Arquivos Diários: 20 fevereiro, 2010

O POETA MANOEL DE ANDRADE comenta em: “MATADORES DE BORBOLETAS AZUIS” de SOLIVAN BRUGNARA

Comentário:

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“PAI, PERDOAI-OS PORQUE NÃO SABEM O QUE FAZEM”

Diante da morte, e do julgamento mais inícuo da história,  o inocente Nazareno perdoa  incondicionalmente a seus algozes.

Mas quem de nós pode perdoar a cruz imposta a Cristo?
Como perdoar o desprezo e o falso julgamento de Caifás
e as mãos lavadas de Pilatos.?

Estes são os legítimos ressentimentos, as razões daqueles cujas bandeiras estampam as cores  da justiça e da verdade.
São também, entre tantas, nossas razões de poetas, os motivos pelos quais cantamos, nossas licenças literárias,  nosso encanto e desencanto, nosso íntimo e angustiante tribunal.
Sabem os homens justos e sabemos os poetas que nossas denúncias e testemunhos, nossos líricos veredictos se escorrem, ignorados ou esquecidos, pelos ralos da inconsciência humana.

Sabemos que o perdão pessoal é o único passaporte que cruza a fronteira da paz interior e da liberdade do espírito, e por isso a justiça deve ser impessoal e ser entregue aos tribunais inexoráveis da própria vida. Mas ainda não consegui vistar esse precioso documento.

Como perdoar a cicuta imposta a Sócrates,
os que gargalharam no Coliseu ante os cristãos devorados pelas feras,
como perdoar os crimes de Torquemada
e a fogueira acesa  a João Huss e a Giordano Bruno.

Nunca poderei perdoar uma Hiroshima arrasada
nem Auschwitz e nem Trebinka,
e crianças ardendo em napalm  na  Saigon bombardeada.

‘A Grande Alma’ da Índia,  abençoando o assassino.   Ele perdoou…, e você?
E o tiro em Luter King?  Chico Mendes? Doroty Stang? Por certo foram perdoados.
mas, na memória de Allende e dos mártires chilenos, não perdoo Pinochet.

Não perdoo tanta dor por Caupolican empalado
Tupac Amaru, numa praça esquartejado
e Otto René Castillo, durante três dias queimando.

Federico Garcia Lorca…, já não tinhas mais abrigo,
campo frio, amanhecendo, caminhavas entre os fuzis….
e naquela hora em Granada fomos crivados contigo.

Morremos com Lord Byron,  pela liberdade da Grécia.
Morremos com Victor Jará,  com Ariel Santibañez
torturados até a morte  nas prisões de Santiago.

Javier Heraud, ainda infante, cinco livros publicados
o poeta guerrilheiro, no verde vale do Cuzco,
com vinte e um anos apenas ele caiu emboscado.

Não perdoo,  não perdoo, por tantos poetas sangrados,
pelas vidas silenciadas nos horrores dos DOI-CODI,
e os carrascos do Regime, só aqui anistiados.

Não perdoo, não perdoo, os crimes da ditadura
nem a MEMÒRIA perdoa
e a PÀTRIA jamais perdoa  seus filhos sem sepultura.

CONSOLA-ME ACREDITAR QUE, APESAR DA IMPUNIDADE DOS CÓDIGOS DA TERRA E DA NOSSA IMPOTÊNCIA ANTE A CRUELDADE HUMANA, HÁ UMA INSTÂNCIA SUPERIOR DA JUSTIÇA ONDE SE COLHE, OBRIGATORIAMENTE, OS FRUTOS AMARGOS DOS ATOS HUMANOS, SEMEADOS  LIVREMENTE, MAS SEM A NOÇÃO DO DEVER.

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