Arquivos Diários: 6 março, 2010

Salões de poesia ressurgem no Iraque à medida que violência diminui – por john leland – new york times / usa

Salões literários já foram parte vital da vida intelectual no país.
Após invasão, em 2003, medo de encontros públicos inibiu atividade.


Ao final de uma semana que incluiu dois espetaculares ataques a bomba, Ali al-Nijar deixou sua casa para falar de poesia. Al-Nijar, professor aposentado de agricultura, estava espremido entre 60 outras pessoas num salão literário semanal na Rua Mutanabi, em Bagdá – um de cerca de 12 salões que germinaram em toda a cidade nos últimos dois anos, à medida que a violência caía.
“Este é um produto da liberdade”, afirmou al-Nijar, esperando a chegada dos palestrantes principais. O tópico da semana era um poeta chamado Abdul Wahab al-Bayati, um dos fundadores da poesia moderna iraquiana. “É claro, existe medo na cidade atualmente”, disse al-Nijar. “Mas o povo não liga para as bombas. Eu sei do risco que estou correndo, mas não me importo”.

Iraquianos se reúnem em salão literário de Bagdá; lugares reúnem pessoas de diferentes classes sociais e grupos étnicos para discutir cultura, literatura e ideias (Foto: Eros Hoagland / The New York Times)

Por séculos, salões literários foram uma parte vital da vida intelectual iraquiana, locais onde pessoas de diferentes classes ou seitas se reuniam para discutir cultura, literatura e ideias. Bagdá já teve mais de 200 salões, um quarto deles organizados por judeus, segundo Tariq Harb, advogado que frequenta diversos salões e realiza um próprio.

É claro, existe medo na cidade atualmente. Mas o povo não liga para as bombas. Eu sei do risco que estou correndo, mas não me importo. ”

Entretanto, durante a presidência de Saddam Hussein, os salões desapareceram ou se tornaram subversivos, à medida que o povo se opunha ao controle do governo ou temia a presença de espiões. Na violência sectária que acompanhou a invasão de 2003, as pessoas muitas vezes tinham medo de se encontrar publicamente.
Safia al-Souhail começou seu salão em abril, depois que um nível de paz chegou à cidade. O encontro ocorre uma tarde por mês em sua casa e termina depois que escurece, algo que seria impensável durante o auge da violência extremista.

Após atentados a bomba

Numa quinta-feira, após uma série de atentados a bomba, cerca de 80 pessoas se reuniram numa estrutura de palha conhecida como mudhif, criada seguindo a arquitetura dos árabes marsh do sul do Iraque. Al-Souhail, membro do parlamento que concorre à reeleição com uma das alianças xiitas, passeou pela sala, cumprimentando e recebendo os convidados – que incluíam diversas figuras políticas. Um cartaz azul na frente e nos fundos do salão, não muito diferente de uma propaganda de campanha, anunciava o Salão Literário de Safia al-Souhail.

Café é servido durante encontro literário em Bagdá; a cidade que já reuniu mais de 200 salões, vê o ressurgimento da atividade com diminuição da violência (Foto: Eros Hoagland / The New York Times)

“Aqui você tem a elite da sociedade iraquiana”, disse Majeed H. al-Azawi, amigo de al-Souhail e membro da diretoria do salão, apontando pessoas em meio ao público: alguns membros do parlamento, historiadores, acadêmicos, advogados e escritores. “Esta região é muito segura, mas muitos salões acontecem fora daqui”.
O tema do dia era Ima Hussein e sua filha, Zainab, figuras fundadoras da história xiita. Membros da equipe de al-Souhail distribuíam chá e um mingau quente chamado de harisa, prato tradicional durante comemorações do imã.

A zona da liberdade está abrindo a zona da cultura.”

