Arquivos Mensais: março \31\UTC 2010

“CHANINHA” palavra escrita em cartilha de alfabetização gera polêmica no Rio

Sindicato questiona uso de ‘chaninha’ com sentido de par de chinelos. Editor alega que usa método fônico e que se trata de regionalismo.


“Eu suo na chaninha / Aí, ela cheira mal / Ela cheira a chulé”. Retirados de uma cartilha de alfabetização, utilizada na rede municipal do Rio, os versos têm causado polêmica no Rio de Janeiro. Questionando o duplo sentido da palavra “chaninha”, o Sindicato Estadual dos Professores de Educação do Rio (Sepe) resolveu denunciar o caso ao Ministério Público e pretende suspender a distribuição da obra, porque, no estado, a palavra designa a genitália feminina.

No texto, o personagem chama de “chaninha”, seu par de chinelos. Diretor do Instituto Alfa e Beto, responsável pela confecção das cartilhas, João Batista de Oliveira afirma que as críticas são políticas.
“Esse texto existe em cartilhas de todo o Brasil há dez anos e nunca houve problemas. O professor tem como função explicar e tem que estar atento à polissemia. O que não pode é colocar palavrão no livro. Mas uma mesma palavra pode ter vários sentidos em vários lugares. Chaninha é, em muitas cidades do interior, sinônimo de bichano”, explicou Batista.

“Uma coisa são obras literárias, com regionalismos, outra são livros didáticos, que devem trazer a realidade do aluno. E a palavra chaninha, com o sentido de chinelo não está dentro da realidade de um aluno de escola municipal do Rio de Janeiro. A cartilha apresenta métodos atrasados, questionáveis”, rebate Susana Gutierrez, diretora do Sepe.
Metodologia
Segundo a secretaria de Educação, o programa utiliza o método fônico, que parte dos fonemas da língua para ensinar a ler e escrever.

“O texto em questão é um dos diversos que apresentam palavras com fonema grafado com ch e deve ser analisado dentro de um contexto que inclui, entre outros aspectos, as ilustrações. Considerando o contexto, não cabe a análise e os significados atribuídos a palavras isoladas e que, na expressão em questão, houve interpretação subjetiva e que as imagens do livro excluem a possibilidade dessa interpretação equivocada”, afirma a secretaria, em nota.

Alícia Uchôa

Do G1

A R E C O N Q U I S T A D O I M P É R I O – por jorge lescano / são paulo

— Meu fiel Pancho, devo dizer-lhe que o seu romance é um amontoado de dislates, mera perda de tempo. Se a intenção foi troçar do leitor temo que não consiga o seu objetivo: nenhum editor correria o risco de manchar sua reputação publicando este original — Alonso Gómez falava voltando da escrivaninha de onde retirara um bloco de papel encadernado com espiral. Sentou-se, apoiando o volume no colo e abandonou a mão sobre a capa de plástico transparente.

A mão era suntuosa, dedos finos e pálidos, obra de um maneirista italiano, Pancho Escudero olhava-a fascinado, como se estivesse exposta no teatro de Madame Tussaud ou tivesse fugido de uma antologia de contos.

— Sua Reconquista do Império é impossível, uma empreitada condenada ao fracasso, um verdadeiro absurdo! Entendo o que pretende mas não posso dizer que o tenha conseguido, em todo caso, não o aprovo. Você me conhece, sou rigoroso, não dogmático. Penso que não basta reler o passado, é necessário extrair dele algo de positivo para as futuras gerações — batia com a unha esmaltada do indicador nas grandes letras vermelhas do título.

O vidro escuro da janela abafava o rumor do mundo: enchentes, desmoronamentos, terremotos, tiros, promessas eleitorais…  Gómez abriu o volume ao acaso e apontou o início de um parágrafo.

— É necessário e justo identificar o Império Britânico com Jack, o Estripador? E o que simboliza o Papa  tentando seduzir Joãozinho na Alemanha? O autor não deve explicar sua obra, isto é de praxe, contudo, meu amigo, na oficina todo movimento e cada ferramenta têm que ter uma função precisa no árduo trabalho de fazer a máquina andar.

— O que escrevo não deve ser considerado literatura — disse Escudero soturnamente –, a menos que incluamos nesta categoria os manuais de circuitos elétricos, ou, se quiser, os vasos sanitários no ramo das belas artes.

— À medida que o texto se desenrola multiplicam-se as incongruências. — a mão alabastrina regia o ritmo das palavras —             O desleixo invade e deforma a trama. — apontava a capa do volume onde um rei de farsa parecia dialogar com o verdugo numa paisagem paradisíaca. — Onde o estilo, a …  ah!…? — engasgou.

A Reconquista do Império era um espetáculo, no mínimo, curioso. Nele se encontravam todas as estéticas havidas desde a Grécia Clássica — invenção da Itália renascentista, na opinião de Escudero — até os primeiros exercícios do curso básico das escolas profissionalizantes de teatro. Isto, bem mirado, era absolutamente coerente com o significado da obra. A crítica, porém, obstinava-se em não perceber, ou se negava a admitir, que o império do título estava no palco e abarcava todas as acepções de tempo e espaço. As locações se davam em pólos turísticos, à maneira dos best-sellers mais vendidos (sic), os personagens eram figuras exóticas, ou excêntricas ao gosto da época, tudo isto saciava a fome de novidade reclamada pelo público saturado dos mexericos dramatizados pelo telejornal.

— Manco Cápac contracena com Eróstrato na Macedônia, o ministro Goebbels aconselha Confúcio sobre democracia em Cabul e bons costumes na Bagdá ocupada, enquanto o matemático inglês estupra Alice mil e oitocentas e trinta e três vezes nas gélidas Ilhas Argentinas. Por que, valha-me Deus?!

— O absurdo tem uma lógica própria, e não é, como se acredita comumente, um amontoado de incongruências. Estas, aliás, podem servir para pôr em evidência a lógica do absurdo. Sintetizando: neste caso o Absurdo se manifesta por oposição à incoerência do texto. Sutil demais? É Absurdo porque não respeita a lógica do incongruente e age de acordo com suas próprias leis, que podem mudar segundo as necessidades da ação. Yes!, meu caro Gómez, há algo de método nesta loucura.

O autor da trama sabia muito bem que o público olharia para outro lado quando o fato  acontecesse, a bem da verdade, nesse contexto o fato era o menos interessante. Vulgar como a vida cotidiana, disse um cronista. Erro crasso, o que se interpretava como mimese era o verdadeiro. Até a noite do crime e talvez depois, os críticos consideravam esta cena a pior de todas porque introduzia elementos de realismo onde, segundo eles, só havia loucura e incompetência. O brilhante detetive recrutado numa universidade italiana interpretou o fato como seqüela do enredo: o crime aconteceu porque a cena criou a ocasião. A partir daí toda sua teoria é correta, porém, a premissa, falsa. O crime não aconteceu porque a cena o permitia senão porque a cena fora criada intencionalmente.

Ali não havia nada da cortesia do ator que para não ofender os colegas preferia brigar com o porteiro do teatro e assim desatar a fúria de Lear no palco, nada do rigor daquele outro, que extraíra quatro dentes para que o seu chimpanzé fosse convincente ao informar à Academia, sutilezas dramáticas geradas pela leitura deficiente do russo. Nada havia da superficialidade dos seriados de televisão, que banalizam o narcotráfico, tema épico da atualidade, na opinião de Escudero. Nada, enfim, que aproximasse A Reconquista do Império de certos filmes de ficção interplanetária onde os alienígenas que visitam ou invadem a terra, se bem são capazes de criar imensas e sofisticadas naves, preciosismos que desafiam a engenharia de efeitos especiais, não portam cabelo nem orelhas nos crânios, isto, vá lá, é a moda dos maquiadores ETs, mas tampouco possuem traje algum, sequer gravata, suas vestes são conforme às dos indígenas visitados pelos europeus na América. Como foi dito e visto, nada disto acontecia no original em pauta.

A seqüência do crime, não esqueçamos, fora criada a partir de uma sugestão do coadjuvante, telespectador ferrenho, que alegou que seu papel era secundário e se sentia relegado pela companhia. Não esqueçamos que o autor contava com o sucesso da peça para garantir a sobrevivência. O ator viola sua interpretação realista — isto não foi esquecido pelos críticos — e enxerta um à parte no qual declara, no círculo de luz do palco escuro, que é um homem invisível. A platéia ri nesta passagem. De fato o ator nega  o principio de identidade, segredo de sua interpretação, trata-se de um caso de ser e não ser. O crime contra o teatro ocultava o verdadeiro crime, disse o assassino em sua confissão televisionada.

— Este o Absurdo porque único momento verdadeiro da novela — explica o autor.

Eu, por mim, entre as armas e as letras dou uma de Miguel: sou sempre pelas letras — Gómez sorri, divertido pelo próprio engenho –, contudo, meu filho, no caso o uso de citações e a morte do protagonista são excrescências. — Neste momento você percebe que o que parecia um cachimbo nas mãos de Pancho Escudero é um revólver.

— Desta vez você errou, papai  — diz Escudero, a mão firme, sorriso matreiro –, pensou que ele apenas estava citando o belga, correto?

Alonso Gómez ouve estas palavras com o rosto submerso nas primorosas mãos e eu deponho a pena de ganso no tinteiro, pois como o intrépido leitor já terá deduzido, esta é uma história do século XIX.

VENTILADOR DE PROMESSAS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Todo candidato é um santo canonizado. Deseja sinceramente enxugar o suor do operário, lenir a mão do agricultor, adubar o salário do professor, consolar os sem-terra e os sem-teto, mitigar a fome dos descamisados, distribuir leite, emprego, felicidade, cartão de crédito e estacionamento para todo mundo.

São tão inconfundíveis os sintomas de uma candidatura quanto os suspiros de uma paixão. O candidato anda pelas ruascurvado, a apertar mãos, a fazer bilu-bilu em criancinhas e a ligar o seu pródigo ventilador de promessas.

Não se conhece homem mais puro e mais bem-intencionado do que o candidato. Mas há um certo mecanismo que, num determinado instante entre a eleição e a posse, transforma o bom candidato num Ali Babá, num Arséne Lupin, num José Roberto Arruda. Eleito, o sujeito começa a enxergar o erário como a permissiva bolsa de uma “viúva” indefesa.

E há, para dourar essa predisposição de assédio do cofre, o singular conceito ibérico de que os “recursos públicos” pertencem “a quem chegar primeiro”. O dinheiro dos impostos seria um bem de propriedade difusa e incerta, “não é de uma pessoa, nem de ninguém”, logo, “se eu pegar um pouquinho pra mim não será um mal tão irreparável assim”…

Dono de um mandato, executivo ou legislativo, o candidato, agora titular de representação popular, manda os representados às favas e vai tratar do seu patrimônio. Nada menos do que “assustadora” a lógica dos beneficiários do “mensalão”, descrita pelo seu primeiro delator, Roberto Jefferson:

– Alguns parlamentares chegaram para mim e disseram: vocês não vão pegar? Por quê? Por acaso são “melhores” do que nós?

Implícita na interpelação, a plena consciência de que se tratava de uma atividade marginal, e que eles, os “mensalistas”, sentiam-se ultrajados com a recusa de colegas que se atreviam a “posar de honestos”. Aliás, dentro desta mesma lógica do crime, uma deputada de Rondônia já dissera a um governador, igualmente facinoroso:

– Você sabe que o mundo é assim… Nem você nem eu poderemos mudá-lo.

Há candidatos que se acham corretos, e que se contentam com “recompensas” menos explícitas. Que mal há em indicar uma pessoa de sua confiança para uma estatal? E que mal há em conseguir, na próxima eleição, que os seus impressos sejam produzidos lá na gráfica dessa empresa, que é pública mesmo…

É o tal “paradoxo do brasileiro”, de que nos fala o economista Roberto Gianetti da Fonseca: “Ninguém pactua com o mar de lama, o deboche e a vergonha da nossa vida pública e comunitária. O problema é que o resultado final é esse que está aí!”.

Quantas CPIs serão necessárias para acabar com o “mensalão”? Poderemos colecionar dezenas, mas a “moral vigente” em nada se modificará se os parlamentares continuarem a aceitar “negócios” para saltar de um partido para o outro.

Sem uma reforma política que moralize o mandato parlamentar e garanta a sua integridade, os “mensalões” mudarão de nome, mas não de “práxis”. Sem uma reforma que valorize a agremiação política – em que esta comprove sua “densidade eleitoral” e não seja um mero partido de aluguel –, o Brasil pós-mensalão será apenas um sonho.

Resta-nos saber se os que se tornaram viciados em “mesada” aceitam reformar toda a estrutura, ou, como de hábito, contentar-se-ão em retirar o sofá da sala.

REI E RAINHA de rodrigo de haro / florianópolis


Os reis estão fatigados

Rei e Rainha dormem lado a lado

Na urna de vidro

Estreitamente unidos debaixo da nuvem.

.

Em algumas estampas

A mulher enlaça o homem pela cintura

Com pernas delgadas de rã

E seu leito por ser uma corrente

Que suspeito de enxofre

Suas almas são estes dois pássaros

Que sobem para o sol

Endoidecidos

Rei e Rainha cintilam caninos pontiagudos

Já partido o prato em que comiam

Já partida a urna em que dormiam.

se eu morrer ontem… – de julio saraiva / são paulo


se eu morrer ontem

e você por acaso acordar

hoje cedo com vontade

de chorar

não chore não

esquece

não vou estar por perto

e nem ninguém vai

reparar

ponha um vestido

indiano

ouça um samba do adoniran

ou do paulo vanzolini

não passe de 2 dry martinis

pra coisa não desandar

pense que vivi o bastante

pra quem viveu por

engano

como um sincero

farsante

poeta

não fui dos piores

menos príncipe mais sapo

dei cores aos meus

horrores

se eu morrer ontem

diga

aos interessados

que os convites para o

enterro

estão todos

esgotados

GAUCHE de hamilton alves / florianópolis

Dificilmente, aparecerá na cena da poesia brasileira (por que não dizer mundial) um poema que comece ou se formule assim:

”Quando nasci um anjo torto,

Desses que vivem na sombra,

Me disse: – Vai, Carlos, ser gauche  na vida”.

Embora sejam um poema por si mesmos ou por sua constituição, esses três versos constituem uma parte (a inicial) de um poema maior, de Carlos Drummond de Andrade, com o título ”O poema das sete faces”.

Alguns versos de Drummond se caracterizam por serem absolutamente portadores de uma voz nova. Sem dúvida, criou um modelo de conceber o poema, que não ficava mais adstrito aos rigores da rima ou do metro, mas que tinham uma organização ou arquitetura próprias.

Esses versos, estampados na abertura desta crônica, bem refletem esse estilo simples e direto, não subordinado a qualquer princípio de versificação conhecido. É por excelência uma coisa livre, que vai direto ao tema ou ao objetivo ou ao que se propõe.

Drummond esmerou-se nessa maneira de dizer sem rodeios ou sem artifícios. Criou uma linguagem poética, que jamais foi praticada entre nós ou mesmo, que se saiba, por poetas de outros países.

Só para citar um exemplo dentre muitos: a concepção de “José”, que considero um dos mais belos poemas da poética mundial, segue esse feitio de originalidade, tanto no que concerne ao fundo quanto à forma. Sucede que, quando um grupo de experts (não tão experts assim) julgou os melhores poemas do século XX, promovido esse juri por um jornal brasileiro, “José” não figurou entre os dez melhores do mundo, tendo Fernando Pessoa contribuído com dois poemas e Eliot com mais dois na lista dos escolhidos, em detrimento do valor insuperável de “José”, que ultrapassa sua condição de poema para se constituir numa proposta metafísica das mais belas que conheço.

“José”, além do mais, era a nova fórmula revolucionária que mudou a cara da poética nacional. Quiça, como disse, mundial.

O poema passou a ser concebido como nunca dantes houvera sido. A fórmula drummondiana trazia uma sensível mudança no tratamento do verso, uma espécie de mensageira de uma outra estética, em que uma simples frase, lançada ao ar, trazia em si a chave para abrir as portas da beleza.

UMA LUZ EM 2010 por alceu sperança / cascavel.pr

“O dinheiro não é apenas um dos objetos da paixão de enriquecer, mas é o próprio objeto dela. Essa paixão é essencialmente auri sacra fames (a maldita ganância do ouro), faz com que as pessoas vivam em torno de uma medíocre vida, ocasionada por necessidades impostas, gerando uma rotina alienada” “O que caracteriza a economia política burguesa é que ela vê na ordem capitalista não uma fase transitória do progresso histórico, mas a forma absoluta edefinitiva da produção social” “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, portanto, as relações de produção, isto é, todo o conjunto das relações sociais. Esta mudança contínua da produção, esta transformação ininterrupta de todo o sistema social, esta agitação, esta perpétua insegurança distinguem a época burguesa das precedentes. Todas as relações sociais tradicionais e estabelecidas, com seu cortejo de noções e ideias antigas e veneráveis, dissolvem-se; e todas as que as substituem envelhecem antes mesmo de poder ossificar-se” “A classe capitalista rasgou o véu sentimental da família, reduzindo as relações familiares a meras relações monetárias” Em 2010, as pessoas que sonham com uma nova sociedade neste planeta vão desenvolver uma série de atos comemorativos aos 190 anos de nascimento do filósofo Friedrich Engels (1820–1895). Evidentemente, as pessoas que teimam em manter o mundo injusto como ele é atualmente também vão promover uma série de atos, com a finalidade de tentar liquidar a ascendência das ideias marxistas, das quais Engels foi um dos primeiros e mais importantes divulgadores, além de coautor, sobre a juventude e a intelectualidade progressista. Não suportam que alguém nascido há quase 200 anos ainda tenha algo a nos dizer. Talvez seja por isso que tantos odeiam Cristo, Maomé, Buda. Não suportam a pregação que eles fizeram de um mundo em que os homens vivam em harmonia, não uns devorando os outros, na atual supremacia da teoria hobbesiana. Quando pilantras de todos os calibres reprimiam os intelectuais e os trabalhadores com um falso medo do “fantasma do Comunismo” (expressão cunhada por Marx e Engels no Manifesto de 1848), já estava claro que as monumentais ideias de Marx seriam combatidas a ferro e fogo, pois elas não são palavras ao vento: partem do passado para chegar ao presente e insinuam um futuro que evidentemente não agrada aos donos do mundo e sua neoescravidão – uma escravidão em que as pessoas, amarradas pelos grilhões da ideologia, sequer conseguem ver que são controladas pelos criadores da infelicidade. Nós diremos em novembro de 2010, quando se completam os 190 anos de nascimento de Engels, que ele, tal qual Marx, mantém ainda hoje uma lanterna acesa para nos mostrar o caminho da revolução. Já os que adoram o mundo como ele está dirão que nossa lanterna se apagou com a primeira pichação feita por um nazista no túmulo de Marx. Por isso, nos 190 anos de nascimento de Friedrich Engels, nós mais uma vez levantaremos a lanterna e os capitalistas tentarão quebrá-la com suas pedras de ouro. Mas, como diria Marx, isso é da dialética. Vamos ao debate, pois é dele que de fato virá a luz necessária para que possamos construir a nova sociedade ainda neste século.

ENXURRADA de tonicato miranda / curitiba


para Jane

.

Muitos erros cometi na vida

Não tivesse me unido a você, mulher…

nem tivesse vivido tantos anos até…

ou fugido de certas oportunidades…

nos mudado de tantas cidades

Não tivesse feito aquela promessa

nem tivesse viajado a beça…

ou aberto Escritório em Blumenau…

longe de você, meu bem, meu sal…

Enfim…

…se não tivesse vivido.

Pois esta é minha vida,

com ela você desce

Desce o rio do tempo comigo,

como numa grande enxurrada

Não, não sou o rio, apenas a

árvore arrancada da margem

Meu erro?

Ter deixado a semente cair

muito perto da margem

Queria olhar o rio passando,

mirar o horizonte sem nada à frente,

olhar seu olhar passando de barco,

e acompanhar as promessas dele

que se foi com o barco, mas depois voltou

para se plantar comigo, na margem do rio

Assim pudemos olhar muito pôr-do-sol

até esta enxurrada nos arrancar

levando-nos rio abaixo em direção ao mar

Quem sabe ainda não ancoremos

próximos da praia depois de muito rolar?

Quem sabe caranguejos venham mais tarde

se abrigar junto às nossas raízes?

Quem sabe o mar não venha com conchas

e elas conversem quando ele se retirar?

Por isto, não quero mais ficar a cantarolar

esta é minha vida, seja bem vinda, mulher

Ao longo dela você é a bela passageira

Saiba que como condutor ou piloto tenho,

por vezes, ótimo serviço de bordo, aproveita

Apenas não sei como lhe abraçar e proteger

quando o rio desce pelas barrancas

e o mundo parece de cabeça para baixo virar

Mesmo assim terei minha mão e meu olhar

para lhe segurar ainda que afundemos

e depois finquemos nossas raízes nas margens

para virar na eternidade dois belos jatobás

MARGARIDA de joanna andrade / miami.usa

Bem-me-quer Mal-me-quer bem-me-quer Mal-me quer

OH, ele nao me ama, e agora?

