Arquivos Diários: 7 março, 2010

MORRE “LEONARDO” O PAJEADOR DO RIO GRANDE SUL / porto alegre

morre o cantor LEONARDO aos 71 anos.  um dos melhores compositores e interprete da música nativista do Rio Grande do Sul/BR. o PALAVRAS TODAS PALAVRAS lhe rende esta simples homenagem que de forma alguma alcança a grandeza do mestre pajeador. publicamos a letra, que se transformou em um HINO do Rio Grande do Sul.

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CÉU, SOL, SUL, TERRA E COR                     .(letra e música de LEONARDO)

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Eu quero andar nas coxilhas sentindo as “flexilhas” das relvas do chão
Ter os pés “roseteado” de campo ficar mais trigueiros com o sol do verão
Fazer versos cantando as belezas desta natureza sem par
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver  sem chorar
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver sem chorar

Estribilho:
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor


Eu quero me banhar nas fontes e olhar horizontes com Deus
E sentir que as cantigas nativas continuam vivas para os  filhos meus
Ver os campos florindo e crianças sorrindo felizes a cantar
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver  sem chorar
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver  sem chorar

Estribilho:
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
Onde tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o amor…

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UM clique no centro do vídeo para ouvir a canção:

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bandeira do RIO GRANDE DO SUL.

A VIAGEM de jb vidal / florianópolis


no trem

as paisagens se repetem

uma a uma se repetem

a velocidade torna-as iguais

tédio

tédio das paisagens que não vi

porque lia um livro

que não li

no trem

tédio do que vivi

na viagem

viagem conhecida

angustiantemente conhecida

lucidez angustiante

minh’alma tórrida

sofre no trem

o cobrador conhecido

pede a passagem

que ficou no guichê

olho-o com olhar vazio

nada tenho para dar

se me pedir

dou-me

NÃO é nada diz

quer o bilhete

ofereço as paisagens que não vi

lindas imagino

NÃO

o valor da viagem

no trem

vale

o que tu sentes

lá fora

as paisagens

repetidas

doloridas

deserticamente repetidas

velozes

dentro

o cobrador eu  tu

e o êxtase possível

na Estação

BIOGRAFIA – de manoel de andrade / curitiba

Para Marco Pólo Passos

Cheguei com dezessete anos de esperança…

sem recurso

sem norte

sem uma referência sequer.

Passageiro de destino,

trazia uma ferida aberta pela súbita orfandade

e na memória um coração paterno destroçado.

Trazia uma única saudade,

o coração ancorado na distância

e um sonho prometido no sacrário da alma.

Numa mala de papelão

trazia os meus tesouros:

um terno de formatura azul-marinho,

o diploma ginasial,

minhas primeiras letras

e uma certidão de nascimento desbotada.

Uma escada lúgubre e empinada

o quarto mais barato da pensão

seis metros enquadrados

partilhados com um motorista de ônibus urbano… rude e desonesto.

O telhado inclinado sobre as camas

o arrulho amoroso das pombas

uma clarabóia que se abria para o céu

um aluguel adiantado

a matrícula no colégio público

o “sortido” dos primeiros dias

o pão nosso dos últimos dias

o derradeiro centavo.

A fome

o terceiro dia

o desencanto

e a imensa solidão do mundo.

Um banco solitário

um pânico silencioso, resignado e calmo

a morte na alma.

As horas passam

os transeuntes passam

indiferentes à minha dieta de água e impotência.

À luz do meio dia… uma discreta agonia

e de repente… um grito…

meu apelido da infância…

um abraço inesperado, fraterno e conterrâneo…

quando…? onde…? como…? venha comigo Lelo…

obrigado Marco Polo por aquela bandeja farta

pelos primeiros amigos

por tudo…

e sobretudo…

obrigado

pela tua mão invisível, Senhor…

que desde sempre amparou meus passos.

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Curitiba, junho de 2003.

Do livro “Cantares” publicado por Escrituras

RALÉ DE TOGA por olavo de carvalho / curitiba

Embora não seja estrita verdade o que pretendia Karl Marx, que a condição social dos homens determine a sua consciência, ela o faz às vezes, e no mínimo é imprudente esquecer que ela pode impor severos obstáculos ao conhecimento. É característico dos modernos acadêmicos precaver-se contra esse erro no estudo de todos os assuntos humanos, salvo no deles mesmos. Se há um tema raro nas investigações acadêmicas, é o das relações entre a estrutura do poder universitário e as idéias dominantes entre estudantes e professores.

