Arquivos Diários: 28 fevereiro, 2010

SONHOS DE UM MARINHEIRO SUECO por jorge lescano / são paulo

Bergman contou muito bem como lhe veio o final de um argumento (ou seja, como descobriu o que queria contar):

Primeiro vi quatro mulheres vestidas de branco, sob a luz do alvorecer, em um quarto. Movem-se e se falam ao ouvido, são extremamente misteriosas e eu não consigo entender o que dizem. A cena me persegue durante um ano inteiro. Finalmente, compreendo que as três (sic) mulheres esperam que morra uma quarta, que está no outro quarto. Revezam-se para velá-la.

Trata-se de Gritos e Sussurros. (Schwartz, 26)

A citação consta num artigo sobre a narrativa de Jorge Luis Borges. Vem a calhar, então, a lembrança de El Sueño de Coleridge, em que um palácio é sonhado e construído (de forma fragmentária) em diversos tempos e lugares por diferentes sonhadores e com materiais heterogêneos. A história é assim resumida por Borges:

Un emperador mongol, en el siglo XIII, sueña un palacio y lo edifica conforme la visión; en el siglo XVIII un poeta inglés que no pudo saber que esa fábrica se derivó de un sueño, sueña un poema sobre el palacio. (Borges, 144)

O caso referido por Piglia aproxima Ingmar Bergman de Fernando Pessoa. A cena descrita pelo sueco remete a esta rubrica escrita pelo português algumas décadas antes:

Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.

Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.

É noite e há como que um resto vago de luar. (Pessoa. 441)

É digno de nota o fato de Coleridge sonhar com o palácio depois de ter lido un pasaje de Purchas, que refiere la edificación de un palacio por Kublai Khan. (Borges. p.142)

En una página (do Compendio de Historias de Rashid ed-Din, que data del siglo XIV) se lee:  ‘Al este de Shang-tu, Kublai Khan erigió un palacio, según un plano que había visto en un sueño y que guardaba en la memoria’. (Borges. ibidem)

Apesar do palácio ser da matéria de que são feitos os sonhos, foi revelado através da escrita.

Bergman poderia ter lido O Marinheiro de Fernando Pessoa e tê-lo “esquecido”, conservando a imagem sem a referência literária. Assim, ele vê primeiro quatro mulheres que falam algo que ele não entende, depois três, pois a quarta está à morte, justificando a presença das outras, exatamente como na peça estática do português.

Suspeito que a Borges agradaria mais pensar que Bergman não conhecia a obra de Pessoa. Neste caso, a alma dO Marinheiro sonhado pela Segunda Veladora teria penetrado na alma de Bergman para lhe revelar a cena que lhe deu origem. Menos convincente seria a versão em que o personagem sonhado tivesse criado Bergman para que reproduzisse o momento fundador. Menos convincente, dissemos, não impossível. Todos criamos personagens que por sua qualidade onírica chamamos de ficcionais, por que um destes personagens não poderia criar personagens aos que chamássemos de reais?

Segundo esta alternativa, a equação é a seguinte: Fernando Pessoa imagina a Segunda Veladora que imagina O Marinheiro que imagina sua autobiografia para incluir Bergman, a quem revelará a cena que lhe deu origem para que a conte ao seu modo.

Assim como o palácio de Kublai Khan persiste em ser arquitetura, O Marinheiro persiste em sua natureza literária, pois:

Spinoza entendió que las cosas quieren perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere ser piedra y el tigre tigre. (Borges. p. 347)

O périplo deste sonho sueco-português talvez seja mais breve para oferecer ao leitor contemporâneo uma visão panorâmica do funcionamento do sistema. Atenderia, também, à poética de Borges, que sempre preferiu resenhar romances não escritos a escrever o próprio romance.

