DOUTOR CAVALCANTI por hamilton alves / florianópolis

Dos médicos pediatras mais conhecidos ou mais populares ou mais respeitados profissionalmente ou mais procurados, a seu tempo, especialmente por pessoas pobres, o nome do  doutor Miguel Cavalcanti andava por toda parte.

Qualquer sinal de doença em criança, fosse o que fosse, uma amigdalite, asma brônquica, problemas intestinais, etc., acabava, inevitavelmente, no consultório do dr. Cavalcanti, ou era chamado às pressas em algum lugar da cidade, fosse onde fosse, para atender um cliente. Subia morro, ia nas favelas, não tinha lugar onde não pisasse seus santos pés, no combate a enfermidades terríveis, num tempo em que os recursos terapêuticos da medicina ainda engatinhavam. O doutor Cavalcanti tinha que inventar (ou criar) soluções.

Em uma palavra, o doutor Cavalcanti era humano da cabeça aos pés.

Era comunista e não sei se arrastava na sua ideologia também a idéia materialista, envolvendo a descrença na providência divina.

O dr. Cavalcanti era ele mesmo um santo e impossível imaginar que não tivesse alguma espécie de fé qualquer.

Seu comunismo talvez decorresse de se deparar inconformado com as clamorosas injustiças do mundo, ainda hoje existentes e nunca serão satisfatoriamente extirpadas, certamente.

O fato é que houve um tempo nesta cidade que o nome do dr. Cavalcanti andava de boca em  boca, como se fosse um demiurgo (ou mesmo um curandeiro contemplado com o dom da cura).

Era nortista, de algum daqueles Estados miseráveis do nordeste brasileiro, de onde veio para o sul, depois de fazer a Faculdade de Medicina no Rio.

Onde morou num quarto, dividindo-o com Rubem Braga, soube-o pouco depois que morreu por via de uma crônica em que o “Sabiá da Crônica” narra esse fato referido ao amigo “Cavalcanti”, “com quem morei num quarto aqui no Rio”.

Quando recém-casado, chamei o dr. Cavalcanti para atender um filho, o primogênito, atacado de amigdalite, com febrão de 40 graus. Era um modestíssimo funcionário público a esse tempo. Deve ter reparado pelo aspecto da casa de que socialmente era pouco menos que classe média.

Atendeu meu filho, receitou-lhe uma medicação, perguntou, a seguir, onde era o banheiro, lavou as mãos, enxugou-as, enquanto fui buscar o talão de cheques para pagar-lhe a consulta.

Procurei-o aqui, ali, por toda parte.

Notei que sumira, como o vento.

Esse era o humaníssimo dr. Cavalcanti, grande amigo de Rubem Braga.

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