Arquivos Diários: 14 fevereiro, 2010

S E M – por jorge lescano / são paulo

S  E  M

Para os meus Colaboradores

No livro póstumo Seis Propostas para o Próximo Milênio, do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985) – série de palestras que não chegou a pronunciar nas Conferências Norton –, o autor refere que teria gostado de compilar uma antologia com os contos mais breves do mundo. Ilustra a idéia com a que se dá como a mais famosa das narrativas do escritor mexica-guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003):

O dinossauro

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

A intenção de Calvino se viu frustrada por não encontrar outras peças com a brevidade e qualidade desta obra prima.

O escritor brasileiro Luiz Arraes compôs 40 variações sobre o texto do mexicano em Tentando entender Monterroso. Na abertura deste livrinho (cabe no bolso da camisa), depois de citar O dinossauro, comenta que ele é tido como o conto mais curto jamais escrito, e afirma: Não é. O conto Nada,  de Raimundo Carrero, publicado na Antologia dos contos mínimos, merece esse título.

Não conheço esta obra, contudo, pelo contexto em que está inserida, imagino que se trate de um conto concreto, isto é,  título e conto são uno:

nada

Se assim não for, proponho a minha leitura como re-escrita dele ou variação do tema.

As bem humoradas variações de Arraes me estimularam a competir com a criatividade destes autores. Creio que consegui escrever o conto mais breve em pelo menos duas línguas (literaturas): portuguesa, castelhana:

S E M

S I N

A sonoridade produzida na leitura corrida das duas versões é um benefício extra que o aproxima da poesia. Valerá a pena tentar o registro de SEM no Livro dos Recordes?

O Dr. Marcelo Pasquali qualifica SEM tão perfeito quanto Jorge Luís Borges A invenção de Morel, do seu amigo Adolfo Bioy Casares, e diagnostica com precisão de goleador: a obra está irremediavelmente excluída da competição Nobel pois não pode ser traduzida para o sueco, requisito sine qua non.

A dileta amiga do autor, Dra. Carminda André, depois de algumas considerações sobre certos aspectos da obra em pauta, informa que hordas de esclarecidos leitores já estão fazendo circular um abaixo assinado em favor da inclusão da mesma no Guinness. A autor agradece e se dispõe a participar desinteressadamente dessa democrática empreitada em favor das Belas Letras Pátrias.

Contagiado pelo espírito da coisa, o Prof. Abrahão Freitas adaptou antigo slogan das célebres Pílulas (não pastilhas, cápsulas, drágeas, comprimidos) do Dr. Ross: Chiquitito pero cumplidor!.

Do seu conto SEM/SIN se pode comentar que além da sonoridade em qualquer idioma, mesmo que não tenha qualquer sentido em chinês (a conferir), essa sonoridade, por certo, provocará impressão especial, afirma o poeta e escritor (sic!) Raul Longo, e aproveita o ensejo para aditar uma anedota sobre seu amigo Luiz Arraes.

Grave falha na versão anterior de SEM, aponta o Dr. Maurício Ayer, e diz que SIN é pecado, culpa, maldade, transgressão, falta, ofensa, na língua da rainha Vitória. Nada mal para um monossílabo!

O Leitor Anônimo (como tal assina) envia sua colaboração que, para dizer o menos, sofre de algum didatismo, como os filmes norte-americanos que nos impingem moralismo e seu Código Penal sob o pretexto de cinema onde sempre triunfa o Advogado de Defesa, exceto nas histórias de Al Capone, graças a Deus. Incluem-se aqui seus esclarecimentos apenas para não trair o espírito democrático dominante na Comunidade Internacional, da qual o autor de SEM pretende vir a fazer parte assim que descobrir o que seja ela: SEM, tem o mesmo som do número CEM no idioma da Martona, Melhor Futebolista do Mundo em 2009, versão venusiana, pela quarta vez consecutiva. SIN, nome do Celeste Império na língua de Kung-Fu-Tzu e  Shih  Huang-ti.

