Arquivos Diários: 6 fevereiro, 2010

VERÃO CAUDALOSO de tonicato miranda / curitiba


para Ticiano Jalos


faz tempo

o ar não andava tão pesado

meu passo não era tão marrom

o sol não era assim causticante

meu corpo não vertia água e som

.

faz tempo

o piano não me emocionava

tu não voltava-me um romance

o ano não era a grande promessa

nem eu era teu sorriso de relance

.

faz tempo

abacaxis não eram assim tão bons

frutas mais adoráveis que bombons

queria muito o gelo refrescando o corpo

adorei tanto as frutas e seus variados tons

.

faz tempo

não fazia calor demasiado assim

águas jorrando do céu em cachoeiras

enchentes no final de tarde, todo calendário

notícias assustando o dia se verdadeiras

.

é bom tempo

para amar até emagrecer a alma

beber bebida gelada, uma limonada

ligar ventilador ir pra baixo de um coqueiro

balançar na rede, balançar e mais nada

.

é bom tempo

para abrir um livro, ficar contigo

raspar a barba cortar todo o cabelo

caminhar no final da tarde e escurecer

teu sorriso guardar como um belo selo

.

é bom tempo

para desconfiar da dor dos homens

acreditar mais na mulher risonha

aquela capaz de te doar sorrisos

fazendo alegre tua cara antes tristonha

.

é bom tempo

para botar porta fora velhas cartas

iniciar um novo amor, ser todo passageiro

embarcar num transporte sem destino certo

ir a Ushuaia lá no sul, gastar todo Fevereiro

PODE EXISTIR SOCIALISMO CRISTÃO? – por dom aloísio roque oppermann scj / uberaba.mg

Recebo uma revista católica, que leio religiosamente. Destina-se aos Jovens. É escrita por uma equipe de pessoas de bom nível intelectual e didático. Mas lá no fundo, a linha de pensamento me deixa preocupado. Entre outras coisas, mensalmente sai um artigo que louva certas revoluções, de viés claramente esquerdizantes. É um estímulo aos jovens, para canalizar suas energias, de modo bem suave, para o socialismo. A mesma impressão me causa o Stedile, com seus sequazes nem sempre de origem rural. Novas terras para cultivar, é o que menos interessa. O que se busca é uma nova ordem social, evidentemente socialista. (Ou seria anarquista?) Em todas as latitudes, em qualquer ramo, sempre que se apresenta um corifeu do socialismo, ele se auto-reveste das características simpáticas de moderno, avançado, restaurador da justiça, criador da abundância para todos, enfim, da prosperidade agora ao alcance da mão.

Felizmente, já temos no mundo uma vasta experiência socialista, de duzentos anos, que se instalou em vários países, e deixou rastos de sangue e de atraso. Assim conhecemos sua face. Vejamos as características de tal linha econômico-política. Ela é invencivelmente de alma atéia. E como não consegue convencer a população, via raciocínio, então lança mão do cerceamento da liberdade.  Esvazia tudo o que é de ordem particular, para destinar todos os bens para a administração da sociedade. Como, no seu entender, a livre iniciativa só visa o lucro pessoal e o egoísmo, então o Estado é que deve planejar a produção e a distribuição dos bens. Cabe-lhe ditar regras para a imprensa, selecionar a linha ideológica da escola, e impor a revolução violenta, para implantar o regime dos miseráveis. Para o triunfo do socialismo, a via democrática se mostrou um caminho inviável. Só a coação, para eles, é que resolve. É claro que existem vários tipos de socialismo, mas suas semelhanças são enormes. Com essa descrição também não posso aprovar o capitalismo grosseiro. Mas este admite reformulações, deixa espaço para os partidos de tônica social, e aceita (às vezes constrangido), em aperfeiçoar-se pela Doutrina Social da Igreja. Gente, vamos encurtar caminhos: a via socialista, definitivamente, não é solução. Quem é socialista propõe uma via, comprovadamente retrógrada.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG

A MALA DO MALA por charles farias / são luis.ma

Pescando na Internet coisas que meus seis leitores (um de Bora-Bora, dois de Oeiras, no Piauí, dois de Icó, Ceará e minha querida mãezinha) não têm tempo de ir buscar, achei a matéria que transcrevo agora: “O endereço Is this Your Luggage mostra os looks de gente que perdeu a mala e não se preocupou em buscar. O blogueiro Luna Laboo arremata valises não reclamadas e publica na rede o guarda-roupa alheio.”

