Arquivos Diários: 22 fevereiro, 2010

O MULHERÃO – por martha medeiros / porto alegre


Peça para um homem descrever um mulherão.Ele imediatamente vai falar do tamanho dos seios,na medida da cintura,no volume dos lábios,nas pernas,bumbum e cor dos olhos.Ou vai dizer que mulherão tem que ser loira,1,80m,siliconada,sorriso colgate.Mulherões,dentro deste conceito,não existem muitas:Vera Fischer,Leticia Spiller,Malu Mader,Adriane Galisteu,Lumas e Brunas.Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um mulherão e você vai descobrir que tem uma a cada esquina.

Mulherão é aquela que pega dois ônibus por dia para ir ao trabalho e mais dois para voltar,e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome.Mulherão é aquela que vai de madrugada para a fila garantir matricula na escola e aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco para buscar uma pensão de 100 Reais.
Mulherão é a empresária que administra dezenas de funcionários de segunda a sexta, e uma família todos os dias da semana.Mulherão é quem volta do supermercado segurando várias sacolas depois de ter pesquisado preços e feito malabarismo com o orçamento.Mulherão é aquela que se depila, que passa cremes, que se maquia, que faz dieta,que malha,que usa salto alto, meia-calça,ajeita o cabelo e se perfuma,mesmo sem nenhum convite para ser capa de revista.Mulherão é quem leva os filhos na escola,busca os filhos na escola,leva os filhos para a natação,busca os filhos na natação,leva os filhos para a cama,conta histórias,dá um beijo e apaga a luz.Mulherão é aquela mãe de adolescente que não dorme enquanto ele não chega, e que de manhã bem cedo já está de pé, esquentando o leite.
Mulherão é quem leciona em troca de um salário mínimo,é quem faz serviços voluntários,é quem colhe uva,é quem opera pacientes,é quem lava roupa pra fora,é quem bota a mesa,cozinha o feijão e à tarde trabalha atrás de um balcão.Mulherão é quem cria filhos sozinha, quem dá expediente de oito horas e enfrenta menopausa,TPM,menstruação.Mulherão é quem arruma os armários, coloca flores nos vasos,fecha a cortina para o sol não desbotar os móveis, mantém a geladeira cheia e os cinzeiros vazios.Mulherão é quem sabe onde cada coisa está, o que cada filho sente e qual o melhor remédio pra azia.

LUMAS,BRUNAS,CARLAS,LUANAS E SHEILAS:Mulheres nota dez no quisito lindas de morrer, mas MULHERÃO É QUEM MATA UM LEÃO POR DIA

Afora-aforismo – de lucas paolo / são paulo


Ato I – De se anunciar na iminência

Cena 1 – A Imensa sentença

(Três atores devem calar)

HOMERO – Silêncio! Cadavérico, cadaver-se-á em versos.

Cena 2 – A empapada pomposa proposta

(Entra em cena o Rei Humberto III)

TORCEDOR RUBRO-NEGRO – Emanuel Humberto Atalarico, para desempenhar seu árduo papel, deves se apedantar, se glorificar, se agigantalhar, e etc…, por conseguinte, deve ultrajar os vizinhos, esbofetear a mulher, queimar dinheiro ensebado de suor perfunctorial, deve se sultanizar em sumptuosas roupas, se arrinitiar da poeirenta escória social, se ensotaquear de mon amour, se atirar em tiranias, e enfim, e etc., e és o tal.

(Afronta-se com o reflexo do não-eu sem entender o eu-não)

HUGO PAQUECK – Sumir-se-ão tuas faces: Humberto Atalarico. Serás mais brilhante que ouro e mais repugnante que bosta. Meu nobre Atalarico.

Cena 3 – Furúnculos Furosos Fazem

(Entra em cena Dentuçinho)

EMBUSTOS DOMECQ DOMADOR – Apenas ser. Entrar em contato com o cosmo. Em chama animalizar-se.

(Desliza a sombra cinzenta e sem massa cinzenta pelo tablado florestal)

TIRADENTES – Arranquemos esses, embotemos aqueles maiores. Prontinho!

(Analisa-se um rabo)

Cena 4 – O maravilhoso muro Shakespeariano

(Entra em cena A Bota e Dani Figura. Dani Figura prepara o cenário em azul-marinho e recorta A Bota em suas lateralidades)

A BOTA – La poltrona e pantofole sono i rest dell’uomo!

Não-Ato I – Luz, câmera, ação!