Mas é claro que a organização social e econômica do trabalho intelectual molda em parte a temática e os pressupostos da investigação e do debate, e não é possível que um tipo qualquer de organização – seja dos letrados chineses, seja a do clero medieval, seja a da moderna burocracia acadêmica – deixe a mente totalmente livre de entraves para enxergar a verdade tal e qual. Por isso é da mais alta conveniência que, numa mesma época, coexistam várias modalidades de esforço intelectual, somando, por exemplo, ao trabalho coletivo das academias as contribuições de free lancers e outsiders. Afastar ou menosprezar estes últimos trará a consagração da organização acadêmica como o único canal permitido de atividade intelectual – e, quanto mais homogênea a classe pensante, mais hão de proliferar nela os erros consagrados em dogmas.

Por isso mesmo jamais me atraiu a profissão universitária, inadequada a uma vocação pessoal demasiado sui generis. O primeiro assunto que me interessou nesta vida foram as religiões comparadas, das quais não havia curso universitário no Brasil e ainda são anêmicos entre nós. Foi a necessidade de esclarecer certos problemas de teologia mística – islâmica, para tornar a coisa ainda mais exótica – que me levou aos estudos filosóficos; e a busca de uma precisa diferenciação entre o discurso da mística, o da poesia, o da filosofia, etc. foi que me pôs na pista da “teoria dos quatro discursos” (Aristóteles em Nova Perspectiva, Rio, Topbooks, 1997), a qual, se tem algum valor filosófico independente, não é para mim senão etapa de um percurso que começa e termina na vida interior. Como poderia eu adequar esse trajeto às exigências de programas e chefetes, é coisa que escapa à minha imaginação.

Tão alheias são essas questões ao nosso mundinho universitário que ninguém, absolutamente ninguém na universidade brasileira, se deu o trabalho de discutir minhas teses, e, se alguém aí quis dizer algo a respeito, foi para dar o show de inépcia daquele parecerista da SBPC que escrevia “inverossímel”, com “e”, e confundia Santo Alberto Magno com São Gregório Magno. Várias vezes observei que todo o nosso primeiro escalão acadêmico reunido não teria força para empreender uma discussão séria do meu livrinho – e ao dizer isso não estava sendo nada hiperbólico, mas fazendo uma descrição precisa de um estado de coisas alarmante.

Para complicar, a teoria dos discursos incluía estudos de argumentação e persuasão, que depois apliquei ao exame de mil e um debates da atualidade, em artigos de imprensa cuja ligação íntima com um trabalho filosófico nem todos os leitores perceberam, ainda que eu a declarasse no prólogo a Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão (Topbooks, 1998). E jamais a burrice acadêmica se desmascarou tanto quanto nas suas reações a esses artigos. Quando um posudo acadêmico, apanhado em flagrante delito de vigarice intelectual, reage com insultos ou insinuaçõezinhas, sem sequer se dar conta de que não foi vítima senão da aplicação rigorosa de distinções lógicas que ele teria a obrigação de conhecer e praticar, isso só denuncia, mais enfaticamente ainda, a situação calamitosa de um ensino universitário no qual faltam menos verbas do que quem as mereça.

Nessas condições, a entrada em cena de um trabalhador intelectual autônomo, simpático ou antipático não vem ao caso, mas capaz de renovar uma certa ordem de estudos longamente abandonada neste país, deveria ter sido saudada como uma ajuda providencial, o que não se deu porque a nossa casta universitária não tem, para tanto, nem o necessário amor ao conhecimento, nem suficiente desapego a vaidades corporativas.

Mas não é só com os de fora que o meio acadêmico tem má vontade. Quando se vê, de um lado, a indolência com que esse círculo adiou até agora um exame do pensamento urgente e revigorante do professor Roberto Mangabeira Unger, e, de outro, o entusiasmo indecente com que estudantes açulados por professores da UFRJ se apressam em agredir com gritos e pancadas um reitor que não veio ao seu gosto – então se percebe a miséria de uma casta tão empenhada em fugir do seu dever quanto em mandar no que não é da sua alçada.

É a essa gente arrogante e burra, a essa ralé togada que vamos entregar o futuro da inteligência no Brasil?

A BELA DA TARDE por hamilton alves / florianópolis

O título desta crônica é o mesmo que o do filme de Buñuel, que foi estrelado por Catherine Deneuve,  com muito sucesso. Não gostei do filme, mas isso não impediu que tivesse colhido boa crítica.

Uma moça, cabelos revoltos, compridos, soltos, de uma silhueta fascinante, sentou-se a um banco de uma pracinha.

Tinha o ar de entediada.

Mas não, me enganava, pelo que sucedeu a seguir, abanando a mão para uma pessoa que a interposição de uma planta alta me impediu de ver de quem se tratava. Seria um namorado ou amante ou marido?