Lembrei-me do mais recente amigo de infância que conheci, o Elesbão “Podeixá”. Tem este apelido herdado de sua profissão: carregador de malas no Aeroporto de Brasília. Era com esta frase que o estabanado profissional pedia para carregar as bagagens dos incautos que aterrissavam na Capital dos Sonhos (deles, claro!).

Numa bela manhã de sol, numa de minhas obrigatórias escalas pelo Planalto Central, resolvi tomar o último café no Brasil, ali no Palheta, antes de continuar meu vôo para o exterior (é, amigo, quer queiram quer não, Paraguai ainda é deles, os paraguaios) quando vejo Elesbão. Foi logo segurando minha Vuitton que sempre levo a tiracolo e dizendo: Pódeixá, que carrego pra “vocelência”. Iniciamos o diálogo que se segue:

– Aê, Elesbão, tá me desconhecendo, mermão? Falei tirando meu Paco Rabanne da cara.

– Nãããããoooo!!! Charlão??? Vem de onde? Ta indo prá onde? Sim, porque daqui tu queres é distância, pelo que te conheço. Comunista como és…

– Não. Não sou mais comunista, não. Derrubei meu muro ideológico. Dobrei em quatro minhas cortinas de ferro. Mas a distância…Bem, ainda a quero. È só uma escala. Vou ao Paraguai. Comprinhas para o final do ano.

– Sei. Vuitton, Paco Rabanne. Versace para madame Charlão. Então tens tempo para batermos um papo?

– Tenho, sim. O avião entrou em conserto e não sei quando me chamarão.

– Então estás só no avião?

– Não. Tem mais dois passageiros. Um que está vindo da embaixada do Brasil em Honduras, um tal de Zapata, Zapatalaia, Zé Issua Laia, sei lá, e vai pedir asilo em outra embaixada do “Cara”, e uma zinha dona de um puteiro pras banda de Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Mas diga lá, o que tem feito, além de carregar malas no aeroporto?

– CBF.

– Do Havelange, do Teixeira?

– Qual! Quem sou eu, um pobre torcedor do Vasco. No máximo junto com o Miranda…

– CBF é o quê?

– Confusão de Bagagens e outras Fuleragens…

– Seja mais explícito, Elesbão.

– Esse negócio de explícito só conheço sexo. Mas vou ser mais claro. É o seguinte: Aqui no aeroporto tem mais autoridade que no Congresso. Eles chegam na terça e na quinta já estão de volta. Usam mais o saguão do aeroporto que seus gabinetes. Fazem tanta confusão com as bagagens que igual só vi na Constituinte, só sobra pra nós. Chegam a esquecer malas e mais malas no saguão. Então nós, da CBF, pegamos as malas e levamos prum cafôfo que temos em Ceilândia. Lá aguardamos a reclamação, que chamamos, só de fuleragem, de “um rigoroso inquérito”. Quando há o tal “rigoroso inquérito” aí devolvemos, com as desculpas que “eles” nos ensinam diariamente: “não sabíamos, não lembramos, não sabemos do que se trata, deve ter sido nossa secretária, estão usando politicamente o caso, não assinamos isto”, estas coisas. Mas, sem antes fazermos o nosso próprio “rigoroso inquérito”, ou seja o baculejo do que tem lá dentro.

