Arquivos Diários: 21 fevereiro, 2010

A POETA MARILDA CONFORTIN e o violonista GEGÊ FÉLIX na PRAIA DOS INGLESES em FLORIANÓPOLIS/ editoria

o poeta JB VIDAL, a poeta MARILDA CONFORTIN e o vilonista GEGÊ FÉLIX no restaurante PAIXÃO DE VERÃO na praia dos ingleses em floripa. MARILDA e GEGÊ foram hóspedes de JB e , em dias de muita alegria e altos papos sobre musica e poesia. obrigado pela visita, voltem sempre. verão 18/2/10.

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GEGÊ FÉLIX e MARILDA CONFORTIN assumiram a pilotagem da cozinha na residência dos amigos. quitutes excelentes!!  verão 17/02/10.

DOUTOR CAVALCANTI por hamilton alves / florianópolis

Dos médicos pediatras mais conhecidos ou mais populares ou mais respeitados profissionalmente ou mais procurados, a seu tempo, especialmente por pessoas pobres, o nome do  doutor Miguel Cavalcanti andava por toda parte.

Qualquer sinal de doença em criança, fosse o que fosse, uma amigdalite, asma brônquica, problemas intestinais, etc., acabava, inevitavelmente, no consultório do dr. Cavalcanti, ou era chamado às pressas em algum lugar da cidade, fosse onde fosse, para atender um cliente. Subia morro, ia nas favelas, não tinha lugar onde não pisasse seus santos pés, no combate a enfermidades terríveis, num tempo em que os recursos terapêuticos da medicina ainda engatinhavam. O doutor Cavalcanti tinha que inventar (ou criar) soluções.

Em uma palavra, o doutor Cavalcanti era humano da cabeça aos pés.

Era comunista e não sei se arrastava na sua ideologia também a idéia materialista, envolvendo a descrença na providência divina.

O dr. Cavalcanti era ele mesmo um santo e impossível imaginar que não tivesse alguma espécie de fé qualquer.

Seu comunismo talvez decorresse de se deparar inconformado com as clamorosas injustiças do mundo, ainda hoje existentes e nunca serão satisfatoriamente extirpadas, certamente.

O fato é que houve um tempo nesta cidade que o nome do dr. Cavalcanti andava de boca em  boca, como se fosse um demiurgo (ou mesmo um curandeiro contemplado com o dom da cura).

Era nortista, de algum daqueles Estados miseráveis do nordeste brasileiro, de onde veio para o sul, depois de fazer a Faculdade de Medicina no Rio.

Onde morou num quarto, dividindo-o com Rubem Braga, soube-o pouco depois que morreu por via de uma crônica em que o “Sabiá da Crônica” narra esse fato referido ao amigo “Cavalcanti”, “com quem morei num quarto aqui no Rio”.

Quando recém-casado, chamei o dr. Cavalcanti para atender um filho, o primogênito, atacado de amigdalite, com febrão de 40 graus. Era um modestíssimo funcionário público a esse tempo. Deve ter reparado pelo aspecto da casa de que socialmente era pouco menos que classe média.

Atendeu meu filho, receitou-lhe uma medicação, perguntou, a seguir, onde era o banheiro, lavou as mãos, enxugou-as, enquanto fui buscar o talão de cheques para pagar-lhe a consulta.

Procurei-o aqui, ali, por toda parte.

Notei que sumira, como o vento.

Esse era o humaníssimo dr. Cavalcanti, grande amigo de Rubem Braga.

Vida de gado-cidadão – por alceu sperança / cascavel.pr

Já se sabia que há gente encurralando – no sentido de meter em curral –, a população de bairros inteiros. São dirigentes de associações de moradores desavergonhados, que transformam as entidades de bairros e distritos em correias de transmissão de partidos políticos, seitas religiosas ou quadrilhas de bandidos.

O que já se sabia, mas um resto de pudor ainda os continha, é que alguns deles, além de encurralar a população, vendem o gado: afirmam que vão faturar um bom dinheiro entregando o bairro a quem pagar mais.

Não bastando transformar o cidadão em rês para dar leite ou virar bife, levam-no a um leilão de feira onde se bate o martelo em favor de quem, partido ou candidato, der o melhor lance.

A Prefeitura de Cascavel fez a grande bobagem da temporada ao criar um esquisitíssimo “Conselho Comunitário das Associações de Moradores de Cascavel”, aproveitando que as pessoas estavam distraídas com o Natal.

Na prática, é o seguinte: o Município criou para si próprio, e sob seu controle, um substituto da União Cascavelense das Associações de Moradores (Ucam). Uma espécie de “estatização” da Ucam, uma entidade de direito privado.

A Prefeitura, através do Conselhão, monitora até as eleições para as diretorias das associações de bairros que o Município escolher para fazer parte da coisa. Stálin não teria feito pior.

Não se compra mais dirigente de associação de bairro: toma-se algum apaniguado e elege-se o peão para cumprir esse mistér, seu Míster!

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Para o governo, o cidadão é um contribuinte. Para o político, um eleitor. Para a polícia, um suspeito. Para o religioso, um fiel. Para o clube, um torcedor. Para os bandidos, um otário. E para certa casta de dirigentes de bairro, é simplesmente gado marcado, povo feliz.

Nossa colega Ederlize Reis, em admirável comentário no jornal Hoje, de Cascavel, viu que para a estrutura de poder reinante nós não passamos de números – os das estatísticas, das senhas, o valor que temos no banco etc.

Na canção The Prisoner (Iron Maiden), o carcereiro preenche um formulário e atribui números aos presos. Um deles se rebela: “Eu não sou um número. Sou um homem livre!” Em resposta, ouve uma estridente gargalhada.

É certamente essa mesma gargalhada que devem dar aqueles que avaliam o gado-cidadão dos currais-bairros nos leilões da compra e venda de votos.

Ignorando a verdadeira origem de seus problemas – um sistema injusto que a todos oprime –, o cidadão-rês aceita ser gado. Participa do leilão espontaneamente, marchando feliz ao matadouro da urna eletrônica.

Para gado marcado, data do abate marcada no calendário eleitoral.