Não, era um grupo de amigas, que a chamava.

Ao sentar-se no banco, olhou a sandália, os dedos dos pés. Ficou assim, por um tempo, contemplando-os.

Trazia uma casaquinho branco em cima de uma  blusa sem mangas, verde clara. Sentiu calor. Tirou o casaquinho. E deixou ver os braços claros e lindos. Cena que me lembrou Machado de Assis, que era fixado em braços femininos. Tem até, em homenagem a esses membros, um conto com o título “Uns braços”, que mostra a fixação de um estudante, Inácio, um jovem de boa aparência, que não tira os olhos dos braços de Dona Severina, que vive maritalmente com o estouvado Borges. Volta e meia, quando lhe permitiam as circunstâncias e as distrações do marido, fixava-os neles.

Quando se ergueu do banco, encaminhando-se em direção ao grupo de moças (tinha um sujeito colhendo fotos do grupo), só então percebi seu porte de princesa.

Todo o conjunto do corpo (cabeça, torax e membros) balançava harmoniosamente, como se fora constituido de delicados mecanismos que lhe permitissem essa dança de carne e músculos.

O que faria àquela hora numa praça praticamente nua?

Fui a um bar nas redondezas. Na volta, ainda a vi soberana entre as demais, de certo modo cônscia de sua realeza.

Não a vi de perto. Nem me aproximei para observar os detalhes de sua figura esbelta.

Seria indiscrição.

Segui meu caminho, convencido de que a beleza, onde quer que surja, ocupa um lugar de realce, impondo-se a tudo. É um fenômeno que chama a atenção e estabelece uma certa hierarquia.

Algum filósofo já afirmou que “a beleza é um mistério”.

Era o caso daquela bela da tarde, que irradiava seu viço juvenil por toda a praça.

O dinossauro de Dakota e a fábrica de pobres brasileira – por alceu sperança / cascavel.pr

Em Dakota do Norte (EUA) os cientistas encontraram um dinossauro morto há 67 milhões de anos, dia mais, dia menos. Pela primeira vez o exemplar (um hadrossauro) estava preservado, não apenas com os ossos, mas também com tecidos e pele. Não é preciso, portanto, imaginar como ele era quando viveu.

No mundo de hoje, autoritários se apresentam ou se deixam confundir com “democratas” (os latifundiários criadores de milícias do PMDB, por exemplo) ou de “esquerda” (os luliberais entreguistas que governam o Brasil).

Como em raríssimas ocasiões no mundo há ou já houve democracia (no Brasil, jamais!) e muito menos algo que se tivesse certeza de que fosse mesmo “esquerda”, a mentira campeia solta. As pessoas são enganadas pela alternância entre neoliberais que se fingem democratas/social-democratas e neoliberais que se travestem de trabalhistas/socialistas.

Com a guinada do presidente Luma ao populismo personalista, a consolidação da aliança governista PT-PMDB, que ao lado do PSDB e com o suicídio do DEM tendem a ser as três correntes burguesas com maiores perspectivas de compartilhar o poder a serviço de bancos, ruralistas e transnacionais, não resta muito a fazer a não ser formar desde logo uma Frente Anticapitalista e pôr as cartas na mesa.

Com um Arruda do Bem, sem o Arruda do DEM, com o dedicado Ivan Pinheiro, com alguém que não tenha tolas ambições eleitoreiras, seria a hora de ter uma candidatura de esquerda, pois esquerda não é conciliação com o capital, mas luta contra ele. A esquerda, não os cúmplices e vassalos dos neoliberais – precisa ter uma candidatura para debater a duríssima realidade brasileira, que é uma fábrica de pobres subordinada à matriz central da dominação planetária.

Detesto a ideia de participar da eleição burguesa, pois ela nunca resolve os problemas do povo. Mas se a gente não apresentar a esquerda com pele e osso, as pessoas vão continuar achando que o dinossauro que aí está – a “democracia” dos peemedebistas criadores de milícia e a “esquerda” luliberal – correspondem à mentira de que são democratas ou de esquerda.

Se for possível uma aliança, de preferência com outros partidos que também se pretendem de esquerda, ótimo. Do contrário, o PCB precisa fazer uma campanha-movimento, apresentando um programa revolucionário para a sociedade.

Se a gente não mostrar o que é a esquerda, ou seja, a corrente mundial que deriva das idéias de Marx, as pessoas vão continuar achando que “democrata” é um ex-pefelista e “esquerda” é um antro de mensaleiros.

Rumo à candidatura anticapitalista, portanto!