MARINHA, CAVALO E HAMLET de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Há três sabores de som

no quadro,

uma marinha cinza,

escolho uma concha

cheia de marulho

e sinto saudades do oceano.

Pego minha chave

parece com uma moeda.

(Nunca antes tinha achado a chave parecida com uma moeda).

Vejo na radica de minha porta

demônios, extraterrestres e sexo.

Tenho medo de minha porta.

Corro pelas escadarias

não quero ser encaixotado pelo elevador.

Sou perseguido por demônios, extraterrestres e sexo

até derrubar o general

e sair cavalgando sobre a estátua eqüestre da praça

cheia de pichação e cheiro de urina.

À beira-mar, o cavalo em bronze

ficou colorido, leve de papel machê.

Respirar a maresia era respirar cores

como um camaleão que respira gramado

e fica verde, respira céu e fica azul.

A cavalgada que era tambor

virou dança sem música na areia.

Após a multidão

um menino solitário me sorri.

Minha angústia rega

suas linhas de expressão, que logo viram

rugas e cresceram em seu rosto como heras,

fazendo dele um velho.

A transformação me vez lembrar de uma menina que vi

pescando anjos com orações.

Perguntei a ela.

-Pode ser qualquer oração?

-Não, só as impregnadas de poesia e um pouco de vinho.

– E os anjos estão no céu ou na terra?

– Os anjos moram nos reflexos.

Depois avisto

um hindu, que reza para

uma escultura de quatro braços.

Falo.

– Não Breton, você não

criou nada, o surrealismo.

nasceu com a religião!

Ao longe

abandonado ao sol

um cadáver na restinga quente.

Uma rosa nasceu de seu umbigo.

Primeiro achei poético, depois lógico

as fezes no intestino alimentavam

as raízes da rosa.

Desço e descanso.

Faço um castelo de areia, cimento e cal.

Vejo saltar um peixe dourado

escamas feitos de dobrões espanhóis.

Quando continuei

encontrei ainda

um pintor chinês que olhava o mar, e com os pincéis

escrevia um poema na tela.

Três deuses

Marte, ele usava brutalidade

para conseguir mel.

Vênus, ela usava mel

para fazer maldades.

E a deusa que dá odor ao mar

lavando sua vulva na água.

Também Hamlet, que erguia a leveza da morte,

era a vida nele que pesa como chumbo.

Concentração é uma venda,

a distração nos faz ver muito mais.

Finalmente fiquei só com o oceano.

Olho sonhador

queria ir morar na distância,

na casa que encontraria na distância

gramada com mar, canteiros com copos-de-leite.

Mas a distância é uma miragem

que se afasta um passo

a cada passo meu.

Retorno, sonhos longos

são tediosos.

Pareço uma flor, querendo

morder o rabo de seu perfume.

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