Arquivos Diários: 26 fevereiro, 2010

MARINHA, CAVALO E HAMLET de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Há três sabores de som

no quadro,

uma marinha cinza,

escolho uma concha

cheia de marulho

e sinto saudades do oceano.

Pego minha chave

parece com uma moeda.

(Nunca antes tinha achado a chave parecida com uma moeda).

Vejo na radica de minha porta

demônios, extraterrestres e sexo.

Tenho medo de minha porta.

Corro pelas escadarias

não quero ser encaixotado pelo elevador.

Sou perseguido por demônios, extraterrestres e sexo

até derrubar o general

e sair cavalgando sobre a estátua eqüestre da praça

cheia de pichação e cheiro de urina.

À beira-mar, o cavalo em bronze

ficou colorido, leve de papel machê.

Respirar a maresia era respirar cores

como um camaleão que respira gramado

e fica verde, respira céu e fica azul.

A cavalgada que era tambor

virou dança sem música na areia.

Após a multidão

um menino solitário me sorri.

Minha angústia rega

suas linhas de expressão, que logo viram

rugas e cresceram em seu rosto como heras,

fazendo dele um velho.

A transformação me vez lembrar de uma menina que vi

pescando anjos com orações.

Perguntei a ela.

-Pode ser qualquer oração?

-Não, só as impregnadas de poesia e um pouco de vinho.

– E os anjos estão no céu ou na terra?

– Os anjos moram nos reflexos.

Depois avisto

um hindu, que reza para

uma escultura de quatro braços.

Falo.

– Não Breton, você não

criou nada, o surrealismo.

nasceu com a religião!

Ao longe

abandonado ao sol

um cadáver na restinga quente.

Uma rosa nasceu de seu umbigo.

Primeiro achei poético, depois lógico

as fezes no intestino alimentavam

as raízes da rosa.

Desço e descanso.

Faço um castelo de areia, cimento e cal.

Vejo saltar um peixe dourado

escamas feitos de dobrões espanhóis.

Quando continuei

encontrei ainda

um pintor chinês que olhava o mar, e com os pincéis

escrevia um poema na tela.

Três deuses

Marte, ele usava brutalidade

para conseguir mel.

Vênus, ela usava mel

para fazer maldades.

E a deusa que dá odor ao mar

lavando sua vulva na água.

Também Hamlet, que erguia a leveza da morte,

era a vida nele que pesa como chumbo.

Concentração é uma venda,

a distração nos faz ver muito mais.

Finalmente fiquei só com o oceano.

Olho sonhador

queria ir morar na distância,

na casa que encontraria na distância

gramada com mar, canteiros com copos-de-leite.

Mas a distância é uma miragem

que se afasta um passo

a cada passo meu.

Retorno, sonhos longos

são tediosos.

Pareço uma flor, querendo

morder o rabo de seu perfume.

A QUARESMA DE UM CIENTISTA por marcio campos / curitiba

UM CIENTISTA LÊ A BIBLIA

A maioria, ou pelo menos boa parte dos cristãos está agora celebrando a Quaresma, um tempo de 40 dias que antecede a Semana Santa e tem ênfase especial na penitência e na mudança de vida. É verdade que, em algumas paróquias, as pessoas só percebem que estão na Quaresma porque está escrito no folheto e porque o padre usa roxo, já que os instrumentos musicais seguem à toda, assim como a bateção de palmas – anteontem mesmo estive numa missa dessas. Mas, para quem está disposto a viver esse período de forma mais séria, existem várias coletâneas de meditações nas livrarias ou na internet. Uma delas é o assunto dessa resenha, e aqui faço um mea culpa: esse texto devia estar no Tubo há uma semana, mas só agora consegui tempo para finalizar a leitura.

Pela própria natureza do livro, Um cientista lê a Bíblia é dirigido aos cristãos. Não sei se um ateu tiraria o mesmo proveito dele. Seu autor, John Polkinghorne, é um dos maiores nomes no debate atual sobre a relação entre ciência e religião. Físico cuja especialidade é a Física de partículas, ele também é clérigo anglicano, ordenado em 1982. Um cientista lê a Bíblia (edições Loyola, 159 p., apenas R$ 9 na Saraiva) é de 1996. Como eu já tive a chance de mencionar, é uma coletânea de meditações para cada dia da Quaresma – não foi feito para ser lido de uma tacada só, embora não seja longo (os textos para cada dia têm duas ou três páginas) e possa ser lido de uma vez, como eu fiz. Os textos têm todos uma mesma estrutura: começam com algum trecho bíblico, seguem com a reflexão do autor e terminam com uma oração curta.