Desconfio que este marinheiro não deve ser aquele muito jovem do Nordstjärnan, de Malmö, descartado por Emma Zunz. Sequer o outro, mais baixo do que ela e grosseiro, que sem saber colaborou com a vingança frustrada desta discípula de Sófocles. Com certeza este marinheiro menos que o outro, pois não é improvável que seja finlandês. (Borges. p. 49) Demais, isto aconteceu numa Buenos Aires mítica e O Marinheiro de nossa história faz a rota Lisboa-Estocolmo.

BIBLIOGRAFIA

BORGES, Jorge Luis. Prosa Completa.  Barcelona: Bruguera, 1980, vol. 2.

PESSOA, Fernando. “O Marinheiro” in Obra Poética. R.J.: Aguilar, 1965.

PIGLIA, Ricardo. “Borges: a arte de narrar”. In: Schwartz, Jorge (org.). Borges no Brasil. São Paulo: UNESP, 2001, pp. 17-34.

Dilma cresce e encosta em Serra na disputa pela Presidência, diz Datafolha


Ministra sobe cinco pontos em cenário com Ciro Gomes (PSB-CE).
Tucano segue na liderança, mas perde vantagem em todos os cenários.

Da Agência Estado

Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (27) mostra queda na diferença entre os pré-candidatos do PSDB, o governador paulista, José Serra, e do PT, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sucessão presidencial.

O levantamento, publicado na edição de domingo pelo jornal Folha de S.Paulo, aponta Serra com 32% das intenções de voto; Dilma Rousseff, com 28%; o deputado federal Ciro Gomes (CE), pré-candidato do PSB, com 12%; e a pré-candidata do PV, senadora Marina Silva (AC), com 8%. Na mostra anterior do Datafolha, divulgada em dezembro de 2009, Serra tinha 37%; Dilma 23%; Ciro 13%; e Marina 8%.
A pesquisa foi realizada entre os dias 24 e 25 de fevereiro. Do total de entrevistados (2.623), 9% disseram que vão votar branco, nulo ou em nenhum dos candidatos e 10% informaram que estão indecisos. O levantamento tem margem de erro de dois pontos porcentuais para mais ou para menos.
A pesquisa também apresentou um cenário sem a presença de Ciro Gomes. Nessa simulação, Serra tem 38%, Dilma vai a 31% e Marina Silva fica com 10% das intenções de voto. Na pesquisa de dezembro de 2009, o tucano tinha 40%, Dilma registrava 31% e Marina tinha 11%.
No cenário de segundo turno, numa eventual disputa entre Serra e Dilma, o tucano lidera com 45% das intenções de voto e a petista aparece com 41%. O levantamento realizado em dezembro apontava Serra com 49% das intenções de voto e Dilma com 34%. Em outro cenário de segundo turno, Dilma vence com 48%, contra 26% de Aécio.

De acordo com o Datafolha, o pré-candidato Serra registra o maior índice de rejeição entre os presidenciáveis, com 25%; seguido de Dilma com 23%; Ciro, com 21%; Aécio, com 20%; e Marina, com 19%.

A pesquisa avaliou também o índice de aprovação do presidente Lula. Na mostra, a aprovação ficou em 73% (de ótimo e bom). Na pesquisa de dezembro, este índice foi de 72%, o mais alto patamar de popularidade apurado pelo Datafolha.

“CARTA MAIOR” DIZ QUE:

As placas tectônicas da disputa presidencial moveram-se no Brasil neste final de fevereiro e um abalo sísmico mais forte que o do Chile atingiu a jugular da coalizão demotucana: Serra tornou-se o candidato mais rejeitado entre todos os presidenciáveis; em menos de 60 dias, sua vantagem sobre Dilma despencou de 14 pontos para apenas 4 pontos; entre o Datafolha de dezembro e o deste final de fevereiro, tucano perdeu cinco pontos; Dilma avançou cinco; uma fatia do eleitorado equivalente a 10 pontos mudou de lado na disputa e a reacomodação não favoreceu o conservadorismo nativo; temporada de inundações em SP lavou o verniz midiático que pintava Serra como estadista aos olhos da classe média; enxurrada revelou um político manhoso, tingido com o papel crepon de bom gestor, à frente de uma administração inepta, imprevidente e manipuladora. Quando o cristal se quebra sob o peso da decepção, fica difícil reverter o plano inclinado dos apoios tradicionais. O ‘estado de catástrofe’ está em curso no interior da coalizão demotucana.Difícil será conter as rachaduras…