Cena 1 – Englobado o universo

(Entram em cena A Bota, Dentuço e o Rei Humberto III. Gesticulam e falam simultaneamente com o cuidado meticuloso de pronunciarem ao mesmo tempo o final das frases)

DENTUÇO – Não vamos perder tempo com discussões inúteis! Vamos fazer alguma coisa, não é todo dia que precisam de nós. Outros poderiam tratar o assunto tão bem, ou melhor, que nós. Esses gritos de socorros que ainda me reboam nos ouvidos foram dirigidos à humanidade inteira! Mas neste momento, neste lugar, a humanidade inteira se resume a nós. Queiramos ou não. Vamos fazer o melhor que pudermos, antes que seja tarde demais! Vamos representar com dignidade, pelo menos uma vez na vida, O papel que um destino cruel nos reservou. Que é que você me diz? É evidente também que, se ficarmos de braços cruzados e sem fazer nada, pesando os prós e contras, também faremos justiça à nossa condição. O tigre se precipita em socorro de seus congêneres. Sem a menor reflexão. Ou então, esconde-se no recesso mais fundo da floresta. Mas a questão não é essa! O que estamos fazendo aqui? Essa é a questão! E nessa imensa confusão, uma coisa é clara: O rato roeu.

REI HUMBERTO III – O que é mais nobre? Sofrer na alma as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de dores pondo-lhes um fim? Morrer, dormir, nada mais. E pôr ponto final aos males do coração e aos mil acidentes naturais de que a carne é herdeira, num desenlace devotadamente desejado. Morrer! Dormir. Dormir, dormir, sonhar talvez. Mas aqui está o ponto de interrogação: no sono da morte que sonhos podem assaltar-nos uma vez fora da confusão da vida? É isso que nos obriga a refletir. É esse respeito que nos faz suportar por tanto tempo uma vida de agruras. Pois quem suportaria as chicotadas e o escárnio do tempo, as injustiças do opressor, as afrontas dos orgulhosos, a tortura do amor desprezado, as demoras da lei, a insolência do oficial e os pontapés que o paciente mérito recebe do incompetente quando o próprio poderia gozar da quietude dada pela ponta de um punhal? Quem tais fardos suportaria, preferindo gemer e suar sob o peso de uma vida fatigante, a não pelo medo de algo depois da morte? Esse país desconhecido de cujos campos nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade e nos faz suportar os males que temos, em vez de voar para o que não conhecemos? Assim a consciência nos faz a todos covardes. E assim as cores nascentes da resolução empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento. E os planos de grande alcance e atualidade, por via desta perspectiva, perdem a roupa do rei.

A BOTA – Denomina-se: “A Constipação”. É assim: meu cunhado tinha do lado paterno, um primo alemão, cujo tio materno tinha um pai em segundo grau, cujo avô paterno tinha se casado em segundas núpcias com uma jovem indígena, cujo irmão tinha encontrado, numa de suas viagens, uma moça pela qual se apaixonou e com a qual teve um filho que se casou com uma farmacêutica intrépida que não era outra senão a sobrinha de um inspetor de quarteirão que a Marinha Britânica não conhecia e cujo pai adotivo tinha uma tia que falava correntemente o espanhol e que era talvez, uma das netas de um engenheiro que morreu jovem, sendo ele próprio neto de um proprietário de vinhas, que produzia um vinho ordinário, mas que tinha um sobrinho-neto caseiro, ajudante, cujo filho havia desposado uma mulher jovem e muito bonita, divorciada, cujo primeiro marido era filho de um patriota de Roma.

Cena 2 – Um solipsismo realista

(FIM).

LA CASA – de alfonsina storni / argentina


Circundada por selvas, bajo el cielo
siempre azulado, nuestra casa era
algo como el plumón y el terciopelo:
un tibio corazón de primavera.

Se hablaba quedo en nuestra casa; cierto.
Cierto que cobijaba tantas aves,
que nos salían las palabras suaves
como si las dijéramos a un muerto.

Pero nada era triste: la dulzura
poníamos tan dócil armonía
que hasta el suspiro tenue presentía
en sus patios sombreados de verdura.

El mármol blanco de los corredores
parecía dormir un sueño largo.
Las fuentes compartían su letargo.
Soñaban las estatuas con amores.

Cedían los sillones blandamente,
como un pecho materno, y era fino,
muy fino el aire, así como divino,
cuando filtraba el oro del poniente.

¡Cómo me acuerdo de la noche aquella
en que entré sostenida por tu brazo!
Moría casi bajo el doble abrazo
de tu mirada y de la noche bella.

¡Moría casi! Me llevaste tierno
por largas escaleras silenciosas
y ni tuve conciencia de las cosas:
era un cuerpo cansado y sin gobierno.

No sé cómo llegamos a una estancia.
La penumbra interior, los pasos quedos,
tus besos que morían en mis dedos
me tornaron el alma una fragancia.

Abriste una ventana: allá, lejano,
plateaba el río y el silencio era
dulce y enorme, y era primavera,
y se movía el río sobre el llano.

