Vida de gado-cidadão – por alceu sperança / cascavel.pr

Já se sabia que há gente encurralando – no sentido de meter em curral –, a população de bairros inteiros. São dirigentes de associações de moradores desavergonhados, que transformam as entidades de bairros e distritos em correias de transmissão de partidos políticos, seitas religiosas ou quadrilhas de bandidos.

O que já se sabia, mas um resto de pudor ainda os continha, é que alguns deles, além de encurralar a população, vendem o gado: afirmam que vão faturar um bom dinheiro entregando o bairro a quem pagar mais.

Não bastando transformar o cidadão em rês para dar leite ou virar bife, levam-no a um leilão de feira onde se bate o martelo em favor de quem, partido ou candidato, der o melhor lance.

A Prefeitura de Cascavel fez a grande bobagem da temporada ao criar um esquisitíssimo “Conselho Comunitário das Associações de Moradores de Cascavel”, aproveitando que as pessoas estavam distraídas com o Natal.

Na prática, é o seguinte: o Município criou para si próprio, e sob seu controle, um substituto da União Cascavelense das Associações de Moradores (Ucam). Uma espécie de “estatização” da Ucam, uma entidade de direito privado.

A Prefeitura, através do Conselhão, monitora até as eleições para as diretorias das associações de bairros que o Município escolher para fazer parte da coisa. Stálin não teria feito pior.

Não se compra mais dirigente de associação de bairro: toma-se algum apaniguado e elege-se o peão para cumprir esse mistér, seu Míster!

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Para o governo, o cidadão é um contribuinte. Para o político, um eleitor. Para a polícia, um suspeito. Para o religioso, um fiel. Para o clube, um torcedor. Para os bandidos, um otário. E para certa casta de dirigentes de bairro, é simplesmente gado marcado, povo feliz.

Nossa colega Ederlize Reis, em admirável comentário no jornal Hoje, de Cascavel, viu que para a estrutura de poder reinante nós não passamos de números – os das estatísticas, das senhas, o valor que temos no banco etc.

Na canção The Prisoner (Iron Maiden), o carcereiro preenche um formulário e atribui números aos presos. Um deles se rebela: “Eu não sou um número. Sou um homem livre!” Em resposta, ouve uma estridente gargalhada.

É certamente essa mesma gargalhada que devem dar aqueles que avaliam o gado-cidadão dos currais-bairros nos leilões da compra e venda de votos.

Ignorando a verdadeira origem de seus problemas – um sistema injusto que a todos oprime –, o cidadão-rês aceita ser gado. Participa do leilão espontaneamente, marchando feliz ao matadouro da urna eletrônica.

Para gado marcado, data do abate marcada no calendário eleitoral.

Uma resposta

  1. concordo plenamente… veja como são as urnas tecnicamente invioláveis rsrsr
    http://www.fraudeurnaseletronicas.com.br

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