SONHOS DE UM MARINHEIRO SUECO por jorge lescano / são paulo

Bergman contou muito bem como lhe veio o final de um argumento (ou seja, como descobriu o que queria contar):

Primeiro vi quatro mulheres vestidas de branco, sob a luz do alvorecer, em um quarto. Movem-se e se falam ao ouvido, são extremamente misteriosas e eu não consigo entender o que dizem. A cena me persegue durante um ano inteiro. Finalmente, compreendo que as três (sic) mulheres esperam que morra uma quarta, que está no outro quarto. Revezam-se para velá-la.

Trata-se de Gritos e Sussurros. (Schwartz, 26)

A citação consta num artigo sobre a narrativa de Jorge Luis Borges. Vem a calhar, então, a lembrança de El Sueño de Coleridge, em que um palácio é sonhado e construído (de forma fragmentária) em diversos tempos e lugares por diferentes sonhadores e com materiais heterogêneos. A história é assim resumida por Borges:

Un emperador mongol, en el siglo XIII, sueña un palacio y lo edifica conforme la visión; en el siglo XVIII un poeta inglés que no pudo saber que esa fábrica se derivó de un sueño, sueña un poema sobre el palacio. (Borges, 144)

O caso referido por Piglia aproxima Ingmar Bergman de Fernando Pessoa. A cena descrita pelo sueco remete a esta rubrica escrita pelo português algumas décadas antes:

Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.

Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.

É noite e há como que um resto vago de luar. (Pessoa. 441)

É digno de nota o fato de Coleridge sonhar com o palácio depois de ter lido un pasaje de Purchas, que refiere la edificación de un palacio por Kublai Khan. (Borges. p.142)

En una página (do Compendio de Historias de Rashid ed-Din, que data del siglo XIV) se lee:  ‘Al este de Shang-tu, Kublai Khan erigió un palacio, según un plano que había visto en un sueño y que guardaba en la memoria’. (Borges. ibidem)

Apesar do palácio ser da matéria de que são feitos os sonhos, foi revelado através da escrita.

Bergman poderia ter lido O Marinheiro de Fernando Pessoa e tê-lo “esquecido”, conservando a imagem sem a referência literária. Assim, ele vê primeiro quatro mulheres que falam algo que ele não entende, depois três, pois a quarta está à morte, justificando a presença das outras, exatamente como na peça estática do português.

Suspeito que a Borges agradaria mais pensar que Bergman não conhecia a obra de Pessoa. Neste caso, a alma dO Marinheiro sonhado pela Segunda Veladora teria penetrado na alma de Bergman para lhe revelar a cena que lhe deu origem. Menos convincente seria a versão em que o personagem sonhado tivesse criado Bergman para que reproduzisse o momento fundador. Menos convincente, dissemos, não impossível. Todos criamos personagens que por sua qualidade onírica chamamos de ficcionais, por que um destes personagens não poderia criar personagens aos que chamássemos de reais?

Segundo esta alternativa, a equação é a seguinte: Fernando Pessoa imagina a Segunda Veladora que imagina O Marinheiro que imagina sua autobiografia para incluir Bergman, a quem revelará a cena que lhe deu origem para que a conte ao seu modo.

Assim como o palácio de Kublai Khan persiste em ser arquitetura, O Marinheiro persiste em sua natureza literária, pois:

Spinoza entendió que las cosas quieren perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere ser piedra y el tigre tigre. (Borges. p. 347)

O périplo deste sonho sueco-português talvez seja mais breve para oferecer ao leitor contemporâneo uma visão panorâmica do funcionamento do sistema. Atenderia, também, à poética de Borges, que sempre preferiu resenhar romances não escritos a escrever o próprio romance.

Desconfio que este marinheiro não deve ser aquele muito jovem do Nordstjärnan, de Malmö, descartado por Emma Zunz. Sequer o outro, mais baixo do que ela e grosseiro, que sem saber colaborou com a vingança frustrada desta discípula de Sófocles. Com certeza este marinheiro menos que o outro, pois não é improvável que seja finlandês. (Borges. p. 49) Demais, isto aconteceu numa Buenos Aires mítica e O Marinheiro de nossa história faz a rota Lisboa-Estocolmo.

BIBLIOGRAFIA

BORGES, Jorge Luis. Prosa Completa.  Barcelona: Bruguera, 1980, vol. 2.

PESSOA, Fernando. “O Marinheiro” in Obra Poética. R.J.: Aguilar, 1965.

PIGLIA, Ricardo. “Borges: a arte de narrar”. In: Schwartz, Jorge (org.). Borges no Brasil. São Paulo: UNESP, 2001, pp. 17-34.

Uma resposta

  1. “Apesar do palácio ser da matéria de que são feitos os sonhos, foi revelado através da escrita.” Foi Borges quem conta ter sonhado ser sheakespeare, não?

    Gostei muito
    Grande Abraço
    Lucas Paolo

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