– Ôps! Então deves ter umas boas histórias pra contar…

– Sô! Se tenho… Um dia um Zinho lá esqueceu uma mala cheia das “verdinhas”, do “alface” das “Tomás Jefferson”…

– Dólar?

– Fala baixo.

– Devolveram?

– Não. Tamos aguardando o Barbosinha, aquele do STF, julgar o caso. Se ele for condenado nós devolveremos. Se for absolvido, nós repartiremos pelos sócios da CBF, assim teremos cem anos de perdão…

– E o Sarney?

– Esqueceu uma 007…

– Fala. O que tinha dentro? Elesbão? Volta aqui, Elesbão. Peraí, cara. Diz só pra mim…

– Tá. Umas pastas.

– O quê continham?

– Papéis.

– O quê tinha escrito nas capas?

Elesbão, sussurrando no meu ouvido: “DÊ Ó ESSE ESSE I Ê S”

– De quem? Elesbão? Volta aqui, rapaz. Pelamordedeus, volta…

Jamais reencontrei Elesbão. Tenho sempre recebido cartões postais dele. De Las Vegas, Saint Tropez, Punta D’Leste de Maldonado, Cancún… É, acho que esta ele devolveu sem ser preciso um “rigoroso inquérito”.

O medo da mídia golpista: uma gritaria para manter o monopólio – por mario augusto jakobskind / são paulo

Os leitores possivelmente estão acompanhando a gritaria dos grandes veículos de comunicação relacionada com uma suposta ameaça de censura ou algo do gênero. Na verdade, atrás disso esconde-se uma estratégia destinada a enganar a opinião pública e dessa forma evitar avanços na área da mídia, cuja regulamentação está totalmente defasada e precisa ser atualizada.

Ou seja, no fundo os barões da mídia presentes principalmente em O Estado de S. Paulo, O Globo eFolha de S.Paulo, TV Globo, Record, etc. querem apenas defender privilégios e em nome disso misturam o conceito de liberdade de imprensa com o de liberdade de empresa.

Quando da realização no mês passado da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), quase diariamente os jornais e televisões se dedicaram ao muro de lamentações midiático de entidades que exatamente se recusaram a debater questões de interesse de toda a população.

Aí a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), capitaneada pelas Organizações Globo, juntamente com a Associação Nacional dos Jornais, não pararam de acusar a Confecom infundadamente, ou seja, com mentiras deslavadas sempre tendo como norte a suposta ameaça à liberdade de imprensa e de expressão.

E isso quando ocorria exatamente ao contrário, isto é, os participantes da Confecom — representantes de movimentos sociais, do governo e setores empresariais não vinculados ao esquema Abert/ ANJ — aprovavam 655 propostas a serem encaminhadas ao Congresso para debate e aprovação ou não. A Abert e a ANJ simplesmente recusaram-se a participar da Conferência, exatamente porque se negavam a debater, o que é uma contradição total para quem se diz democrata.

Os jornalões, os mesmos que apoiaram o golpe de 64, como O Globo, Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, dedicaram editoriais com premissas mentirosas e totalmente distorcidas, para criticar a Confecom e, como se não bastasse, logo em seguida o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Bóris Casoy, que nos anos 60 militava no Comando de Caça aos Comunistas (CCC), e até Joelmir Beting entraram no jogo da manipulação com mentiras e no mais puro estilo de babar ódio.

Mais uma vez foi colocado em pauta o falso argumento das ameaças à liberdade de imprensa e de expressão. Eis, portanto, uma adjetivação que se repete em vários países das Américas e sob o patrocínio de ideólogos recomendados a consolidar mentiras até que virem absolutas verdades. Na Argentina, os papagaios de pirata não param de inventar histórias, que são repetidas pelos quatro cantos da América Latina.

Um item chamou muito a atenção de quem tenta analisar os fatos: a repetição da alegação de que a imprensa estaria ameaçada pelo projeto de direitos humanos. Uma mentira que não resiste à menor análise. Os barões da mídia vestiram a carapuça.