Caminaba hacia el mar con tal dulzura
que parecía una palabra buena.
Iba a darse sin fin; la quieta arena
mirábalo pasar con amargura.

Y mi alma también rodó en el río,
se hundió con él en perfumadas frondas,
siguiéndolo hasta el mar cayó en sus ondas,
y suyo fue el divino poderío.

Se curvó blanda en el enorme vaso,
de allí, se desprendió como un suspiro,
ascendió por los buques y el retiro
de otras mujeres sorprendió de paso.

Subió hasta las ciudades de otro mundo;
dormían todos, todo estaba blanco,
luego vio cada mundo como un banco
de arena muerta en el azul profundo.

Y desde aquel azul que todo abisma
miró en la tierra esta ventana abierta;
¿quién era esa criatura medio muerta?
Y se bajó a mirar. ¡Y era yo misma!

Cuando volvió del viaje, envejecida
de tanto haber vagado unos instantes
la esperaban tus ojos suplicantes:
se hundió por ellos y encontró la vida.

¿Recuerdas tú? La casa era un arrullo,
un perfume infinito, un nido blando:
nunca se dijo la palabra cuándo.
Se decía, muy quedo: mío y tuyo.

OS CINCO SENTIDOS ( ANTIGO CONTO DE NATAL) – por zuleika dos reis / são paulo

– Papai Noel não veio…

– Veio, mas já foi embora.
-… não veio…

A voz desolada sobe, pequenina, e é assim recolhida por uma das janelas do sexto andar. No meio, a fala impiedosa.
O olhar, através da janela, percorre o musgo que recobre o muro do fundo do prédio, por onde subiu, com dificuldade, a pequenina voz, o muro por onde se alastra o verde úmido, com trilhas para formigas e outros insetos. Do lado oposto, janelas laterais se alongam ao sol.
OS PASSOS INVISÍVEIS.
Noventa graus à esquerda: os livros se aninham, calmos e distantes. Os passageiros. Papéis recolhidos nos envelopes e nas pastas repousam, por ora, do olhar que cotidianamente os vasculha em busca de indícios, em busca de respostas para as perguntas que a memória gostaria de esquecer.
AS CIDADES MEDIEVAIS.
… não veio…
A voz, retornando, mais pequena ainda, tentando  aceitar o fato irreversível: Papai Noel veio, mas, já foi embora.
As mãos pegam, ao acaso, o livro mais próximo. Na página, o dedo pousa de leve. ONTEM. A palavra salta, junto com a lembrança da outra, na língua incompreensível que, dos cinco, só Elisa conhece. No quarto permanece o cheiro dos pêssegos e na boca ainda o gosto do chocolate suíço, presente de Rubem.
Cento e oitenta graus. Lentamente, os olhos se erguem até se encontrarem no espelho: Ana vê o próprio reflexo. Onde o rosto de Daniel?
O ESPELHO.
Márcia, a louca de Daniel, em algum lugar… melhor não saber.
Elisa, perto do polo norte, onde nasceu Papai Noel.
Daniel, há algumas horas daqui,no solar diante do vale verde.
Rubem, do outro lado desta cidade.
Ana, os olhos no espelho onde nunca viu o rosto de Rubem, seu companheiro, seu amante.
Os dedos tateiam a superfície fria em busca da abertura por onde Alice passou para o Outro Lado.
OS CHAMADOS.
O vinho. As taças púrpuras. A boca de Daniel.
Em algum lugar, perto do polo norte, Elisa se lembra de que, há quase um ano, estava nesta cidade, com Rubem.
Em algum lugar… melhor não saber… Márcia… melhor não saber…
Há algumas horas daqui, Daniel tenta se lembrar, mas, também o rosto de Ana lhe escapa do espelho.
Do outro lado desta cidade, Rubem caminha; talvez entre num bar, para tomar um expresso; mentalmente procura uma palavra de encaixe perfeito no texto que a aguarda; quem sabe pense em Elisa cujo olhar, neste instante, se perde na neve, ou em Ana, que se lembra das formigas.
Aqui, os olhos já se desviaram do espelho.
ANTIGAMENTE, O MURO DOS FUNDOS DO PRÉDIO FOI BRANCO.Há muito tempo, também o musgo começou, verde e fresco.
A voz infantil não regressou. Dos outros cômodos do apartamento, o silêncio compacto como um monolito.
O quarto inteiro pulsa aqui do outro lado desta cidade há algumas horas no vale verde lá onde Márcia esteja perto do polo norte, onde nasceu Papai Noel.
Amanhã, quando ele estiver a caminho, de volta ao seu longínquo país, com a mesma roupa vermelha e a mesma barba branca, as infinitas pequenas formigas continuarão, para sempre, a percorrerem a trilha onde, certa vez, o muro dos fundos do prédio foi branco, antes que o musgo verde e fresco tomasse conta de tudo.