Deixa eu despedaçar outra flor,

Bem-me-quer Mal-me-quer Bem-me-quer Mal-me quer Bem-me-quer

BEM –ME-QUER , que bom!

não é preciso mais nada,

um jardim repleto,

basta!

–  pétalas em pedaços em um tempo seja lá como for…….

Magnífico!

É no contar do mal-me-quer que o vento demora a passar.

-Uma gota sela a pétala ao chão……

O ANJO VINGADOR de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


anjo vingador tenho planos

contra o deus capital

planos ações exercícios de vida e morte

muito suor e sangue pelos poemas

golpes no vazio com catanas de bambu

estilhaços nos espelhos coices nos

pit bulls

pedradas em piscinas ricas

inócuos teus tentáculos polvo

estrangulador

inócuas tuas babas no café da manhã

inócuos teus cartões de crédito

sendas senhas

ao fundo do mar destino tua lábia

uma urna de concreto em lacre

circulada de peixes lemptos

como um navio naufragado

anjo vingador anjo do paraíso na terra

depois do intenso trabalho

vivo grandes momentos do espíritho

componho odes singulares

silogismos poéticos criptogramas

nada te mostro dessa vez

:segredos erigidos em armas:

não sobrará papel sobre papel

de teus vis engenhos.

ZEZÉ e SIMÕES convidam / curitiba

SONHO PAGÃO de vera lúcia kalaari / portugal

De noite,

Nessas noites mornas e lentas,

Iluminadas pela lua sensual,

Quando as flores se abrem languescentes,

De corolas abertas, carnais,

Como corpos que se entregam

Vou, como uma deusa pagã em desvario,

De narinas dilatadas,

Procurar o excitante odor da tua pele.

A boca sedenta, quer beber-te no ar em brasa…

Ávido o olhar, busco encontrar-te

Nas trevas que m’envolvem…

Vejo-te em cada sombra que se adensa…

Ouço no canto das fontes,

A tua voz, que desconheço…

Tem o langor deste desejo que voa até ti…

Quebro de raiva os ramos que me ferem,

sôfrega dos teus beijos…

Piso…Mastigo as folhas secas que m’acolhem

Com a ilusão de morder-te a carne ardente…

Depois, caída na realidade da minha solidão,

Clamo por ti…

Berro na noite teu nome d’amor…

Aperto em meus braços a forma do teu corpo

E mergulho meus lábios nessa imagem,

Soltando uivos de prazer e desespero…

NA CRUZ por zuleika dos reis / são paulo

Não precisa vir crucificar-me de novo, amigo. Eu mesma já me crucifiquei e estou na cruz há muitos anos. Ao contrário do Arquétipo Divino, sei que eu sou a grande culpada, a grande responsável por todos os equívocos, aquela que se matou e se mata e se deixa matar, por dentro e no cotidiano dos dias, em todos os sonhos que teve, por todas as dores que causou, quase sempre sem ter esta intenção.

Sei que traí nosso destino e o Mistério de porquê o traí jamais o saberemos; sei que traí os meus todos destinos pessoais possíveis. Errei demasiado, eu o sei sem sabê-lo e o sabendo, e errei demasiado em todos os caminhos.

Há coisas e fatos que não conheces, é só o que posso dizer em minha defesa. Não sei se todos os meus companheiros de jornada  –  E TU ÉS O MAIOR DELES – sejam tão completamente inocentes quanto se pensam. Não o sei e não me cabe fazer tal julgamento. Então, só me cabe assumir sozinha a culpa e a responsabilidade por todos os erros e descaminhos.

Não me adianta pedir perdão porque, já o tendo pedido tantas vezes sem o conseguir, parece-me que não faço mesmo jus a ele, perdão. Quem sabe ainda o consiga, a ele, perdão, de um Deus Clemente, que veja mais fundo do que o fundo. Só a Ele, a este Deus, me confio. A Ele, a este Deus Clemente, peço vida, se não por mim, pela mãe que ficou-me nesta vida, para cuidar.

Em 22 de março de 2010.

NILTON DE OLIVEIRA CUNHA lança seu livro “PENSAMENTO e VERDADE – uma nova maneira de pensar a realidade” – CONVIDA:

A ARMA DO JUÍZO FINAL por uri avnery / usa


Não há pior pesadelo para os judeus norte-americanos do que serem acusados de pôr a segurança de Israel acima da segurança dos EUA. Se Obama decidir reagir e ativar sua arma do juízo final – a acusação de que Israel põe em risco a vida de soldados dos EUA – as consequências serão catastróficas para Israel.


Já é lugar comum que, quem não aprende com a história, está condenado a repetir erros.

Há 1942 anos, os judeus revoltaram-se contra o Império Romano na província chamada Palestina. Considerado em retrospectiva, parece loucura. A Palestina era parte pequena e insignificante do império planetário que acabava de impor uma derrota acachapante ao poder rival – o Império dos Partos (a Pérsia) – e vencera também uma grande rebelião na Britânia. Que chances teria a revolta dos judeus?

Sabe Deus o que passaria pela cabeça dos Zelotes. Mataram os líderes moderados, que alertavam contra provocar o império, e ganharam prestígio entre a população judaica local. Confiavam em Deus. Talvez confiassem também nos judeus de Roma e acreditassem que a influência deles sobre o Senado conseguiria segurar o imperador, Nero. Talvez tivessem ouvido dizer que Nero estava enfraquecido, a beira de ser derrubado.

Sabe-se como acabou: depois de três anos de luta, os rebeldes foram esmagados, Jerusalém caiu e o templo foi reduzido a cinzas. Os últimos Zelotes suicidaram-se, em Massada.

Os sionistas bem que tentaram aprender com a história. Agiram de modo racional, não provocaram as grandes potências, trabalharam para obter o que fosse possível em cada caso. Fizeram concessões e cada concessão serviu-lhe de base para andar adiante. Inteligentemente usaram o radicalismo de seus adversários e conquistaram a simpatia do mundo.

Mas desde o início da ocupação, a mente dos sionistas parece mergulhada em trevas. O culto de Massada tornou-se dominante. Promessas divinas voltam a desempenhar função importante no discurso público em Israel. Partes significativas do público seguem hoje os novos zelotes.

E a fase seguinte também já começa a repetir-se: os líderes de Israel estão começando a rebelar-se contra a nova Roma.

O que começou como insulto ao vice-presidente dos EUA já se converte agora em algo muito maior. O camundongo pariu um elefante.

Nos últimos tempos, o governo de ultra direita em Jerusalém começou a tratar o presidente Obama com mal disfarçado desprezo. Os medos que ainda havia em Jerusalém no começo de seu governo dissiparam-se. Para eles, Obama é uma pantera negra de papel. Até desistiu de exigir verdadeiro congelamento das construções nas colônias. Cada vez que lhe cuspiram na cara, Obama comentou que começava a chover.

Agora, ostensivamente de repente, a paciência esgotou-se. Obama, seu vice-presidente e seus principais assessores condenam, cada dia com mais severidade, o governo de Netanyahu. A secretária de Estado Hillary Clinton impôs um ultimato: Netanyahu tem de por fim a toda e qualquer construção nas colônias, também em Jerusalém Leste; tem de começar a negociar os problemas centrais do conflito, inclusive Jerusalém Leste, e mais.

Surpresa total em Israel. Foi como se Obama cruzasse o Rubicão, quase como o exército egípcio cruzou o canal de Suez em 1973. Netanyahu deu ordem para mobilizar todas as reservas de Israel nos EUA e avançar todos os blindados diplomáticos. Todas as organizações de judeus nos EUA receberam ordens de unir-se à campanha. O AIPAC fez soar as cornetas de chifre de carneiro e ordenou que seus soldados, no Senado e na Câmara, atacassem a Casa Branca.

Parecia que ia começar a batalha decisiva. Os líderes israelenses tinham certeza de que derrotariam Obama. Mas então, de repente, ouviu-se um som estranho: o som da arma do juízo final. O homem que decidiu ativá-la é inimigo de novo tipo, que ainda não se vira em Israel.

David Petraeus é o oficial mais popular do exército dos EUA. General de quatro estrelas, filho de um capitão do mar holandês que emigrou para os EUA quando seu país foi ocupado pelos nazistas e lá viveu toda a vida, desde a infância. Foi “distinguished cadet” na academia militar de West Point e primeiro colocado na Escola de Alto Comando do Exército. Como comandante em combate, só colheu elogios. Escreveu sua tese de doutoramento (sobre as lições do Vietnã) em Princeton e trabalhou como professor-assistente na cátedra de Relações Internacionais na Academia Militar dos EUA.

No Iraque, comandou as forças em Mossul, a cidade mais problemática de todo o país. Concluiu que, para derrotar aqueles inimigos, os EUA tinham de conquistar corações e mentes da população civil, ganhar aliados locais e gastar mais dinheiro que munição. A população local conhecia-o como “Rei David”. Seu sucesso foi considerado tão significativo, que seus métodos incorporaram-se à doutrina oficial do exército dos EUA.

Sua estrela ascendeu rapidamente. Foi nomeado comandante das forças da coalizão no Iraque e logo se tornou chefe do Comando Central do exército dos EUA, que cobre todo o Oriente Médio exceto Israel e Palestina (os quais ‘pertencem’ ao comando norte-americano na Europa).

Quando Petraeus fala, o povo dos EUA ouve. Como pensador de questões militares, não tem rivais.

Essa semana, Petraeus enviou mensagem claríssima: depois de examinar os problemas de sua Área de Responsabilidade [ing. Area Of Responsibility, AOR] – que inclui, além de outros setores, o Afeganistão, o Paquistão, o Irã, o Iraque e o Iêmen – chegou ao que chamou de “causas de raiz da instabilidade” na região. O primeiro item dessa lista é o conflito Israel-Palestina.

No relatório que Petraeus encaminhou ao Comitê das Forças Armadas, lê-se:

“As intermináveis hostilidades entre Israel e alguns de seus vizinhos implicam desafios específicos à nossa habilidade para obter avanço no rumo de nossos interesses na AOR. (…) O conflito fomenta o sentimento anti-norte-americano, porque se percebe que os EUA favorecem Israel. A fúria dos árabes motivada pela questão palestina limita a força e a profundidade das parcerias que os EUA construam com governos e povos na AOR e enfraquece a legitimidade de regimes moderados no mundo árabe. Simultaneamente, al-Qaeda e outros grupos militantes exploram essa fúria e assim mobilizam apoios. O conflito [Israel-Palestina] também faz crescer a influência do Irã no mundo árabe, mediante seus clientes, o Hizbollah libanês e o Hamás.”

Como se não bastasse, Petraeus enviou seus oficiais para que apresentasse essas conclusões ao Conselho dos Comandantes do Estado-Maior.

Em outras palavras: a paz entre palestinos e israelenses não é questão específica de dois grupos, mas assunto que envolve o superior interesse nacional dos EUA. Isso significa que os EUA têm de alterar o apoio cego que tem dado ao governo israelense e deve impor a Solução de Dois Estados.

O argumento, como tal, não é novo. Muitos especialistas já disseram aproximadamente a mesma coisa. (Imediatamente depois dos ataques de 11/9, escrevi também nessa direção e previ que os EUA teriam de mudar suas políticas. Daquela vez, nada aconteceu.) Mas agora, a mesma ideia aparece em documento oficial redigido pelo comandante norte-americano responsável.

O governo Netanyahu imediatamente entrou em modo de redução de danos. Os porta-vozes disseram que Petraeus tenta impor sua visão estreita; que nada entende de questões políticas; que o argumento é falho. Nem por isso conseguiram impedir que, em Jerusalém, muitos começassem a suar frio.

Todos sabemos que o lobby pró-Israel domina sem limites o sistema político nos EUA. Isso, ou quase isso. Todos os políticos e altos funcionários norte-americanos morrem de medo dele. O menor desvio do roteiro prescrito pelo AIPAC, implica suicídio político.

Mas há um ponto fraco na armadura desse Golias político. Como Aquiles no calcanhar, esse descomunal lobby pró-Israel tem um ponto vulnerável o qual, se atingido, pode neutralizar todo o seu poder.

Boa ilustração desse fenômeno é o caso Jonathan Pollard (relacionados a eventos ocorridos em 1983-1984). Esse judeu-norte-americano era empregado de uma importante agência de serviços de inteligência e espionava para Israel. Para os israelenses, era herói nacional, um judeu que cumpria seus deveres de judeu. Mas para a comunidade de inteligência dos EUA, não passava de um traidor que pôs em risco a vida de vários agentes norte-americanos. Não satisfeitos com as penalidades de rotina, os EUA induziram a corte de justiça a condená-lo à morte [1]. Desde então, todos os presidentes dos EUA têm recusado os repetidos pedidos do governo de Israel para que a sentença seja comutada. Até agora, nenhum presidente norte-americano atreveu-se a confrontar os altos setores da inteligência dos EUA, para os quais Pollard é criminoso e merece a sentença de morte.

O aspecto mais significativo desse caso faz lembrar o famoso comentário de Sherlock Holmes, sobre cachorros que não latiram certa noite. No caso Pollard, o AIPAC não latiu. Silêncio. Toda a comunidade dos judeus norte-americanos manteve-se (e assim continua até hoje, 25 anos depois!) calada. O AIPAC jamais defendeu Pollard.

Por quê? Porque a maioria dos judeus norte-americanos está sempre disposta a fazer absolutamente tudo – tudo! – pelo governo de Israel. Com uma única exceção: jamais farão coisa alguma que dê a impressão de ferir a segurança dos EUA. Basta que suba a bandeira da segurança, e todos os judeus, como todos os norte-americanos, perfilam-se e batem continência. A espada de Dâmocles da suspeita de deslealdade pende sobre as cabeças dos judeus norte-americanos. Não há pior pesadelo para eles do que serem acusados de pôr a segurança de Israel acima da segurança dos EUA. Exatamente por isso, é vitalmente importante para os judeus norte-americanos repetirem eternamente, sem descanso, o mantra que reza que os interesses de Israel são idênticos aos interesses dos EUA.

E então, agora, aparece o mais importante general do exército dos EUA e diz que não está sendo bem assim. Que, hoje, a política do atual governo de Israel está, sim, fazendo aumentar o risco de vida que os soldados norte-americanos enfrentam no Iraque e no Afeganistão.

Por enquanto, o assunto tem aparecido só marginalmente, em comentários de especialistas e não está, ainda, na grande mídia. Mas a espada já saiu da bainha – e os judeus norte-americanos já tremem, hoje, só de ouvir o rugido ainda distante desse terremoto.

Essa semana, um cunhado de Netanyahu usou a versão israelense de nossa arma do juízo final. Declarou que Obama seria “antissemita”. O jornal oficial do partido Shas garante que Obama, de fato, é muçulmano. Representam a direita radical e seus aliados; já escreveram que “Hussein Obama, negro que odeia judeus, tem de ser derrotado nas próximas eleições parlamentares e, depois, na próxima eleição presidencial.”

(Importante pesquisa feita em Israel e publicada ontem mostra que os israelenses não acreditam nessas insinuações: a vasta maioria entende que Obama dá tratamento justo a Israel. De fato, os números de aprovação de Obama são mais altos que os de Netanyahu.)

Mas se Obama decidir reagir e ativar sua arma do juízo final – a acusação de que Israel põe em risco a vida dos soldados dos EUA – as consequências serão catastróficas para Israel.

Por hora, parece ter sido disparado um tiro que os destróiers dão para ‘acordar’ a marujada e sinalizar para que outro navio faça o que foi instruído a fazer. O aviso é bem claro. Ainda que a crise atual amaine, não há dúvida de que voltará a incendiar-se outras e outras vezes, enquanto perdurar no poder, em Israel, a atual coalizão de governo.

Quando o filme Hurt Locker foi premiado no concurso Oscar-2010, todo o público norte-americano estava unido na preocupação com a vida dos seus soldados no Oriente Médio. Se esse público convencer-se de que Israel o está apunhalando pelas costas, será desastre completo para Netanyahu. E não só para ele.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:
http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1269137362

Tradução: Caia Fitipaldi, autorizada pelo autor.

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS – de mário de andrade / são paulo

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

.

Em 9 de abril de 2010. (esta postagem na mesma página postada em 23 de março de 2010).

o leitor Helcio J. Tagliolatto, em comentário, alerta o site com relação “a fruta” que consta do texto. que teria sido “trocada” de JABUTICABAS para CEREJAS. fomos pesquisar  e nos deparamos com uma quantidade de “autores” do texto acima O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS. corre na internet como sendo autoria de RUBEM ALVES e de MÁRIO DE ANDRADE e por fim por quem se diz autor do texto cujo nome real seria O TEMPO QUE FOGE de RICARDO GONDIM cuja afirmação publicamos aqui, transcrita de seu blog após um comentário acusando-o de plágio:

Querem roubar e ainda me chamam de ladrão
Ricardo Gondim

Escrevi “O Tempo que Foge”. Alguém o fez circular como de um Autor Anônimo. Depois, disseram que era de Mário de Andrade. Agora, por último, me acusam de tê-lo roubado de Rubem Alves. Insisto, o texto é meu. Eu o escrevi no meu computador, na privacidade de meu ambiente de trabalho e está publicado no meu livro “Creio, mas tenho Dúvidas”, Editora Ultimato.

Recebi um e-mail cobrando explicações. Circulo o conteúdo do mesmo na esperança de que seja feita justiça.

Daisy Almeida
assunto: O texto que o senhor assina é de Rubem Alves
telefone:
mensagem: O texto “tempo que foge” que o senhor assina em seu site é de Rubem Alves. O que ele faz no seu site com sua assinatura embaixo? Como o senhor explicaria isso numa discussão sobre direitos autorais? (tempo que foge)

Prezada Daisy,

Não, Daisy, o texto não é do Rubem Alves. Ele é meu! Eu o escrevi. Está em meu livro “Creio, mas Tenho Dúvidas”, publicado pela Editora Ultimato, com registro no ISBN, consta na página 107.

Portanto, se alguém, inescrupulosamente, atribui o texto a Rubem Alves, está sendo desonesto comigo e com a minha produção intelectual. Inclusive, sugiro que você pergunte diretamente ao Rubem Alves, se é de sua lavra “O Tempo que Foge”. Sendo ele um homem digno, honesto e verdadeiro, certamente, reconhecerá que o texto é meu.

Grato. Como você duvida da minha integridade, lamento, mas o mesmo texto tem sido atribuido a várias pessoas, inclusive a Mário de Andrade.

A única coisa que me resta é esperar que um dia a justiça prevaleça.

Sinceramente,

Ricardo Gondim

para acessar o blog de RICARDO GONDIM clique AQUI

agradecemos o alerta do leitor HELCIO TAGLIOLATTO que terminou por conduzir a duvida além das frutas “trocadas” para  autores “trocados”. lamentalvemente a internet contempla pessoas de má fé. RUBEM ALVES e MÁRIO DE ANDRADE, com absoluta certeza, estão fora dessa lama virtual.

DIÁRIO de ILHÉU – da BRAVA à SOLIDÃO – por ewaldo schleder / florianópolis

Florianópolis. Floripa. Este, aliás, um diminutivo perfeito; ablação semântica já consagrada pelo uso popular. Tanto como Curita ou Sampa – e certamente há outras urbes assim abreviadas mundo afora. Alcunhas não; como cidade luz, cidade canção. Nem capitais marqueteirizadas: da uva, do café, das flores, da batata, do agrião, do quiabo, do xuxu. Tampouco aquelas a revelar uma certa privacidade, uma incerta posse íntima, a exemplo do Rio, Porto, Campo, Cabo.

Floripa. Hoje já posso pronunciá-la, depois de cruzá-la de ponta a ponta. Longe de ser uma proeza, menos, uma pequena conquista pessoal; de justificado apreço; fruto da estrada alegre, regada a trabalho e ócio, de olhar as curvas dos cerros contornadas pelo céu luminoso da tarde quente. Essa a cidade-ilha que – mal conheço – corro e descubro. Da Praia Brava, extremo norte, à Praia da Solidão, extremo sul.

Sinto já saudade daquela montanha da Brava. Mas que apego esse?! , se aqui na Solidão tem morros por todos os lados?! Daí você vê como a dinâmica da vida sempre nos traz algo novo: basta querer que o novo chegue, antes de tudo. E ele vem nas formas do surpreendente, do inesperado: ele – o novo – surge no horizonte, como luz no meio do túnel, não feito uma corda no raso do poço.

Andar com alguma coisa leve na cabeça, pés no chão e mapa nas mãos. Atenção ao vento e às estrelas. Driblar sempre a condição de turista, de consumidor inveterado, ir buscar tão-somente o sossego do espírito, o repouso do corpo: esta carcaça única, tão sacolejada, a pobre, ao longo desses anos-luz todos.

Administrar a displicência, disciplinar a indisciplina, estudar a quietude do vazio, escutar, deixar de interpretações para apenas ouvir esse mantra natural e selvagem: o barulho do mar; das ondas a quebrar nas dunas molhadas. Abrir bem os olhos, respirar fundo, encher de nada o todo, completando de tudo o nada.

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praia da solidão.

ilustração do site. foto livre na internet.

BICHO PREDILETO – por tonicato miranda /curitiba


Prezado Hamilton,

Desde o dia doze de Janeiro não lhe escrevo. Não nos comunicamos desde aquele momento de ousadia em que cismei em meter a colher, o açúcar; e até molhar o biscoito, na sua brilhante crônica de ano novo. É claro, você, com direitos e pompa, recusou qualquer interferência. Pois deixemos o passado guardado nas gavetas do tempo.

