Arquivos Diários: 24 fevereiro, 2010

AVESSO de otto nul / palma sola.sc

No meu avesso

Está meu todo

No meu direito

Estou eu torto

Movo-me de um lado

E de outro

De avesso e

De direito

No desejo de me encontrar

Mas um é a contra face do outro

Na busca de mim mesmo

Fico sem nunca acabar

VIÚVA ASSEDIADA por sérgio da costa ramos / florianópolis

A proprietária do dinheiro público é, também, pública mulher, muito assediada nesta época de pré-campanha: é a Viúva, que tem fama de ser rica e de ter a chave de um cofre recheado, por cujo conteúdo almejam todos os ordenadores de despesa, especialmente os que compram panetones.

Por ser público, entendem alguns dos chamados “representantes do povo”, o dinheiro é de todos – e de ninguém. É de quem chegar primeiro…

Sabendo que a impunidade é um direito muito “humano”, no Brasil, os arrecadadores de campanha assediam o cangote da Viúva, sequiosos por sugar-lhes a carótida – e sentir o inebriante perfume de mulher.

A Viúva é um sucesso. Fabrica um dinheiro sem dono, nem lastro, mas nem por isso inválido ou imprestável para os “tesoureiros dos partidos”.

Ela, a herdeira de todos os impostos, pode exibir várias formas, várias máscaras, vários disfarces, mas a sua bolsa é inconfundível. Ninguém resiste em afundar a mão naquela sacola mágica, tão generosa e tão elástica – pois de lá sempre vem uma boa pescaria.

A Viúva é mulher quase oblíqua, que os políticos cortejam de esguelha, pois não convém dar muito na vista – logo agora que a “Opinião Pública”, essa desmancha-prazer, anda de olho nos alcances e na insopitável “mão boba”. Os tribunais de contas – casas de políticos regenerados – gostariam de diminuir o assédio à dissimulada senhora, mas é sempre muito difícil controlar a volúpia dos necessitados de uma graninha para a campanha. Querem passar a mão na Viúva até mesmo com a autorização de uma lei futura – e bandida: a que regulamentará o “financiamento público de campanha”, mais uma brecha para enfraquecer o chamado último reduto das posses da assediada senhora.

Todo mundo quer transar com a Viúva para ver se das dobras do seu sutiã escorre aquele dinheiro leitoso, farto e sempre disponível. É só fazer o movimento de sucção e ir mamando. A teta da Viúva é tão pródiga quanto o úbere de uma vaca holandesa ou os seios da Gradisca, aquela sensual criatura de Fellini em seu Amarcord.

Dinheiro, principalmente o ganho biblicamente, com o suor do rosto humano, é gasto sempre com parcimônia, pois foi muito difícil de ganhar. Já o da Viúva pertence a um “câmbio” à parte. Quando burocratas das comissões de licitação abrem as chamadas “concorrências”, o câmbio geralmente é duplo, para a mesma moeda. O dinheiro da Viúva compra muito menos, pois para “ela” os preços são outros, muito mais caros e proibitivos.

Alguém está pagando por esse leite derramado, pois, como gostam de dizer os economistas da escola de Chicago, “não existe almoço grátis”, nem mamada (ou mamata) eleitoral sem um custo – o conhecido Custo Brasil.

Alguém está pagando a conta, mas esse alguém não tem cara. Ou como aquele velho ator, James Cagney, tem mil caras, que é a melhor forma de não ter nenhuma.

Ninguém, nem mesmo aqueles hábeis desenhistas da polícia, acostumados a dar vida ao rosto dos suspeitos, se arrisca a fazer o “retrato falado” desse desconhecido, o contribuinte, o marido oculto da Viúva.

Mas desconfio que ele pode ter a minha cara, leitor. Ou a sua.

Em qualquer hipótese, é a cara de um tolo.