VENDO a BRIGADA STEGOMYA – por lima barreto*

No Brasil tudo é grande, assegurava Tobias Barreto, exceto o homem, o que ele corroborava com a imagem feliz que bem parecíamos um moço com cabelos brancos. Fora verdade o que sentenciara o tudesco da Escada.

Tudo definha sob o nosso céu de fogo: as auras embalsamadas das florestas parecem trazer sobre as nossas cidades o letárgico veneno da mancenilha; os eflúvios ardentes do nosso sol derramam sobre nós o princípio entorpecedor do ópio; a natureza esmaga-nos – pensamento e corpo.

Que são entre nós as grandes instituições dos Argus?

A filosofia – um bimbalhar de frases ocas e campanudas ou um citar pasmoso de autores estrangeiros de quarta ordem.

A nossa literatura e arte são planetas mortos que gravitam para intermitentes e variáveis sões da estranja.

A política resume-se num descaroçar de atas falsas, na expressão de um profissional, ou numa discurseira vazia de inteligência mas cheia de palavrões e sentenças acacianas.

As grandes obras do pensamento humano, chindo nos nossos intelectos, não proliferam em outros maiores – estiolam-se: o Plutarco, por exemplo, foi lido pelo Sr. Pelino Guedes para afirmar que “a biografia é a história da vida de um homem” ou que “a idéia de Deus não é incompatível com o amor à pátria”; o que dá padrão para imaginarmos o que dirá ele se conseguir por milagre ler a Crítica da razão pura ou a Política de Aristóteles.

Somos uma gente que definha e decresce como aquele cadáver conservado à Índia, que vai, com o tempo, diminuindo, encarquilhando até ficar reduzido a proporções diminutas…

E vieram-me vindo essas idéias, ao ver nas ruas, às calhas trepadas, os rodamentos da Diretoria de Saúde.

Tinham todos o ar galhardo de campeões em batalha; nas suas faces havia a satisfação sadia de um hiplita que venceu em Maratona, as de Aquiles, garanto, não exprimiriam tão feroz júbilo, após ter arrastado sete vezes, em torno de Íon,

os despojos sagrados de Heitor vencido.

E o chefe?… Que belo estava! Jovial e sorridente, manifestava, nos largos gestos em que sublinhava as ordens dadas em voz alta ao adjudante o contentamento feliz do estratego de cujos planos dependera o ganho da batalha mortífe-

ra. Era como um Napoleão vencedor dos mosquitos; parecia um Alexandre que viesse de esmagar pernilongos em Arbelles.

E se, porventura, alguma dor n’alma lhe vier ter, provinda da perda de peleja, a badine delgada, que transporta, abrirá entre dous tijolos de uma cimalha a brecha de Roncesvales.

Ao começo vendo aquela fúria sagrada e aquele garbo no guerrear mosquitos – pensei com Frei Luís de Sousa vendo a carantonha hedionda de um leão a escorrer as fauces límpidas e tranqüilas águas: “é de ver aquele rosto feio coberto de guedelhas crespas e medonhas, que ameaça sangue e morte, feito ministro de mansas águas”.

É de ver…

Mas, por fim, fazendo as considerações expendidas e convencido que a nossa exuberante natureza custa-nos o pensamento e nos comprime o corpo, descobri que já tempo era nesse estiolar e definhar sem fim, de estarmos reduzidos à proporção de mosquitos zumbidores. Desse modo era bem razoável que, com os chefes e soldados da Brigada Stegomya, houvesse aquele contentamento e aquele furor de guerrear pernilongos, pois, se poetas por poetas sejam lidos, mais razoável será que mosquitos sejam [por] mosquitos combatidos.

Tagarela| 9-7-1903.

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