Agora vejo no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS que você, pela segunda vez, fala em predileção por bichos. Também por uma segunda vez fala da sua preferência pelo urubu. E mais, propõe fundar a SAU (Sociedade de Amigos do Urubu). Devo dizer que mesmo tendo convivido com tais bichos desde minha infância no Grajaú, no Rio de Janeiro, onde sempre proliferavam tais aves, desde o mangue até os morros que cercam toda a cidade, jamais tive muito apreço por eles e não poderei ser sócio ou parceiro nesta sua confraria.

Ocorre que o urubu é o bicho símbolo do maior rival do meu time do coração. Aquele cujo nome me recuso citar nesta carta-crônica. Apesar disto afirmo não gostar também da cartola atribuída ao meu time, o Fluminense. Prefiro a associação que nos fazem ao pó de arroz. Mas também compreendo ficaria difícil adotar o pó de arroz como símbolo do nosso time. Isto porque ele é meio intangível, sem forma, soando mais como atitude, não como uma imagem palpável.

Mas retornando aos bichos-símbolos estou aqui caraminholando sobre prováveis bichos de minha predileção. Ou ainda que tenham ou tiveram comigo alguma afinidade. No entanto, não encontro um capaz de representar todo meu afeto. Pensei inicialmente na tartaruga, virada para cágado, presença constante na minha infância, na casa dos meus avós. Não, não serve. Ela era deles, não minha. Jamais lhe fiz carinhos. Apenas a observava à distância com medo dos seus recuos abruptos para dentro da casca dura.

Em seguida pensei nos cachorros. O primeiro deles não era igualmente meu. Pertencia a um tio. Seu nome: “Zurich”. Era um bulldog folgadão que se sentava à beira de um quarto de televisão vizinho de grande pátio coberto. Era tão próximo à família que por vezes ousava adentrar o recinto, sentando-se no limiar da soleira entre os dois espaços. Quando alguém deixava escapar gases nada agradáveis inadvertidamente, a maioria deles do meu próprio tio, era acompanhado de um “Sai fora Zurich!” Pois bem, este e outros fatos lavaram-me a me afastar por um bom tempo dos cães. É claro que mais tarde tive outros cachorros maravilhosos a quem me afeiçoei. Mas não chegam eles a balançar-me as emoções a ponto de cravá-los como prediletos, assim como os gatos, de uma única e também infeliz experiência.

Pensando nos pássaros os primeiros foram igualmente da casa do meu tio. De início os periquitos, com sua algaravia contumaz. Não, também não seriam animais dignos da minha afeição, apesar das suas plumagens divinas. Depois teve a araponga, com seu martelo estridente, que azucrinou meus ouvidos por longo tempo, impedindo-me a concentração nos estudos. Da mesma época lembro-me de um corrupião incrível comendo na mão de meu tio. Saía para dar uns passeios, passando a manhã fora da gaiola e sempre voltava na hora do almoço, deixando-se aprisionar. Um belo dia foi para nunca mais voltar. Pudera. Quem quer liberdade vigiada ou pela metade? Ao meu tio ele deu – Aquele Abraço!

Pensei também em cabritos, em cotias, porcos, em peixes e até mesmo em mariposas. Mas nada. Pensei numa jacupemba ou jacupema, que matei numa única caçada que fiz em vida. Seria a maneira de retribuir ao animal a afeição como forma de me redimir do ato criminoso. Ou como índios americanos, louvar a morte do bicho abatido. Qual o quê, também não seria este o bicho.

É meu caro, penso não estar preparado ainda para amar um animal especial. Vou prestar mais atenção em meus sentimentos para ver para qual bicho poderia dirigir de forma mais intensa os meus afetos. Acredito ser um bicho talvez incomum. Talvez seja uma arraia, talvez um caramujo, ou mesmo o marimbondo, dos quais já tive oportunidade de tomar ferroadas, mas nem por isto construiu uma antipatia definitiva.

Assim que tiver definido tal predileção farei um comunicado.

Outra coisa ainda. Enviarei esta carta para ser postada no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS. Acredito ser ela de altíssimo interesse a Sociedade Protetora dos Animais, assim como também a sua sempre admirável crônica. Penso assim porque poderemos estar ajudando a montar uma grande confraria protecionista, desde os marimbondos até os urubus. Afinal se cada indivíduo proteger uma determinada espécie haverá um planeta mais rico em variedades animais. Muito embora quanto aos bichos homens a variedade já extrapolou o bom senso, principalmente quanto às tipologias e ao número de pulhas que grassam em todos os rincões e desvãos da Terra.

Por fim, devo dizer que há muito estou lhe traindo como missivista. Desde que parei de lhe escrever passei a manter correspondência assídua com Marilda Confortim. A nossa troca tem sido, pelo menos quanto à poesia, mais reconfortante. Isto porque sendo ela uma dama, tratamos de assuntos totalmente impossíveis de conversar com o amigo.

João Antonio fazendo a parte dele.

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A galinha fazendo a parte dela.

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Luis Fernando alimentando seu filhote de estimação.

.

Claudio cuida muito bem de seu Escorpião Imperador.

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e eu?…

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esta carta refere-se à crônica URUBU de hamilton alves que encontra-se logo abaixo.

ilustrações do site.

URUBU por hamilton alves / florianópolis

As únicas pessoas conhecidas que elegeram o urubu como sua ave preferida, segundo sei, sou eu mesmo e o pintor (médico) Semy Braga, que veio de me confessar, há pouco, quando o visitei em seu atelier/moradia, tal preferência.

O urubu é uma ave feia. Ou conceitualmente  feia. E, pior, comedor de cadáveres de tudo.

Mas, afinal, o que é feio?

Não há, na verdade, um conceito acabado de feiúra.

À parte essa questão estética, o urubu tem lá, sim, sua beleza. O preto de sua cor já é algo que o distingue, como se, a exemplo das criaturas humanas, andasse sempre a rigor.

No que se destaca é no voo, notadamente sob o vento sul, em que se pode observar o equilíbrio com que se mantém ao sabor do vento, mesmo quando sopra mais forte.

Mostra-se, então, um verdadeiro bailarino.

Quando me revelou simpatia pelo urubu, Semy não justificou essa escolha. Podia (ou pode) ter lá suas razões.

Certa vez, em Curitiba, vi um bando de garotos esmolambados, nas proximidades da Praça Osório, chutar um urubu, que certamente devia ter se chocado com um daqueles prédios altos e caído ao chão.

De onde estava, na frente de um bar, tomando um refrigerante, berrei:

– Não matem o urubu!

Foi por meu berro ou outra razão qualquer, vi o bando se dispersar – e o urubu sair ileso da perseguição.

Estou para propor ao Semy a fundação de uma entidade, que tivesse o nome de Sociedade Amigos do Urubu (SAU), em que outras pessoas, ainda que não tivessem maior simpatia ou amizade por essa ave, poderiam se filiar.

A sociedade teria por finalidade se informar melhor sobre alguns dados referentes ao urubu, como, por exemplo, se sua reprodução vem sendo satisfatória.

Preocupa-me muito o fato de não vê-lo tão numeroso voando por aí.

Creio que o urubu é uma ave destinada à extinção muito próxima. A comida deve-lhe rarear. Não há tanta carniça que possa encontrar fácil. As cidades estão ficando excessivamente urbanizadas, acarretando a coleta de refugos aproveitados pelos urubus.

Toda uma série de fatores pode levar a isso.  A consequência inevitável seria a ausência do urubu de nosso espaço.

Perder de vista o urubu seria a última coisa que poderíamos desejar.

Vou me entender com o Semy para ouvi-lo sobre o assunto.

CIDADE SEM “CIVITAS” por sérgio da costa ramos / florianópolis

Será que a velha definição latina de cidade ainda está valendo? Civitas-civitatis. Reunião de cidadãos, nação, pátria, lugar onde se respeita o direito do cidadão. Aglomeração humana de certa importância, localizada em área geográfica circunscrita, com numerosas casas próximas entre si e destinadas à moradia ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e outras não relacionadas com a exploração direta do solo.
Hoje, a “cidade moderna” vai perdendo o seu significado institucional. Avança sobre todos os solos e tornou-se vítima de outras atividades sinistras, como o furto, o roubo, o assassinato.

Eça de Queiróz não gostava das cidades, como deixou claro no seu libelo contra essa “criação antinatural”, em A Cidade e as Serras. Na comparação entre as selvas, a verde e a de pedra, o monóculo do escritor só tinha olhos para a primeira:

Na natureza, nunca se descobriria um contorno feio ou repetido. Nunca duas folhas de hera se assemelharam na verdura ou no recorte. Na cidade, pelo contrário, todos repetem servilmente a mesma casa, todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação.

Dizem os pragmáticos que esse hábito de condenar as cidades e enaltecer a natureza é apenas “uma licença para a poesia”, uma chispa para o gênio criador do homem romântico. A cidade é a “realidade” – que a maioria das pessoas acha “um Inferno”, embora recuse o Paraíso do meio do mato.

As pontes de Floripa foram concebidas para um fluxo de 40 mil veículos/dia. Já recebem mais de 80 mil. Trata-se do próprio Inferno (Ro)Dante…

É o progresso, dizem. E o homem vai atrás, cada vez mais absorvido por esse mundo de gases, óleos, resinas e misturas químicas que envenenam os poros, a alma, a mente.

Sempre que o ser humano aspirou pela paz de espírito procurou um jardim – pois se ressente de um, desde que foi expulso do Éden. Não por acaso os lugares de paz e meditação religiosas se assentam em jardins: o claustro dos mosteiros, os canteiros das casas muçulmanas, as fontes dos jardins hindus, símbolos do Paraíso.

Sempre que se deixou subjugar pela cidade, o homem perdeu o melhor dos seus dons – a capacidade de continuar humano, como lamentou Eça, contemplando as vinhas da Serra da Estrela:

– Os sentimentos mais genuinamente humanos se degeneram nas cidades. Nelas, os rostos humanos nunca se olham.

Muitas vezes, não se olham para não testemunhar a violência. Transita pela internet uma denúncia preocupante. A de que Floripa há muito deixou de ser um jardim de paz. A cada grupo de 100 mil habitantes, nada menos do que 3.926 já teriam sofrido perda patrimonial por furto – números que, proporcionalmente, equivaleriam aos desumanos prontuários do Rio e de São Paulo.

Dou a Floripa o benefício da dúvida, recusando-me a aceitar para a Ilha o mesmo e cruel destino de cidades que lhe são irmãs em beleza natural, como o Rio de Janeiro.

Mas o sinal vermelho está ligado. Assaltos no Sul e no Norte da Ilha. Até na doce Santo Antônio de Lisboa. Recentemente, ladrões aterrorizaram o bucólico “Caminho dos Açores”, para a suprema indignação do pioneiro, major Manoel Manso de Avelar, antigo senhor daquela pacífica freguesia.

É como se a graciosa vila açoriana tivesse perdido a inocência, como no romance de Edith Wharton –The Age of Innocence.

O Manoel Manso ameaça abdicar de sua mansuetude, descer de seu celestial mirante e “justiçar” os que ali perturbam a paz secular.

Um Manso “furioso”, condenando a omissão dos que deveriam zelar pela segurança pública:

– Ai de vós, autoridades inertes, mandatários sem voz de comando!

OTTO NUL e sua poesia III – palma sola.sc

E AGORA?

Que poema compor agora?

Que sede ou fome saciar?

Que mar atravessar

Ou que ventos arrostar?

Que caminhos seguir?

Que vozes ouvir?

Que palavras dizer?

Que pecados confessar?

Quanto hei de amar?

Ou quanto de emudecer?

Que orações ainda rezar?

Que palavras escrever?

Quanto terei que silenciar?

Quanto de esquecer?


.

ESCURO

De repente, fez-se escuro;

Dentro do escuro

Vi o escuro;

Numa linguagem escura

Tudo se tornou obscuro;

O escuro, como o percebi,

Era negro;

Nada poderia sê-lo mais;

Outra sabe-me a vida

Dentro do escuro;

Só no escuro

É que me encontro.



.

TENHO, TENHO…

Tenho, tenho

Pressa de chegar

Tenho, tenho

Ânsia de acabar

Tenho, tenho

Desejo de te encontrar

Tenho, tenho

Força pra resistir

Tenho, tenho

Vontade de fugir

Tenho, tenho

Lerdeza de ir e vir

Tenho, tenho,

Ímpeto de levitar

Tenho, tenho

O caminho sem fim

ESTAMOS EM CACOS por alceu sperança / cascavel.pr

A irresponsabilidade rapineira do sistema tributário nacional machuca todo mundo, mas é pior para os pobres. A regra luliberal é economizar para pagar banqueiro, e assim a União sofre com falta de recursos para a infra-estrutura.

Os Estados não conseguem suprir aquilo que a União abandonou. E os municípios estão quebrados. Ser prefeito, hoje, é fazer menos que o contínuo do gabinete. Limita-se a cumprir convênio com a União e o Estado, zanzar daqui pra lá à toa, mudar a pintura de alguma obra já feita (“revitalização”, dizem). Se sair disso, arrisca-se a ir para a cadeia. Centenas de ex-prefeitos estão sendo processados e os atuais tendem a ser processados em breve.

As prefeituras são os “trabalhadores” da União. Perdem direitos e arcam cada vez com mais responsabilidades e encargos. Sempre que se fala em “reforma da Constituição”, lá está mais um direito sendo garfado dos que trabalham e a União fortalecida.

Uma olhada em nossa periferia mostra gente pobre, sem poder pagar a prestação da casa “do BNH”, como se dizia antigamente, de olho num fundo de vale para levantar o barraco, jogando no bicho o dinheiro do leite da criança.

Mas essa gente pobre é muito rica: paga cerca de 400 milhões de reais por dia por uma dívida que não fez. É a privatização do caraminguá: era dinheiro público, vindo de impostos e taxas, e agora foi para bolsos privados. Simples como bater uma carteira. Aliás, bateram a Vale.

Lula conhece tão pouco o Brasil que, dia desses, cometeu esta barbaridade, ao defender a garfada no nosso bolso: “A verdade é que as pessoas estão pagando mais porque estão ganhando mais. É só ver o lucro dos bancos, ver o lucro das mil maiores empresas brasileiras que vocês vão perceber que as pessoas estão ganhando mais e, portanto, têm que pagar mais”.

Ignora que o peso do tributo para um banco ou uma das mil é apenas um indolor dado contábil, mas para o assalariado quer dizer o couro arrancado. É ele que paga os impostos embutidos na comida que é obrigado a comprar e nos serviços que é forçado a usar.

Não é a empresa de ônibus que paga os impostos: eles são arrancados do usuário do lotação. O banco tira do correntista e assim vai. O cidadão paga tudo, mas suas Prefeituras estão em cacos.

No milagroso PAC lulista, a grana ali reservada para investimento em aeroportos até 2010 (aliás, nenhum centavo para o Aeroporto Regional do Médio-Oeste) equivale ao pagamento de sete dias de juros da dívida que não contraímos.

Não pagar oito dias dava pra tudo aquilo e nosso aeroporto viria de brinde. Há irrefletidos dizendo que o aeroporto é “elitista”. Mas na sociedade justa do futuro, quem é pobre hoje amanhã vai querer viajar de avião, como acontece na China. O china ganha 70 dólares por mês, tem apartamento, plano de saúde, universidade paga para o filho, laptop da hora e viaja de avião, que absurdo! Onde é que este mundo vai parar?! Já tirar dos pobres e dar aos ricos, Robin Hood invertido, não é elitista…

Mas reza a parábola que os últimos serão os primeiros. O biólogo Luc Montagnier, que em 1983 identificou o vírus da Aids, acredita que a multidão de jovens sem trabalho vai derrubar as atuais estruturas sociais e instaurar a total anarquia.

O cara lida com vida o tempo todo e sabe que ela não fica engarrafada sem fermentar. Quem gosta da “ordem” que está aí, trate de arranjar emprego para essa gurizada sem ocupação. Ou tudo vai virar caco.

DE PLATÃO A ARISTÓTELES – por alexandre araújo costa

  1. Superando Heráclito e Parmênides

    Platão é provavelmente o pensador mais influente da filosofia. O modo como ele equacionou as questões da verdade até hoje representa um dos modelos fundamentais do pensamento filosófico.

    Porém, para compreender a importância do pensamento platônico, é preciso dar um passo atrás, e entender o modo como a questão da verdade foi colocada por dois dos mais importantes filósofos pre-socráticos: Heráclito e Parmênides.

    Eles ainda eram filósofos naturalistas, o que significa que estavam envolvidos no projeto de dar uma explicação laica para o mundo natural. Eles são anteriores ao movimento dos sofistas, que deslocaram o eixo das questões para a oposição entre a natureza e a sociedade e, com isso, possibilitaram o afloramento das reflexõessocráticas, que se concentram sobre o homem em sociedade (e não sobre o mundo natural).

    Uma das questões que eram fundamentais e até hoje continuam sendo, é a questão do movimento. Observando o mundo, nossos sentidos nos mostram que tudo está em constante transformação, e essa constatação fez com que Heráclito de Éfeso sugerisse que tudo é dinâmico. “Tudo se move, tudo escore (panta rhei). “Não se pode descer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, pois, por causa da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela se dispersa e se reúne, vem e vai…. Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos”.

    Em contraposição, na escola de Eléia, Parmênides afirmava que o ser é imóvel. Ele não conseguia admitir a idéia de que uma coisa simplesmente deixasse existir, passando do ser para o não-ser. Como toda transformação envolve uma passagem para o não-ser (na medida em que algo se que acaba), Parmênides terminou por sustentar que o movimento é ilusório.

    Por mais que os nossos sentidos nos indiquem que as coisas se movem, a nossa razão mostra que isso não pode ocorrer. Essa teoria soa para nós tão estranha quanto soou àquela época, pois ela contraria frontalmente o senso comum.

    Porém, ela foi defendida com alguns argumentos desconcertantes, especialmente por Zenão de Eléia, o pai da dialética. Ele desenvolveu a técnica de sustentar uma idéia por meio da refutação das refutações, algo que é fundamental no raciocínio jurídico. Se eu não posso comprovar a minha tese diretamente, posso ao menos desacreditar as teses contrárias, mostrando que elas são absurdas. E foi justamente isso que ele tentou fazer: se as teorias de Parmênides eram estranhas, os argumentos utilizados contra ele eram paradoxais.

    Isso ele faz por meio de dois famosos paradoxos, que tentam mostrar o caráter paradoxal das nossas impressões sobre o mundo. Embora o paradoxo da corrida entre Aquiles e a tartaruga seja o mais conhecido, o meu preferido é o paradoxo da flecha, que atualmente poderia ser atualizado como o paradoxo do cinema.

    Quando vocês assistiram agora ao filme, vocês viram imagens em movimento? A nossa visão diz que sim, que as pessoas se moviam na tela. Porém, a nossa razão sabe que isso é falso. Sabemos que o cinema é a projeção contínua de quadros estáticos, e que o movimento na tela é uma ilusão criada pelos nossos modos de perceber as imagens. Sabemos racionalmente que isso é uma ilusão, apesar de vermos o movimento.

    E o que nos leva mais próximo à verdade: a percepção sensitiva ou o conhecimento racional? A tendência normal dos filósofos é de desconfiar dos sentidos tanto quanto dos preconceitos, pois ambos nos ligam ao mundo das sombras. Porém, será que a única conclusão racional é a de que o movimento é impossível porque gera consequências racionalmente inaceitáveis?

    É nesse ponto que ingressa a estratégia platônica fundamental, consistente em dizer que nenhum desses dois pólos avalia adequadamente a questão. Heráclito tem razão em ver que o mundo físico está em constante transformação, mas isso que vemos não é a realidade inteira. Para além do mundo físico, existe o metafísico, composto por elementos que não mudam, e que justamente por isso são a própria estrutura da nossa compreensão.

    Ambos os mundos são igualmente reais, mas se diferenciam na medida em que acessamos o mundo físico pelos sentidos e o mundo metafísico apenas pela razão.

    2. A metafísica platônica ou de como o mundo não se explica por si mesmo
    A grande invenção platônica foi a metafísica. Enquanto os filósofos naturalistas buscavam explicar o mundo a partir de elementos com existência física (água, ar, quatro elementos, átomos etc.), Platão percebeu a insuficiência dessas tentativas. O que é a beleza? Os naturalistas buscariam responder essa pergunta a partir de referências a características físicas: cor, forma, simetria etc. Platão propõe uma resposta completamente diversa, que encontra sua expressão mais sistemática na teoria das idéias.

    Suas reflexões apontam para o fato de que nós buscamos explicações e não apenas descrições do mundo. Não nos basta descrever o que acontece, pois o nosso logos tenta explicar os fatos segundo as suas causas, o que coloca Platão frente ao problema que descrevemos como o trilema de Münchhausen.

    A causalidade, como a validade, exige uma cadeia de relações que seria absurdo apontar para o infinito ou para uma circularidade. Por isso mesmo, Platão reconhece que a única forma racional de encarar o mundo é admitir que existem certos objetos não-causados, certas formas originais que estão na base do nosso pensamento.