(Carta Maior com informações Datafolha; 28-02)

LIBERDADE SEM PREÇO por orlando margarido / berlim

Em apenas 48 horas na metade do mês de fevereiro, dois casos exemplares nas telas mostraram o quanto as circunstâncias fazem a diferença no cinema. Aconteceu nos primeiros dias da 60ª edição da Berlinale, o Festival de Cinema de Berlim, quando dois nomes que reconhecidamente conquistaram o privilégio de fazer o que bem entendem atrás das câmeras exerceram tal direito com resultados diferentes. Na ordem de exibição, primeiro chegou O Escritor Fantasma, o filme de Roman Polanski, sem a presença do diretor, como se sabe detido em seu chalé na Suíça em regime domiciliar. Para compensar, quem sabe, a falta do momento estelar do cineasta franco-polonês, veio, no dia seguinte, um céu de estrelas pronto para os holofotes. Com Martin Scorsese à frente, surgiram seu atual predileto Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley e Michelle Williams, prontos para trocar elogios e demonstrar uma feliz união em torno de Ilha do Medo. Um encontro sem dúvida providencial que nos permite tirar uma lição da condição desses cineastas acima de qualquer suspeita.

Um indício evidente, mas não justificável de todo, é o impacto que ambas as obras e seus realizadores causaram no evento. Enquanto o filme de Polanski respondeu na tela a que veio, sem depender necessariamente da presença de seu autor, o novo Scorsese recorreu ao efeito midiático e à conhecida verve cinéfila do diretor para se impor. Verdade que este corria fora da competição, como geralmente cabe aos que alcançaram o mérito da maestria. Presente em concurso, O Escritor Fantasma sinalizava a intenção da comissão seletiva da Berlinale, depois confirmada com o Urso de Prata de melhor direção, de um desagravo ao encarceramento do realizador. Difícil não fazer a correspondência de um prêmio político, mas há qualidades suficientes no filme para que se justifique por si só.

Não é essa a situação de Scorsese. Sua aparição festejada em Berlim, com entrevistas concorridas e o tapete vermelho que mais frisson provocou, tem no elenco boa parte da razão. Ao cineasta coube discutir cinema, tema no qual é um entendido emérito. Afinal, temos um nome fundador do cinema moderno americano, ao lado de John Cassavetes e Francis Ford Coppola, por exemplo, realizador dos referenciaisTaxi DriverTouro Indomável, que a caminho dos 70 anos tateia nas mais recentes experiências em busca de um filme conjugador de sua independência de criação e do flerte com o grande público. Para tanto, elegeu uma face irregular de interpretação para ser o símbolo dessa ambição na tela. Leonardo DiCaprio, agora na quarta parceria com o diretor, serve à tentativa de resgatar um frescor cinematográfico de fonte geracional. Na conversa entre bons companheiros disfarçada de coletiva de imprensa em Berlim, reconheceram-se influentes um ao outro, com o ator reverenciando o mentor e amigo Marty ao lembrar sessões de seus primeiros filmes antes de conhecê-lo.

Scorsese, por sua vez, diz não imaginar outra face nos últimos anos para seus heróis culpados e em busca de redenção. Escalou DiCaprio para Gangues de Nova YorkO AviadorOs Infiltrados e agora como o investigador federal Teddy Daniels, que segue para a soturna ilha do título, base de um manicômio onde busca pistas do desaparecimento de uma paciente. Conta com um companheiro para a tarefa, interpretado por Mark Ruffalo. A afinidade entre os atores e DiCaprio dá o tom certo, por vezes de profundo desespero, o que evita a total nulidade do personagem. O intrigante, como se verá a partir de 12 de março, quando o filme estreia no País, é que cabe mais a Scorsese a falta de força dessa adaptação do livro de Dennis Lehane (Paciente 67). Mistério opaco, didatismo na explicação das pistas desvendadas uma a uma e um gosto por lançar infinitas armadilhas ao espectador são algumas ocorrências que banalizam Ilha do Medo. Mais compatíveis, por certo, a certo cinema contemporâneo de thriller e não a um trabalho de complexas relações do homem com seu destino a que nos habituou Scorsese.

