Arquivos Diários: 14 março, 2010

NEM LEIS, NEM JUSTIÇA por josé saramago / portugal

Em Portugal, na aldeia medieval de Monsaraz, há um fresco alegórico dos finais do século XV que representa o Bom Juiz e o Mau Juiz, o primeiro com uma expressão grave e digna no rosto e segurando na mão a recta vara da justiça, o segundo com duas caras e a vara da justiça quebrada. Por não se sabe que razões, estas pinturas estiveram escondidas por um tabique de tijolos durante séculos e só em 1958 puderam ver a luz do dia e ser apreciadas pelos amantes da arte e da justiça. Da justiça, digo bem, porque a lição cívica que essas antigas figuras nos transmitem é clara e ilustrativa. Há juízes bons e justos a quem se agradece que existam, há outros que, proclamando-se a si mesmos justos, de bons pouco têm, e, finalmente, não são só injustos como, por outras palavras, à luz dos mais simples critérios éticos, não são boa gente. Nunca houve uma idade de ouro para a justiça.

Hoje, nem ouro, nem prata, vivemos no tempo do chumbo. Que o diga o juiz Baltasar Garzón que, vítima do despeito de alguns dos seus pares demasiado complacentes com o fascismo sobrevivo ao mando da Falange Espanhola e dos seus apaniguados, vive sob a ameaça de uma inabilitação de entre doze e dezasseis anos que liquidaria definitivamente a sua carreira de magistrado. O mesmo Baltasar Garzón que, não sendo desportista de elite, não sendo ciclista nem jogador de futebol ou tenista, tornou universalmente conhecido e respeitado o nome de Espanha. O mesmo Baltasar Garzón que fez nascer na consciência dos espanhóis a necessidade de uma Lei da Memória Histórica e que, ao abrigo dela, pretendeu investigar não só os crimes do franquismo como os de outras partes do conflito. O mesmo corajoso e honesto Baltasar Garzón que se atreveu a processar Augusto Pinochet, dando à justiça de países como Argentina e Chile um exemplo de dignidade que logo veio a ser seguido. Invoca-se aqui a Lei da Amnistia para justificar a perseguição a Baltasar Garzón, mas, em minha opinião de cidadão comum, a Lei da Amnistia foi uma maneira hipócrita de tentar virar a página, equiparando as vítimas aos seus verdugos, em nome de um igualmente hipócrita perdão geral. Mas a página, ao contrário do que pensam os inimigos de Baltasar Garzón, não se deixará virar. Faltando Baltasar Garzón, supondo que se chegará a esse ponto, será a consciência da parte mais sã da sociedade espanhola que exigirá a revogação da Lei da Amnistia e o prosseguimento das investigações que permitirão pôr a verdade no lugar onde ela tem faltado. Não com leis que são viciosamente desprezadas e mal interpretadas, não com uma justiça que é ofendida todos os dias. O destino do juiz Baltasar Garzón é nas mãos do povo espanhol que está, não dos maus juízes que um anónimo pintor português retratou no século XV.

13 de Fevereiro, 2010.

O QUE PODE HAVER POR TRÁS DA PERVERSIDADE – considerações sobre “O GATO PRETO” / por lucas paolo – são paulo

Dentre as inúmeras abordagens possíveis do conto “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe, interessa-nos tratar aqui da ambiguidade do sentimento de culpa que o narrador demonstra ao longo do conto.

Começaremos apontando alguns pressupostos que guiarão esta abordagem. Em seu ensaio “A Filosofia da Composição” – trata da construção do poema “O Corvo”-, Poe diz: “É bastante óbvio que todo enredo, que mereça este nome, deve ser elaborado até o fim antes que o autor escreva uma só linha. Só tendo em vista, constantemente, o final da história é que podemos dar a um enredo seu indispensável ar de consequência, ou causa, fazendo com que os incidentes, e especialmente o tom, apontem, o tempo todo, para o desenvolvimento da intenção.” Portanto, podemos presumir que Poe, também em “O Gato Preto”, havia concebido todo o enredo antes de se pôr a escrever o conto, e que tendo em vista o direcionamento dos fatos, ele guiou sua escrita nas condições necessárias para se atingir determinado tom.

Mas qual seria esse tom em “O Gato Preto”? Obviamente o da perversidade. E seguindo a linha de raciocínio de Poe, podemos apontar o terreno do conto como sendo o do mistério ou da superstição.

Porém, a perversidade do narrador não traz consigo sentimento de culpa, apenas medo. Sinais de medo esses que, apesar de parecerem uma reação lógica ao terreno do mistério e da superstição, podem ocultar o intuito prévio de cometer o assassínio e o receio ou medo da condenação – da justiça do homem ou de Deus.