    Frente ao trilema, Platão acentua a necessidade de desvendar as coisas em si, as verdades necessárias, os conceitos imutáveis, que podem ser colocados justificadamente na base das nossas cadeias de explicação do mundo. Essas coisas em si não são observáveis no mundo físico, mas sem elas não podemos dar sentido às nossas próprias experiências.

    Creio que o exemplo mais claro desse pensamento é a justiça. A observação dos fenômenos do mundo não nos capacita a distinguir o justo do injusto. Uma completa descrição de todos os fatos do mundo não nos tornaria mais capazes de fazer uma distinção ética. Por isso mesmo, se faz algum sentido falar que é injusto descumprir promessas, ou que é injusto condenar inocentes, então precisa existir uma idéia de justiça que confira sentido a essas percepções.

    Se essa justiça em si não existir, então todos os nossos discursos sobre o justo e o injusto não passam de coisas sem sentido. Portanto, a existência da justiça é uma necessidade racional, embora não seja uma evidência empírica. Assim, Platão sustentou que a nossa racionalidade exigia a admissão de que existe uma justiça em si, da qual todas as coisas justas participam de alguma forma.

    Essa idéia da justiça não pode estar no mundo físico, pois ela não é sensível (que pode ser apreendida pelos nossos sentidos), mas apenas inteligível (só pode ser percebida por meio da razão). Por isso, Platão postulou a existência de objetos que são reais, mas que não fazem parte do nosso mundo sensível – objetos dos quais somente podemos conhecer alguma coisa a partir da nossa razão.

    Assim, Platão admite a existência de dois tipos de objetos igualmente reais: os visíveis e os invisíveis, uns captados pelos sentidos, outros percebidos apenas pela razão. Com isso, ele conseguiu fazer uma aproximação entre teorias de Heráclito e Parmênides. Tudo muda, tudo flui, mas apenas no mundo sensível. No mundo das coisas invisíveis, tudo é eterno, nada muda, tudo permanece.

    Essas coisas invisíveis são as idéias, seres incorpóreos que somente podem ser captados pela nossa capacidade de raciocínio. O que é um quadrado? O que é a relação de anterioridade? De causa e conseqüência? O que é a beleza ou a verdade? No campo do direito, o que são a validade e a justiça?

    Essas são idéias que existem, mas cuja existência não se dá no mundo físico, mas no que Platão chama de lugar além do céu – um lugar que não existe fisicamente, mas que nossa razão nos diz que deve existir. Nesse mundo além do mundo (metafísico, portanto) estão todas as idéias, também chamadas de formas, os arquétipos ideais de tudo o que existe no mundo.

    Essa referência a um mundo das idéias é uma ferramenta muito útil de explicação da realidade. Talvez a mais útil que tenha sido inventada pelos homens. Ela nos permite falar da existência de coisas incorpóreas, cuja permanência dá estabilidade ao nosso pensamento: existe uma verdade, existe uma beleza, existe um bem.

    Além disso, essa teoria nos permite explicar o modo como conhecemos. Como sabemos diferenciar um quadrado de um retângulo? Apenas porque há uma idéia de quadrado, diferente de uma idéia de retângulo. Assim como há uma idéia de árvore, que nos permite identificar as árvores como participantes de um mesmo gênero. Nesse sentido, todo jusnaturalismo é platônico, pois apela para a existência de um direito natural imutável, perceptível pelo logos, que define as normas justas por natureza.

    Toda essa construção é bastante engenhosa. Foi Platão que primeiramente tentou – de forma racional – explicar o mundo físico a partir de um mundo metafísico. Para alguns, essa idéia pode parecer absurda a primeira vista, mas a colocação platônica ainda guarda uma força imensa: ou admitimos a estranha existência das idéias absolutas (de justiça, verdade e validade), ou admitimos que não faz sentido algum tratar da justiça dos homens ou da validade das normas.

    Por mais que seja difícil sustentar uma metafísica que não conta (nem pode contar) com evidências empíricas, é somente a partir dela que podemos falar de direitos universais ou de verdade objetiva. Creio que a intuição platônica é correta e que não podemos escapar da metafísica sem perder junto o significado dos fenômenos. Nossa condição humana é tal que a nossa racionalidade nos condena à metafísica.

    Mas não devemos perder de vista que, para Platão, a metafísica não é a ilusão, mas a luz. O conhecimento metafísico é que nos liberta das sombras da caverna, pois é ele que nos esclarece as estruturas universais do mundo.

    3. Aristotélicos e Platônicos

Platão era um mestre da linguagem literária e da construção de alegorias. Os seus livros tinham uma estrutura narrativa, pois ele escrevia na forma de diálogos, normalmente protagonizados por Sócrates, que foi o seu mestre.

Já os escritos de Aristóteles são grandes compilações das aulas que ele proferiu em sua escola (o Liceu), quando voltou a Atenas, com cerca de 50 anos de idade. Embora essas anotações muitas vezes não formem um discurso linear, elas se tratam da primeira grande tentativa de sistematização do conhecimento.

Mas a grande diferença entre Platão e Aristóteles não estava apenas no estilo da escrita, mas em suas linhas de interesses. Platão era um estudioso da matemática, e sua capacidade de abstração permitiu que ele formulasse os conceitos metafísicos que constituem o seu maior legado. Já Aristóteles era concentrado no mundo empírico, nos dados da experiência. Diversamente de seu mestre Platão, ele foi um grande naturalista, um conhecedor dos fenômenos físicos, com interesses que hoje seriam entendidos como científicos, e não filosóficos. Essa clássica distinção de perspectivas tem seu retrato mais célebre no quadro “A escola de Atenas”, de Rafael.

Tal como Platão, Aristóteles também valoriza o estudo da metafísica, vista como o conhecimento das causas primeiras, dos princípios primeiros e imutáveis, do ser enquanto ser. Porém, as chaves de compreensão utilizada por Aristóteles não apontam para a pressuposição de um arquétipo fora do mundo físico, e sim para um estudo das características intrínsecas do próprio ser. Assim, a metafísica aristotélica assume a forma de uma ontologia, ou seja, de um estudo acerca do ser (ontos em grego).

A principal distinção aristotélica nesse âmbito é a diferença conceitual entre substância (ou essência) e acidente. A substância é aquilo que dá identidade a uma coisa. É da essência do homem, por exemplo, ser racional. Um animal que tivesse todas as características do homem, mas fosse irracional, não seria um homem. Em oposição à essência, temos o acidente. Vocês estão fazendo uma pós-graduação em direito, mas isso é um acidente. Vocês poderiam estudar administração ou artes cênicas, e isso não os tornaria essencialmente diversos.

A segunda diferenciação é entre ato e potência. Todo homem – assim como todo objeto – tem uma série de potencialidades. Qual a diferença entre um cego e um homem de olhos fechados? O primeiro não tem o sentido da visão, enquanto o segundo apenas não o exerce. Uma muda de feijão é feijão em potência – ela tem a possibilidade de gerar feijões, mas o exercício dessa possibilidade depende de algumas condições. Apenas quando gerar a semente ela será feijão em ato.

O bronze é uma estátua em potência – necessitando de outras causas para que se transforme em estátua. O pensador de Rodin é uma estátua em ato. Com isso, Aristóteles promoveu uma reconciliação entre os filósofos naturalistas e o platonismo. Os primeiros acreditavam que o princípio do mundo era a matéria. Platão afirmava que era a forma. Aristóteles une os dois elementos e afirma que é a combinação entre forma e matéria que dá individualidade aos seres.

Mas Aristóteles não remete a forma para um mundo das idéias à parte do mundo físico, pois as coisas do mundo são efetivamente forma e matéria ao mesmo tempo. Assim, enquanto os pensadores de linha platônica tendem a ser racionalistas que privilegiam o estudo abstrato das idéias, os aristotélicos tendem a construir suas abstrações a partir da observação dos fenômenos empíricos.

Esse tipo de distinção entre as sensibilidades permanece sendo uma boa chave de compreensão. Pensemos em um problema jurídico, como a definição do que é o interesse público. Uma aproximação possível seria buscar os diferentes ramos do direito que tratam do interesse público, para construir com base nessas observações particulares um conceito geral. Essa aproximação, que passa da análise de fatos individuais e conclui pela formulação de categorias gerais, é o procedimento indutivo.

Essa é a aproximação tipicamente aristotélica, que um platônico certamente sentiria como limitada. Ocorre que, para buscar o que é interesse público em cada ramo do direito, precisamos partir de um conceito anterior acerca do que seja interesse público. Sem um conceito prévio, não podemos identificar no mundo as suas ocorrências. Assim, um pensador platônico tende a partir de um esclarecimento do que é o interesse público em si, para compreender as decorrências necessárias desse conceito. Com isso, há um primado do pensamento dedutivo, que parte de certas concepções gerais e abstratas, para extrair delas as suas conseqüências particulares.

Assim, existe uma forte possibilidade de que os platônicos acusem os aristotélicos de certas ingenuidades conceituais e de generalizações indevidas, enquanto os aristotélicos tendem a acusar os platônicos de exageros no idealismo e na abstração.

FRAUDE EM NOME DE DEUS – por dalmo de abreu dallari / são paulo



Um fenômeno social que vem ganhando corpo nos últimos tempos é o aparecimento de grupos autodenominados religiosos, que, geralmente sob a direção de um líder, arrebanham adeptos, atraindo pessoas, quase sempre pouco esclarecidas ou socialmente frágeis, ou, ainda, dissidentes políticos ou religiosos aos quais oferecem um instrumento de oposição, e logo procuram formalizar a existência do grupo como uma nova igreja. E assim procuram obter proveitos materiais de várias espécies, em fraude à lei. Isso explica o aparecimento de novas igrejas em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil.Percebendo a ocorrência desse fenômeno e desejando conhecê-lo melhor, para, entre outras coisas, despertar a opinião pública para os graves prejuízos individuais e sociais que isso pode acarretar, dois jornalistas ligados à Folha de S.Paulo, Cláudio Ângelo, editor de Ciência, e o repórter Rafael Garcia, decidiram criar experimentalmente uma nova igreja, evidentemente fundada numa fantasiosa crença religiosa.

Para tanto, com o objetivo de evidenciar a tranquila possibilidade legal de consumar essa fraude, solicitaram a orientação de um dos mais prestigiosos escritórios de advocacia de São Paulo, respeitadíssimo pelo alto nível de conhecimentos e pelo rigoroso padrão ético de seus integrantes – o escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo, Gasparian Associados. E assim adotaram as providências legalmente exigidas para concretizar a criação da igreja de fantasia.

Exploração da ignorância

Verificaram, então, que não existem requisitos teológicos ou doutrinários para a criação de uma igreja, não havendo também a exigência de um número mínimo de fiéis. Redigiram um documento de fundação do que denominaram Igreja Heliocêntrica do Sagrado Evangelho e fizeram a inscrição da entidade no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, obtendo assim o número do CNPJ.

Com base nesse documento abriram uma conta bancária, fazendo várias aplicações financeiras, gozando de isenção dos tributos normalmente incidentes sobre operações dessa espécie, pois, segundo a Constituição, no artigo 150, inciso VI, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios instituir impostos sobre templos de qualquer culto.

Nessa mesma linha, a nova igreja poderá adquirir e vender imóveis, realizar transações econômicas, cobrar pela prestação de serviços e praticar outros atos que beneficiem pessoalmente os criadores e dirigentes da igreja, sem que sejam obrigados a pagar o IPVA, o IPTU, o ISS e qualquer outro tributo. E como as igrejas são absolutamente livres para definir sua organização e direção e para admitir e manter seus sacerdotes, que, nessa condição, ficam isentos da obrigação de prestar o serviço militar obrigatório, um dos dirigentes designou seus próprios filhos como sacerdotes, garantindo-lhes, desse modo, essa isenção, devendo-se ainda acrescentar que, além desse privilégio legal, os sacerdotes terão direito a prisão especial, se forem envolvidos numa ocorrência policial.

Acrescente-se, ainda, que os dirigentes da igreja poderão indicar os imóveis de sua residência como sendo templos da igreja e assim ficarão isentos dos tributos municipais.

Essa iniciativa dos jornalistas, levada a efeito discretamente e sem procurar provocar escândalo, é merecedora do maior elogio e deve ser amplamente divulgada, para chamar a atenção dos que podem e devem influir para impedir a multiplicação fraudulenta de igrejas. Essa fraude deve merecer especial atenção dos legisladores e dos governos, pois além de acarretar enormes prejuízos a todo o povo, por criar a possibilidade de intensa atividade econômico-financeira sonegando tributos, alimentam-se da exploração da ignorância e da fragilidade de pessoas das camadas mais pobres da população.

Ação educativa

Bem ilustrativo da audácia desses exploradores da ignorância e da ingenuidade de pessoas mais simples é a notícia da criação de uma linha telefônica para falar com Deus, fato divulgado pelo jornal francês Le Monde (4/3/2010, pág.26).

Conforme registra com ironia aquele jornal, foi criado um novo serviço telefônico, “Le Fil du Seigneur”, iniciativa da sociedade Aabas Interactive. Fornecendo os dois números disponíveis para as ligações, informa o jornal que o custo das ligações é de 15 centavos de euro para as ligações comuns e de 34 centavos para as ligações urgentes e diretamente dirigidas a Deus.

Quem ligar para o serviço ouvirá uma gravação dizendo : “Você está em presença de Deus para o recolhimento e a prece a fim de receber sua graça”. Acrescenta o jornal, sempre ironizando, que os promotores desse piedoso serviço não estão autorizados a conceder absolvição por telefone, mas os interessados podem deixar sua confissão. E para acentuar os objetivos de apoio e edificação espiritual, uma gravação diz no início: “Para receber conselhos, digite 1; para confessar, digite 2 ; para escutar confissões de outros, digite 3”.

Parece absurda a criação de um “serviço” dessa natureza, mas o fato de ele continuar existindo é um sinal de que também existem usuários, o que deixa evidente que há ambiente para audácias desse tipo.

Num pronunciamento recente, o presidente da Ordem dos Advogados de Angola chamou a atenção para o surgimento e a multiplicação de práticas ilegais naquele país, ligadas justamente à exploração de crenças religiosas. E observou : “Não me surpreende o surgimento de crimes ligados à exploração religiosa, porque onde há pobreza, ignorância e um nível cultural extremamente baixo há propensão para que essas práticas religiosas duvidosas prevaleçam e tenham espaço”.

E sublinhando que a legislação angolana exige um mínimo de cem mil aderentes para a existência de uma igreja, o que considera bom mas insuficiente para impedir as fraudes, acrescentou que “é responsabilidade do Estado, nos termos da lei, controlar para que o direito de liberdade religiosa não seja utilizado para fins contrários ao que está previsto na Constituição”, considerando necessária uma ação educativa do Estado, mas também uma ação repressiva, para impedir práticas que, sob a máscara de atividades religiosas, prejudiquem os direitos de outros cidadãos e a própria ordem pública.

Necessário e urgente

Observe-se, afinal, que esse fenômeno da exploração religiosa, muito oportunamente posto em evidência pelos jornalistas da Folha de S.Paulo, vem preocupando vários países da Europa. Assim, na França já estão em vigor três leis tratando de questões relativas ao surto de organizações religiosas e suas repercussões legais. A primeira é de 18 de dezembro de 1998 e cuida, sobretudo, do problema do acesso de crianças à escola, que é obrigação dos pais e vinha enfrentando obstáculos sob alegação de motivos religiosos. A segunda, de 15 de junho de 2000, deu legitimidade às associações civis que lutam contra as seitas para propor ou integrar ações judiciais, inclusive na área penal, nesse âmbito. A terceira lei, de 12 de junho de 2001, trata dos movimentos sectários que atentam contra os direitos humanos e as liberdades fundamentais. Esta lei permite a propositura de ação contra fatos que podem ser qualificados como “abusos fraudulentos do estado de ignorância ou de fragilidade”, com agravantes quando praticados contra crianças ou pessoas em situação de fraqueza.

Essas questões já vêm sendo objeto de considerações do Conselho da Europa, que em 1992 fez recomendações relativamente às seitas e aos novos movimentos religiosos e em 1999 reforçou seu pronunciamento considerando as atividades ilegais das seitas. Como fica evidente, há uma situação nova envolvendo as questões religiosas, com efeitos graves sobre os direitos.

Por tudo isso, é muito oportuna a advertência sobre o que vem ocorrendo no Brasil nessa área. A Constituição brasileira declara inviolável a liberdade de consciência e de crença, mas ao mesmo tempo diz, no artigo 5°, inciso XVII, que é plena a liberdade de associação “para fins lícitos”. É evidente que o uso fraudulento da invocação religiosa nada tem a ver com a liberdade de crença e, ainda mais, por suas conseqüências de ordem prática, acarreta graves prejuízos a todo o povo, confere privilégios injustos e cria uma situação de conflito, opondo as organizações desonestas às instituições que se fundamentam, autenticamente, em crenças religiosas.

Assim, pois, é necessário e urgente que o tema seja posto entre as prioridades brasileiras, para que se tenha uma legislação que, mantendo a laicidade do Estado, garanta a liberdade de crença com pluralidade, coibindo a invocação fraudulenta dessa liberdade.

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DALMO DE ABREU DALLARI é jurista brasileiro.

CLETO de ASSIS convida:

Por la libertad de los presos políticos cubanos

Por la excarcelación inmediata e incondicional de todos los presos políticos en las cárceles cubanas; por el respeto al ejercicio, la promoción y la defensa de los derechos humanos en cualquier parte del mundo; por el decoro y el valor de Orlando Zapata Tamayo, injustamente encarcelado y brutalmente torturado en las prisiones castristas, muerto en huelga de hambre denunciando estos crímenes y la falta de derechos y democracia en su país; por el respeto a la vida de quienes corren el riesgo de morir como él para impedir que el gobierno de Fidel y Raúl Castro continúe eliminando físicamente a sus críticos y opositores pacíficos, condenándolos a penas de hasta 28 años de cárcel por “delitos” de opinión; por el respeto a la integridad física y moral de cada persona; firmamos esta carta, y exhortamos a firmarla a todos los que han elegido defender su libertad y la libertad de los otros.

Firmar en

http://firmasjamaylibertad.com/ozt/index.php#lists

APOCALIPSE de vera lúcia kalaari / portugal

…E verás o mar erguer-se

Em calemas insanas, em marés de equinócio.

…E verás os ventos loucos surgirem

Queimando as últimas flores da tua esperança.

…E ficarás sozinha sentindo a ânsia de fugir, correr…correr…

Deixar para trás os teus desejos

E esquecer tua alma saqueada.

…E eis que passarás, entristecida

Contemplando os rios que secaram  com lágrimas brotando

Do teu coração.

Porque o presente será a porta que nunca p’ra ti se abrirá.

…E virão pássaros agourentos pela escuridão sem fim,

Pássaros que poisarão olhando para ti

Aguardando a tua morte.

…E o vento te trará canções de saudade,

De amores enfeitiçados.

…E verás tudo e tudo passará.

Passarão Outonos e primaveras

E dias e noites de agonia.

Quedas dolorosas no passado

E voos quebrados no futuro.

Como uma náufraga lutarás p’ra te afundares

No mar sem ondas do esquecimento.

…E voltarás à tona, saindo das entranhas do olvido.

Jamais deixarás de ser escrava…

Escrava sem visíveis grilhões…

Apenas serás livre na hora em que a tua estrela

Brilhar, pela ultima vez,

Na noite da eternidade.

O ASSINALADO de cruz e sousa / florianópolis


Tu és o louco da imortal loucura,

O louco da loucura suprema.

A terra é sempre a tua negra algema,

Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,

Mas essa mesma Desventura extrema

Faz que tu΄alma suplicando gema

E rebente em estrelas de ternura.

Tu és poeta o Poeta, o grande Assinalado

Que povoas o mundo despovoado,

De belezas eternas, pouco a pouco…

Na Natureza prodigiosa e rica

Toda a audácia dos nervos justifica

Os teus espasmos imortais de louco!

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Cruz e Sousa faleceu em 1898 na Ilha Nossa Senhora do Desterro, hoje Ilha de Santa Catarina no município de Florianópolis.

VEREDAS de joão batista do lago / são luis


Meus caminhos são feitos de veredas!

Traço-as, uma a uma, como pegadas de onças:

Atalhos que me conduzem às beiradas dos córregos,

Onde tento beber a água prima,

Para em seguida me enveredar pelas

Trilhas que marcam os tempos de todos os homens.

Minhas veredas são os meus deslocamentos em toda vida.

São clareiras de sentimentos que me fazem debulhador de milhos

Que brotam da terra vergastada;

Que sangra pelas veias rasgadas pelo fogo;

Que queima toda a vegetação vérsica da terra que me habita;

E que grita:

Ó miseráveis! Tomastes a vereda do juízo da incompreensão:

A prisão do ladrão que rouba uma telha, para comprar um pão…

Mas, quem vos prenderá por causar a fome de muitos irmãos?

Possivelmente ninguém vos deterá!

A toga que vos serve de vereda é balança pensa e a

Cega deusa já não mais vereda aretologia.