Anos atrás Raul Longo recebeu uma breve carta da Bélgica. Uma estudante de lingüística procura hospedagem em Florianópolis para residir durante o tempo que dure sua bolsa de estudos. Ela assina Sien, a grafia soa como o número 100 em castelhano. Agora Raul, Sien e a carta são parte de uma narração em andamento. Atualmente, o autor desta resenha traduz um conto que tem a Bélgica como ponto de partida, na carta de Sien acredita ver certa continuidade temática. Na literatura toda coincidência é controlada, construída, matuta enquanto levanta andaimes sem planta do edifício, a menos que o edifício seja de andaimes: textos desconexos de um diário ideal, que de fato registre o processo mental do autor. Sente-se como o personagem de Jarry, que foi estudar francês e acabou aprendendo belga. Sien esclarece que seu nome se pronuncia Sim e não sabe explicar porque.

Rogério Rodrigues, apesar de ator e dublador confessa ter ficado Sem palavras e cumprimenta o autor respeitosa se não ironicamente. Sua mudez não é empecilho para que continuemos pois até agora ninguém sabe como isto vai acabar!

Na biblioteca da escritora Zuleika dos Reis encontro o livro com o anacrônico título Os cem menores contos brasileiros do século; São Paulo, Ateliê Editorial, 2004. A página 79 deste volume contém o conto de Raimundo Carrero citado por Luiz Arraes, cujo título correto é Quatro Letras. Ei-lo:

Quatro letras

Nada.

Assim sendo, parece que a minha versão de nada é mais breve e, obviamente, não pode nem deve ser considerada plágio, apenas variação do mesmo tema (ou da ausência dele).

Houve um erro deliberado, piada que não funcionou, e um terço da extensão do conto mais curto do mundo teve que ser sacrificado, o que ganhou em brevidade perdeu em intensidade. A atriz Marcela Salzstein, que ainda não leu estas notas, diz: pode ser o mais curto mas tem a maior das apresentações.

O autor desconfia que existe uma sutil relação de motivos ou sub motivos entre todos os livros da biblioteca universal; por que alguns deles coincidem em determinado texto? Para relaxar, decide ler um  conto. Há uma  mulher que mente  através de  uma fotografia:  Oh, eu sei –disse  ela pegando a foto

com as duas mãos. — Gosta? Faz tanto tempo. Estou na Bélgica, fazendo Wagner. A obra é de Ricardo Piglia, título: O fim da viagem. O conto que está traduzindo é de Marco Denevi, também autor argentino, o triângulo amoroso parodia o humor melancólico de Tchekhov, a anedota acontece numa viagem de Ostende a Bruxelas. (Enviar cópia da tradução aos amigos para que não me acusem de maneirista.) Os escritos dormiam espalhados numa teia invisível, por que Georgie os reúne precisamente agora?, quer saber o homem de Praga. Narra-se uma viagem ou um crime, que outra coisa se pode narrar?, diz Piglia. Ler é muito perigoso. Se viver é fatal, a literatura é arte de alto risco. Flecha em busca do alvo no escuro. Deve-se escrever segundo a lógica secreta da vida, a estrutura interna do erro, as bifurcações da linguagem. Evitar toda aparência de realidade. Depois acrescentar a carta, a viagem e a residência da bolsista em Florianópolis. O resultado será diverso do realismo: o cotidiano aperfeiçoado pela ficção, fato autônomo, auto-suficiente e mais duradouro que o evento histórico, tal o objeto estético.

O Dr. Marcelo tece a crítica minuciosamente, como a aranha tece seu ninho. Recupera antigas conversas com o autor na calma e clara intimidade do seu estúdio (dele, Dr. Marcelo Pasquali) na rua Lovegreen. Traz à baila o sisudo realista Tolstoi, o alegre mago Joyce, o irônico e sutil Tchekhov, o mirabolante Macedonio. O escriba receia que seu ego esfarele sob tal massagem. Subitamente lembra que Bustos Domecq participou do último encontro e sorri a meia boca.

Na versão anterior subsistem resíduos de instâncias eliminadas na presente, reconhece o autor, embora a Dra. Carminda André afirme não perceber diferenças entre uma e outra. Ele atribui sua confusão a distrações, esquecimentos, trocas inadvertidas e suspeita sintomas de senilidade (precoce, quer acreditar). As aliterações podem ser um aviso. Sem ser hipocondríaco admite que a freqüência desses percalços deveria merecer mais atenção de sua parte. Promete-se que esta será a penúltima versão definitiva da obra, que de simples conto está se transformando em internovelet, gênero precário no seu juízo, caso exista.