Verdade que ele pisa aqui no gênero com o qual é menos acostumado. Embora com ambições psicológicas, o novo filme tem aquele tom dos suspenses noir dos anos 50 e 60 vistos avidamente pelo garoto Marty na Nova York em que crescia. Talvez seja possível aproximá-lo, numa curiosa coincidência de títulos, da refilmagem Cabo do Medo, de 1991. Mas aqui temos outro tipo de mente doentia do que nos fala o livro de Lehane, e nesse sentido é interessante a relação feita entre os pacientes da instituição e quem os trata, numa época em que estavam em voga recursos dessa medicina como a lobotomia. É o próprio Scorsese, no entanto, que dá as pistas da origem do seu interesse pela história e a linguagem escolhida para a versão cinematográfica. “O filme representa os meus anos 50. Era o período americano da Guerra Fria, da paranoia, quando havia medo e insegurança”, diz, reafirmando que experimentou tudo isso bem de perto e também no cinema.

O diretor aponta para uma lista infinita de influências que vão do horror de baixo orçamento dos filmes de zumbis à tradição de mestres como John Ford, Orson Welles e William Wyler. Há uma evocação explícita de Vampiro de Almas, clássico B de Don Siegel de 1956. Ainda atribui elementos de inspiração a Nicholas Ray, especialmente Delírio de Loucura, do mesmo ano, e um pacote com LauraFuga do Passado, Crossfire e o documentário Let There Be Light, de John Huston. Não por acaso, exibiu esses cinco últimos títulos ao elenco para conseguir se fazer entender. Uma lição superior de cinefilia, sem dúvida, mas de menos aplicação prática do que poderia se supor de um mestre que não denota o talento de outrora.

Dessa forma, é irônico que tal conjuntura se estabeleça com mais propriedade e conhecimento em O Escritor Fantasma, baseado em romance de Robert Harris. Temos aqui a atmosfera opressiva que Scorsese busca em seu filme por truques por vezes medíocres e Polanski conquista com a desenvoltura das experiências com O Inquilino, por exemplo. Assim como naquele título de 1976, a situação entre o real e o delírio é vista pelos olhos do protagonista, o homem errado no lugar errado. Personagem sem nome no filme, ele é contratado para finalizar as memórias do ex-premier britânico (Pierce Brosnan), depois que o escritor anterior aparece morto. Aos poucos enreda-se numa trama entre o mistério da morte e o envolvimento do político, agora retirado em sua casa num balneário exclusivo americano, com um escândalo de acusação por violar direitos humanos durante a Guerra do Iraque.

Ao demonstrar faro para uma situação de lances atuais e exímia habilidade no ritmo da trama, Polanski ganhou mesmo o beneplácito da coincidência, antes que sua prisão fosse decretada no ano passado. Na trama, o primeiro-ministro, ante a pressão dos problemas, diz que desejaria fazer uma viagem. Sua equipe de advogados, no entanto, o aconselha ir para um país que não mantenha acordo de extradição. Involuntário, quem sabe, o chiste remete à situação do próprio cineasta, exigido pelos Estados Unidos para julgamento por pedofilia. Mas há mais coerência em imaginar um humor negro casual, na medida em que o realizador deu as últimas ordens para montagem e finalização de seu filme por courrier, como lembraram seus produtores em Berlim.