Embora esse não seja propriamente um livro sobre ciência e fé como os que têm sido resenhados aqui no blog, em muitos pontos Polkinghorne ressalta as semelhanças entre uma e outra. Logo na introdução, por exemplo, o autor diz que, assim como o cientista busca a verdade sobre o mundo pela evidência científica, a Bíblia também é, por assim dizer, a “evidência” sobre Deus e sobre Cristo. “Há uma concepção atual estranha de que fé é uma questão de fechar os olhos, cerrar os dentes e acreditar em coisas impossíveis, porque alguma autoridade inquestionável diz que é preciso fazer isso. De forma alguma! O salto da fé é um salto para a luz, não para a escuridão. Envolve o compromisso com o que compreendemos,para que possamos aprender e compreender mais“, diz Polkinghorne (itálico do autor). Na meditação do sábado após a Quarta-Feira de Cinzas, o autor lembra a primeira carta de São Paulo aos tessalonicenses, em que recomenda examinar tudo e conservar o que é bom. Mais uma vez Polkinghorne diz que a busca pela verdade é um componente essencial na religião – é curioso como algumas pessoas se mostram chocadas quando uma religião ou uma igreja pretende ser a única verdadeira, mas essa é uma pretensão perfeitamente válida, até porque é impossível que duas religiões que digam coisas opostas sejam igualmente verdadeiras. Mas, enquanto o cientista faz todo tipo de experiência para comprovar sua teoria, na religião não se “testa” Deus. O mesmo vale para os relacionamentos humanos (Cervantes já sabia, basta lembrarmos da história do “curioso impertinente”, no Dom Quixote). Ainda assim, o que une o cientista e o religioso é a sede de entender o mundo. Também é interessante a semelhança que Polkinghorne vê entre os Evangelhos e a pesquisa científica (não vou entregar tudo aqui, já que o objetivo de uma resenha é levar vocês a ler o livro).

Os dias entre o início da Quaresma e o primeiro domingo são dedicados a temas mais ou menos variados (em um dos textos, descobrimos por que Tolstoi é infinitamente superior a Manoel Carlos), mas as semanas seguintes são dedicadas a temas específicos: Criação, Realidade, Busca, Oração e Sofrimento, até chegar à Semana Santa. Na semana dedicada à Criação, é impossível escapar dos comentários sobre o texto do Gênesis e a evolução. Polkinghorne afirma que o propósito dos relatos da criação não é ser científico (do contrário não teríamos como escapar da contradição entre os dois relatos), mas explicar o porquê das coisas. Usando o exemplo da lareira (“o fogo queima na lareira porque processos físicos e químicos atuam na madeira” e “o fogo queima na lareira porque estou recebendo amigos” não são explicações incompatíveis entre si), o autor diz que não é preciso escolher entre o Big Bang e o “faça-se a luz”. Ao comentar a evolução, Polkinghorne diz que Deus poderia ter feito o mundo todo pronto, mas preferiu criar um mundo que faz a si mesmo. Quando o autor do Gênesis diz que o homem foi formado “do pó da terra”, estabelece uma continuidade entre a natureza e o ser humano. Polkinghorne mostra pistas de Deus na beleza das equações matemáticas que regem o universo – é um trecho com o qual eu me identifico. Eu não sei ver beleza em equações (detestava Trigonometria na escola técnica), mas adoro Van Gogh e Mozart. Nem todo mundo me acompanha na admiração por um quadro ou uma composição musical, assim como para mim passa batida a beleza existente em outros aspectos da vida, que os demais reconhecem muito melhor que eu. E o autor encerra a semana com considerações sobre propósito e acaso – este último, diz Polkinghorne, está longe de ser negativo: é “o espaço de manobra que Deus concedeu às suas criaturas ao permitir que fossem elas mesmas”, afirma.

Na sequência da obra, o autor aborda temas como o maravilhamento diante das coisas do mundo, a diferença entre senso moral e senso cultural (sim, é possível ser uma pessoa boa sem ter religião nenhuma, mas como se nega a existência de certos padrões morais universais a todas as culturas?), a função da Teologia Natural, o emprobrecimento causado pelo Iluminismo na cabeça das pessoas ao desvalorizar o entendimento subjetivo e a experiência pessoal. Mas um capítulo que eu gostaria de comentar é o da semana dedicada ao Sofrimento, já que andamos discutindo o assunto aqui, por causa do Haiti. Polkinghorne se baseia especialmente nos Salmos e se pergunta: por que, no terremoto de 1755, Lisboa foi devastada justamente num Dia de Todos os Santos, quando milhares de pessoas estavam em igrejas que desabaram, matando os fiéis? “O que Deus estava fazendo com o terremoto em Lisboa? Acho que a resposta é que Ele estava deixando a crosta terrestre se comportar de acordo com a sua natureza”, diz o autor. Um Deus que não é “tirano nem mágico” permite que o mundo criado por Ele possa se desenvolver sozinho. Mas o salmista fica perplexo não apenas com os desastres naturais: ele percebe que coisas más ocorrem com pessoas boas. Pior ainda: coisas boas acontecem a pessoas más – que nadam “em mar de contentamentos”, como escreveu Camões. Nós também experimentamos essa perplexidade em vários níveis quando vemos desde autênticos cachorros atraírem o interesse das melhores garotas até mensaleiros sendo reeleitos. Como se resolve isso? Não basta nos consolarmos pensando que na vida eterna as coisas se encaixarão nos seus devidos lugares: se fosse assim, Nietzsche teria razão ao chamar o Cristianismo de religião de escravos conformados. Mas a resposta de Polkinghorne ao filósofo do século 19 eu deixo para vocês descobrirem ao ler o livro.

Ainda estamos no começo da Quaresma. Aos leitores cristãos, eu recomendo que procurem o livro e, depois de recuperar o tempo perdido, comecem a seguir as meditações dia após dia. Garanto que será um período de muitos frutos.

EDUARDO HOFFMAN e seus haicais / curitiba

ah minha vizinha

como é bom ouvir um blusão

tirando sua blusinha

=

simplicidade havia

bastava um cotonet

pra se ouvir a cotovia

estudo para sol maior

.

um frio de dar dó

você lá, longe, meu violão

quando nosso sol  ?