RUDI BODANESE e seus fotopoemas / florianópolis

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A LONGA DESPEDIDA por leandro fortes /são paulo

Ainda não surgiu, infelizmente, um ministro da Defesa capaz de tomar para si a única e urgente responsabilidade do titular da pasta sobre as forças armadas brasileiras: desconectar uma dúzia de gerações de militares, sobretudo as mais novas, da história da ditadura militar brasileira. A omissão de sucessivos governos civis, de José Sarney a Luiz Inácio Lula da Silva, em relação à formação dos militares brasileiros tem garantido a perpetuação, quase intacta, da doutrina de segurança nacional dentro dos quartéis nacionais, de forma que é possível notar uma triste sintonia de discurso – anticomunista, reacionário e conservador – do tenente ao general, obrigados, sabe-se lá por que, a defender o indefensável. Trata-se de uma lógica histórica perversa que se alimenta de factóides e interpretações de má fé, como essa de que, ao instituir uma Comissão Nacional da Verdade, o governo pretende rever a Lei de Anistia, de 1979.
Essa Lei de Anistia, sobre a qual derramam lágrimas de sangue as viúvas da ditadura em rituais de loucura no Clube Militar do Rio de Janeiro, não serviu para pacificar o país, mas para enquadrá-lo em uma nova ordem política ditada pelos mesmos tutores que criaram a ditadura, os Estados Unidos. A sucessão de desastres sociais e econômicos, o desrespeito sistemático aos Direitos Humanos e a distensão política da Guerra Fria obrigaram os regimes de força da América Latina a ditarem, de forma unilateral, uma saída honrosa de modo a preservar instituições e pessoas envolvidas na selvageria que se seguiu aos golpes das décadas de 1960 e 1970. Não foi diferente no Brasil.

Uma coisa, no entanto, é salvaguardar as Forças Armadas e estabelecer um expediente de perdão mútuo para as forças políticas colocadas em campos antagônicos, outra é proteger torturadores. Essas bestas-feras que trucidaram seres humanos nos porões, alheios, inclusive, às leis da ditadura, não podem ficar impunes. Não podem ser tratados como heróis dentro dos quartéis e escolas militares e, principalmente, não podem servir de exemplo para jovens oficiais e sargentos das Forças Armadas. Comparar esses animais sádicos aos militantes da esquerda armada é uma maneira descabida e sórdida de manipular os fatos em prol de uma camarilha, à beira da senilidade, que ainda acredita ter vencido uma guerra em 1964.

Assim, ao se perfilarem num jogo de cena melancólico em favor dessas pessoas, o ministro Nelson Jobim e os comandantes militares prestam um desserviço à sociedade brasileira. Melhor seria se Jobim determinasse aos mesmos comandantes que pedissem desculpas à nação, em nome das Forças Armadas, pelos crimes da ditadura, como fizeram os militares da Argentina e do Chile, ponto de partida para a depuração de uma época terrível que, no entanto, não pode ser esquecida. Jobim faria um grande favor ao país se, ao invés de dar guarida a meia dúzia de saudosistas dos porões, fizesse uma limpeza ideológica e doutrinária na Escola Superior de Guerra, de onde ainda emanam os ensinamentos adquiridos na antiga Escola das Américas, mantida pelos EUA, onde militares brasileiros iam aprender a torturar e matar civis brasileiros.

A criação do Ministério da Defesa, em 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, deu-se por um misto de necessidade política e operacional. O Brasil era, então, um dos pouquíssimos países a ter um ministro fardado para cada força militar, o que fazia de cada uma delas – Marinha, Exército e Aeronáutica – um feudo administrativo indevassável e obrigava o presidente a negociar no varejo assuntos que diziam respeito ao conjunto de responsabilidades gerais das Forças Armadas. Do ponto de vista de gerenciamento da segurança nacional, aquele modelo herdado da ditadura era, paradoxalmente, um desastre. Ainda assim, apesar de ter havido alguma resistência na caserna, o Ministério da Defesa foi montado, organizado e colocado em prática.

Faltou, no entanto, zelo na indicação de nomes para a pasta. Desde o governo FHC, o Ministério da Defesa serviu para abrigar políticos desempregados ou servidores públicos sem qualquer ligação e conhecimento de políticas de defesa e realidade militar. A começar pelo primeiro deles, o ex-senador Élcio Álvares, do ex-PFL, acusado de colaborar com o crime organizado no Espírito Santo. Defenestrado, foi substituído, sem nenhum critério, pelo então advogado-geral da União, Geraldo Quintão, praticamente obrigado a aceitar o cargo por absoluta falta de outros interessados. No governo Lula, já foram quatros os ministros da Defesa: o diplomata José Viegas Filho, o vice José Alencar e o ex-governador da Bahia Waldir Pires, além do atual, Nelson Jobim.

Todos, em maior ou menor grau, gastaram tempo e energia em cima das mesmíssimas discussões sobre salários e equipamentos, mas ninguém ousou tratar da questão doutrinária e de novos parâmetros para a educação e a formação dos militares brasileiros. Na Estratégia de Defesa Nacional, elaborada por Jobim e pelo ex-ministro de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger, em 2008, o tema é abordado, simplesmente, em um mísero parágrafo. A saber:

“As instituições de ensino das três Forças ampliarão nos seus currículos de formação militar disciplinas relativas a noções de Direito Constitucional e de Direitos Humanos, indispensáveis para consolidar a identificação das Forças Armadas com o povo brasileiro”.

A polêmica sobre a possibilidade ou não de revisão da Lei de Anistia é um reflexo direto do descolamento quase que absoluto dos quartéis da chamada sociedade civil brasileira, que, a partir de 1985, cometeu o erro de relegar os militares a uma quarentena política aparentemente infindável, da qual eles só se arriscam a sair de quando em quando, mesmo assim, de forma envergonhada e, não raras vezes, desastrada. Basta dizer que, para reivindicar melhores salários, recorrem os nossos homens de farda às mulheres, normalmente, esposas de oficiais de baixa patente e de praças subalternos, a se lançarem em panelaços e acampamentos públicos a fim de sensibilizar os generais. Estes mesmos generais que se mostram tão irritados com a possibilidade de instalação, aliás, tardia em relação a toda América Latina, da Comissão Nacional da Verdade, prevista no Plano Nacional de Direitos Humanos.

Mas, afinal, por se irritam os generais e, com eles, o ministro Nelson Jobim? Com a possibilidade de, finalmente, o Estado investigar e nomear um bando de animais que esfolaram, mutilaram, estupraram e assassinaram pessoas às custas do contribuinte? Por que diabos o Ministério da Defesa se coloca ao lado de uma escória com a qual sequer existe, hoje em dia, uma mínima ligação geracional na caserna?

O Brasil precisa se livrar da ditadura militar, mas não antes de dissecá-la e neutralizar-lhe as sementes. Os militares de hoje não podem ser obrigados a defender gente como o coronel Brilhante Ustra, o carniceiro do DOI-CODI de São Paulo, nem o capitão Wilson Machado, vítima mutilada pela própria bomba que pretendia explodir, em 1º de maio de 1981, durante um show de música no Riocentro, onde milhares de pessoas comemoravam o Dia do Trabalho. Um Exército que dá guarida e, pior, se orgulha de gente assim não precisa de mais armamento. Precisa de ar puro.

PRAEMONITIONE e SESSÃO À MEIA LUZ – de raymundo rolim / morretes.pr

Praemonitione

Primeiro desceu as escadas correndo feito um maluco. Depois andou oito quadras e meia sem respirar direito. Precisava a qualquer custo vencer os próprios limites. Titulara-se no trigésimo quinto e sexto idiomas – aramaico e dravídico – que passou a falar, escrever e arriscava-se mesmo a compor alguns poemas nessas línguas, que de tão antigas estavam quase a morrer. E já pensava numa nova loucura, quando algo lhe tocou o ombro. Estremeceu. Voltou-se lento, vagaroso, temeroso, na direção da mão que fendia o ar e se transfigurava numa coluna de fumaça branca. Pressentiu que dessa vez seria ele a reencarnação final de Copérnico, o novo papa; e não um outro!

Sessão à meia-luz

Sabia e muito bem, que teria de se apressar, se não quisesse chegar atrasado para a sessão de “desencarne”. Bem, pelo menos era este o nome que davam lá nas sessões, num bairro que ficava longe, na periferia. Chegou e foi logo convidado a ficar no canto esquerdo, ao lado da médium, que respirava de modo esquisito, pressionando o ar e bufando feio. Pediram-lhe que se sentasse e não cruzasse mãos ou pernas, que fechasse os olhos. Ficou um pouco ressabiado. Sabia das muitas histórias de “receber o santo”, e que nesse estágio, as pessoas faziam coisas horríveis, como girar, rolar no chão, falar com voz que não a própria…eu hem, pensou! Logo ele que se achava o próprio santo e de modo algum carecia de receber um outro -. E também, não era muito chegado a isso e não confiava em santo alheio a não ser no próprio. Possuía os seus, sabia-lhes os nomes, os milagres, data de canonização etc. e tal. Bem, já estava ali no escurinho mesmo, não custava fechar os olhos. E de certa forma, lhe fora gentilmente solicitado. Com aquelas velas fraquinhas, manteria uma frestinha, uma nesga de olhar a bisbilhotar o recinto, no caso de algum imprevisto. E foi o que fez. E aí, foi quando viu mãe Maria. Sabe-se lá por que, segurava e vinha com uma faca enorme para as suas bandas. O homem levantou, desatou a correr, derrubou muitas imagens de São Jorge e outras tantas de exus e outras que nem sabia quem ou o que eram. Disparou porta a fora. Tamanha inquietação não lhe permitiu reparar no bode preto que estava amarrado ao seu lado, resfolegando feio. Ele, o bode, era o objeto do desencarne e não ele, o convidado. Ficou para uma outra vez, uma outra sessão que ele sabia, de antemão, jamais estaria lá.

CEMITÉRIO DE PULGAS II – de jorge barbosa filho / curitiba

NEM LEIS, NEM JUSTIÇA por josé saramago / portugal

Em Portugal, na aldeia medieval de Monsaraz, há um fresco alegórico dos finais do século XV que representa o Bom Juiz e o Mau Juiz, o primeiro com uma expressão grave e digna no rosto e segurando na mão a recta vara da justiça, o segundo com duas caras e a vara da justiça quebrada. Por não se sabe que razões, estas pinturas estiveram escondidas por um tabique de tijolos durante séculos e só em 1958 puderam ver a luz do dia e ser apreciadas pelos amantes da arte e da justiça. Da justiça, digo bem, porque a lição cívica que essas antigas figuras nos transmitem é clara e ilustrativa. Há juízes bons e justos a quem se agradece que existam, há outros que, proclamando-se a si mesmos justos, de bons pouco têm, e, finalmente, não são só injustos como, por outras palavras, à luz dos mais simples critérios éticos, não são boa gente. Nunca houve uma idade de ouro para a justiça.

Hoje, nem ouro, nem prata, vivemos no tempo do chumbo. Que o diga o juiz Baltasar Garzón que, vítima do despeito de alguns dos seus pares demasiado complacentes com o fascismo sobrevivo ao mando da Falange Espanhola e dos seus apaniguados, vive sob a ameaça de uma inabilitação de entre doze e dezasseis anos que liquidaria definitivamente a sua carreira de magistrado. O mesmo Baltasar Garzón que, não sendo desportista de elite, não sendo ciclista nem jogador de futebol ou tenista, tornou universalmente conhecido e respeitado o nome de Espanha. O mesmo Baltasar Garzón que fez nascer na consciência dos espanhóis a necessidade de uma Lei da Memória Histórica e que, ao abrigo dela, pretendeu investigar não só os crimes do franquismo como os de outras partes do conflito. O mesmo corajoso e honesto Baltasar Garzón que se atreveu a processar Augusto Pinochet, dando à justiça de países como Argentina e Chile um exemplo de dignidade que logo veio a ser seguido. Invoca-se aqui a Lei da Amnistia para justificar a perseguição a Baltasar Garzón, mas, em minha opinião de cidadão comum, a Lei da Amnistia foi uma maneira hipócrita de tentar virar a página, equiparando as vítimas aos seus verdugos, em nome de um igualmente hipócrita perdão geral. Mas a página, ao contrário do que pensam os inimigos de Baltasar Garzón, não se deixará virar. Faltando Baltasar Garzón, supondo que se chegará a esse ponto, será a consciência da parte mais sã da sociedade espanhola que exigirá a revogação da Lei da Amnistia e o prosseguimento das investigações que permitirão pôr a verdade no lugar onde ela tem faltado. Não com leis que são viciosamente desprezadas e mal interpretadas, não com uma justiça que é ofendida todos os dias. O destino do juiz Baltasar Garzón é nas mãos do povo espanhol que está, não dos maus juízes que um anónimo pintor português retratou no século XV.

13 de Fevereiro, 2010.

O QUE PODE HAVER POR TRÁS DA PERVERSIDADE – considerações sobre “O GATO PRETO” / por lucas paolo – são paulo

Dentre as inúmeras abordagens possíveis do conto “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe, interessa-nos tratar aqui da ambiguidade do sentimento de culpa que o narrador demonstra ao longo do conto.

Começaremos apontando alguns pressupostos que guiarão esta abordagem. Em seu ensaio “A Filosofia da Composição” – trata da construção do poema “O Corvo”-, Poe diz: “É bastante óbvio que todo enredo, que mereça este nome, deve ser elaborado até o fim antes que o autor escreva uma só linha. Só tendo em vista, constantemente, o final da história é que podemos dar a um enredo seu indispensável ar de consequência, ou causa, fazendo com que os incidentes, e especialmente o tom, apontem, o tempo todo, para o desenvolvimento da intenção.” Portanto, podemos presumir que Poe, também em “O Gato Preto”, havia concebido todo o enredo antes de se pôr a escrever o conto, e que tendo em vista o direcionamento dos fatos, ele guiou sua escrita nas condições necessárias para se atingir determinado tom.

Mas qual seria esse tom em “O Gato Preto”? Obviamente o da perversidade. E seguindo a linha de raciocínio de Poe, podemos apontar o terreno do conto como sendo o do mistério ou da superstição.

Porém, a perversidade do narrador não traz consigo sentimento de culpa, apenas medo. Sinais de medo esses que, apesar de parecerem uma reação lógica ao terreno do mistério e da superstição, podem ocultar o intuito prévio de cometer o assassínio e o receio ou medo da condenação – da justiça do homem ou de Deus.

Para averiguar estas questões, podemos citar novamente um trecho de “A filosofia da composição”: “Duas coisas são, invariavelmente, necessárias – primeiro, uma certa dose de complexidade, ou, mais propriamente, de adaptação; e, em segundo lugar, uma certa dose de sugestão –  uma corrente oculta, mesmo que indefinida, de sentido. É esta última, em especial, que confere a uma obra de arte grande parte daquela riqueza (para usar um termo convincente da linguagem coloquial), que nós temos a tendência de confundir com o ideal”, ou seja, podemos supor que há neste conto, como em “O Corvo”, um toque de sugestão, de indefinição que ampliam o sentido. Investiguemos no conto o sentido do medo, da culpa e da perversidade que o autor tenta nos impingir.

Com relação ao assassinato da mulher, o narrador não demonstra em nenhum momento sinais de remorso. “Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo” – evidenciamos aqui que, após o furioso ato, o narrador não sente culpa, apenas preocupa-se em esconder os vestígios de seu crime. Assim, após emparedar o corpo, o narrador procura o gato e não o encontra, e mesmo com “o peso daquele assassínio” sobre sua alma, o narrador regozija-se com o sumiço do alvo primeiro de sua perversidade e consegue dormir tranquilo – “O monstro, aterrorizado, fugira para sempre de casa. Não tornaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava.”

O narrador procura dissimular culpa com relação às atrocidades cometidas com o gato, todavia essa culpa é vista por ele como pavor ou medo do animal, e pode ser entendida  como receio do narrador em assassinar a mulher e ser apanhado. “Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse.” – algum tempo após ter enforcado o gato, o narrador sente algo em relação ao terrível ato, mas este sentimento, claramente, não é remorso. Depois de determinado período, o narrador encontra outro gato, o qual substitui o anterior. Esse também acarreta maldade no personagem e em situações de proximidade o narrador relata o seguinte: “Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas sobretudo – apresso-me a confessá-lo -, pelo pavor extremo que o animal me despertava.”, somos levados a pensar que o que impede o narrador é um medo ou pavor, porém, podemos averiguar em outro trecho que, talvez, este medo esteja relacionado a outras questões –  “Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar – sim, mesmo nesta cela de criminoso -, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível – que minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa -, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!”. Lembrando que, na época em que, possivelmente, se situa o conto, a pena para alguns crimes era a forca, pode-se intuir um medo diferente no narrador do que um medo supersticioso do sobrenatural.

Portanto, no conto, o narrador comete um ato de inacreditável perversidade, este não é, como pudemos perceber, carregado de culpa e remorso, todavia o narrador carrega o conto de mistério e superstição – encarnados na figura emblemática do gato preto –, o que nos leva a crer que o assassinato da mulher não é, de forma alguma, premeditado e sim um consequência dos eventos nefastos e nebulosos que se relacionam com o gato. Porém, se for admitido, sem muitas presunções, que em Poe há uma corrente oculta correndo junto à trama tão detalhadamente elaborada, pode-se inferir que um outro sentido subcutâneo está presente na trama e que este dá uma “riqueza” especulativa ao conto que, com certeza, Poe desejava.

GALO, CABRA, URUBU, JEGUE, ETC. – por hamilton alves / florianópolis

Paulo Mendes Campos conta numa crônica que tinha um filho (hoje, certamente, será um adulto), que adorava bichos de todos os tipos e feitios. Quando acontecia de sair à rua com ele, surpreendia-lhe o fato de, desaparecido por alguns instantes, trazia consigo um siri, um papagaio, um passarinho qualquer, até ocorreu que certa vez trouxe (descobrindo não sabia onde) uma pequena tartaruga, que logo recebeu um nome de batismo do garoto. Com ela conviveu durante muito tempo até que um dia a tartaruga, para seu desespero, tinha desaparecido. Ficou inconsolável. Telefonou para a avó lhe perguntando como faria com a perda da tartaruga, se não havia jeito de lhe conseguir outra.

Com insetos era a mesma coisa. Tinha em caixas de todo o tipo alguns exemplares deles, principalmente borboletas.

O que bichos interessam hoje às crianças?

Lembro que, certa vez, os jornais de Nova York noticiaram que um garoto, quando viu uma vaca, ficou deslumbrado. Nunca imaginara que podia existir um bicho assim.                            Suponha-se se visse uma girafa, um elefante, uma zebra, seu espanto, certamente, seria bem maior.

As crianças das cidades populosas e modernas não têm mais como conviver com bichos, ainda que insignificantes do ponto de vista de suas proporções físicas.

Gato, cachorro, ainda dá para ter no ambiente doméstico.

Sempre quis ter um galo à volta de mim.

Uma vez, numa viagem a Orleães, vi um galo branco na estrada, parei o carro e saí para pegá-lo. Cerquei-o, mas pulou uma cerca e fugiu. Como era lindo! O poeta Augusto Frederico Schmidt, com quem troquei algumas cartas, três ou quatro, quando estava no auge de sua fama, não como poeta, mas como homem público, fora ministro de JK, possuía um galo branco esplêndido em sua casa.

A cabra, por exemplo, é o animal da minha paixão. As cabras conviveram muito de perto comigo na infância. Lembro-me que, quando caía chuva rala, baliam até mais não poder, amarradas com cordas em touceiras de capim. O balido de cabra tem um conteúdo de paz e purificação sem igual.

Sobre aves, é claro que o galo tem minha simpatia, mas o urubu (o nosso nunca assaz louvado urubu, ecologista emérito) leva meu voto. Pode ser feio, mas nenhuma outra ave faz melhor suas acrobacias aéreas (descobri há pouco que  é também da preferência do pintor Semy Braga).

E, para terminar, pensei certa vez em trazer do nordeste um jegue, que acho uma simpatia insuperável de animal.

Teríamos, de certo, muito que nos dizer em nossas horas neutras e silenciosas.

CAÇA-BILHÕES por alceu sperança / cascavel.pr

Constantemente a imprensa noticia apreensões de máquinas caça-níqueis. Aves de rapina que se aproveitam de uma doença – a compulsão pelo jogo – tiram até o último centavo de crianças, jovens e adultos seduzidos pelos sons e imagens hipnóticos dessas máquinas enganosas.

São de fato instrumentos odiosos, que devem ser banidos, como, aliás, toda jogatina. Mas há uma outra máquina perversa que arranca o dinheiro dos brasileiros. Ela não só caça níqueis, mas caça bilhões. Atendendo aos interesses pervertidos dos donos do mundo, essa máquina é o que costumamos chamar de “governo”.

Se a farra dos juros em cima de dívidas infladas artificialmente deixasse de ser paga, o dinheiro que se esvai poderia ser usado produtivamente, para suprir o grosso da infraestrutura necessária ao País. Por alguns dias, de suspensão que fosse, corrigiria o grave problema dos hospitais públicos. Se parasse de vez, o País poderia melhorar sua estrutura social e superaria os gargalos logísticos que hoje embaraçam a conquista da taxa de crescimento necessário ao Brasil, que deveria se dar na faixa dos 7% a 8%.

A máquina monstruosa caça-bilhões do governo brasileiro gasta com juros em uma semana o valor dos investimentos previstos para todo o sistema aeroportuário em quatro anos. É de meter medo a conta de quanto o governo Lula vai torrar para o pagamento desses juros criminosos em seu alegre governo de oito anos inteiros enchendo as burras dos espertos donos do mundo.

