Arquivos Diários: 9 fevereiro, 2010

FAMOSAS e FORMOSAS – por sérgio da costa ramos / florianópolis

Essa volúpia de ser bela e famosa está levando as mulheres a uma atitude robocop. Claro, beleza é fundamental, já dizia aquele decreto poético de Vinícius de Moraes.

Mas convém não exagerar. Parece haver entre as mulheres jovens – e entre as nem tão jovens assim – um compromisso “mortal” com a aparência. A qualquer preço, mesmo ao custo da perda de identidade. Elas admitem metamorfoses estéticas que as transformem até mesmo em outras pessoas, desde que sejam belas.

E ninguém quer ser a Susan Sontag ou a Clarice Lispector, mulheres belíssimas, mas, antes de tudo, “mulheres-cabeça”.

No máximo, aspiram ser apresentadoras de tevê, como Adriane Galisteu ou Luciana Gimenez.

Tudo começa com um peito novo. Depois, vem uma lipo na barriga, um bumbum novo, um lábio a la Angelina Jolie (ou a Brigitte Bardot nos tempos idos) e pronto: uma versão feminina de Frankenstein estará em gestação.

Como a Miss Brasil de poucos anos atrás: Juliana Dornelles Borges, gaúcha de 22 anos, metro e oitenta de altura e confessas 20 plásticas. Ela própria já nem sabia se era Juliana ou Anajúlia. Ou se, dentro do seio turbinado com 250 ml de silicone ainda batia um coração. A moça só confirmava ter feito “duas dezenas de intervenções cirúrgicas” para ficar com a forma que hoje exibe.

Ora, nem Mary Shelley, a criadora de Frankenstein, teria tido ideia mais “reformadora”, aplicando em sua humana besta nada menos do que 20 alterações no projeto original.

Primeiro, Juliana corrigiu suas orelhas de abano. E o orgulhoso autor da reforma geral, o cirurgião Almir Moojen Nácul, foi enumerando as benfeitorias que acumulou na cliente: colocação de 250 ml de silicone em cada um dos seios; lipoaspiração do abdômen, alta cintura e costas; remoção, via lipo, de gorduras localizadas acima das nádegas; extração de três sinais do corpo e do rosto; preenchimento de “clareiras” em regiões de tecido mole por substâncias siliconadas; escultura com silicone para preenchimento das maçãs do rosto, visando torná-las mais pronunciadas; modelação do queixo, pelo mesmo método, para torná-lo arredondado; preenchimento da linha que contorna a mandíbula, para acentuar a separação entre rosto e pescoço; e recheio do lábio superior, par torná-lo mais carnudo – ufa!

Juliana ainda se viu na obrigação de perder peso e afinar a cintura. Com um novo rosto e um par de seios “zerinho”, a robô resultante pôde, afinal, comemorar o título de Miss Brasil com sua supermamãe.

Em vez de Exupéry, Juliana lê, provavelmente, a revista Mecânica Popular. Ou, num arroubo de sofisticação, Expedição ao Planeta Terra e Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, o “Exupéry” da sciece fiction.

A nova valorização dos seios grandes não partiu da Associação de Bebês Lactentes, nem da multinacional Parmalat ou de Anita Ekberg, a “peituda” feliniana de A Doce Vida. Partiu de um novo senso estético que reclama mulheres mais cheinhas, assim como as Maja de Velázquez ou as gordinhas de Peter Paul Rubens, o gênio holandês das mulheres opulentas.

Também eu saudei a redescoberta do seio nos desfiles de modas, com as “taças mais cheias” de Gisele Bündchen e Ana Cláudia Michels. Mas está claro que, nesta matéria, há espaço para as explicações de Freud: de tanto se sentir perdida e insegura, a humanidade está precisando de um consolo “oral”, o seio materno.

Inventor do silicone em 1904 –embora com outros propósitos –, o médico inglês Kipping jamais imaginaria que a principal utilidade de seu invento seria adubar essa plantação de melões em hortas planas.

ESPERO O VENTO de otto nul / palma sola.sc

Espero o vento

Que vem dos grotões

Ou de onde seja

Para me levar

Espero o vento

Ainda que tardio

Ou vagaroso

Para as distâncias

Espero o vento

Que me conduza

Aos cafundós do mundo

Espero o vento

Embora lento

Na asa de um catavento

Sobre BIG BROTHER BRASIL – por zuleika dos reis / são paulo


Ando ligeiramente cansada dos comentários que ouço a respeito do BIG BROTHER BRASIL: “É uma baixaria só.”; “Corrompe a moral e os bons costumes.”; “Programas como este não deveriam existir.” e assim por diante.

