Arquivos Diários: 15 março, 2010

PRAEMONITIONE e SESSÃO À MEIA LUZ – de raymundo rolim / morretes.pr

Praemonitione

Primeiro desceu as escadas correndo feito um maluco. Depois andou oito quadras e meia sem respirar direito. Precisava a qualquer custo vencer os próprios limites. Titulara-se no trigésimo quinto e sexto idiomas – aramaico e dravídico – que passou a falar, escrever e arriscava-se mesmo a compor alguns poemas nessas línguas, que de tão antigas estavam quase a morrer. E já pensava numa nova loucura, quando algo lhe tocou o ombro. Estremeceu. Voltou-se lento, vagaroso, temeroso, na direção da mão que fendia o ar e se transfigurava numa coluna de fumaça branca. Pressentiu que dessa vez seria ele a reencarnação final de Copérnico, o novo papa; e não um outro!

Sessão à meia-luz

Sabia e muito bem, que teria de se apressar, se não quisesse chegar atrasado para a sessão de “desencarne”. Bem, pelo menos era este o nome que davam lá nas sessões, num bairro que ficava longe, na periferia. Chegou e foi logo convidado a ficar no canto esquerdo, ao lado da médium, que respirava de modo esquisito, pressionando o ar e bufando feio. Pediram-lhe que se sentasse e não cruzasse mãos ou pernas, que fechasse os olhos. Ficou um pouco ressabiado. Sabia das muitas histórias de “receber o santo”, e que nesse estágio, as pessoas faziam coisas horríveis, como girar, rolar no chão, falar com voz que não a própria…eu hem, pensou! Logo ele que se achava o próprio santo e de modo algum carecia de receber um outro -. E também, não era muito chegado a isso e não confiava em santo alheio a não ser no próprio. Possuía os seus, sabia-lhes os nomes, os milagres, data de canonização etc. e tal. Bem, já estava ali no escurinho mesmo, não custava fechar os olhos. E de certa forma, lhe fora gentilmente solicitado. Com aquelas velas fraquinhas, manteria uma frestinha, uma nesga de olhar a bisbilhotar o recinto, no caso de algum imprevisto. E foi o que fez. E aí, foi quando viu mãe Maria. Sabe-se lá por que, segurava e vinha com uma faca enorme para as suas bandas. O homem levantou, desatou a correr, derrubou muitas imagens de São Jorge e outras tantas de exus e outras que nem sabia quem ou o que eram. Disparou porta a fora. Tamanha inquietação não lhe permitiu reparar no bode preto que estava amarrado ao seu lado, resfolegando feio. Ele, o bode, era o objeto do desencarne e não ele, o convidado. Ficou para uma outra vez, uma outra sessão que ele sabia, de antemão, jamais estaria lá.

CEMITÉRIO DE PULGAS II – de jorge barbosa filho / curitiba