Arquivos Diários: 3 março, 2010

PELE DE COBRA de tonicato miranda / curitiba


Onde está minha face?

Onde deixei esta cara fujona?

Preciso imediatamente sair,

preciso de um rosto para me vestir.

Cadê a lente para cercar o medo

tapar meu olho esquerdo?

Mas onde ela está?

Em qual nova face foi parar?

Socorro, polícia, sumiu minha cara,

um corpo procura sua identidade.

Quem sabe desceu a ladeira,

pegou o ônibus vermelho e se foi

para além Boqueirão, além dos Pinhais.

Meu São José escute meus ais!

Avisem à polícia costeira:

tem uma cara fugindo do País.

E não é porque não a quis.

Ela foge de vergonha antes que

chegue o Carnaval, antes que a Bahia

nos invada e tudo vire cara de alegria.

Ainda quero minha cara,

mas acho que ela não me quer mais?

Que desastre maior nesta manhã

o espelho não me reflete, que sanha.

Nem me refletirá amanhã nem nunca.

Ai minha nuca, será que o agora é nunca?

Preciso forjar uma nova cara.

Mas que seja amorosa, muito gentil.

Cansei da cara antiga e de suas carrancas.

Preciso acertar a mão, caprichar no sorriso,

uma pinta escura até me cai bem.

Mas será que a nova cara quererá isto também?

Desisto da velha cara, adeus antiga.

Pensando bem você nem mesmo foi amiga.

Fugiu de mim quando mais me precisava.

Agora quero uma cara mais suja, pronta para amar

uma cara para conversar, conhecer e bebericar.

Olá, como vai cara nova? Que tal um café ou beijo na Boca?

CADÊ O POEMA? de otto nul / palma sola.sc

Cadê o poema?

Ora está aqui

Ora ali;

Ora foge

Ora se oculta

Ora silencia;

Ser problemático

Por excelência

Anda às escondidas;

Parece dizer:

– Não perguntes quem sou;

Sou ninguém;

Agora mesmo o tive,

Agora mesmo não o tive;

Evaporou-se como bolha de sabão.