Irmãozinho negro tem papagaio de papel – de noémia de souza / moçambique




O papagaio é de papel.
Tem a cor viva de caju maduro
E é brilhante como o sol de poente.
O papagaio é de papel
E voa, voa para o céu,
Arrastado pelo vento…
E longa cauda enfeitada
Dança um bailado oriental, lento
Como o serpentear da cobra mamba…

Irmãozinho negro de cabeça redonda,
De umbigo saliente
E olhar curioso…
Irmãozinho negro de olhar curioso tem
O papagaio bem preso e seguro
Pelo fio,
Na mãozinha quente.

Irmãozinho negro é pobrezinho, não tem nada seu…
Só o papagaio de papel
Que voa, voa para o céu
Como um sol ou uma estrela…

Ai, irmãozinho negro é pobrezinho, mas também
Sonha, também, coitadinho!
Sonha que há de ir alem
Ao céu, no papagaio que é como uma estrela…
E que há de brincar com tanta coisa linda
Que ele adivinha lá longe e nunca viu…

Ai, irmãozinho negro é pobrezinho,
Não tem nada seu…
Só um papagaio de papel,
Tão belo e brilhante como uma estrela cadente.

Um papagaio de papel
Que voa, voa, voa
E não leva consigo irmãozinho negro.

L. marques, 30/6/1951

In o brado Africano, ano xxxvi, nº 1545, 30.04.1955

Uma resposta

  1. Nascemos e crescemos com nossos irmãos e nós mesmos, tentando jogar ao ar, os nossos papagaios de papel, feitos arco-‘iris tantos os papeis coloridos que usávamos para os enfeitar. E a nossa alegria suprema, era quando conseguíamos que levantassem vôo, porque na sua maioria,
    arrastavam-se pelo chão porque não havia brisa que soprasse, vinda donde viesse, para os erguer até <ás nuvens. Aí, era o desânimo total, mas lembro-me que nunca desistíamos. E lembro-me também
    que nos despedíamos
    e ped'iamos sempre, com a certeza que ''amanhã'' havia de soprar um vento tal, que o papagaio havia de fugir da guita que o prendia, tal a força que que o impeliria para as alturas, feito
    cometa. A infância ficou para trás, e os papagaios também. Já não encontramos papeis coloridos
    meninos sonhadores ,porque a realidade prendeu-nos os pés à terra. Só os pensamentos dos nossos meninos voam, voam, voam, mas a fome e a miséria cortam-lhes as asas, e as guitas dos papagaios de papel viraram ancoras, mas ancoras tão pesadas que não há vento nem furacão que lhes permita levantar vôo.
    A minha homenagem a esta minha irmã moçambicana. Estivemos, estamos e estaremos, sempre juntas.
    Vera Lucia

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