Uma das variantes da horrenda máquina caça-bilhões é o tal do “superávit primário”, praga inventada pelos espertalhões: é a quantia que somos obrigados a economizar para o pagamento da farra dos juros. Os cerca de seis mil municípios brasileiros estão quase todos quebrados: a maioria nem consegue pagar os professores e os médicos que necessitam para atender as crianças e os enfermos.

O dinheiro que não vai para a educação e a saúde vai para pagar a jogatina pervertida dos donos do mundo. Sabe aquele ladrãozinho do bairro que tivemos vontade de esganar quando roubou uma roupa do varal? Ele levaria um bilhão de anos para roubar de sua família o que a máquina caça-bilhões rouba do povo brasileiro em alguns segundos.

Toda a insegurança que sentimos, o descalabro da saúde, a fragilidade da educação, a sucata das Forças Armadas, a deficiente infraestrutura nacional, a Amazônia entregue às aves de rapina e falta de trabalho para o sem-terra poderiam ser coisas superadas se o dinheiro surrupiado pela máquina caça-bilhões fosse aplicado nas necessidades da população.

É assim que o capitalismo se mantém, é como os ricos ficam mais ricos e explica porque num mundo que gera tanta riqueza há crianças esqueléticas no terceiro e no quarto mundos, jovens mortos-vivos entregues à droga, adultos cujo orçamento mal dá para pagar as contas, famílias atemorizadas diante da perspectiva de perder o provedor no famigerado downsizing, eufemismo inglês para jogar milhões de bons trabalhadores no olho da rua.

Há que se recordar, sempre, o imortal Darcy Ribeiro: “Fomos criados para produzir o açúcar que adoçava a boca do europeu, o ouro que o enriquecia e continuamos produzindo a soja para engordar o porco na Alemanha. Enquanto não fizermos o País existir para si, seremos um país-problema”.

CHARLES CHAPLIN : “O ÚLTIMO DISCURSO”

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio … negros … brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem … levantou no mundo as muralhas do ódio … e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem … um apelo à fraternidade universal … à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora … milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas … vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia … da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais … que vos desprezam … que vos escravizam … que arregimentam as vossas vidas … que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina!
Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar … os que não se fazem amar e os inumanos.
Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela … de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo … um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

.

no filme “O GRANDE  DITADOR”.

NASCIMENTO DE VÊNUS de rainer maria rilke / praga/rep.tcheca


Esta manhã, depois que a noite inquieta
esmoreceu entre urros, sustos, surtos _
o mar ainda uma vez se abriu e uivou.
E quando o grito aos poucos foi cessando
e do alto o dia pálido emergente
caiu no vórtice dos peixes mudos_
o mar pariu.

Ao sol reluzem os pelos de espuma
do amplo ventre da onda, em cuja borda
surge a mulher, alva, trêmula e úmida.
E como a folha nova que estremece,
se estira e rompe aos poucos a clausura,
ela vai desvelando o corpo à brisa
e ao vento intacto da manhã.

Como luas erguem-se os joelhos claros,
réstias de nuvens soltam-se das coxas,
das pernas caem pequeninas sombras,
os pés se movem bêbados de luz,
vibram as juntas como gorgolhantes
gargantas.

na taça da bacia jaz o corpo,
como um fruto na mão de uma criança,
o estreito cálice do umbigo encerra
tudo o que é escuro nessa clara vida.
Em baixo alteiam-se as pequenas ondas
que escorrem, incessantes, pelas ancas,
onde, de quando em quando, a espuma chove.
Porém, exposto, sem sombras, emerge,
como um maço de bétulas de abril,
quente, vazio e descoberto, o sexo.

A balança dos ombros paira, ágil,
em equilíbrio sobre o corpo ereto
que irrompe da bacia como fonte
vacilante entre os longos braços fluindo
veloz pela cascata dos cabelos.

Então bem lentamente vem o rosto:
da sombra estreita da reclinação
para a clara altitude horizontal.
Após o qual fecha-se, abrupto, o queixo.

Eis que o pescoço surge como um fluxo
de luz, ou talo, de onde a seiva sobe,
e se estiram o s braços como o colo
de um cisne quando busca a ribanceira.

Então, da obscura aurora desse corpo,
ar da manhã, vem o primeiro alento.
No fio mais tênue da árvore das veias
há como que um bulício e o sangue flui
a sussurrar nas fundas galerias,
e essa brisa se expande: agora cresce
com todo o hausto sobre os peitos novos
que se intumescem de ar e a impulsionam, _
e como velas côncavas de vento
levam a jovem para a praia.

Assim aportou a deusa.

Atrás dela, pisando a terra nova,
lépida, ergueram-se toda a manhã
flores e caules, quentes, perturbados,
como num beijo. E ela foi e correu.

Porém, ao meio dia, na hora mais intensa,
o mar se abriu de novo e arremessou
no mesmo ponto o corpo de um delfim.
Morto, roxo e oco.

VEM, VENTO de otto nul /palma sola.sc

vem, vento,

na asa de um catavento,

vem, chuva,

leve como uma pluma,

vem, sol,

acender o arrebol,

vem, céu,

fazer todo o escarcéu,

vem, trovão,

com teu bordão,

vem, tristeza,

e põe tua mesa,

vem, alegria,

acabar com a agonia.

Banho de Sol – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Numa manhã fria

tomando sol

num pedaço de quintal

entre uma jabuticabeira

e um resto de horta abandonada,

velhas roseiras

e entulhos.

Fechei meus olhos

fiquei ali,

o ardente amarelo

transpassando

minhas pálpebras fechadas,

inerte,

só sentindo

o calor agradável,

sem pensar em nada,

sem ser nada.

Não existir

foi delicioso.

Quando abri meus olhos,

pensei:

Talvez

a jabuticabeira

seja feliz.

SER MULHER – por joanna andrade / miami.usa

Ser Mulher nao é apenas saber que os homens são de Marte e as mulheres são de Venus como dizem por aí.

Ser Mulher nao é padecer num paraíso como falam esses poemas popularescos.

Também não é como minha mãe diz ‘ minha filha, a Mulher educa o homem ‘ .

Ser Mulher para muitos é ter as unhas e os cabelos bem feitos, estar perfumada, sexy, gostosa, carnuda, suculenta.

Para outros, ser Mulher é pilotar bem um forno e um fogão, ter pão feito em casa, saber quando fazer bolinho de chuva, manter as roupas engomadas e os filhos limpos e educados. Esta pode ser incluída no rol da Mulher café da manhã, almoço e jantar, cama, mesa e banho.

Ser Mulher varia de acordo com as culturas todas espalhadas por este mundo.

A figura da Mulher já foi estilo Monalisa, Marilyn Monroe, Feliniana, Garota de Ipanema, Simone de Beauvoir, Silvya Plath, Dona Benta e outras.

Somos consumidas de acordo com nossos méritos culinários, esculturais, educacionais, profissionais, materiais, intelectuais, sexuais,  maternais etc e tal.

Ser mãe, ser esposa, ser motorista de filhos, ser cozinheira, trabalhar fora de casa porque dentro não conta, ser amante, ser diarista, ser tudo e mais um pouco e ser perfeita.

Ser Mulher é um horror !!!!

Eu quero ser apenas um ser humano e poder ser Mulher quando eu quiser.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

TEMPO – de vera lúcia kalaari / portugal

SERENIDADE… – de rosa DeSouza / florianópolis

O vento varre sonhos sem tempo,
Desvela certezas com desalento,
Expulsando a torrente do tormento.

O vento dança entontecido
Em rajadas cruéis estarrecido,
Balançando cortinas negras…

O vento cá dentro como fora,
A vaga estilhaça em mil fantasmas
Secando o puro ar, criando asmas…

O vento desatento ao amor,
Pisa e repisa almas – assustador
Recriando a engrenagem do desamor…

Vento, vento sem alma e cego,
Expulso-te e mesmo da brisa abnego,
Minha utópica nuvem branca navego…

Longe de tudo o que lembre agitações,
Ciclones, procelas ou tufões,
Me desacerto no ideal da coerência…

Troco o passo, vôo, corro, salto, escorrego,
para longe desse inferno vem uma vontade pugnaz…
Recolho-me serena na gruta da paz.

Debruçada na Prancheta – de tonicato miranda /curitiba

para aquela arquiteta

.

quando foi que me despedi de você

em qual gaveta perdi seu retrato

em qual lenço está o perfume não lavado

armário revirado, papéis sobre a mesa

você não está aqui, estou perdido, desamado

uma bala me persegue na arma do caçado

será ele seu novo amor em busca do passado

ou sou eu querendo atirar em mim por vingança

você tão brejeira

.

água de bica

brisa ligeira

palmeira rica

com muitos cocos

meu café da manhã

comido aos poucos

leite, aveia e avelã

.

você sorridente

vestido estampado

comprido, diferente

silhueta linda ao lado

da minha lembrança

meu mais gostoso

sorriso de criança

meu gesto amoroso

.

onde a perdi

em qual gaveta

quando não mais a vi

debruçada na prancheta

esta louca pintura

meu retrato espelhado

minha maior iluminura

que me fez andar de lado

Libelu, Rolando Lero e Gustavo Corção na “Confecom da direita” – por gilberto maringoni / são apulo


A terceira mesa da “Confecom da direita”, realizada na última segunda-feira, foi intitulada “Ameaças à democracia no Brasil” e foi a mais trepidante de todas. Contou com Demétrio Magnoli, o Gustavo Corção da Libelu, Denis Rosenfeld, o Rolando Lero na filosofia gaúcha, e Amauri de Souza, sociólogo. Na mediação, Tonico Ferreira (Globo).
Ferreira é mais um daqueles que um dia foram de esquerda e transitaram alegremente para a outra ponta do espectro político sem culpas. Chefe de redação do semanário Movimento, no final dos anos 1970, Ferreira, de saída, denuncia o caráter autoritário da lei eleitoral. “É censura”, diz ele, antes de passar a palavra a Magnoli.

Este não perde tempo. Logo faz um apanhado da história do PT e dispara: “A relação do partido com a democracia é ambígua. Juntamente com o PSOL, apoiou o fechamento da RCTV”. Acusa a agremiação de Lula de fazer uma volta atrás em seu ideário democrático. “Retomaram a ideia autoritária de partido dirigente e de democracia burguesa”, sentencia. E logo completa: “Este movimento, de restauração stalinista, é reforçado pela emergência do chavismo e do apoio a Cuba”. Na plateia, uma senhora murmura: “Que vergonha nosso governo apoiar isso”.

O risco, para Magnoli, é um possível governo Dilma, supostamente mais subordinado ao PT do que a gestão Lula. O fim das ameaças, para ele, só acontecerá “com a vitória da oposição”. Bingo! E culmina: “Não somos Venezuela e Cuba! Temos de falar que nós somos diferentes!”. Aplausos entusiasmados.

Rosenfeld vai pela mesma toada, mas busca elaborar uma “pensata” sobre o “corpo e o espírito do capitalismo”. Segundo ele, o corpo vai muito bem. “Os grupos econômicos ganharam muito dinheiro nesses oito anos”. O problema é o espírito, “os bens intangíveis”, revela o filósofo. A base material é garantida pelo governo, segundo Rosenfeld. “As metas de inflação, a autonomia operacional do Banco Central e o superávit fiscal” mostrariam um rumo seguro. Mas o espírito está sendo minado, alerta. Esse ectoplasma é “a liberdade de expressão” que estaria ameaçada. E enumera os problemas, numa tediosa repetição: “O PNDH, o MST, a questão dos quilombolas” etc. etc. etc.

A sutileza do sr. Basile

O seminário foi sumamente repetitivo, diga-se de passagem. No período da tarde, os previsíveis Arnaldo Jabor, Carlos Alberto di Franco (Opus Dei) e Sidnei Basile (diretor da Abril) tentaram dar novas roupagens ao samba de uma nota só do evento. Basile, sob o olhar atento de Roberto Civita, seu patrão, defende um regime de autorregulação para a imprensa. “Algo semelhante ao Conar” (Conselho de Autorregulamentação Publicitária), formado pelas próprias agências, ao invés de uma lei para o setor.

A proposta é ensandecida. Se aplicada a toda a sociedade, com cada um supervisionando seu próprio setor, o mundo seria uma graça. Um exemplo. Não haveria mais leis de trânsito, sinais, placas, mão e contramão. Os motoristas se reuniriam e fariam um código de autorregulação. Se os pedestres reclamarem, basta acusá-los de tentar bloquear um dos mais sagrados direitos, o de ir e vir dos motorizados. Todos se autorregulariam e chegaríamos ao reino encantado de Basile. No meio de seu delírio anarquista, o executivo, sempre observado pelo patrão, acusou a convocação da Confecom por parte do presidente da República como um ato “cínico e hipócrita”. Adendou: “Um conto do vigário”. Basile é de uma sutileza a toda prova.

Jabor, que aparentemente não preparou intervenção alguma, repetiu “jaborices” pelos cotovelos. Populismo autoritário, jacobinos, bolcheviques e quejandos formam o mundo a ser vencido. Homem experiente que é, contou mais uma vez já ter sido comunista. E disparou diatribes à granel. Impossível não lembrar de uma impagável frase do escritor paulistano Marcos Rey (1925-1999). Este dizia não gostar de dois tipos de gente, ex-comunistas e ex-fumantes, “porque ambos são metidos a dar conselhos”.

Outro lado pra quê?!

A quarta mesa – “Liberdade de expressão e Estado democrático de direito” – contou com a participação de três luminares: Reinaldo Azevedo (Veja), Marcelo Madureira (Casseta & Planeta) e o Dr. Roberto Romano (Unicamp), os dois últimos tentando ver quem era mais Reinaldo Azevedo que o próprio Reinaldo Azevedo.

O próprio é um fenômeno da natureza. Um criador de personagens. É uma espécie de Walt Disney de si próprio. Disney inventou o Mickey, o Pato Donald, o Pateta e uma plêiade de figuras inesquecíveis. Reinaldo Azevedo criou Reinaldo Azevedo. “Sou de direita!”, avisa de saída. “A imprensa tem que acabar com o isentismo e o outroladismo, essa história de dar o mesmo espaço a todos na mídia”.

Madureira foi mais um a alardear sua condição de ex-comunista. Fez piadinhas, embora não se saiba se seu cachê incluía chistes e gags. Atacou tendências autoritárias e “recadinhos” oficiais. “O governo pressiona os editores com os anúncios da Petrobras e do Banco do Brasil. Isso é censura!”. Com a presença do patrão na plateia, logo sublinhou: “A Globo não nos censura”.

Mas o humorista da tarde foi o Dr. Roberto Romano. Este revelou ao mundo uma nova teoria, que vai pegar. É sobre a militância. Atenção: “O partido de militantes causa a corrosão do caráter”. Guardem essa! Depois de A corrosão do caráter, de Richard Sennet, que fala dos vínculos trabalhistas e sociais tênues e sua influência no comportamento humano, um livro sério, o Dr. Romano vem com sua versão pândega. E explica: “No partido de militância não tem mais jornalista, médico e nem nada. Tem o militante que se reporta ao chefe”. Isso, para as muitas luzes do Dr. Romano, corrói o caráter. Olha lá, Brasil! A partir de agora, só se falará em outra coisa!

As pesquisas científicas do Dr. Romano o levaram a constatar, além de tudo, que “90% das ONGs são totalitárias”. Como o mediador William Waack prometeu publicar a fala original do Dr. Romano no site do Instituto Millenium, o mundo aguarda ansioso as fontes empíricas de tão bombástica revelação.

No fim de tudo, na última palestra, o deputado Antonio Pallocci veio confraternizar com aqueles que malharam sem dó seu partido e o governo que integrou até há poucos anos. Para agradar, também criticou o PNDH, no que foi cumprimentado ao final.

Tendências não democráticas

O Fórum do Instituto Millenium, apesar de seu tom folclórico, não é engraçado. Embora seja um direito democrático a organização de toda e qualquer facção política, é forçoso reconhecer que estas nada têm de democráticas ou plurais. Buscam se articular justamente para evitar reformas democratizantes no país e no setor de comunicação. Um ponto positivo é dado pela seguinte constatação: os monopólios de mídia se desgastaram com o boicote à Confecom. O tema da democratização da comunicação entrou na agenda nacional com força. O seminário é uma gritaria da direita. Sem problemas. O duro é buscarem afirmar seus interesses contra a vontade e as necessidades da maioria da população.

Agradecimento

Este obscuro jornalista agradece sinceramente ao Dr. Roberto Romano pela menção ao texto “Instituto Millenium: toda a democracia que o dinheiro pode comprar!, feita no calor de suas vibrantes intervenções. Apesar de ele ter recomendado às pessoas taparem o nariz para lê-lo, só posso ficar envaidecido com tão ilustre recomendação.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

DOS INSTINTOS E DOS INSTANTES homenagem de JOÃO BATISTA DO LAGO neste DIA DA MULHER / são luis


(Para todas as mulheres)

Na cumplicidade do

Instinto e do instante

Nada parece bastante para

Apascentar nossa paixão

Vivemos de nossas ilusões (e)

Queremos como loucos

Num mundo atormentado por guerras

Abstrair dessa cumplicidade todas as paixões

E nos instintos desses instantes de loucura plena

Já mais não sei quem sou:

Se teu amante ou teu filho

Se teu corpo no meu espírito

Se loucura de nós dois sendo apenas um

Não importa

O que desses instintos

Os instantes se concretizam em nós

Não. Não importa.

O que importa mesmo é o teu ser mulher

Cravando na minha carne todas as tuas dores

Mas, todas elas, carregadas de amores infindáveis

O que importa mesmo é o cheiro da rosa

– de todas as rosas –

Que exala do teu corpo

Perfumando e inebriando o meu

Que se tornara teu escravo

Desde a explosão do universo

Organizando o meu caos…

Sou os teus instintos…

E tu, ó mulher, todos meus instantes

……………………………………

(pois que assim seja por toda eternidade)

NESTE DIA INTERNACIONAL DA MULHER: OS PALAVREIROS DA HORA fazem singela homenagem à TODAS AS MULHERES na pessoa fantástica de BERTHA MARIA JÚLIA LUTZ


1894 – 1976

Ativista brasileira nascida em São Paulo, uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil e a quem as mulheres brasileiras devem a aprovação da legislação que lhes outorgou o direito de votar e serem votadas (1932). Filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista e pioneiro da medicina tropical Adolfo Lutz, foi educada na Europa, onde tomou contato com a campanha sufragista inglesa. Formou-se em Biologia na Sorbonne e, voltando ao Brasil (1918), ingressou por concurso público como bióloga no Museu Nacional, a segunda mulher a ingressar no serviço público brasileiro. Empenhada na luta pelo voto feminino, ao lado de outras pioneiras criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (1919), que foi o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a FBPF. Representou as brasileiras na assembléia-geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos (1922), onde foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. Finalmente, dez anos depois (1932), em 24 de fevereiro, por decreto-lei do presidente Getúlio Vargas, foi assinado o novo Código Eleitoral, onde estava previsto o direito de voto às mulheres. Dois anos depois, a Constituição (1934), de cujo comitê elaborador participaram ela pela FBPF e Nathercia Silveira, da Aliança Nacional de Mulheres, garantiu às mulheres a igualdade de direitos políticos. Nas eleições parlamentares seguintes, candidatou-se pela Liga Eleitoral Independente, ficando na primeira suplência, mas assumindo a cadeira de deputada na Câmara Federal (1936), pela morte do titular, Cândido Pereira. No exercício parlamentar defendeu mudanças na legislação referente ao trabalho da mulher e do menor, a isenção do serviço militar, a licença de 3 meses para a gestante e a redução da jornada de trabalho, então de 13 horas. No ano seguinte (1937) Vargas fechou as casas legislativas, decretando o Estado Novo. Assim, encerrou-se a sua carreira como parlamentar e arrefeceu-se a capacidade de mobilização da FBPF, de cuja direção ela foi gradualmente se afastando. Porém continuou no serviço público, até que se aposentou como chefe do setor de botânica do Museu Nacional (1964). Anos depois (1975), Ano Internacional da Mulher, estabelecido pela ONU, integrou a delegação brasileira no primeiro Congresso Internacional da Mulher, realizado na capital do México, uma das suas últimas participações públicas em defesa dos direitos femininos. Faleceu no Rio de Janeiro, em setembro do ano seguinte, conhecida como a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras.