Se a referência cinematográfica recai sobre si mesmo, pois não consta que Polanski tenha o apetite insaciável do colega pelo cinema do passado, este realizador consegue com recursos semelhantes a Ilha do Medo consumar a apreensão do espectador. Seu cenário também é cinza e desolador, e a princípio estamos numa praia frequentada pelos Estados Unidos da tradição e dinheiro. O protagonista, embora no início contrafeito, representa apenas um homem comum que enxerga a possibilidade de angariar sua primeira fortuna por um trabalho e não hesita em cair fora dele quando a situação se mostra insustentável. Mas a ideia de não conseguir pelas circunstâncias faz a trama derivar para a investigação inesperada.

Como comprova o final, talvez não surpreendente para quem conhece os truques do diretor, Polanski tem-se reservado o direito de testar velhas fórmulas que já lhe foram gratas (Chinatown) ou nem tanto (Busca Frenética) com a precaução dos sábios com a idade. Antes de enveredar neste projeto, cancelou outros dois devido à magnitude da produção, sendo o mais comentado a adaptação da saga histórica Pompeia. Scorsese não parece dar sinais da mesma consciência. Um dos factoides disparados pela imprensa em Berlim dava conta de um encontro do cineasta americano com seu colega dinamarquês Lars Von Trier em que este lhe teria proposto uma refilmagem de Taxi Driver. O próprio Scorsese dirigiria, mas baseado em algumas regras misturando ficção e documentário testado por Trier no filmeFive Obstructions, de 2003, em parceria com Jorgen Leth. Nada confirmado pelos protagonistas, exceto o encontro e a certeza de que Scorsese continuará a trilhar caminhos que podem amedrontar sua fiel audiência.

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GRANDE OTELO por hamilton alves / florianópolis

Grande Otelo (ou Mário Prata, como fora registrado quando nasceu) foi dessas pessoas destinadas à glória. Não foi apenas um grande ator, no teatro ou no cinema, mas foi também um grande humorista. Formou com Oscarito uma dupla invencível nesse gênero que, sem dúvida alguma, exige um talento especial.

No cinema, fez vários filmes e em todos sempre se saiu com êxito. Mas marcou definitivamente sua presença na sétima arte fazendo o personagem principal de Macunaíma,  colhido da obra de Mário de Andrade, que, por sua vez, tornou-se um marco da literatura nacional.

Quando Orson Wells veio fazer um filme no Brasil, que acabou, por vários motivos, não dando certo (teve acessos presumidamente de loucura ou de manifestações de alcoolismo), notoriamente quando, hospedado no Copacabana Palace Hotel, o mais grãfino à época do Rio, jogou todos os móveis do quarto em que se hospedara, por manifesto mau gosto, segundo ele, pela janela, caindo dentro da piscina ou muito próximo, Grande Otelo foi sondado para fazer um dos papéis do filme. Orson (comentava-se) encantou-se com Otelo. Esse episódio (o do Hotel), dada a fama de Orson, só rendeu-lhe maior popularidade, pois deve ter alcançado destaque na imprensa mundial.

Tive dois momentos com Otelo. Um, no Rio, quando o encontrei numa das ruas do centro, num momento em que sua fama atingia as culminâncias. Não chegamos a trocar sequer um cumprimento. Nem me aproximei dele para tentar uma abordagem como jornalista profissional que era então.

O outro foi aqui mesmo na Ilha.

Otelo se preparava para entrar num  auditório de estação de rádio, que estava superlotado. Aguardava o sinal de entrada em cena perto de uma escadinha, que dava acesso ao palco.

Otelo não se mostrava bêbado, no sentido de cambalear ou revelar tal tipo de conduta. Mas rescendia a cachaça (ou álcool) por todos os poros.

Nem precisa dizer, foi entrar no palco e a platéia vir literalmente abaixo.

Saiu-se como de rotina: bem.

Encantou o público, como encantaria qualquer platéia.

Era um ator portentoso e versatilíssimo.

IDEOLOGIA e IDIOPATIA por alceu sperança / cascavel.pr

O ex-deputado estadual Edgar Bueno (PDT), hoje novamente prefeito de Cascavel, teve toda a razão em dizer, como disse com vigor na Assembleia Legislativa, que abriu estrada e escola para sem-terra.