O projeto do 3º PNDH, na parte referente à mídia, apenas defende a regulamentação de um artigo da Constituição com a indicação no sentido de apontar punições para violações dos direitos humanos. Uma determinação, diga-se de passagem, que consta da Convenção de Direitos Humanos, o Pacto de São José, do qual o Brasil é signatário.

Portanto, nada propriamente de novo no front, apenas medidas preventivas no sentido de evitar que se utilizem as concessões públicas com o objetivo de desrespeitarem os direitos humanos, como ocorre em certos programas de TV que jorram sangue e têm média de grande audiência.

A mídia conservadora ligou todas as baterias para contestar o fato de se questionar a existência do monopólio na área de comunicação. Aí apareceu um parlamentar que se imaginava ter se regenerado pelo que fez no passado, tomando as dores dos big-shots do setor midiático, ao afirmar que “no Brasil não há monopólio”.

O parlamentar mencionado é Miro Teixeira, do PDT, que saiu em campo para negar a existência de monopólio dizendo que no país há concorrência no setor, etc. e tal. Consciente ou inconscientemente, o deputado que no passado ascendeu à política pelas mãos do então governador Chagas Freitas, exemplo concreto de fisiologismo e linha auxiliar da ditadura, fez o jogo favorável a um poderoso grupo midiático. Tem espaço garantido nos telejornais da TV Globo, o que é de grande serventia para os políticos em ano eleitoral.

Teixeira alguns meses atrás ganhou tremendo espaço na mídia conservadora ao defender com unhas e dentes a revogação da Lei da Imprensa, utilizando nesse sentido o argumento do gênero meia verdade, ou seja, que era necessário remover um entulho da ditadura. Certamente que foi importante a remoção, mas só que nada foi colocado no lugar e o direito de resposta ficou prejudicado.

Ou seja, se alguém agora se sentir prejudicado em algum comentário ou matéria e quiser responder vai penar. É o caso então de se perguntar: não seria justo remover de vez o entulho autoritário e deixar uma mínima regulamentação para evitar o hiato atual na questão do direito de resposta? Por que então não se removeu apenas o entulho autoritário e se aprimorou uma lei de imprensa como existe em vários países democráticos?

Na questão do monopólio, na prática, Teixeira simplesmente limpou a barra das Organizações Globo, a mesma empresa que tem propriedade de rádio, televisão e jornal numa mesma área, o que caracteriza o monopólio. O parlamentar desconhece que o poder da Globo é tamanho que consegue marcar hora para o início de partida de futebol, usa o espaço eletrônico, seja no jornalismo ou na teledramaturgia, para defender poderosos interesses econômicos.

E tudo isso acontece na prática em detrimento de uma verdadeira democracia, não aquela defendida pelo patronato midiático conservador, que em tempos passados apoiou o golpe de Estado que derrubou o presidente constitucional João Goulart e lançou o país numa noite escura de desrespeito aos direitos humanos.

É sempre importante lembrar esse fato, porque para se conhecer melhor o presente é preciso também não esquecer fatos relevantes da história nacional. Até porque, nos momentos em que o país se esforça para consolidar a democracia e avançar nas transformações sociais necessárias neste século 21, a mídia conservadora volta ao esquema golpista muito parecido ao de 46 anos passados.

Oração pela santificação do sublime – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Senhor

das humildes e singelas

estátuas santificadas

que dão fé e milagres ao povo

concedamos pedir graças ao magnífico.

Oh! Virgem Maria sublime de Leonardo da Vinci.

Rogai por nós.

Sagrada Família de Rafael.

Rogai por nós.

Os Profetas de Aleijadinho.

Rogai por nós.

Oh! Cristo que veio do maculado

coração de Caravaggio.

Rogai por nós.

Auto-retrato de Frida Kalo que parece

dolorosa MARIA sem concepção.

Rogai por nós.