OS CINCO SENTIDOS ( ANTIGO CONTO DE NATAL) – por zuleika dos reis / são paulo

– Papai Noel não veio…

– Veio, mas já foi embora.
-… não veio…

A voz desolada sobe, pequenina, e é assim recolhida por uma das janelas do sexto andar. No meio, a fala impiedosa.
O olhar, através da janela, percorre o musgo que recobre o muro do fundo do prédio, por onde subiu, com dificuldade, a pequenina voz, o muro por onde se alastra o verde úmido, com trilhas para formigas e outros insetos. Do lado oposto, janelas laterais se alongam ao sol.
OS PASSOS INVISÍVEIS.
Noventa graus à esquerda: os livros se aninham, calmos e distantes. Os passageiros. Papéis recolhidos nos envelopes e nas pastas repousam, por ora, do olhar que cotidianamente os vasculha em busca de indícios, em busca de respostas para as perguntas que a memória gostaria de esquecer.
AS CIDADES MEDIEVAIS.
… não veio…
A voz, retornando, mais pequena ainda, tentando  aceitar o fato irreversível: Papai Noel veio, mas, já foi embora.
As mãos pegam, ao acaso, o livro mais próximo. Na página, o dedo pousa de leve. ONTEM. A palavra salta, junto com a lembrança da outra, na língua incompreensível que, dos cinco, só Elisa conhece. No quarto permanece o cheiro dos pêssegos e na boca ainda o gosto do chocolate suíço, presente de Rubem.
Cento e oitenta graus. Lentamente, os olhos se erguem até se encontrarem no espelho: Ana vê o próprio reflexo. Onde o rosto de Daniel?
O ESPELHO.
Márcia, a louca de Daniel, em algum lugar… melhor não saber.
Elisa, perto do polo norte, onde nasceu Papai Noel.
Daniel, há algumas horas daqui,no solar diante do vale verde.
Rubem, do outro lado desta cidade.
Ana, os olhos no espelho onde nunca viu o rosto de Rubem, seu companheiro, seu amante.
Os dedos tateiam a superfície fria em busca da abertura por onde Alice passou para o Outro Lado.
OS CHAMADOS.
O vinho. As taças púrpuras. A boca de Daniel.
Em algum lugar, perto do polo norte, Elisa se lembra de que, há quase um ano, estava nesta cidade, com Rubem.
Em algum lugar… melhor não saber… Márcia… melhor não saber…
Há algumas horas daqui, Daniel tenta se lembrar, mas, também o rosto de Ana lhe escapa do espelho.
Do outro lado desta cidade, Rubem caminha; talvez entre num bar, para tomar um expresso; mentalmente procura uma palavra de encaixe perfeito no texto que a aguarda; quem sabe pense em Elisa cujo olhar, neste instante, se perde na neve, ou em Ana, que se lembra das formigas.
Aqui, os olhos já se desviaram do espelho.
ANTIGAMENTE, O MURO DOS FUNDOS DO PRÉDIO FOI BRANCO.Há muito tempo, também o musgo começou, verde e fresco.
A voz infantil não regressou. Dos outros cômodos do apartamento, o silêncio compacto como um monolito.
O quarto inteiro pulsa aqui do outro lado desta cidade há algumas horas no vale verde lá onde Márcia esteja perto do polo norte, onde nasceu Papai Noel.
Amanhã, quando ele estiver a caminho, de volta ao seu longínquo país, com a mesma roupa vermelha e a mesma barba branca, as infinitas pequenas formigas continuarão, para sempre, a percorrerem a trilha onde, certa vez, o muro dos fundos do prédio foi branco, antes que o musgo verde e fresco tomasse conta de tudo.

4 Respostas

  1. Muito, muito obrigada, Darlan. Amei a sua tão especial colocação. E gostaria de dizer também: mesmo que fique no leitor uma única frase de texto que escrevemos, valeu a pena tê-lo escrito, a este texto.
    Grande abraço
    Zuleika.

  2. “No meio, a fala impiedosa.” Tenho comigo que, dentro de um texto está, em incerto lugar, alguma ênfase (de várias, às vezes) que, em grande parte, passa ao largo de quem lê. Li todo o texto, e sinto que essa frase aí acima, por si só, mantêm uma postura de elegância ímpar, em sua pretensa rudeza, melhor, seu realismo.

    Um abraço, Zuleika.
    Darlan

  3. Zuleika,

    Teu conto, ainda que meio obscuro, é muito bonito. Abraço. Otto

    1. Obrigada por sua leitura e comentário, querido Otto. É, você tem toda razão, este texto é bem obscuro mesmo,, porque reflete forte teor autobiográfico e a realidade que eu vivia então ( isto não mudou, foi ficando cada vez pior, embora com acréscimo de “conteúdos” diferentes) era extremamente obscura.
      Nota: Claro, o texto é autobiográfico; os nomes dos personagens são todos “fantasia”.
      Grande abraço
      Zuleika.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: