CARNES e APERITIVOS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Festa dita pagã, o Carná é carne. Ensaios nas escolas de samba e gritos de Carnaval são os aperitivos. E a eleição das Rainhas e suas principescas mulatas é o bota-gosto. Nos salões e nas churrasqueiras, a comida está na brasa, no maislato dos sentidos.
É a permissão para transgredir quase todos os códigos, com a promessa de uma remissão feita de cinzas, na quarta-feira.

No primeiro dia da Quaresma, o Todo Poderoso chama suas ovelhas tresmalhadas e as unge com as cinzas purificadoras, que esterilizam o germe da devassidão, entranhado na carne. Começa então o grande jejum, especialmente de carne vermelha – a preferida de todos os churrascos dominicais.

Quem nunca abusou da carne num domingo pré-carnavalesco, que atire a primeira “demão” de sal grosso. Dizem que o diabo adora uma picanha mal passada, temperada com o sal de Sodoma, o mesmo sal que petrificou a mulher de Ló – aquela que, morrendo de curiosidade, não podia “olhar pra trás”.

Isso não quer dizer muita coisa, a não ser que boa parte da humanidade mantém uma certa intimidade com o Tinhoso, quando as carnes liberam aquele cheirinho irresistível, que se desprende das brasas e domina todos os ambientes e todos os palatos.

Irônico como todo demo (não confundir com o partido político), o próprio “Marrom que fuça” descamba para a galhofa:

– Mais cinzas na tal quarta-feira depois da festa? Nada disso. Tudo o que os homens precisam é de mais “carvão”. Que é pra picanha ficar um pouco mais passada. Afinal, nem todo mundo é vampiro, como eu…

Vendo as fotos da grande anarquia nos jornais, chegaremos todos à óbvia conclusão de que o Carnaval é um “espeto corrido”: nele, a carne se revela nua e crua na churrasqueira dos bailes. A carne dança. Avança. Balança. Provoca. Revela. Convida. A carne abunda na vitrine frigorificada do Carnaval, livre das amarras morais e entregue aos “radicais livres” da devassidão.

“A carne é fraca” – já descobrira o apóstolo Matheus, provavelmente na madrugada de uma terça-feira gorda, entre Zara e Betsabá – foliãs que encontrou no Grande Gala de Herodes…

O tríduo que se instalará no dia 13 é, antes de tudo, uma improvável estatística do IBGE: nele não há desemprego, nem déficit habitacional, nem inadimplência ou excesso de cáries. O que há é a almejada felicidade coletiva, como se o Brasil, num passe de mágica, amanhecesse transformado nas Ilhas de Thomas Morus e Campanella – dois conhecidos endereços de todas as boas utopias.

Fora o ranger de dentes entre as escolas de samba na hora da apuração dos votos, o Carnaval quase não enfrenta discórdias. Ao contrário, Momo é um “pacificador”.

O Carná é um claro armistício. É anárquico, mas não prega a luta de classes, antes as aproxima e entrelaça. Pode até ironizar a autoridade constituída num bloco de sujo. Mas não conspira contra o Estado. “Intica” com o governo, mas não organiza passeatas contra os Palácios dos mandatários.

Na Quaresma, a festa se transforma em penitência. Bem me lembro da semana de “cinzas” no Colégio Catarinense, anos 1960. O venerando padre Werner ouvindo confissões, corcunda e exausto – um “vovô Gepeto” lidando com os pequenos Pinóquios.

Intrigava-me o fato de que o padre se interessava mais pela quantidade do que pela qualidade do delito “pecatorum”. Exigia detalhes estatísticos dos pecados cometidos em nome da lascívia:

– Quantas “vezes”, meu filho?

Os pequenos penitentes, reféns carnavalescos dos hormônios de Onã, o bárbaro, reduziam drasticamente os “juros” daquela operação:

– Uma vez só, seu padre…

A absolvição saía barato. Por meia dúzia de Ave-Marias deixávamos a condição de pequenos Satãs para ingressar no Paraíso dos coroinhas da Cruzada Eucarística.

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