Arquivos Diários: 12 março, 2010

NASCIMENTO DE VÊNUS de rainer maria rilke / praga/rep.tcheca


Esta manhã, depois que a noite inquieta
esmoreceu entre urros, sustos, surtos _
o mar ainda uma vez se abriu e uivou.
E quando o grito aos poucos foi cessando
e do alto o dia pálido emergente
caiu no vórtice dos peixes mudos_
o mar pariu.

Ao sol reluzem os pelos de espuma
do amplo ventre da onda, em cuja borda
surge a mulher, alva, trêmula e úmida.
E como a folha nova que estremece,
se estira e rompe aos poucos a clausura,
ela vai desvelando o corpo à brisa
e ao vento intacto da manhã.

Como luas erguem-se os joelhos claros,
réstias de nuvens soltam-se das coxas,
das pernas caem pequeninas sombras,
os pés se movem bêbados de luz,
vibram as juntas como gorgolhantes
gargantas.

na taça da bacia jaz o corpo,
como um fruto na mão de uma criança,
o estreito cálice do umbigo encerra
tudo o que é escuro nessa clara vida.
Em baixo alteiam-se as pequenas ondas
que escorrem, incessantes, pelas ancas,
onde, de quando em quando, a espuma chove.
Porém, exposto, sem sombras, emerge,
como um maço de bétulas de abril,
quente, vazio e descoberto, o sexo.

A balança dos ombros paira, ágil,
em equilíbrio sobre o corpo ereto
que irrompe da bacia como fonte
vacilante entre os longos braços fluindo
veloz pela cascata dos cabelos.

Então bem lentamente vem o rosto:
da sombra estreita da reclinação
para a clara altitude horizontal.
Após o qual fecha-se, abrupto, o queixo.

Eis que o pescoço surge como um fluxo
de luz, ou talo, de onde a seiva sobe,
e se estiram o s braços como o colo
de um cisne quando busca a ribanceira.

Então, da obscura aurora desse corpo,
ar da manhã, vem o primeiro alento.
No fio mais tênue da árvore das veias
há como que um bulício e o sangue flui
a sussurrar nas fundas galerias,
e essa brisa se expande: agora cresce
com todo o hausto sobre os peitos novos
que se intumescem de ar e a impulsionam, _
e como velas côncavas de vento
levam a jovem para a praia.

Assim aportou a deusa.

Atrás dela, pisando a terra nova,
lépida, ergueram-se toda a manhã
flores e caules, quentes, perturbados,
como num beijo. E ela foi e correu.

Porém, ao meio dia, na hora mais intensa,
o mar se abriu de novo e arremessou
no mesmo ponto o corpo de um delfim.
Morto, roxo e oco.

VEM, VENTO de otto nul /palma sola.sc

vem, vento,

na asa de um catavento,

vem, chuva,

leve como uma pluma,

vem, sol,

acender o arrebol,

vem, céu,

fazer todo o escarcéu,

vem, trovão,

com teu bordão,

vem, tristeza,

e põe tua mesa,

vem, alegria,

acabar com a agonia.

Banho de Sol – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Numa manhã fria

tomando sol

num pedaço de quintal

entre uma jabuticabeira

e um resto de horta abandonada,

velhas roseiras

e entulhos.

Fechei meus olhos

fiquei ali,

o ardente amarelo

transpassando

minhas pálpebras fechadas,

inerte,

só sentindo

o calor agradável,

sem pensar em nada,

sem ser nada.

Não existir

foi delicioso.

Quando abri meus olhos,

pensei:

Talvez

a jabuticabeira

seja feliz.