Arquivos Diários: 2 março, 2010

OS SEM-VERGONHA por sérgio da costa ramos / florianópolis

No Brasil é assim: para se mudar o status quo é preciso que tudo fique exatamente como está. Há tantas resistências entre os corruptos que a corrupção continua viva e saudável, mesmo depois do afastamento das saúvas. Parece ser o caso do Distrito Federal. Em nome da saúde democrática, forças políticas se mobilizam para evitar a intervenção federal, única medida capaz de interromper a podridão sistêmica instalada no poder.

O presidente da Câmara Distrital – e governador de “plantão” – pertence à mesma grei de ordenhadores dos cofres públicos do mandatário preso, o indigitado Arruda.

Em nome do “purismo” institucional, os corruptos defendem o continuísmo. Lá, como cá, maus exemplos há. Mesmo apanhados com a boca na botija, praticando “malfeitos”, os políticos são conservadores: querem “conservar” os seus privilégios e a “proximidade” com o cofre…

O que diz em seu benefício aquele vice-governador cuja voz foi gravada “avisando” quadrilheiros de que eles “estavam sendo investigados pelo Ministério Público”?

Não diz nada. Apenas sustenta que “não há provas”. Ou seja: renega a própria voz.

Não faz muito tempo, destacou-se um prefeito de Bento Gonçalves (RS). De público, perfilhou o nepotismo. E assumiu que não via nada de mais em nomear parentes:

– Eu sou radicalmente a favor do nepotismo. Essa história de concurso público só traz pessoas estranhas ao serviço público!

Achava-se com toda a razão. Para ele, “o primeiro nepotista do Universo tinha sido ninguém menos do que o Criador:

– Nomeou para o seu sagrado ministério o próprio Filho e o Espírito Santo, que era seu enteado. E nomeou os dois pela confiança que tinha em ambos os familiares…

Por acaso ele, prefeito, deveria nomear Lúcifer para o cargo de secretário de Obras? Ou algum Satanás para a Secretaria de Finanças? Que mal havia em nomear um filho ou a própria mulher? Tal prova de confiança seria um atributo de todo bom político e uma prova de respeito ao público e de zelo para com a “coisa pública”.

O papa Alexandre VI, Bórgia na vida civil, fez do seu filho Cesare arcebispo e cardeal de Valência, sem que o rapaz soubesse rezar o “Pai Nosso”. Foi a partir da dinastia corrupta dos Bórgia que se simplificou o termo designativo do favorecimento para os “parentes”. Como os papas, canonicamente, não podiam ter filhos, nomeavam os “sobrinhos”…

Como se vê, trata-se de um sacrilégio antigo. Para erradicá-lo, no Brasil, só inventando o homem público sem parentes, ascendentes ou descendentes. Mas claro que a solução não sobreviveria por muito tempo. Logo os políticos acabariam inventando o “nepotismo adotivo”, como já inventaram o “nepotismo cruzado”. Fica tudo em famiglia. Como pregam os políticos de Brasília, escolhendo entre os “da mesma cepa”, o substituto de um corrupto.

Aos brasileiros, eleitores e contribuintes, resta lamentar que nunca adotaremos entre nós a moral social do “bushido”, o código de honra japonês que estimula os apanhados em degradação ou vergonha pessoal à prática do autojustiçamento. O sujeito é flagrado recebendo propina ou traindo a representação popular – em nome da qual foi eleito? O político se apresenta ao público, pede desculpas e… se mata de pura vergonha na cara.

Aqui, o propineiro afirma que “declarou” (!) a propina no seu Imposto de Renda! E pronto. E ainda a justifica como “recursos de campanha oficialmente não contabilizados”.

Nossos códigos são assim: não têm vergonha de transgredir. Preparemo-nos, pois, para ser governados pelos sem-vergonha.