Os comentários contaminam o enredo, modificam a trama. A narrativa seria urdida com os e-mails supracitados, a síntese da carta postada na Bélgica e as confidências de Raul pela internet. Suspeitamos um romance truncado entre a moça de cabelos de linho e o poeta que lhe deu albergue. Ela seria tímida, pálida e silenciosa, a ele nada custa imaginá-lo alto, esguio, belas madeixas negras a se debruçar sobre a fronte trigueira, olhar melancólico, como se já conhecesse o destino que lhe está reservado. O caso teria acontecido à beira-mar. No crepúsculo vespertino, Sim, translúcido cristal de Flandres, esvai-se, deixa em pós de si aura de tulipas. O resto é silêncio, rubrica o inglês em rubro.

Se vale a pena a poesia SEM ser registrada no Guinessssss?, indaga Joana Toda Pura, com cerveja!!!!!! kkkkkkk, responde. Promete ficar torcendo pelo Jorjão e se despede Feliz com sua visita. Bjs.

Atenção!,o computador acusa nova mensagem. Leitor retardatário propõe um conto ainda menor que SEM: NÓ. Assim,  não faltará quem sugira E (Y) como narrativa. Antes, arquivar o tema.

Continuam chegando insistentes contribuições (mais uma, de Lucas Paolo). Ele diz que “ “ superaria E (Y) em brevidade. Reproduzimos a proposta para não trair o sistema desta obra, contudo, o leitor atento poderá perceber facilmente que além de ser maior (três toques no teclado), viola a poética de SEM, ao tempo que cria novo sistema ou temática (do silêncio expressivo, pode-se dizer). Grato, L.P.

Agora, CHEGA! Publique-se!

CONVERSA DE HOMEM E MULHER por hamilton alves / florianópolis

Acho curioso quando um homem e uma mulher, casados, amantes, namorados ou amigos se defrontam frente à frente em qualquer lugar, num bar, num restaurante, num café ou outro semelhante com esse propósito de por as coisas que têm para se dizer em pratos limpos. Ou que não seja isso, mas para confrontar idéias ou até mesmo dificuldades que possam ter em qualquer plano da vida.

Não só é apenas curioso, mas sem dúvida há um certo fascínio nisso.

Hoje, à tarde, por exemplo, enquanto numa mesa próxima de um desses casais deglutia um lanche, fiquei observando os dois, ele mais do que ela, que estava de costas para mim. Por isso, me dificultava acompanhar a expressão de seu rosto. Me pareceu tratar-se de assunto que revestia alguma seriedade pelo modo como o homem franzia o sobrecenho, como a olhava longamente através das lentes dos óculos para de vez em quando por o olhar em cima da mesa, onde ficava bolindo com uma coisa ou outra, como se assim quisesse pesar ou encontrar o rumo para o que dizia. Enquanto ela me parecia expectante ou atenta ao desenrolar do discurso.

De qualquer modo, mostrava-se ele mais palrador do que ela.

De que assunto tratavam?

Havia expressões, como conseguia ouvir uma que outra, que compõem qualquer papo, seja de que natureza for, como, por exemplo: “o problema é o seguinte” – dizia ele, a certa hora.

Erguia os olhos, contemplava a cara da mulher.

Parecia convencido de toda a verdade de suas palavras. Um homem ou uma mulher traem, sem querer, tantas vezes, aquilo que querem que assuma aos olhos do outro um tom de autenticidade. Ou de honestidade. Nunca somos rigorosamente verdadeiros ou honestos no que dizemos a outras pessoas em qualquer circunstância.

Mas aquele homem, ao dirigir-se a sua interlocutora, me parecia que estava absolutamente convencido de que tudo que dizia era palpável, tanto quanto a luz do sol.

– Por essa luz que nos ilumina estou sendo verdadeiro. – parecia dizer.

Como bem o reparava, tinha o dom de imprimir aos seus traços fisionômicos uma confiança absoluta.

Quando me ergui de meu canto, andei alguns passos. Voltei-me para ver o rosto da mulher. Parecia-me dessas criaturas simplórias, que engolem qualquer lero-lero.