Sempre que ouço tais coisas, me vêm os seguintes pensamentos:

1º) Para que as pessoas possam fazer seus comentários é preciso que tenham visto e ouvido o referido programa, visto e ouvido “muito bem” e demoradamente. Sem pretender generalizar nada, deduzo que para parte dos telespectadores, o visto e ouvido deve ter causado alguma espécie de prazer.

2º) Quando as pessoas dizem “Programas como este não deveriam existir” estão propondo, inocentemente ou com intenção, a volta da censura prévia. Ora, quem presenciou e/ou viveu na pele as consequências da censura prévia, que serviu de alicerce a períodos de Terror no País, sabe que nada pode justificar o seu retorno, o nefasto retorno da tal censura prévia.

Já prevejo os contra-argumentos: “Então, todo mundo deve fazer o que quiser?” A televisão e os meios de comunicação devem prosseguir com sua exibição de baixarias, de cenas de sexo quase explícitas, dos palavrões e seus congêneres?

Penso que, em um mundo movido por grandes patrocínios, em que os altos índices do IBOPE garantem a sobrevivência dos programas, na TV e nos demais meios de comunicação, só há uma receita legítima, eficaz e que não atenta contra a Liberdade: o uso inteligente e lúcido do velho controle remoto ( quando não haja qualquer opção televisiva para os nossos níveis de exigência, o simples toque de desligar decide tudo).

Se os índices de audiência e de participação de espectadores começarem a cair drasticamente, para programas como B.B.B. e congêneres,  das duas, uma: ou tais programas deixam simplesmente de existir, ou alteram, na essência, suas características e seu padrão.

Tudo, em suma, depende apenas de nós, das nossas opções; creio, sim, que seja possível mudar, para melhor, a qualidade da nossa TV e de programas nos demais meios de comunicação, rádio, jornais, revistas, etecetera, sem o sacrifício da coisa mais fundamental da democracia que é a Liberdade de Expressão.

CONVERSA COM UM VELHO RIO – de marilda confortin / curitiba

Toda vez que passo na frente daquele riozinho

Ele pergunta:

– Passeando dona louca?

Atiro uma pedra nele e continuo minha caminhada.

Mais adiante ele se enfia debaixo de uma pinguela

E me provoca novamente:

– Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?

Nem tenho tempo de responder.

Ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez.

Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe

e rola até meus pés para brincar.

A velha rocha silenciosa, apenas observa.

Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.

Um bando de garças adolescentes

faz cocô na minha cabeça.

Os bem-te-vis caem na gargalhada.

Um ipê florido, me xinga de careca.

Pode deixar… Eu me vingo na próxima estação…

Cumprimento uma roseira solitária.

Nem me dá bola.

Sempre esqueço que as rosas não falam.

Em compensação,

os beijos brejeiros se enfileiram

para me mostrar suas novas flores.

Como se multiplicam!

São como ratos, pombas e crianças de rua.

Antigamente era raro vê-los por aqui.

Aqui era um mato.

Agora virou um canteiro urbano.

Asfaltaram os carreiros,

arrancaram árvores,

prenderam o rio.

Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito.

Antes, corríamos livres

e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui.

O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre ele,

ouvindo suas histórias de águas passadas.

Ele me chama de louca, mas quem perdeu o rumo foi ele.

Tem que andar por onde mandam,

parar onde querem que pare,

se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo…

Se eu não te conhecesse, meu velho rio Belém…

– Vá tomar banho, sua doida varrida!

Não posso mais tomar banho contigo, querido.

Não posso nem me sentar ao teu lado.

Tudo é proibido.

E se me pegarem falando contigo,

me  internam num manicômio.

Ele me chama de doida que fala com as coisas,

mas ambos sabemos que insanos mesmo,

foram aqueles que nos represaram,

nos poluíram,

expulsaram as gralhas,

cortaram as araucárias,

plantaram pinus pra dar luz elétrica

em vez de pinhão.

Aqueles que taparam nossa boca

e nossos caminhos com asfalto

para que perdêssemos o rumo.

Aqueles que nos condenaram a esse…

… esse barulho ensurdecedor.