Arquivos Diários: 19 fevereiro, 2010

O MALA – de marilda confortin /curitiba

Tem mala pesado, sem alça

Mala de ombro, mala tiracolo

Malinha que cabe no bolso

E mala que se carrega no colo.

Mala que fala pelos cotovelos,

E aquele que vive de boca fechada.

Tem mala que bebe feito um camelo

E mala chato que não bebe nada.

Mas o pior mala é o enrustido

Que fica sempre num canto

Falando mal dos amigos

E fazendo pose de santo.

Tem mala que é irmão.

Mala mulher e “mala man”

Mala casado, mala solteirão

E malacompanhado também.

Mala chefe, ninguém merece!

Mala puxa-saco, é covardia!

Peão mala,  é um estresse!

Estagiário mala, afe Maria!

Filho mala, é eterno.

Mãe que agüenta, vai pro céu.

Pai que sustenta, vai pro inferno

E a família toda leva o troféu!

Mas tem mala pior, meu amigo…

Você não perde por esperar:

Cunhado mala! É um castigo!

Só tua santa irmã pra carregar

E pescador mentiroso, então!

Filósofo de boteco, quem gosta?

Mala fanático por religião?

E torcedor de timinho de bosta?

Ex-fumante metido a dar conselho?

E aqueles que se acham gostosões?

Radicais, racistas e outros pentelhos

Quem agüenta seus sermões?

Malas que falam mal de seus pares

E ainda querem saber  tua opinião

Tem que cortar nas preliminares

Pra não se envolver na confusão

Músico que faz cu doce pra tocar

Até na casa de amigos cobra chachê!

E vizinhos que só sabem reclamar

E falar mal dos outros. Ah!Vai se fudê!

Poeta mala então, é um desaforo!

Ai de quem não goste de poesia!

E crítico literário mala,  socorro!

Só vê defeitos, só vive de teoria.

Mala depressivo, mal amado

Óh céus! Oh vida! Oh azar!

Interne numa zona o desgraçado,

Quem sabe pare de incomodar!

Parente mala, é uma merda.

É uma baita falta de sorte

É uma sina que se herda

E se carrega até a morte.

Mala que se preze, não tem sexo:

Tanto faz homem, mulher ou viado.

O que pesa não é o tamanho do anexo,

Mas sim a chatice do desgraçado.

Mas tem mala que não tem preço:

Mala do peito, mala irmão

Mala que se vira do avesso

P´ra não nos deixar na mão.

Quem não tem um mala amigo,

Um malinha de estimação,

Aquele que está sempre contigo

E que mora dentro do coração?

Quem nunca carregou um mala

Não tem histórias pra contar

Pois todo o mala é uma bengala

Prum mala bem maior se apoiar.

Pra terminar essa bobagem,

Eu peço palmas, minha gente:

Muitas vaias em homenagem

A todos os malas aqui presentes.

LESMA – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

falar :signo: uma coisa

conhecê-lo outra inscrevê-lo no tempo

olhar pra dentro do filho da matéria

língua pensamento

conhecer suas faces escondidas

espelhos nos espelhos

espectros nos espectros

o núcleo da amêndoa doce

:um toque na tépida luz:

significância extensa

voragem de efeitos vertigem

de reflexos no teto

nas paredes os traços finos

ao chão microsemas rúspitos

o signo virado lesma a compor

significados novos o signo de arrasto

túmido de conceitos

virados fala

a vida passa :uma graça de ditos:

o corpo em si dizendo tudo

o corpo é quem faz o dito

o corpo extenso em signos

ser só linguagem

só linguagem-pensamento

como uma lesma em trânsito

ciscos pós esporos

acumulados ao corpo lângue

uma língua muitas linguagens em si

formadas nesse lento trânsito.

BARQUEJANDO ÁGUAS RASAS – de tonicato miranda / curitiba


para a namorada de Cabo Frio

TM, anos 80 do Séc. XX

.

navegar em teu olhar

é balançar curtas distâncias na lagoa

é estar preso à corda e à âncora

sem vontade de aventuras

navegar em teu olhar

é te cheirar maresia

é te observar nas nuvens

passando no azul que vai e volta

em cada luz eclipsando noites

onde passamos a murmurar

a beleza de estrelas

presas no céu

soltas no mar