O QUE PODE HAVER POR TRÁS DA PERVERSIDADE – considerações sobre “O GATO PRETO” / por lucas paolo – são paulo

Dentre as inúmeras abordagens possíveis do conto “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe, interessa-nos tratar aqui da ambiguidade do sentimento de culpa que o narrador demonstra ao longo do conto.

Começaremos apontando alguns pressupostos que guiarão esta abordagem. Em seu ensaio “A Filosofia da Composição” – trata da construção do poema “O Corvo”-, Poe diz: “É bastante óbvio que todo enredo, que mereça este nome, deve ser elaborado até o fim antes que o autor escreva uma só linha. Só tendo em vista, constantemente, o final da história é que podemos dar a um enredo seu indispensável ar de consequência, ou causa, fazendo com que os incidentes, e especialmente o tom, apontem, o tempo todo, para o desenvolvimento da intenção.” Portanto, podemos presumir que Poe, também em “O Gato Preto”, havia concebido todo o enredo antes de se pôr a escrever o conto, e que tendo em vista o direcionamento dos fatos, ele guiou sua escrita nas condições necessárias para se atingir determinado tom.

Mas qual seria esse tom em “O Gato Preto”? Obviamente o da perversidade. E seguindo a linha de raciocínio de Poe, podemos apontar o terreno do conto como sendo o do mistério ou da superstição.

Porém, a perversidade do narrador não traz consigo sentimento de culpa, apenas medo. Sinais de medo esses que, apesar de parecerem uma reação lógica ao terreno do mistério e da superstição, podem ocultar o intuito prévio de cometer o assassínio e o receio ou medo da condenação – da justiça do homem ou de Deus.

Para averiguar estas questões, podemos citar novamente um trecho de “A filosofia da composição”: “Duas coisas são, invariavelmente, necessárias – primeiro, uma certa dose de complexidade, ou, mais propriamente, de adaptação; e, em segundo lugar, uma certa dose de sugestão –  uma corrente oculta, mesmo que indefinida, de sentido. É esta última, em especial, que confere a uma obra de arte grande parte daquela riqueza (para usar um termo convincente da linguagem coloquial), que nós temos a tendência de confundir com o ideal”, ou seja, podemos supor que há neste conto, como em “O Corvo”, um toque de sugestão, de indefinição que ampliam o sentido. Investiguemos no conto o sentido do medo, da culpa e da perversidade que o autor tenta nos impingir.

Com relação ao assassinato da mulher, o narrador não demonstra em nenhum momento sinais de remorso. “Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo” – evidenciamos aqui que, após o furioso ato, o narrador não sente culpa, apenas preocupa-se em esconder os vestígios de seu crime. Assim, após emparedar o corpo, o narrador procura o gato e não o encontra, e mesmo com “o peso daquele assassínio” sobre sua alma, o narrador regozija-se com o sumiço do alvo primeiro de sua perversidade e consegue dormir tranquilo – “O monstro, aterrorizado, fugira para sempre de casa. Não tornaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava.”

O narrador procura dissimular culpa com relação às atrocidades cometidas com o gato, todavia essa culpa é vista por ele como pavor ou medo do animal, e pode ser entendida  como receio do narrador em assassinar a mulher e ser apanhado. “Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse.” – algum tempo após ter enforcado o gato, o narrador sente algo em relação ao terrível ato, mas este sentimento, claramente, não é remorso. Depois de determinado período, o narrador encontra outro gato, o qual substitui o anterior. Esse também acarreta maldade no personagem e em situações de proximidade o narrador relata o seguinte: “Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas sobretudo – apresso-me a confessá-lo -, pelo pavor extremo que o animal me despertava.”, somos levados a pensar que o que impede o narrador é um medo ou pavor, porém, podemos averiguar em outro trecho que, talvez, este medo esteja relacionado a outras questões –  “Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar – sim, mesmo nesta cela de criminoso -, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível – que minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa -, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!”. Lembrando que, na época em que, possivelmente, se situa o conto, a pena para alguns crimes era a forca, pode-se intuir um medo diferente no narrador do que um medo supersticioso do sobrenatural.

Portanto, no conto, o narrador comete um ato de inacreditável perversidade, este não é, como pudemos perceber, carregado de culpa e remorso, todavia o narrador carrega o conto de mistério e superstição – encarnados na figura emblemática do gato preto –, o que nos leva a crer que o assassinato da mulher não é, de forma alguma, premeditado e sim um consequência dos eventos nefastos e nebulosos que se relacionam com o gato. Porém, se for admitido, sem muitas presunções, que em Poe há uma corrente oculta correndo junto à trama tão detalhadamente elaborada, pode-se inferir que um outro sentido subcutâneo está presente na trama e que este dá uma “riqueza” especulativa ao conto que, com certeza, Poe desejava.

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