“Ghandi disse ter aprendido com Hussein a ser sujeito à injustiça, e mesmo assim venceu”, disse ao público o primeiro orador, Ali al-Allaq, membro do parlamento do partido Dawa.
A audiência incluía clérigos xiitas e sunitas, mulheres com e sem lenços de cabeça, e até mesmo mulheres que fumavam cigarros, um tabu na vida pública iraquiana. Al-Souhail não cobriu a cabeça.
No pequeno palco, um membro do parlamento da aliança de al-Souhail soava apreensivo, como se estivesse buscando votos – o que vai contra as regras do salão. “A zona da liberdade está abrindo a zona da cultura”, disse o legislador Hachim al-Hassani. “A ditadura fechou as zonas de cultura. A liberdade nos trouxe a eventos como este”.
Al-Hassani apressou-se em concluir e seguir com outro compromisso. “Não posso falar sobre o processo eleitoral, pois estou proibido de falar sobre eleições”, disse ele ao público. “Convoco todos os intelectuais a nos ajudar com a próxima fase, para trazer novos valores para substituir os dos últimos 35 anos”.

G1.

Tradução: Gabriela d’Avila

OTTO NUL e sua poesia (II) – palma sola.sc

A POESIA EM RECESSO

Nada mais para dizer

O poeta está em crise

Ou as musas estão em greve

Ou traem o poeta;

Onde o belo verso?

Onde o grande poema?

Em que nuvens

Ou brenhas se escondem?

O poeta está triste,

Despojado de sua musa;

A alma vazia

E empobrecida;

O poema relaciona-se à vida

E a vida está em recesso.


A BRISA E A LUA

No sidéreo a brisa

Encontra a lua;

Ambas tão trêmulas

Não chegam a dialogar;

A lua vai longe já,

A brisa devagar;

Em certo ponto

Convergente

Põem-se a conversar,

A lua nada tem a dizer

À brisa, esta muito

Menos àquela;

Caminham juntas

De par em par.


RIO DE SONHOS

Esse rio de sonhos

Que canto em versos

Pelo qual atravesso

Pena seja de fantasia;

É, porém, um rio

De verdade, que só

No fundo é irreal

E é meu delírio;

A toda hora me

Invade e domina

Pior, me desatina,

Rio de curso lento

Qual um vento

Que me fascina

WE ARE THE WORLD por 57 artistas amadores, dos estados unidos, já somam mais de 1.200.000 visualizações em 10 dias de exposição na internet

este vídeo foi gravado com equipamento para amadores, nos quartos, salas e garagem dos participantes e posteriormente editado pelos mesmos.

UM clique no centro do vídeo.

EROS e TANATOS NA AMÉRICA PLATINA – por ewaldo schleder / florianópolis

foto de ewaldo schleder

DIÁRIOS INTERMITENTES


Não há como viver sem eros: erotismo. Amor à vida. Fé na vida. Essa que nos dá paixão e nos traz a morte e aquela que nos leva além – ateu ou não. E não falo em reencarnação. Xô.

Opto por viver livre – se isso fosse possível – de tempo e espaço. Nada de Suiça, Escandinávia. Vejo no horizonte o Paraguay. Com y. Nação guarani. Hoje entre chipas e chips. O Chaco e a cibernática. Mercado liberto das atrocidades da lei. Cesta de vime repleta de bolos de polvilho. O tererê (mate gelado), a mandioca, a chipa. A muamba. Terra de contraste entre a história ibero-americana e as tentações da China e das Arábias. Guerra do Paraguai.

Além do rio, a Argentina. O mate, a água quente para o chimarrão – cerveja quilmes, bife de chorizo, empanada, medialuna, água dos Andes, de lá, Mendoza, o vinho. Os argentinos apenas consomem o sumamente necessário – para eles. Pois têm cultura de restrição econômica, de fome, de luta na rua, de guerra das Malvinas, recente, remanescente.

Vertedouro dos rios que se encontram – o Iguaçu, o Paraná – o Brasil passa pelas margens do entrevero luso-hispânico, Tordesilhas, Guairá. Nossos índios são tropicais. Nus ou de tanga, calção, tênis, nike. Nas cidades, o boom de tudo. A nós nada falta. O bem e o mal, urbe et orbi. Hoje, “vamo que vamo”. Ninguém nos segura. Afinal deus é daqui mesmo. E vai muito à Bahia.

Contudo há uma sombra sobre o sul das Américas – uma sombra a cobrir o novo mundo. Não: à ilusão da integração latino-americana – por que ilusão? –, ao grito da insanidade, à violação da consistência do povo. Vamos combinar uma coisa: jogar fora os espelhinhos e celebrar um Tratado Geral da América Platina. Regado a vinho, tererê, uísque barato, água do aqüífero guarani, cachaça, eros e rock’n roll.