Fez muito bem: agiu como agem todos os que cumprem com suas obrigações. Quando ele assumiu, recebeu mais um pedido dentre tantos querendo empregos, cargos, mordomias e as contas pagas: “Pense nos que sofrem”, pedi. Ele, de fato, pensou.

Mas a certa altura do mandato o parlamentar disse acreditar que o pessoal da Via Campesina, em sua luta contra os transgênicos da suíça Syngenta, agia por “ideologia”. Na verdade, é o contrário: são as transnacionais invadindo o Brasil e ameaçando nossas riquezas naturais que agem por ideologia.

A ideologia, hoje, é ardilosa: é um monstro, mas se maquia, mente, seduz. Sua filosofia é o fim da história: “Não adianta você lutar, pois nós já vencemos”. Sua opção preferencial é pela guerra: “Vai lá e atira no teu irmão”. Sua lei é: “Para a estabilidade dos ricos é preciso a instabilidade dos trabalhadores”. Sua religião é o lucro. Seus templos são os bancos. Essa ideologia é o capitalismo em sua etapa superior e atual – o neoliberalismo.

Uma ideologia fracassada, posta de joelhos pela crise das bolhas, mas ainda arrogante e poderosa o suficiente para resistir, mesmo com o mundo se incendiando com protestos na Grécia, em Cuba, na Rússia, na Alemanha. Aliás, onde houver um só ser humano com sangue nas veias, incapaz de suportar mais tanta conversa fiada para sustentar uma formação política, econômica e social amplamente vencida pela própria incompetência em resolver problemas.

Não se trata de uma ideologia idiopática, como dizem os médicos sobre as doenças desconhecidas. É uma doença bem conhecida. São conhecidos seus agentes patogênicos, há um amplo histórico de males, febres, tumores e cancros que ela provoca.

Na face superaquecida do mundo, ela ataca a natureza e os recursos naturais. Aproveita-se da doença para enriquecer as transnacionais do remédio. Financeiriza tudo, gerando a neoescravidão do cartão – o tal “sinal da besta”, o famoso número-senha das tradições religiosas.

Põe a máquina no lugar do homem não para que o homem viva melhor, mas pior. Desemprega na mesma medida em que a tecnologia evolui. Não assiste, antes desespera, aos deslocados de seus postos de trabalho.

Precariza tudo. Instabiliza tudo, a não ser seus ganhos, que disparam, e a exploração, que gera novas modalidades de escravidão. E quando os povos reagem, são acusados de agir “ideologicamente”! Mas a única ideologia que existe é essa aí – o capitalismo.

Por que o PIB do Brasil não pode crescer 7% ao ano, como seria desejável? Porque essa ideologia não deixa. Por que o superávit primário, tentativa de retorno CPMF etc? Para pagar aos banqueiros, sacerdotes máximos dessa ideologia, os juros das dívidas astronômicas, que nós não fizemos.

Por que o Ibama multa e as madeireiras continuam extraindo madeira da Amazônia? Por que as queimadas? Por que a explosão de violência? Por que o trânsito caótico? Pergunte à ideologia. Como não ela não é idiopática, suas origens e malefícios são bem conhecidos.

Claro, idiopatia também quer dizer simpatia por alguma coisa. Só por uma insensata simpatia a essa ideologia pode-se explicar porque ninguém estranha quando fazendeiros matam índios e posseiros, mas é um escarcéu quando um índio resolve pegar num tacape em São Miguel do Iguaçu ou um sem-terra dispara um estilingue no Pará.

Ao contrário de idiopatizar com essa ideologia, é preciso reagir a ela de todas as formas, dizendo que estabilizar o trabalho é mais importante que estabilizar os lucros. Que a função da terra é social. Que o governo é do povo e não das transnacionais e das grandes empresas, dos grandes negociantes locais e estrangeiros. Que sem direitos humanos não há humanidade. Que irmão não deve atirar contra irmão, nem sócio contra sócio, nem trabalhador-segurança em trabalhador-agricultor.