CONVERSA COM UM VELHO RIO – de marilda confortin / curitiba

Toda vez que passo na frente daquele riozinho

Ele pergunta:

– Passeando dona louca?

Atiro uma pedra nele e continuo minha caminhada.

Mais adiante ele se enfia debaixo de uma pinguela

E me provoca novamente:

– Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?

Nem tenho tempo de responder.

Ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez.

Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe

e rola até meus pés para brincar.

A velha rocha silenciosa, apenas observa.

Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.

Um bando de garças adolescentes

faz cocô na minha cabeça.

Os bem-te-vis caem na gargalhada.

Um ipê florido, me xinga de careca.

Pode deixar… Eu me vingo na próxima estação…

Cumprimento uma roseira solitária.

Nem me dá bola.

Sempre esqueço que as rosas não falam.

Em compensação,

os beijos brejeiros se enfileiram

para me mostrar suas novas flores.

Como se multiplicam!

São como ratos, pombas e crianças de rua.

Antigamente era raro vê-los por aqui.

Aqui era um mato.

Agora virou um canteiro urbano.

Asfaltaram os carreiros,

arrancaram árvores,

prenderam o rio.

Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito.

Antes, corríamos livres

e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui.

O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre ele,

ouvindo suas histórias de águas passadas.

Ele me chama de louca, mas quem perdeu o rumo foi ele.

Tem que andar por onde mandam,

parar onde querem que pare,

se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo…

Se eu não te conhecesse, meu velho rio Belém…

– Vá tomar banho, sua doida varrida!

Não posso mais tomar banho contigo, querido.

Não posso nem me sentar ao teu lado.

Tudo é proibido.

E se me pegarem falando contigo,

me  internam num manicômio.

Ele me chama de doida que fala com as coisas,

mas ambos sabemos que insanos mesmo,

foram aqueles que nos represaram,

nos poluíram,

expulsaram as gralhas,

cortaram as araucárias,

plantaram pinus pra dar luz elétrica

em vez de pinhão.

Aqueles que taparam nossa boca

e nossos caminhos com asfalto

para que perdêssemos o rumo.

Aqueles que nos condenaram a esse…

… esse barulho ensurdecedor.

7 Respostas

  1. QUERIDA MARILDA: TENS A MINHA MAIS COMPLETA E IRRESTRITA AUTORIZAÇÃO PARA REPUBLICARES TUDO O QUE TE APROUVER DE MINHA LAVRA. ( Resolvi caprichar no Português, em tua homenagem.)
    Beijo
    Zuleika.

  2. Marilda,

    Qualquer dia desses vou visitar o Rio Belém,
    mas só quando uma louca como tu for por lá também
    se não não vou, fico por aqui bem longe dele, no além
    no além rio, além luar, esses que nos fazem grande bem
    só olhando acima, enquanto o rio embaixo: chuá, chuá.

    Mas veja bem, essa louca terá de ser poeta como tu
    para que lá possa ficar, os riulhos dos dois a escutar
    o rio fluindo ou se escondendo em todos buracos de tatu
    e aviso-te louca poeta, tu e o rio estão muito longe do mar
    mas seguirei os dois águas abaixo, até morrer ou amar

    TM

  3. Obrigada Joanna, João, Zuleika e Vera. Vocês me incentivam muito com seus comentários, mesmo eu não sendo muito presente aqui no blog do Vidal. Agora, com mais tempo (estou jubilada), me dedicarei mais à leitura e retribuirei seus comentários.
    Gostaria de republicar alguns textos de vocês no meu blog. Me autorizam? Não é um blog muito lido, nunca divulguei. É mais um repositório particular onde guardo as saudades dos amigos, os textos que gosto, as fotos, tudo o que me faz sentir aquela saudade que a Vera comentou e que eu também sinto, sinto muito. Um velho poeminha meu, que fala sobre isso:

    Sinto saudades de um lugar que nunca estive.
    Céu?
    De um amor que não é meu.
    Seu?
    De alguém que nunca vi.
    Deus?
    Livro-me dos livros
    dos ritos,
    dos mitos,
    estátuas e estepes.
    Esvazio-me de mim.
    A saudade continua.
    Divina dúvida…
    Existes?

    Beijão
    Marilda

  4. É isso mesmo, Marilda… Longe ficaram os rios, os campos, as florestas, tudo aquilo que era belo e fazia parte do nosso passado recente. <e o que deixamos aos nossos filhos? Banhos nas ribeiras escondidas, onde flutuávamos como caravelas? Jogos de esconde-esconde nos valados e nos campos?
    Nada… Se é um facto que se não tivessem dado cabo disso tudo, em prol da civilização, hoje, por exemplo, não estaria falando contigo… Mas o preço foi pesado.
    O teu poema é lindo.
    Um abraço cheio de saudade,duma pessoa que não conheço mas que já mora no meu coração…
    Com esta frase, veio-me à memória a interrogação: Que saudade é esta duma pessoa que não conhecemos?
    Vera Lucia

  5. LIndo, Marilda, uma das coisas mais belas que li, desde muito tempo. Na espontaneidade encantadora das coisas, a alma delas, das coisas, vai se revelando; tu as leva a se revelarem.
    Grande abraço
    Zuleika.

  6. A prosa em poesia, aos meus olhos, é um dos gêneros mais difíceis… Porém, é um dos mais belos. A prova está aqui, nesta poesia de autoria de Marilda Confortin que, como poucos, sabe com mestria cultivar.
    O lirismo do diálogo que o “sujeito” da poesia desenvolve com os seus interlocutores é de uma beleza magistral. As imagens que nos ficam, após a leitura desta poesia, se firmam como ferraduras em nosas almas, corpos e espíritos.
    Parabéns, poeta
    Um grande beijo.
    Sempre seu
    João Batista do Lago

    ==========

    Fiquei sabendo por intermédio do Charlão que você virá a São Luis… Estou ansioso para recepcioná-la.

  7. Imbativel Marilda Comfortin!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: