Inteligência brutal – por alceu sperança / cascavel.pr

Graciliano Ramos (1892–1953) achava que se o capitalista fosse apenas um bruto, ou seja, apenas burro e grosseiro, até seria tolerável. “Aflige-me”, escreveu o Velho Graça, em Memórias do Cárcere, “é perceber nele uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas”.

Pois o capitalismo, hoje em sua fase superior, neoliberal, está mostrando ser tão bruto, além de violento e malandro, que seguramente nem o grande e generoso escritor brasileiro conseguiria tolerá-lo.

Afora seguir alugando inteligências canalhas, através da ideologia vai impondo suas novas regras de ouro:

1) “Teu irmão é teu inimigo, vai lá e atira nele”;

2) “Para haver a estabilidade econômica dos ricos, é preciso haver a instabilidade dos que trabalham”.

E como irmãos têm atirado em irmãos! E como estão instabilizando a vida de quem trabalha! Todos os dias, nas cidades e nos campos, há tiroteios fratricidas, alimentados pelas inteligências canalhas de que falava Graciliano.

Todos os dias, os parlamentos de vários países, a mando dos patrões que os manipulam desde Londres e Nova Iorque, aprovam “reformas” restringindo direitos humanos. Liquidam o emprego estável. Cassam, limitam ou reduzem aposentadorias que garantiriam a sobrevivência do idoso ou incapacitado para o trabalho.

Parque Nacional

Sonegam, dificultam e corrompem a assistência médica. O ensino se universaliza na mesma medida em que também se precariza. Não creio haver muitas brutalidades e canalhices maiores que essas. Talvez só os espancamentos das mulheres no Zaire, como avisa a professora Rosana Nazzari.

Dezenas de jovens morrem tragicamente em duelos ferozes nas periferias das médias e grandes cidades, sob a indiferença geral. Mas quando morrem dois em um atrito irresponsavelmente provocado para defender uma transnacional, como ocorreu na Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, é o fim do mundo.

Não faz a menor diferença nossos jovens se trucidarem, mas ai de nós se a transnacional ficar de mal com a gente! Não importa que o emprego se torne instável e o estresse inunde as famílias, transformadas em neoescravas de bancos, tributos, taxas etc. Mas que ninguém ouse questionar as experimentações duvidosas de uma transnacional na beira do Parque Nacional do Iguaçu.

O Parque é mil vezes fechado ao trânsito dos colonos, tratados a porrete e bordoadas, mas pode ser invadido pela suspeita porcaria transgênica, sobre a qual não se tem a menor idéia de como agirá no ecossistema e no organismo humano.

Felizmente, a própria Syngenta teve mais juízo que os “ruralistas” responsáveis pelos crimes − dois jovens mortos, um sem-terra e um “segurança” de ruralista − e transferiu a área ao desenvolvimento da agricultura orgânica familiar.

A flexi

O cidadão, aqui, nos EUA, na Europa, tem plena liberdade para se deixar escravizar. Suprimem-se os seus direitos, perde o emprego, tenta sobreviver com negócios cada vez mais ilegais e vai para a cadeia. Há gente comemorando que nos EUA cerca de 2% da população já esteja na cadeia e lamentando que menos de 1% estejam presos no Brasil.

Isso também é falso, pois aqui há milhões presos nos grilhões da neoescravidão, condenados à doença física e mental, à insatisfação de uma vida que não pode ser plenamente vivida, à angústia de tudo ser caro e difícil, o rancor e o medo disseminados de propósito na classe média.

“Su” da temporada na Europa, vem aí, em sua plenitude, por entre a guarda aberta do esquema traidor luliberal, a flexiinsegurança. Alvo: arrasar os sindicatos e flexibilizar as relações laborais sem compensação para quem perde emprego e renda.

A consequência é o desespero, a doença, a insegurança. O mundo do trabalho está sob ataque. Um ataque comandado por inteligências brutas e canalhas, a gente finíssima lá do hemisfério Norte que aluga as daqui.

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