Ou estaria muito enganado.

Mas mais que tudo, valeu-me o espetáculo do que vira, desse encontro ou desencontro de duas almas num bar, num restaurante, num café ou em qualquer lugar desse tipo.

Inteligência brutal – por alceu sperança / cascavel.pr

Graciliano Ramos (1892–1953) achava que se o capitalista fosse apenas um bruto, ou seja, apenas burro e grosseiro, até seria tolerável. “Aflige-me”, escreveu o Velho Graça, em Memórias do Cárcere, “é perceber nele uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas”.

Pois o capitalismo, hoje em sua fase superior, neoliberal, está mostrando ser tão bruto, além de violento e malandro, que seguramente nem o grande e generoso escritor brasileiro conseguiria tolerá-lo.

Afora seguir alugando inteligências canalhas, através da ideologia vai impondo suas novas regras de ouro:

1) “Teu irmão é teu inimigo, vai lá e atira nele”;

2) “Para haver a estabilidade econômica dos ricos, é preciso haver a instabilidade dos que trabalham”.

E como irmãos têm atirado em irmãos! E como estão instabilizando a vida de quem trabalha! Todos os dias, nas cidades e nos campos, há tiroteios fratricidas, alimentados pelas inteligências canalhas de que falava Graciliano.

Todos os dias, os parlamentos de vários países, a mando dos patrões que os manipulam desde Londres e Nova Iorque, aprovam “reformas” restringindo direitos humanos. Liquidam o emprego estável. Cassam, limitam ou reduzem aposentadorias que garantiriam a sobrevivência do idoso ou incapacitado para o trabalho.

Parque Nacional

Sonegam, dificultam e corrompem a assistência médica. O ensino se universaliza na mesma medida em que também se precariza. Não creio haver muitas brutalidades e canalhices maiores que essas. Talvez só os espancamentos das mulheres no Zaire, como avisa a professora Rosana Nazzari.

Dezenas de jovens morrem tragicamente em duelos ferozes nas periferias das médias e grandes cidades, sob a indiferença geral. Mas quando morrem dois em um atrito irresponsavelmente provocado para defender uma transnacional, como ocorreu na Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, é o fim do mundo.

Não faz a menor diferença nossos jovens se trucidarem, mas ai de nós se a transnacional ficar de mal com a gente! Não importa que o emprego se torne instável e o estresse inunde as famílias, transformadas em neoescravas de bancos, tributos, taxas etc. Mas que ninguém ouse questionar as experimentações duvidosas de uma transnacional na beira do Parque Nacional do Iguaçu.

O Parque é mil vezes fechado ao trânsito dos colonos, tratados a porrete e bordoadas, mas pode ser invadido pela suspeita porcaria transgênica, sobre a qual não se tem a menor idéia de como agirá no ecossistema e no organismo humano.

Felizmente, a própria Syngenta teve mais juízo que os “ruralistas” responsáveis pelos crimes − dois jovens mortos, um sem-terra e um “segurança” de ruralista − e transferiu a área ao desenvolvimento da agricultura orgânica familiar.

A flexi

O cidadão, aqui, nos EUA, na Europa, tem plena liberdade para se deixar escravizar. Suprimem-se os seus direitos, perde o emprego, tenta sobreviver com negócios cada vez mais ilegais e vai para a cadeia. Há gente comemorando que nos EUA cerca de 2% da população já esteja na cadeia e lamentando que menos de 1% estejam presos no Brasil.

Isso também é falso, pois aqui há milhões presos nos grilhões da neoescravidão, condenados à doença física e mental, à insatisfação de uma vida que não pode ser plenamente vivida, à angústia de tudo ser caro e difícil, o rancor e o medo disseminados de propósito na classe média.

“Su” da temporada na Europa, vem aí, em sua plenitude, por entre a guarda aberta do esquema traidor luliberal, a flexiinsegurança. Alvo: arrasar os sindicatos e flexibilizar as relações laborais sem compensação para quem perde emprego e renda.

A consequência é o desespero, a doença, a insegurança. O mundo do trabalho está sob ataque. Um ataque comandado por inteligências brutas e canalhas, a gente finíssima lá do hemisfério Norte que aluga as daqui.