecidas em oração, e que, até o fato, era o favorito para ser o vice do tucano paulista.

Arruda mandou um recado curto e grosso. Se a GLOBO e todo o esquema do grupo, VEJA, FOLHA e outros mais continuassem a bater duro iria abrir o bico, e aí não iria sobrar nem pena de tucano e nem terra grilada ou roubada de DEM.

Vai tudo para o espaço.

Sem poder torcer o pescoço de Arruda, até porque o governador de Brasília disse na última visita de Serra à capital que “copia as boas ações de Serra”, e Serra respondeu que “o que é bom é para ser copiado”, engoliu em seco, entrou em contato com o homem do “quem quer bom dia diga eu” e, ao invés de poder escolher a gravata do moço, o telespectador ganha uma banana. O noticiário sobre a roubalheira em Brasília vai para um cantinho qualquer, poucos segundos. Na edição de hoje do jornal O GLOBO, versão brasileira do THE GLOBE, já está nas páginas de dentro, do fundo. A idéia é ganhar tempo, é ganhar tempo e permitir que os “abóboras” que Bonner chama de Homer Simpson se esqueçam de Arruda e enxerguem em Serra um novo Arnold Schwarzenegger.

Mais ou menos como aquele negócio do cara gordo não andar com o cara magro para não parecer tão gordo, ou a feia com a bonita, para não parecer tão feia. No caso de Serra, questão de exterminar qualquer possibilidade de futuro para o Brasil caso venha a ser o próximo presidente.
A ida da senadora Kátia Abreu, com dinheiro público, para discutir proteção ambiental do planeta (imagine ela, ladra, latifundiária, escravagista) tem o objetivo de encontrar uma saída que permita torcer o pescoço de José Roberto Arruda, por fim à chantagem do governador de Brasília e seguir impávido financiado pelas grandes máfias brasileiras e internacionais, rumo ao Planalto.

Se, neste momento, deixou Aécio diante do dilema de enfrentar ou não a sua realidade, por outro lado, foi obrigado a engolir o veneno de José Roberto Arruda, pelo menos até achar uma saída.

Como ali, entre tucanos e DEM, vale tudo, o feio é perder, e a grande mídia está aí é para isso mesmo, ávida para faturar um extra, ainda mais no mês do Natal e para o reveillon, não foi tão difícil assim a Serra encontrar um ponto para atravessar essa ponte complicada nessa hora.

O mais caro dessa operação é mesmo a GLOBO. Na BANDEIRANTES o governador paulista está acostumado a chegar e dar berros com quem o desafia, demitir, colocar os donos de joelho no beija mão. FOLHA, VEJA, etc, não têm tanto problema assim, não são tão caras como a GLOBO e além do mais são paulistas, integram a máfia FIESP/DASLU.

A notícia que Aécio Pirlimpimpim tirou o time de campo começou a circular ontem, embora a assessoria do governador mineiro esteja procurando um jeito de dar o troco e tentar recuperar pelo menos o pé nesse jogo sórdido de tucanos e DEMocratas, tudo pela chave do cofre e o direito de transformar o BRASIL em BRAZIL.

O próximo passo de José Jânio Serra é promover um grande encontro dos chefes mafiosos tucanos e DEMocratas e apelar a Aécio para entender que não é nada pessoal, que tudo “são negócios”, para evitar que o mineiro faça corpo mole no segundo colégio eleitoral do País, Minas Gerais. Isso seria ruim, pode vir a ser desastroso para Serra.

Deve levar um bolo gigante para o encontro, e de dentro do bolo deve sair a miss qualquer coisa, ou o arcebispo de Mariana (que não admite que se fale de Aécio), e presentear o governador de Minas com a cobertura especial do dito bolo, um pó mágico que tanto pode levar a uma viagem para a vice-presidência, ou a promessas de galáxias nunca dantes vistas, nem mesmo pelo Hublle.

Vai depender de Aécio aceitar ficar de quatro ou não, isso depende do quanto, dinheiro e pó mágico; enfim, o Brasil está diante da ameaça de chantagistas travestidos de políticos; e nesse poleiro Serra é especialista. Tem prática nessa história de dossiê (o de Roseana Sarney, custou 250 milhões de dólares do BNDES para a GLOBO a fundo perdido), ou aquele às vésperas das eleições de 2006, quando a GLOBO ignorou o fato jornalístico principal, um acidente aéreo com um avião da companhia GOL e mais de cento e cinquenta mortos, para mostrar um dossiê fajuto contra Lula.

Serra extermina qualquer possibilidade de futuro para o Brasil e os brasileiros. Até pelo próprio nome. Chega a ser tamanho o seu mau caráter e a sua absoluta falta de princípios que não os que signifiquem ganhos, lucros, pior que FHC.

Semana passada morreu Jamil Haddad. Foi ministro da Saúde do governo Itamar Franco, responsável pela lei que criou os medicamentos genéricos e pela implantação do programa no Brasil. Sem qualquer vestígio de respeito pelo que quer que seja, exceto seus interesses, sem nenhuma dignidade, ou laivo de caráter positivo, José Serra apropriou-se da lei, do projeto, tudo com fins eleitorais. Pode existir um canalha igual na política brasileira hoje, existem muitos, mas nenhum maior que ele.

A decisão em 2010 vai ser entre permanecer BRASIL, ou virar BRAZIL. Obama pode até não ajudar o governador da Califórnia, mas vai jogar uma grana pesada para eleger Serra.

Laerte Braga é jornalista.

FOTOPOEMA 147 – de rudi bodanese / florianópolis