NESTE DIA DA MULHER: BREVE EXORTAÇÃO A ALGUNS HOMENS – por zuleika dos reis / são paulo

Queridos: sede companheiros, em verdade e de verdade, das mulheres. Companheiros em pensamento, companheiros nas palavras, companheiros em vossas ações.
Sede companheiros de vossas mães, de vossas irmãs, de vossas amigas, de vossas colegas, de vossas namoradas, de vossas esposas, de vossas filhas, de vossas amantes, também da(s) outra(s) de vossas esposas(… )
Companheiros homens: sede companheiros de vossas mulheres e também de  todas com as quais estiverdes em contato cotidiano, na vida profissional ou meramente no acaso dos ônibus, das ruas, dos becos…
Sede companheiros das mulheres que muitas vezes acabam por se ver, por força da NECESSIDADE, como uma espécie onipotente, onipresente, como se foram deusas. Não são. São apenas seres humanos, falíveis, feitos não só depensamentos sublimes, maternais, mas às vezes também, como quase todos, de pensamentos pouco nobres e da mais dilacerada solidão. Afinal, chega a ser sobre humano, para tantas,  a necessidade de serem, simultaneamente, o homem e a mulher de suas próprias vidas, vidas a englobar de filhos a velhos pais, alquebrados e impotentes; mulheres a sobreviverem muitas vezes, com o sacrifício de suas mais intransferíveis e recôndidas necessidades individuais.
Queridos: assim como acordamos o “homem” em nós, acordai a mulher em vós. Dir-me-eis: “Afinal, se somos tão centrados em nossas próprias necessidades,  não são vós, mulheres, as responsáveis diretas por nos termos tornado assim, tal como dizeis? ”  Tendes boa parte de razão: a maioria de nós, mulheres, tem educado seus filhos homens para serem reis, cuja função primordial deveria ser a de servir, e que acabam existindo para serem servidos. Aliás, um mundo justo deveria ser pautado pelo princípio de que cada ser, homem e mulher, veio ao mundo para servir e para ser servido, isto é, para a prestação mútua de serviços. Alguns dirão: “Há serviços que cabem aos homens, outros às mulheres”. Desculpem, mas penso ser este discurso ideologicamente muito conveniente para que o status quo permaneça sempre como tem sido, a serviço de um patriarcado que jamais deixou de exercer seu pleno poder, apesar das indiscutíveis conquistas femininas no mundo exterior ao lar.
Proponho-vos uma rebelião: Inicialmente, fazei crescer,  multiplicai em vós, dentro de vós, na “mulher” que também vos habita o interior, os pensamentos, as palavras, as intenções de cumplicidade para com as mulheres, vossas companheiras de espécie neste mundo. Transformai então, toda essa energia em palavras e ações efetivas e vereis, certamente, crescerem as sementes de um novo tempo, de uma nova realidade, verdadeiramente humana, verdadeiramente fraternal.

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EINSTEIN- ilustração do site.

A MULHER: FRASES QUE FICARAM PARA SEMPRE

A maior covardia de um homem é despertar o amor de uma mulher sem ter a intenção de amá-la.

Bob Marley

Entre um homem moço e uma mulher bonita, a amizade pura, a amizade intelectual é impossível. O homem e a mulher são, fundamentalmente, irredutivelmente, inimigos. Só se aproximam para se amar – ou para se devorar.

Júlio Dantas


A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada.

Maomé


Nunca confie na mulher que diz a verdadeira idade, pois se ela diz isso… Ela é capaz de dizer qualquer coisa.

Oscar Wilde

A mulher que se preocupa em evidenciar a sua beleza anuncia ela própria que não tem outro maior mérito.

Julie Lespinasse

Uma mulher perdoará um homem por tentar seduzi-la, mas não o homem que perde essa oportunidade quando lhe é oferecida.

Charles Talleyrand-Périgord


Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação.

Marcel Proust

SOU MULHER de rita maria medeiros de almeida / porto alegre

Gentil, fiel e pecadora
Na humildade tenho a grandeza
O brilho do sol tenho nos olhos
Nos sonhos tenho o romance das estrelas

No corpo tenho o pecado e a atração
De bondade um olhar infinito
Se durmo sozinha na solidão
No meu coração está o mor mais  bonito.

Sou mulher!
posso ser amante e companheira
Esposa leal, mãe extremosa
Posso ser o anjo benfazejo
Que lhe atende e lhe ama a toda hora.

Posso ser o pecado em uma vida
A desgraça de um homem sem história
Posso estender a mão ao maldito
Posso levantar quem não tem hora

Sou mulher!
Sou anjo em uma vida, diabo em outra
Sou estrela que quia a toda hora
Sou aquela que tira a melancolia
Sou a pessoa que muda a sua história

Sou Mulher!

MORRE “LEONARDO” O PAJEADOR DO RIO GRANDE SUL / porto alegre

morre o cantor LEONARDO aos 71 anos.  um dos melhores compositores e interprete da música nativista do Rio Grande do Sul/BR. o PALAVRAS TODAS PALAVRAS lhe rende esta simples homenagem que de forma alguma alcança a grandeza do mestre pajeador. publicamos a letra, que se transformou em um HINO do Rio Grande do Sul.

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CÉU, SOL, SUL, TERRA E COR                     .(letra e música de LEONARDO)

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Eu quero andar nas coxilhas sentindo as “flexilhas” das relvas do chão
Ter os pés “roseteado” de campo ficar mais trigueiros com o sol do verão
Fazer versos cantando as belezas desta natureza sem par
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver  sem chorar
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver sem chorar

Estribilho:
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor


Eu quero me banhar nas fontes e olhar horizontes com Deus
E sentir que as cantigas nativas continuam vivas para os  filhos meus
Ver os campos florindo e crianças sorrindo felizes a cantar
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver  sem chorar
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver  sem chorar

Estribilho:
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o amor…

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UM clique no centro do vídeo para ouvir a canção:

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bandeira do RIO GRANDE DO SUL.

A VIAGEM de jb vidal / florianópolis


no trem

as paisagens se repetem

uma a uma se repetem

a velocidade torna-as iguais

tédio

tédio das paisagens que não vi

porque lia um livro

que não li

no trem

tédio do que vivi

na viagem

viagem conhecida

angustiantemente conhecida

lucidez angustiante

minh’alma tórrida

sofre no trem

o cobrador conhecido

pede a passagem

que ficou no guichê

olho-o com olhar vazio

nada tenho para dar

se me pedir

dou-me

NÃO é nada diz

quer o bilhete

ofereço as paisagens que não vi

lindas imagino

NÃO

o valor da viagem

no trem

vale

o que tu sentes

lá fora

as paisagens

repetidas

doloridas

deserticamente repetidas

velozes

dentro

o cobrador eu  tu

e o êxtase possível

na Estação

BIOGRAFIA – de manoel de andrade / curitiba

Para Marco Pólo Passos

Cheguei com dezessete anos de esperança…

sem recurso

sem norte

sem uma referência sequer.

Passageiro de destino,

trazia uma ferida aberta pela súbita orfandade

e na memória um coração paterno destroçado.

Trazia uma única saudade,

o coração ancorado na distância

e um sonho prometido no sacrário da alma.

Numa mala de papelão

trazia os meus tesouros:

um terno de formatura azul-marinho,

o diploma ginasial,

minhas primeiras letras

e uma certidão de nascimento desbotada.

Uma escada lúgubre e empinada

o quarto mais barato da pensão

seis metros enquadrados

partilhados com um motorista de ônibus urbano… rude e desonesto.

O telhado inclinado sobre as camas

o arrulho amoroso das pombas

uma clarabóia que se abria para o céu

um aluguel adiantado

a matrícula no colégio público

o “sortido” dos primeiros dias

o pão nosso dos últimos dias

o derradeiro centavo.

A fome

o terceiro dia

o desencanto

e a imensa solidão do mundo.

Um banco solitário

um pânico silencioso, resignado e calmo

a morte na alma.

As horas passam

os transeuntes passam

indiferentes à minha dieta de água e impotência.

À luz do meio dia… uma discreta agonia

e de repente… um grito…

meu apelido da infância…

um abraço inesperado, fraterno e conterrâneo…

quando…? onde…? como…? venha comigo Lelo…

obrigado Marco Polo por aquela bandeja farta

pelos primeiros amigos

por tudo…

e sobretudo…

obrigado

pela tua mão invisível, Senhor…

que desde sempre amparou meus passos.

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Curitiba, junho de 2003.

Do livro “Cantares” publicado por Escrituras

RALÉ DE TOGA por olavo de carvalho / curitiba

Embora não seja estrita verdade o que pretendia Karl Marx, que a condição social dos homens determine a sua consciência, ela o faz às vezes, e no mínimo é imprudente esquecer que ela pode impor severos obstáculos ao conhecimento. É característico dos modernos acadêmicos precaver-se contra esse erro no estudo de todos os assuntos humanos, salvo no deles mesmos. Se há um tema raro nas investigações acadêmicas, é o das relações entre a estrutura do poder universitário e as idéias dominantes entre estudantes e professores.

Mas é claro que a organização social e econômica do trabalho intelectual molda em parte a temática e os pressupostos da investigação e do debate, e não é possível que um tipo qualquer de organização – seja dos letrados chineses, seja a do clero medieval, seja a da moderna burocracia acadêmica – deixe a mente totalmente livre de entraves para enxergar a verdade tal e qual. Por isso é da mais alta conveniência que, numa mesma época, coexistam várias modalidades de esforço intelectual, somando, por exemplo, ao trabalho coletivo das academias as contribuições de free lancers e outsiders. Afastar ou menosprezar estes últimos trará a consagração da organização acadêmica como o único canal permitido de atividade intelectual – e, quanto mais homogênea a classe pensante, mais hão de proliferar nela os erros consagrados em dogmas.

Por isso mesmo jamais me atraiu a profissão universitária, inadequada a uma vocação pessoal demasiado sui generis. O primeiro assunto que me interessou nesta vida foram as religiões comparadas, das quais não havia curso universitário no Brasil e ainda são anêmicos entre nós. Foi a necessidade de esclarecer certos problemas de teologia mística – islâmica, para tornar a coisa ainda mais exótica – que me levou aos estudos filosóficos; e a busca de uma precisa diferenciação entre o discurso da mística, o da poesia, o da filosofia, etc. foi que me pôs na pista da “teoria dos quatro discursos” (Aristóteles em Nova Perspectiva, Rio, Topbooks, 1997), a qual, se tem algum valor filosófico independente, não é para mim senão etapa de um percurso que começa e termina na vida interior. Como poderia eu adequar esse trajeto às exigências de programas e chefetes, é coisa que escapa à minha imaginação.

Tão alheias são essas questões ao nosso mundinho universitário que ninguém, absolutamente ninguém na universidade brasileira, se deu o trabalho de discutir minhas teses, e, se alguém aí quis dizer algo a respeito, foi para dar o show de inépcia daquele parecerista da SBPC que escrevia “inverossímel”, com “e”, e confundia Santo Alberto Magno com São Gregório Magno. Várias vezes observei que todo o nosso primeiro escalão acadêmico reunido não teria força para empreender uma discussão séria do meu livrinho – e ao dizer isso não estava sendo nada hiperbólico, mas fazendo uma descrição precisa de um estado de coisas alarmante.

Para complicar, a teoria dos discursos incluía estudos de argumentação e persuasão, que depois apliquei ao exame de mil e um debates da atualidade, em artigos de imprensa cuja ligação íntima com um trabalho filosófico nem todos os leitores perceberam, ainda que eu a declarasse no prólogo a Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão (Topbooks, 1998). E jamais a burrice acadêmica se desmascarou tanto quanto nas suas reações a esses artigos. Quando um posudo acadêmico, apanhado em flagrante delito de vigarice intelectual, reage com insultos ou insinuaçõezinhas, sem sequer se dar conta de que não foi vítima senão da aplicação rigorosa de distinções lógicas que ele teria a obrigação de conhecer e praticar, isso só denuncia, mais enfaticamente ainda, a situação calamitosa de um ensino universitário no qual faltam menos verbas do que quem as mereça.

Nessas condições, a entrada em cena de um trabalhador intelectual autônomo, simpático ou antipático não vem ao caso, mas capaz de renovar uma certa ordem de estudos longamente abandonada neste país, deveria ter sido saudada como uma ajuda providencial, o que não se deu porque a nossa casta universitária não tem, para tanto, nem o necessário amor ao conhecimento, nem suficiente desapego a vaidades corporativas.

Mas não é só com os de fora que o meio acadêmico tem má vontade. Quando se vê, de um lado, a indolência com que esse círculo adiou até agora um exame do pensamento urgente e revigorante do professor Roberto Mangabeira Unger, e, de outro, o entusiasmo indecente com que estudantes açulados por professores da UFRJ se apressam em agredir com gritos e pancadas um reitor que não veio ao seu gosto – então se percebe a miséria de uma casta tão empenhada em fugir do seu dever quanto em mandar no que não é da sua alçada.

É a essa gente arrogante e burra, a essa ralé togada que vamos entregar o futuro da inteligência no Brasil?

A BELA DA TARDE por hamilton alves / florianópolis

O título desta crônica é o mesmo que o do filme de Buñuel, que foi estrelado por Catherine Deneuve,  com muito sucesso. Não gostei do filme, mas isso não impediu que tivesse colhido boa crítica.

Uma moça, cabelos revoltos, compridos, soltos, de uma silhueta fascinante, sentou-se a um banco de uma pracinha.

Tinha o ar de entediada.

Mas não, me enganava, pelo que sucedeu a seguir, abanando a mão para uma pessoa que a interposição de uma planta alta me impediu de ver de quem se tratava. Seria um namorado ou amante ou marido?

Não, era um grupo de amigas, que a chamava.

Ao sentar-se no banco, olhou a sandália, os dedos dos pés. Ficou assim, por um tempo, contemplando-os.

Trazia uma casaquinho branco em cima de uma  blusa sem mangas, verde clara. Sentiu calor. Tirou o casaquinho. E deixou ver os braços claros e lindos. Cena que me lembrou Machado de Assis, que era fixado em braços femininos. Tem até, em homenagem a esses membros, um conto com o título “Uns braços”, que mostra a fixação de um estudante, Inácio, um jovem de boa aparência, que não tira os olhos dos braços de Dona Severina, que vive maritalmente com o estouvado Borges. Volta e meia, quando lhe permitiam as circunstâncias e as distrações do marido, fixava-os neles.

Quando se ergueu do banco, encaminhando-se em direção ao grupo de moças (tinha um sujeito colhendo fotos do grupo), só então percebi seu porte de princesa.

Todo o conjunto do corpo (cabeça, torax e membros) balançava harmoniosamente, como se fora constituido de delicados mecanismos que lhe permitissem essa dança de carne e músculos.

O que faria àquela hora numa praça praticamente nua?

Fui a um bar nas redondezas. Na volta, ainda a vi soberana entre as demais, de certo modo cônscia de sua realeza.

Não a vi de perto. Nem me aproximei para observar os detalhes de sua figura esbelta.

Seria indiscrição.

Segui meu caminho, convencido de que a beleza, onde quer que surja, ocupa um lugar de realce, impondo-se a tudo. É um fenômeno que chama a atenção e estabelece uma certa hierarquia.

Algum filósofo já afirmou que “a beleza é um mistério”.

Era o caso daquela bela da tarde, que irradiava seu viço juvenil por toda a praça.

O dinossauro de Dakota e a fábrica de pobres brasileira – por alceu sperança / cascavel.pr

Em Dakota do Norte (EUA) os cientistas encontraram um dinossauro morto há 67 milhões de anos, dia mais, dia menos. Pela primeira vez o exemplar (um hadrossauro) estava preservado, não apenas com os ossos, mas também com tecidos e pele. Não é preciso, portanto, imaginar como ele era quando viveu.

No mundo de hoje, autoritários se apresentam ou se deixam confundir com “democratas” (os latifundiários criadores de milícias do PMDB, por exemplo) ou de “esquerda” (os luliberais entreguistas que governam o Brasil).

Como em raríssimas ocasiões no mundo há ou já houve democracia (no Brasil, jamais!) e muito menos algo que se tivesse certeza de que fosse mesmo “esquerda”, a mentira campeia solta. As pessoas são enganadas pela alternância entre neoliberais que se fingem democratas/social-democratas e neoliberais que se travestem de trabalhistas/socialistas.

Com a guinada do presidente Luma ao populismo personalista, a consolidação da aliança governista PT-PMDB, que ao lado do PSDB e com o suicídio do DEM tendem a ser as três correntes burguesas com maiores perspectivas de compartilhar o poder a serviço de bancos, ruralistas e transnacionais, não resta muito a fazer a não ser formar desde logo uma Frente Anticapitalista e pôr as cartas na mesa.

Com um Arruda do Bem, sem o Arruda do DEM, com o dedicado Ivan Pinheiro, com alguém que não tenha tolas ambições eleitoreiras, seria a hora de ter uma candidatura de esquerda, pois esquerda não é conciliação com o capital, mas luta contra ele. A esquerda, não os cúmplices e vassalos dos neoliberais – precisa ter uma candidatura para debater a duríssima realidade brasileira, que é uma fábrica de pobres subordinada à matriz central da dominação planetária.

Detesto a ideia de participar da eleição burguesa, pois ela nunca resolve os problemas do povo. Mas se a gente não apresentar a esquerda com pele e osso, as pessoas vão continuar achando que o dinossauro que aí está – a “democracia” dos peemedebistas criadores de milícia e a “esquerda” luliberal – correspondem à mentira de que são democratas ou de esquerda.

Se for possível uma aliança, de preferência com outros partidos que também se pretendem de esquerda, ótimo. Do contrário, o PCB precisa fazer uma campanha-movimento, apresentando um programa revolucionário para a sociedade.

Se a gente não mostrar o que é a esquerda, ou seja, a corrente mundial que deriva das idéias de Marx, as pessoas vão continuar achando que “democrata” é um ex-pefelista e “esquerda” é um antro de mensaleiros.

Rumo à candidatura anticapitalista, portanto!

Salões de poesia ressurgem no Iraque à medida que violência diminui – por john leland – new york times / usa

Salões literários já foram parte vital da vida intelectual no país.
Após invasão, em 2003, medo de encontros públicos inibiu atividade.


Ao final de uma semana que incluiu dois espetaculares ataques a bomba, Ali al-Nijar deixou sua casa para falar de poesia. Al-Nijar, professor aposentado de agricultura, estava espremido entre 60 outras pessoas num salão literário semanal na Rua Mutanabi, em Bagdá – um de cerca de 12 salões que germinaram em toda a cidade nos últimos dois anos, à medida que a violência caía.
“Este é um produto da liberdade”, afirmou al-Nijar, esperando a chegada dos palestrantes principais. O tópico da semana era um poeta chamado Abdul Wahab al-Bayati, um dos fundadores da poesia moderna iraquiana. “É claro, existe medo na cidade atualmente”, disse al-Nijar. “Mas o povo não liga para as bombas. Eu sei do risco que estou correndo, mas não me importo”.

Iraquianos se reúnem em salão literário de Bagdá; lugares reúnem pessoas de diferentes classes sociais e grupos étnicos para discutir cultura, literatura e ideias (Foto: Eros Hoagland / The New York Times)

Por séculos, salões literários foram uma parte vital da vida intelectual iraquiana, locais onde pessoas de diferentes classes ou seitas se reuniam para discutir cultura, literatura e ideias. Bagdá já teve mais de 200 salões, um quarto deles organizados por judeus, segundo Tariq Harb, advogado que frequenta diversos salões e realiza um próprio.

É claro, existe medo na cidade atualmente. Mas o povo não liga para as bombas. Eu sei do risco que estou correndo, mas não me importo. ”

Entretanto, durante a presidência de Saddam Hussein, os salões desapareceram ou se tornaram subversivos, à medida que o povo se opunha ao controle do governo ou temia a presença de espiões. Na violência sectária que acompanhou a invasão de 2003, as pessoas muitas vezes tinham medo de se encontrar publicamente.
Safia al-Souhail começou seu salão em abril, depois que um nível de paz chegou à cidade. O encontro ocorre uma tarde por mês em sua casa e termina depois que escurece, algo que seria impensável durante o auge da violência extremista.

Após atentados a bomba

Numa quinta-feira, após uma série de atentados a bomba, cerca de 80 pessoas se reuniram numa estrutura de palha conhecida como mudhif, criada seguindo a arquitetura dos árabes marsh do sul do Iraque. Al-Souhail, membro do parlamento que concorre à reeleição com uma das alianças xiitas, passeou pela sala, cumprimentando e recebendo os convidados – que incluíam diversas figuras políticas. Um cartaz azul na frente e nos fundos do salão, não muito diferente de uma propaganda de campanha, anunciava o Salão Literário de Safia al-Souhail.

Café é servido durante encontro literário em Bagdá; a cidade que já reuniu mais de 200 salões, vê o ressurgimento da atividade com diminuição da violência (Foto: Eros Hoagland / The New York Times)

“Aqui você tem a elite da sociedade iraquiana”, disse Majeed H. al-Azawi, amigo de al-Souhail e membro da diretoria do salão, apontando pessoas em meio ao público: alguns membros do parlamento, historiadores, acadêmicos, advogados e escritores. “Esta região é muito segura, mas muitos salões acontecem fora daqui”.
O tema do dia era Ima Hussein e sua filha, Zainab, figuras fundadoras da história xiita. Membros da equipe de al-Souhail distribuíam chá e um mingau quente chamado de harisa, prato tradicional durante comemorações do imã.

A zona da liberdade está abrindo a zona da cultura.”

“Ghandi disse ter aprendido com Hussein a ser sujeito à injustiça, e mesmo assim venceu”, disse ao público o primeiro orador, Ali al-Allaq, membro do parlamento do partido Dawa.
A audiência incluía clérigos xiitas e sunitas, mulheres com e sem lenços de cabeça, e até mesmo mulheres que fumavam cigarros, um tabu na vida pública iraquiana. Al-Souhail não cobriu a cabeça.
No pequeno palco, um membro do parlamento da aliança de al-Souhail soava apreensivo, como se estivesse buscando votos – o que vai contra as regras do salão. “A zona da liberdade está abrindo a zona da cultura”, disse o legislador Hachim al-Hassani. “A ditadura fechou as zonas de cultura. A liberdade nos trouxe a eventos como este”.
Al-Hassani apressou-se em concluir e seguir com outro compromisso. “Não posso falar sobre o processo eleitoral, pois estou proibido de falar sobre eleições”, disse ele ao público. “Convoco todos os intelectuais a nos ajudar com a próxima fase, para trazer novos valores para substituir os dos últimos 35 anos”.

