CONVERSA DE HOMEM E MULHER por hamilton alves / florianópolis

Acho curioso quando um homem e uma mulher, casados, amantes, namorados ou amigos se defrontam frente à frente em qualquer lugar, num bar, num restaurante, num café ou outro semelhante com esse propósito de por as coisas que têm para se dizer em pratos limpos. Ou que não seja isso, mas para confrontar idéias ou até mesmo dificuldades que possam ter em qualquer plano da vida.

Não só é apenas curioso, mas sem dúvida há um certo fascínio nisso.

Hoje, à tarde, por exemplo, enquanto numa mesa próxima de um desses casais deglutia um lanche, fiquei observando os dois, ele mais do que ela, que estava de costas para mim. Por isso, me dificultava acompanhar a expressão de seu rosto. Me pareceu tratar-se de assunto que revestia alguma seriedade pelo modo como o homem franzia o sobrecenho, como a olhava longamente através das lentes dos óculos para de vez em quando por o olhar em cima da mesa, onde ficava bolindo com uma coisa ou outra, como se assim quisesse pesar ou encontrar o rumo para o que dizia. Enquanto ela me parecia expectante ou atenta ao desenrolar do discurso.

De qualquer modo, mostrava-se ele mais palrador do que ela.

De que assunto tratavam?

Havia expressões, como conseguia ouvir uma que outra, que compõem qualquer papo, seja de que natureza for, como, por exemplo: “o problema é o seguinte” – dizia ele, a certa hora.

Erguia os olhos, contemplava a cara da mulher.

Parecia convencido de toda a verdade de suas palavras. Um homem ou uma mulher traem, sem querer, tantas vezes, aquilo que querem que assuma aos olhos do outro um tom de autenticidade. Ou de honestidade. Nunca somos rigorosamente verdadeiros ou honestos no que dizemos a outras pessoas em qualquer circunstância.

Mas aquele homem, ao dirigir-se a sua interlocutora, me parecia que estava absolutamente convencido de que tudo que dizia era palpável, tanto quanto a luz do sol.

– Por essa luz que nos ilumina estou sendo verdadeiro. – parecia dizer.

Como bem o reparava, tinha o dom de imprimir aos seus traços fisionômicos uma confiança absoluta.

Quando me ergui de meu canto, andei alguns passos. Voltei-me para ver o rosto da mulher. Parecia-me dessas criaturas simplórias, que engolem qualquer lero-lero.

Ou estaria muito enganado.

Mas mais que tudo, valeu-me o espetáculo do que vira, desse encontro ou desencontro de duas almas num bar, num restaurante, num café ou em qualquer lugar desse tipo.

2 Respostas

  1. Prezada Vera Lucia,

    O fato fundamental é que, sem vcês, de qualquer modo, mentindo ou não, engananado ou não, se entricheirando na sua mentira, vocês são essenciais aos homens, sem as quais não sabem fazer nem um mserável chá, como é bem o meu caso. Sou inteiramente dependente de mulheres desde que nasci. E parece que nessa dependência vou até o fim. A mulher é a mãe e nós, homens, seus filhos. E essa relação não acaba nunca. Obrigado por sua referência ao texto. Abraço. Hamilton

  2. Na verdade, uma das grandes qualidades, entre muitas outras evidentemente, nos homens, é a
    sua faceta artística , quando se encontram na situação de mentir. São geniais. No texto, você diz que a mulher ”parecia dessas criaturas simplórias que engolem qualquer lero-lero”. Mas não se iluda…Até as mulheres mais inteligentes, vividas, eu sei lá, conseguem cair no engano e serem levadas, por muito cepticas que sejam, quando um homem encarna a sério o seu papel e tem como propósito desculpar-se, exibir-se, seja o que fôr. Depois, com o andar da carruagem, as coisas mudam… Nós começamos a absorver essas aulas administradas por um bom professor e aí, asseguro-lhe, que se vira o feitiço contra o feiticeiro. Tornamo-nos merecedoras dum prémio de boa interpretação, cabeças de cartaz , enfim, o que nos quiserem chamar. É a chamada lei da compensação, porque na verdade, Deus quando nos criou, fê-lo com grande sabedoria. Todos têm a sua oportunidade na vida.Até para se ser mentiroso. Ora agora engano eu, ora agora enganas tu,
    enganas tu mais eu… E tenho dito…

    Gostei muito do seu texto.
    Um ab raço
    Vera Lucia

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