A MALA DO MALA por charles farias / são luis.ma

Pescando na Internet coisas que meus seis leitores (um de Bora-Bora, dois de Oeiras, no Piauí, dois de Icó, Ceará e minha querida mãezinha) não têm tempo de ir buscar, achei a matéria que transcrevo agora: “O endereço Is this Your Luggage mostra os looks de gente que perdeu a mala e não se preocupou em buscar. O blogueiro Luna Laboo arremata valises não reclamadas e publica na rede o guarda-roupa alheio.”

Lembrei-me do mais recente amigo de infância que conheci, o Elesbão “Podeixá”. Tem este apelido herdado de sua profissão: carregador de malas no Aeroporto de Brasília. Era com esta frase que o estabanado profissional pedia para carregar as bagagens dos incautos que aterrissavam na Capital dos Sonhos (deles, claro!).

Numa bela manhã de sol, numa de minhas obrigatórias escalas pelo Planalto Central, resolvi tomar o último café no Brasil, ali no Palheta, antes de continuar meu vôo para o exterior (é, amigo, quer queiram quer não, Paraguai ainda é deles, os paraguaios) quando vejo Elesbão. Foi logo segurando minha Vuitton que sempre levo a tiracolo e dizendo: Pódeixá, que carrego pra “vocelência”. Iniciamos o diálogo que se segue:

– Aê, Elesbão, tá me desconhecendo, mermão? Falei tirando meu Paco Rabanne da cara.

– Nãããããoooo!!! Charlão??? Vem de onde? Ta indo prá onde? Sim, porque daqui tu queres é distância, pelo que te conheço. Comunista como és…

– Não. Não sou mais comunista, não. Derrubei meu muro ideológico. Dobrei em quatro minhas cortinas de ferro. Mas a distância…Bem, ainda a quero. È só uma escala. Vou ao Paraguai. Comprinhas para o final do ano.

– Sei. Vuitton, Paco Rabanne. Versace para madame Charlão. Então tens tempo para batermos um papo?

– Tenho, sim. O avião entrou em conserto e não sei quando me chamarão.

– Então estás só no avião?

– Não. Tem mais dois passageiros. Um que está vindo da embaixada do Brasil em Honduras, um tal de Zapata, Zapatalaia, Zé Issua Laia, sei lá, e vai pedir asilo em outra embaixada do “Cara”, e uma zinha dona de um puteiro pras banda de Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Mas diga lá, o que tem feito, além de carregar malas no aeroporto?

– CBF.

– Do Havelange, do Teixeira?

– Qual! Quem sou eu, um pobre torcedor do Vasco. No máximo junto com o Miranda…

– CBF é o quê?

– Confusão de Bagagens e outras Fuleragens…

– Seja mais explícito, Elesbão.

– Esse negócio de explícito só conheço sexo. Mas vou ser mais claro. É o seguinte: Aqui no aeroporto tem mais autoridade que no Congresso. Eles chegam na terça e na quinta já estão de volta. Usam mais o saguão do aeroporto que seus gabinetes. Fazem tanta confusão com as bagagens que igual só vi na Constituinte, só sobra pra nós. Chegam a esquecer malas e mais malas no saguão. Então nós, da CBF, pegamos as malas e levamos prum cafôfo que temos em Ceilândia. Lá aguardamos a reclamação, que chamamos, só de fuleragem, de “um rigoroso inquérito”. Quando há o tal “rigoroso inquérito” aí devolvemos, com as desculpas que “eles” nos ensinam diariamente: “não sabíamos, não lembramos, não sabemos do que se trata, deve ter sido nossa secretária, estão usando politicamente o caso, não assinamos isto”, estas coisas. Mas, sem antes fazermos o nosso próprio “rigoroso inquérito”, ou seja o baculejo do que tem lá dentro.

– Ôps! Então deves ter umas boas histórias pra contar…

– Sô! Se tenho… Um dia um Zinho lá esqueceu uma mala cheia das “verdinhas”, do “alface” das “Tomás Jefferson”…

– Dólar?

– Fala baixo.

– Devolveram?

– Não. Tamos aguardando o Barbosinha, aquele do STF, julgar o caso. Se ele for condenado nós devolveremos. Se for absolvido, nós repartiremos pelos sócios da CBF, assim teremos cem anos de perdão…

– E o Sarney?

– Esqueceu uma 007…

– Fala. O que tinha dentro? Elesbão? Volta aqui, Elesbão. Peraí, cara. Diz só pra mim…

– Tá. Umas pastas.

– O quê continham?

– Papéis.

– O quê tinha escrito nas capas?

Elesbão, sussurrando no meu ouvido: “DÊ Ó ESSE ESSE I Ê S”

– De quem? Elesbão? Volta aqui, rapaz. Pelamordedeus, volta…

Jamais reencontrei Elesbão. Tenho sempre recebido cartões postais dele. De Las Vegas, Saint Tropez, Punta D’Leste de Maldonado, Cancún… É, acho que esta ele devolveu sem ser preciso um “rigoroso inquérito”.

2 Respostas

  1. Beleza de causo, Charles. Muito bem contado.
    Vou São Luiz em Junho, conhecer as festas de boi. Tenho dois irmãos morando aí. Quando eu for, gostaria de tomar uma cerveja contigo e com o poeta e palavreiro Joao Batista do Lago que também mora aí.
    Abração

    1. Venha, Marilda. Eu e meu grande amigo João Batista estamos ansiosos com sua chegada e… a cerveja está gelando…Cuidados com as malas e os malas.

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