A BELA DA TARDE por hamilton alves / florianópolis

O título desta crônica é o mesmo que o do filme de Buñuel, que foi estrelado por Catherine Deneuve,  com muito sucesso. Não gostei do filme, mas isso não impediu que tivesse colhido boa crítica.

Uma moça, cabelos revoltos, compridos, soltos, de uma silhueta fascinante, sentou-se a um banco de uma pracinha.

Tinha o ar de entediada.

Mas não, me enganava, pelo que sucedeu a seguir, abanando a mão para uma pessoa que a interposição de uma planta alta me impediu de ver de quem se tratava. Seria um namorado ou amante ou marido?

Não, era um grupo de amigas, que a chamava.

Ao sentar-se no banco, olhou a sandália, os dedos dos pés. Ficou assim, por um tempo, contemplando-os.

Trazia uma casaquinho branco em cima de uma  blusa sem mangas, verde clara. Sentiu calor. Tirou o casaquinho. E deixou ver os braços claros e lindos. Cena que me lembrou Machado de Assis, que era fixado em braços femininos. Tem até, em homenagem a esses membros, um conto com o título “Uns braços”, que mostra a fixação de um estudante, Inácio, um jovem de boa aparência, que não tira os olhos dos braços de Dona Severina, que vive maritalmente com o estouvado Borges. Volta e meia, quando lhe permitiam as circunstâncias e as distrações do marido, fixava-os neles.

Quando se ergueu do banco, encaminhando-se em direção ao grupo de moças (tinha um sujeito colhendo fotos do grupo), só então percebi seu porte de princesa.

Todo o conjunto do corpo (cabeça, torax e membros) balançava harmoniosamente, como se fora constituido de delicados mecanismos que lhe permitissem essa dança de carne e músculos.

O que faria àquela hora numa praça praticamente nua?

Fui a um bar nas redondezas. Na volta, ainda a vi soberana entre as demais, de certo modo cônscia de sua realeza.

Não a vi de perto. Nem me aproximei para observar os detalhes de sua figura esbelta.

Seria indiscrição.

Segui meu caminho, convencido de que a beleza, onde quer que surja, ocupa um lugar de realce, impondo-se a tudo. É um fenômeno que chama a atenção e estabelece uma certa hierarquia.

Algum filósofo já afirmou que “a beleza é um mistério”.

Era o caso daquela bela da tarde, que irradiava seu viço juvenil por toda a praça.

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