Para averiguar estas questões, podemos citar novamente um trecho de “A filosofia da composição”: “Duas coisas são, invariavelmente, necessárias – primeiro, uma certa dose de complexidade, ou, mais propriamente, de adaptação; e, em segundo lugar, uma certa dose de sugestão –  uma corrente oculta, mesmo que indefinida, de sentido. É esta última, em especial, que confere a uma obra de arte grande parte daquela riqueza (para usar um termo convincente da linguagem coloquial), que nós temos a tendência de confundir com o ideal”, ou seja, podemos supor que há neste conto, como em “O Corvo”, um toque de sugestão, de indefinição que ampliam o sentido. Investiguemos no conto o sentido do medo, da culpa e da perversidade que o autor tenta nos impingir.

Com relação ao assassinato da mulher, o narrador não demonstra em nenhum momento sinais de remorso. “Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo” – evidenciamos aqui que, após o furioso ato, o narrador não sente culpa, apenas preocupa-se em esconder os vestígios de seu crime. Assim, após emparedar o corpo, o narrador procura o gato e não o encontra, e mesmo com “o peso daquele assassínio” sobre sua alma, o narrador regozija-se com o sumiço do alvo primeiro de sua perversidade e consegue dormir tranquilo – “O monstro, aterrorizado, fugira para sempre de casa. Não tornaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava.”

O narrador procura dissimular culpa com relação às atrocidades cometidas com o gato, todavia essa culpa é vista por ele como pavor ou medo do animal, e pode ser entendida  como receio do narrador em assassinar a mulher e ser apanhado. “Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse.” – algum tempo após ter enforcado o gato, o narrador sente algo em relação ao terrível ato, mas este sentimento, claramente, não é remorso. Depois de determinado período, o narrador encontra outro gato, o qual substitui o anterior. Esse também acarreta maldade no personagem e em situações de proximidade o narrador relata o seguinte: “Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas sobretudo – apresso-me a confessá-lo -, pelo pavor extremo que o animal me despertava.”, somos levados a pensar que o que impede o narrador é um medo ou pavor, porém, podemos averiguar em outro trecho que, talvez, este medo esteja relacionado a outras questões –  “Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar – sim, mesmo nesta cela de criminoso -, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível – que minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa -, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!”. Lembrando que, na época em que, possivelmente, se situa o conto, a pena para alguns crimes era a forca, pode-se intuir um medo diferente no narrador do que um medo supersticioso do sobrenatural.

Portanto, no conto, o narrador comete um ato de inacreditável perversidade, este não é, como pudemos perceber, carregado de culpa e remorso, todavia o narrador carrega o conto de mistério e superstição – encarnados na figura emblemática do gato preto –, o que nos leva a crer que o assassinato da mulher não é, de forma alguma, premeditado e sim um consequência dos eventos nefastos e nebulosos que se relacionam com o gato. Porém, se for admitido, sem muitas presunções, que em Poe há uma corrente oculta correndo junto à trama tão detalhadamente elaborada, pode-se inferir que um outro sentido subcutâneo está presente na trama e que este dá uma “riqueza” especulativa ao conto que, com certeza, Poe desejava.

GALO, CABRA, URUBU, JEGUE, ETC. – por hamilton alves / florianópolis

Paulo Mendes Campos conta numa crônica que tinha um filho (hoje, certamente, será um adulto), que adorava bichos de todos os tipos e feitios. Quando acontecia de sair à rua com ele, surpreendia-lhe o fato de, desaparecido por alguns instantes, trazia consigo um siri, um papagaio, um passarinho qualquer, até ocorreu que certa vez trouxe (descobrindo não sabia onde) uma pequena tartaruga, que logo recebeu um nome de batismo do garoto. Com ela conviveu durante muito tempo até que um dia a tartaruga, para seu desespero, tinha desaparecido. Ficou inconsolável. Telefonou para a avó lhe perguntando como faria com a perda da tartaruga, se não havia jeito de lhe conseguir outra.

Com insetos era a mesma coisa. Tinha em caixas de todo o tipo alguns exemplares deles, principalmente borboletas.

O que bichos interessam hoje às crianças?

Lembro que, certa vez, os jornais de Nova York noticiaram que um garoto, quando viu uma vaca, ficou deslumbrado. Nunca imaginara que podia existir um bicho assim.                            Suponha-se se visse uma girafa, um elefante, uma zebra, seu espanto, certamente, seria bem maior.

As crianças das cidades populosas e modernas não têm mais como conviver com bichos, ainda que insignificantes do ponto de vista de suas proporções físicas.

Gato, cachorro, ainda dá para ter no ambiente doméstico.

Sempre quis ter um galo à volta de mim.