G1.

Tradução: Gabriela d’Avila

OTTO NUL e sua poesia (II) – palma sola.sc

A POESIA EM RECESSO

Nada mais para dizer

O poeta está em crise

Ou as musas estão em greve

Ou traem o poeta;

Onde o belo verso?

Onde o grande poema?

Em que nuvens

Ou brenhas se escondem?

O poeta está triste,

Despojado de sua musa;

A alma vazia

E empobrecida;

O poema relaciona-se à vida

E a vida está em recesso.


A BRISA E A LUA

No sidéreo a brisa

Encontra a lua;

Ambas tão trêmulas

Não chegam a dialogar;

A lua vai longe já,

A brisa devagar;

Em certo ponto

Convergente

Põem-se a conversar,

A lua nada tem a dizer

À brisa, esta muito

Menos àquela;

Caminham juntas

De par em par.


RIO DE SONHOS

Esse rio de sonhos

Que canto em versos

Pelo qual atravesso

Pena seja de fantasia;

É, porém, um rio

De verdade, que só

No fundo é irreal

E é meu delírio;

A toda hora me

Invade e domina

Pior, me desatina,

Rio de curso lento

Qual um vento

Que me fascina

WE ARE THE WORLD por 57 artistas amadores, dos estados unidos, já somam mais de 1.200.000 visualizações em 10 dias de exposição na internet

este vídeo foi gravado com equipamento para amadores, nos quartos, salas e garagem dos participantes e posteriormente editado pelos mesmos.

UM clique no centro do vídeo.

EROS e TANATOS NA AMÉRICA PLATINA – por ewaldo schleder / florianópolis

foto de ewaldo schleder

DIÁRIOS INTERMITENTES


Não há como viver sem eros: erotismo. Amor à vida. Fé na vida. Essa que nos dá paixão e nos traz a morte e aquela que nos leva além – ateu ou não. E não falo em reencarnação. Xô.

Opto por viver livre – se isso fosse possível – de tempo e espaço. Nada de Suiça, Escandinávia. Vejo no horizonte o Paraguay. Com y. Nação guarani. Hoje entre chipas e chips. O Chaco e a cibernática. Mercado liberto das atrocidades da lei. Cesta de vime repleta de bolos de polvilho. O tererê (mate gelado), a mandioca, a chipa. A muamba. Terra de contraste entre a história ibero-americana e as tentações da China e das Arábias. Guerra do Paraguai.

Além do rio, a Argentina. O mate, a água quente para o chimarrão – cerveja quilmes, bife de chorizo, empanada, medialuna, água dos Andes, de lá, Mendoza, o vinho. Os argentinos apenas consomem o sumamente necessário – para eles. Pois têm cultura de restrição econômica, de fome, de luta na rua, de guerra das Malvinas, recente, remanescente.

Vertedouro dos rios que se encontram – o Iguaçu, o Paraná – o Brasil passa pelas margens do entrevero luso-hispânico, Tordesilhas, Guairá. Nossos índios são tropicais. Nus ou de tanga, calção, tênis, nike. Nas cidades, o boom de tudo. A nós nada falta. O bem e o mal, urbe et orbi. Hoje, “vamo que vamo”. Ninguém nos segura. Afinal deus é daqui mesmo. E vai muito à Bahia.

Contudo há uma sombra sobre o sul das Américas – uma sombra a cobrir o novo mundo. Não: à ilusão da integração latino-americana – por que ilusão? –, ao grito da insanidade, à violação da consistência do povo. Vamos combinar uma coisa: jogar fora os espelhinhos e celebrar um Tratado Geral da América Platina. Regado a vinho, tererê, uísque barato, água do aqüífero guarani, cachaça, eros e rock’n roll.

DANTE MENDONÇA lança seu livro: “SERRA ABAIXO, SERRA ACIMA o Paraná de trás pra frente” / curitiba

AOS COMBATENTES DE TODO O MUNDO – de vera lucia kalaari / portugal


Àqueles

Cujos olhos se erguem confiantes fitando sem medo

Os reinos distantes da morte,

Eu venho…Com a aurora esperançosa

Dos meus olhos luminosos de crente

Envolvê-los

Em mantos radiosos de amor.

Àqueles

De cujo peito uma onda de amargor

Se espalha cruelmente,

Àqueles

Que procuram paz

Através de nuvens de pó e trevas

Levantando as mãos aos céus

Numa prece a um Deus, seja ele qual fôr,

Eu dou os meus sonhos:

Todo um bosque em flor.

Àqueles

Que são menos do que ovelhas

Seguindo sem pastor,

Que estão sentados

Mirando o ar sem fazer nada,

Como sacerdotes a recordar

O drama da redenção.

Àqueles que têm coração,

Têm olhos florescendo

Como um garoto

E lábios trementes

A ensaiar

Um sorriso esperançoso,

Eu dou a minha alma,

Aberta como os pórticos duma catedral,

Onde vós todos, homens,

Amados e não amados,

Conhecidos, desconhecidos,

Desfilareis cantando,

Bandeiras multicores

Passando lado a lado,

Brilhando sob as cores de mil arco-íris diferentes,

Jogando fora as cargas dos canhões,

No olhar levando a alegria duma aurora,

Cabeças erguidas de entusiasmo e orgulho,

Sãos e salvos

Na senda dos vossos lares.

P.S.-Poema inspirado num cenário de guerra.

BAILARINA – de lívia sganzerla jappe / são paulo

” Duas batalhas pareciam estabelecidas. A da luz que saltava dele numa face onde o vermelho prevalecia. E a do cheiro do perfume dela. Incendiando o vento primeiro.”

O homem acordava os olhos, fechados ainda do resguardo da noite, e lá fora o céu era de todo azul, num fundo cobalto dos mais lindos. Vestiu-se à perfeição. Enrolou no pescoço alongado uma gravata e a seda acentuou a ardência do vetiver que lhe havia mentolado a pele. A delicadeza do tecido logo se associou ao macio algodão da camisa. Branca.

Entrou no carro. Dirigiu quilômetros vários. Estacionou. Juntou as plantas dos dois pés no barro do meio fio. Deslizando o brilho dos olhos na paisagem, viu uma mulher, enfeitando a calçada. Conforme ela amansava, com uma das mãos, os cachos dos cabelos, ia ele também amansando a alma. Que os olhos dele já se iam comprimindo. Olharam-se. Ela, alheia. Ele, trágico.

Uma avezinha, das miúdas, cruzou o céu, pipilando. Ele caminhava, oblíquo. Ela, em linha reta, na direção oposta. A ave, longe. Pipilando, agora, uma oitava abaixo. Correu ele a cabeça para trás e, rápido, voltou outra vez a olhar obliquamente. Ela cruzou a rua. Ele deu a volta no quarteirão. E então a abordou, seco:

– Tia Amélia? Amélia Rossi Vargas?

– Sim, sou eu – disse, disposta.

– Quem descerrar a cortina / da vida de bailarina / há de ver cheio de horror / que no fundo do seu peito / abriga um sonho desfeito / ou a desgraça de um amor

– Os que compram o desejo

– Pagando amor a varejo

– Vão falando sem saber

Ele gaguejou. Ela o incitava a ir em frente, com os olhos gastos. Ele não foi. Então ela disse, peremptória, citando o verso sem musicá-lo:

– Que ela é forçada a enganar.

E o embrulhou num abraço duro. Encharcado. Estavam ali os corpos, o tio, a tia, o amante, o alfanje, a gritaria, o quarto cheirando azedo, a cama. A cama. A cama.

– Tia, eu nunca – não chorava, rompia-se. Espichou os olhos muito negros e muito fortes nos dele, sentenciando:

– O tempo. O tempo leva tudo. Levou os discos da Ângela Maria.

Ele caiu aos prantos num jorro de segundos poucos. Vida de bailarina rodava na vitrola da cabeça do menino morando nele. Oito anos. O tio aos berros. Os que compram o desejo. A tia nua. Pagando amor a varejo. Ângela Maria enchendo o quarto. A bailarina. A bailarina. A bailarina.

– Me desculpe. Tia, eu.

Uma gota, levíssima, fez com que o homem se desprendesse do passado recente da infância para levar a mão esquerda à testa. Os cabelos branqueavam em mechas esparsas. Organizou-os com a mão direita. A tia sorriu, olhando para frente. Ele não. Ele não sorriu. Duas batalhas pareciam estabelecidas. A da luz que saltava dele numa face onde overmelho prevalecia. E a do cheiro do perfume dela. Incendiando o vento primeiro.

Tia e sobrinho se olharam. E o sobrinho desviou, lânguido, a vista para baixo. O horizonte tomava conta, infindável,daquele negrume que se foi consumindo na pira das lembranças. 38 graus. Mesmo à sombra.

Oito anos. A bailarina. A bailarina. Que o menino sabia que era desvio do coração, ah, isso sabia. O tio e a tia tinham lá um amor dos mais bonitos e o menino tinha fincado a cisma num rapaz que muito frequentava o quarto da tia. Sem ser o tio. Mas ele não disse. Escondeu o segredo do que viu. Não quebrou com sua fala a descoberta fininha do que era a paixão. Que o tio já vinha entrando, alfanje na mão. Atirou no intruso. O menino correu para debaixo da cama. Dois olhos acesos. Coração apagado. Azeda. A bailarina. A bailarina. Berros. O disco riscado. A tia parada. O tio descabelado. O menino acuado. O rapaz estirado. Com os cabelos deslizando em sangue.

Abrasado, o menino foi da cama ao armário. Escancarou a porta. Uma caixa luxuosa guardava o que só o instinto parecia ler. Suava em bicas. Abriu o quadrado de segredos, envoltos todos em papel de seda. No reflexo dos movimentos, a luz sugeria cor. Era o turquesa dos olhos de uma boneca horrorosamente triste. Cabelos poucos num rosto encardido, que sustentava um olho vítreo sem par. Naquele buraco em plástico, lugar de sentidos ausentes, um outro papel, engordurado pelo que só podiam ser dedos inquisidores, abrigava, num exercício de treva em letras pretas, uma carta.

Abriu, trêmulo, a folha. Eram alma, coração e sangue num frágil equilíbrio de letras. Da tia. Escorrendo, licorosas, naquelas mãos suadas. Azedo. A cama. O rapaz estirado.

Não há esperança. Uma única vez lhe procurei. O filho que você me fez se foi há muito. O seu leite forte, incandescente, não me machucou a carne como aquela criatura frágil vazando de dentro de mim. Espessa. Num vermelho dos mais vivos. Foi numa tarde fria. Você havia marcado a ferro o seu lugar no mundo e eu tinha os cabelos tinturados e as unhas descascadas. Eu não cabia na sua medida de mundo. Mas você coube na medida do meu desejo. E me cravou um filho no ventre.

Você apontava o dedo para a minha dor com aquelas letras de bolero que eu não entendia. Mamava no território dos meus seios, trancado a sete chaves. Sorvia o meu corpo molhado com o seu silêncio, umedecendo nomes de mulheres que não eram o meu. Me atirava um “burra” na cara quando eu perguntava quem era Torquato Neto. E depois acentuava o carmim do meu rosto com a sua boca furtiva.

Eu fiz o amor com você e a guerra com aquela criança. Era menina. Eu sei que era menina. Vazou de mim um dia inteiro. Era você que eu expulsava do meu corpo com urgência. Era do seu visgo forte que eu me desfazia com pressa.

A criança foi embora sem jamais ter ganhado forma. Mas você não foi. Você ficou entranhado nas minhas umidades. Eu procurei meu marido em silêncio. Me deitei com ele. Bebi a justa ausência do seu gozo. Fingi a rubra cadência do meu prazer.

E você não foi.

Você é o talho na carne daquela criança morta. Arroxeada. Num vermelho vivo. É a sua entranha que eu rasgo num corte reto agora”.

Ele redobrou o papel. Há de ver cheio de horror. A bailarina. A bailarina. Pagando amor a varejo. A cama. A cama. Azedo.

O vento balançou a copa de uma árvore lá fora. A tarde caiu.

PELE DE COBRA de tonicato miranda / curitiba


Onde está minha face?

Onde deixei esta cara fujona?

Preciso imediatamente sair,

preciso de um rosto para me vestir.

Cadê a lente para cercar o medo

tapar meu olho esquerdo?

Mas onde ela está?

Em qual nova face foi parar?

Socorro, polícia, sumiu minha cara,

um corpo procura sua identidade.

Quem sabe desceu a ladeira,

pegou o ônibus vermelho e se foi

para além Boqueirão, além dos Pinhais.

Meu São José escute meus ais!

Avisem à polícia costeira:

tem uma cara fugindo do País.

E não é porque não a quis.

Ela foge de vergonha antes que

chegue o Carnaval, antes que a Bahia

nos invada e tudo vire cara de alegria.

Ainda quero minha cara,

mas acho que ela não me quer mais?

Que desastre maior nesta manhã

o espelho não me reflete, que sanha.

Nem me refletirá amanhã nem nunca.

Ai minha nuca, será que o agora é nunca?

Preciso forjar uma nova cara.

Mas que seja amorosa, muito gentil.

Cansei da cara antiga e de suas carrancas.

Preciso acertar a mão, caprichar no sorriso,

uma pinta escura até me cai bem.

Mas será que a nova cara quererá isto também?

Desisto da velha cara, adeus antiga.

Pensando bem você nem mesmo foi amiga.

Fugiu de mim quando mais me precisava.

Agora quero uma cara mais suja, pronta para amar

uma cara para conversar, conhecer e bebericar.

Olá, como vai cara nova? Que tal um café ou beijo na Boca?

CADÊ O POEMA? de otto nul / palma sola.sc

Cadê o poema?

Ora está aqui

Ora ali;

Ora foge

Ora se oculta

Ora silencia;

Ser problemático

Por excelência

Anda às escondidas;

Parece dizer:

– Não perguntes quem sou;

Sou ninguém;

Agora mesmo o tive,

Agora mesmo não o tive;

Evaporou-se como bolha de sabão.

OS SEM-VERGONHA por sérgio da costa ramos / florianópolis

No Brasil é assim: para se mudar o status quo é preciso que tudo fique exatamente como está. Há tantas resistências entre os corruptos que a corrupção continua viva e saudável, mesmo depois do afastamento das saúvas. Parece ser o caso do Distrito Federal. Em nome da saúde democrática, forças políticas se mobilizam para evitar a intervenção federal, única medida capaz de interromper a podridão sistêmica instalada no poder.

O presidente da Câmara Distrital – e governador de “plantão” – pertence à mesma grei de ordenhadores dos cofres públicos do mandatário preso, o indigitado Arruda.

Em nome do “purismo” institucional, os corruptos defendem o continuísmo. Lá, como cá, maus exemplos há. Mesmo apanhados com a boca na botija, praticando “malfeitos”, os políticos são conservadores: querem “conservar” os seus privilégios e a “proximidade” com o cofre…

O que diz em seu benefício aquele vice-governador cuja voz foi gravada “avisando” quadrilheiros de que eles “estavam sendo investigados pelo Ministério Público”?

Não diz nada. Apenas sustenta que “não há provas”. Ou seja: renega a própria voz.

Não faz muito tempo, destacou-se um prefeito de Bento Gonçalves (RS). De público, perfilhou o nepotismo. E assumiu que não via nada de mais em nomear parentes:

– Eu sou radicalmente a favor do nepotismo. Essa história de concurso público só traz pessoas estranhas ao serviço público!

Achava-se com toda a razão. Para ele, “o primeiro nepotista do Universo tinha sido ninguém menos do que o Criador:

– Nomeou para o seu sagrado ministério o próprio Filho e o Espírito Santo, que era seu enteado. E nomeou os dois pela confiança que tinha em ambos os familiares…

Por acaso ele, prefeito, deveria nomear Lúcifer para o cargo de secretário de Obras? Ou algum Satanás para a Secretaria de Finanças? Que mal havia em nomear um filho ou a própria mulher? Tal prova de confiança seria um atributo de todo bom político e uma prova de respeito ao público e de zelo para com a “coisa pública”.

O papa Alexandre VI, Bórgia na vida civil, fez do seu filho Cesare arcebispo e cardeal de Valência, sem que o rapaz soubesse rezar o “Pai Nosso”. Foi a partir da dinastia corrupta dos Bórgia que se simplificou o termo designativo do favorecimento para os “parentes”. Como os papas, canonicamente, não podiam ter filhos, nomeavam os “sobrinhos”…

Como se vê, trata-se de um sacrilégio antigo. Para erradicá-lo, no Brasil, só inventando o homem público sem parentes, ascendentes ou descendentes. Mas claro que a solução não sobreviveria por muito tempo. Logo os políticos acabariam inventando o “nepotismo adotivo”, como já inventaram o “nepotismo cruzado”. Fica tudo em famiglia. Como pregam os políticos de Brasília, escolhendo entre os “da mesma cepa”, o substituto de um corrupto.

Aos brasileiros, eleitores e contribuintes, resta lamentar que nunca adotaremos entre nós a moral social do “bushido”, o código de honra japonês que estimula os apanhados em degradação ou vergonha pessoal à prática do autojustiçamento. O sujeito é flagrado recebendo propina ou traindo a representação popular – em nome da qual foi eleito? O político se apresenta ao público, pede desculpas e… se mata de pura vergonha na cara.

Aqui, o propineiro afirma que “declarou” (!) a propina no seu Imposto de Renda! E pronto. E ainda a justifica como “recursos de campanha oficialmente não contabilizados”.

Nossos códigos são assim: não têm vergonha de transgredir. Preparemo-nos, pois, para ser governados pelos sem-vergonha.

CONCEITOS DEVEM SER REVISTOS E ATUALIZADOS – editoria

Como estamos na ‘ Era Digital ‘, foi necessário rever os velhos ditados existentes e adaptá-los a nova realidade. Veja como ficaram:

.

1. A pressa é inimiga da conexão.

2. Amigos, amigos, senhas à parte.

3. A arquivo dado não se olha o formato.

4. Diga-me que chat freqüentas e te direi quem és.

5. Para bom provedor uma senha basta.

6. Não adianta chorar sobre arquivo deletado.

7. Em briga de namorados virtuais não se mete o mouse.

8. Hacker que ladra, não morde.

9. Mais vale um arquivo no HD do que dois baixando.

10. Mouse sujo se limpa em casa.

11. Melhor prevenir do que formatar.

12. Quando um não quer, dois não teclam.

13. Quem clica seus males multiplica.

14. Quem com vírus infecta, com vírus será infectado.

15. Quem envia o que quer, recebe o que não quer…

16. Quem não tem banda larga, caça com modem.

17. Quem semeia e-mails, colhe spams.

18. Quem tem dedo vai a Roma.com

19. Vão-se os arquivos, ficam os back-ups.

20. Diga-me que computador tens e direi quem és.

21. Uma impressora disse para outra: Essa folha é sua ou é impressão minha.

22. Aluno de informática não cola, faz backup.

23. Na informática nada se perde nada se cria. Tudo se copia… E depois se cola.

MUJICA TOMA POSSE NO URUGUAI


Diante do Congresso, ex-guerrilheiro prometeu cumprir Constituição.
Ele foi eleito em novembro passado com 52,3% dos votos.

O ex-guerrilheiro José Mujica tomou posse nesta segunda-feira (1º) como 52º presidente do Uruguai. Diante do Congresso, ele jurou cumprir a Constituição.

O esquerdista assumiu com a promessa de manter as políticas moderadas do atual governo, em uma cerimônia que contou com a presença de vários líderes estrangeiros e da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton.

A posse foi marcada por gestos de solidariedade ao Chile, após o terremoto devastador que atingiu o país no fim de semana e deixou mais de 700 mortos, além de enormes danos materiais. A presidente do Chile, Michelle Bachelet, não compareceu.

Antes de assumir, Mujica encontrou-se com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e teve reunião com Hillary.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, é recebida pelo presidente eleito do Uruguai, José Mujica, e por seu vice, Danilo Astori, nesta segunda-feira (1) em Montevidéu. (Foto: AFP)

Mujica, que foi membro da guerrilha urbana Tupamaros e passou mais de uma década preso durante a ditadura que governou o Uruguai na década de 1970 até os anos 1980, ganhou as eleições de novembro com 52,3% dos votos, no segundo triunfo eleitoral consecutivo da esquerda no país.
Considerado um político mais radical que o presidente Tabaré Vázquez, Mujica moderou seu discurso durante a campanha e disse sentir-se mais próximo a governos como o do Brasil e do Chile do que do modelo socialista da Venezuela. Ele se comprometeu a manter políticas econômicas que permitiram ao Uruguai escapar da crise econômica mundial.

Do G1, com agências internacionais.

BIG BROTHER BRASIL, UM PROGRAMA IMBECIL (cordel) – de antonio barreto / santa bárbara.ba



Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

.

Autor: Antonio Barreto, natural de Santa Bárbara-BA