Uma vez, numa viagem a Orleães, vi um galo branco na estrada, parei o carro e saí para pegá-lo. Cerquei-o, mas pulou uma cerca e fugiu. Como era lindo! O poeta Augusto Frederico Schmidt, com quem troquei algumas cartas, três ou quatro, quando estava no auge de sua fama, não como poeta, mas como homem público, fora ministro de JK, possuía um galo branco esplêndido em sua casa.

A cabra, por exemplo, é o animal da minha paixão. As cabras conviveram muito de perto comigo na infância. Lembro-me que, quando caía chuva rala, baliam até mais não poder, amarradas com cordas em touceiras de capim. O balido de cabra tem um conteúdo de paz e purificação sem igual.

Sobre aves, é claro que o galo tem minha simpatia, mas o urubu (o nosso nunca assaz louvado urubu, ecologista emérito) leva meu voto. Pode ser feio, mas nenhuma outra ave faz melhor suas acrobacias aéreas (descobri há pouco que  é também da preferência do pintor Semy Braga).

E, para terminar, pensei certa vez em trazer do nordeste um jegue, que acho uma simpatia insuperável de animal.

Teríamos, de certo, muito que nos dizer em nossas horas neutras e silenciosas.

CAÇA-BILHÕES por alceu sperança / cascavel.pr

Constantemente a imprensa noticia apreensões de máquinas caça-níqueis. Aves de rapina que se aproveitam de uma doença – a compulsão pelo jogo – tiram até o último centavo de crianças, jovens e adultos seduzidos pelos sons e imagens hipnóticos dessas máquinas enganosas.

São de fato instrumentos odiosos, que devem ser banidos, como, aliás, toda jogatina. Mas há uma outra máquina perversa que arranca o dinheiro dos brasileiros. Ela não só caça níqueis, mas caça bilhões. Atendendo aos interesses pervertidos dos donos do mundo, essa máquina é o que costumamos chamar de “governo”.

Se a farra dos juros em cima de dívidas infladas artificialmente deixasse de ser paga, o dinheiro que se esvai poderia ser usado produtivamente, para suprir o grosso da infraestrutura necessária ao País. Por alguns dias, de suspensão que fosse, corrigiria o grave problema dos hospitais públicos. Se parasse de vez, o País poderia melhorar sua estrutura social e superaria os gargalos logísticos que hoje embaraçam a conquista da taxa de crescimento necessário ao Brasil, que deveria se dar na faixa dos 7% a 8%.

A máquina monstruosa caça-bilhões do governo brasileiro gasta com juros em uma semana o valor dos investimentos previstos para todo o sistema aeroportuário em quatro anos. É de meter medo a conta de quanto o governo Lula vai torrar para o pagamento desses juros criminosos em seu alegre governo de oito anos inteiros enchendo as burras dos espertos donos do mundo.

Uma das variantes da horrenda máquina caça-bilhões é o tal do “superávit primário”, praga inventada pelos espertalhões: é a quantia que somos obrigados a economizar para o pagamento da farra dos juros. Os cerca de seis mil municípios brasileiros estão quase todos quebrados: a maioria nem consegue pagar os professores e os médicos que necessitam para atender as crianças e os enfermos.

O dinheiro que não vai para a educação e a saúde vai para pagar a jogatina pervertida dos donos do mundo. Sabe aquele ladrãozinho do bairro que tivemos vontade de esganar quando roubou uma roupa do varal? Ele levaria um bilhão de anos para roubar de sua família o que a máquina caça-bilhões rouba do povo brasileiro em alguns segundos.

Toda a insegurança que sentimos, o descalabro da saúde, a fragilidade da educação, a sucata das Forças Armadas, a deficiente infraestrutura nacional, a Amazônia entregue às aves de rapina e falta de trabalho para o sem-terra poderiam ser coisas superadas se o dinheiro surrupiado pela máquina caça-bilhões fosse aplicado nas necessidades da população.

É assim que o capitalismo se mantém, é como os ricos ficam mais ricos e explica porque num mundo que gera tanta riqueza há crianças esqueléticas no terceiro e no quarto mundos, jovens mortos-vivos entregues à droga, adultos cujo orçamento mal dá para pagar as contas, famílias atemorizadas diante da perspectiva de perder o provedor no famigerado downsizing, eufemismo inglês para jogar milhões de bons trabalhadores no olho da rua.

Há que se recordar, sempre, o imortal Darcy Ribeiro: “Fomos criados para produzir o açúcar que adoçava a boca do europeu, o ouro que o enriquecia e continuamos produzindo a soja para engordar o porco na Alemanha. Enquanto não fizermos o País existir para si, seremos um país-problema”.