CIDADE SEM “CIVITAS” por sérgio da costa ramos / florianópolis

Será que a velha definição latina de cidade ainda está valendo? Civitas-civitatis. Reunião de cidadãos, nação, pátria, lugar onde se respeita o direito do cidadão. Aglomeração humana de certa importância, localizada em área geográfica circunscrita, com numerosas casas próximas entre si e destinadas à moradia ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e outras não relacionadas com a exploração direta do solo.
Hoje, a “cidade moderna” vai perdendo o seu significado institucional. Avança sobre todos os solos e tornou-se vítima de outras atividades sinistras, como o furto, o roubo, o assassinato.

Eça de Queiróz não gostava das cidades, como deixou claro no seu libelo contra essa “criação antinatural”, em A Cidade e as Serras. Na comparação entre as selvas, a verde e a de pedra, o monóculo do escritor só tinha olhos para a primeira:

Na natureza, nunca se descobriria um contorno feio ou repetido. Nunca duas folhas de hera se assemelharam na verdura ou no recorte. Na cidade, pelo contrário, todos repetem servilmente a mesma casa, todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação.

Dizem os pragmáticos que esse hábito de condenar as cidades e enaltecer a natureza é apenas “uma licença para a poesia”, uma chispa para o gênio criador do homem romântico. A cidade é a “realidade” – que a maioria das pessoas acha “um Inferno”, embora recuse o Paraíso do meio do mato.

As pontes de Floripa foram concebidas para um fluxo de 40 mil veículos/dia. Já recebem mais de 80 mil. Trata-se do próprio Inferno (Ro)Dante…

É o progresso, dizem. E o homem vai atrás, cada vez mais absorvido por esse mundo de gases, óleos, resinas e misturas químicas que envenenam os poros, a alma, a mente.

Sempre que o ser humano aspirou pela paz de espírito procurou um jardim – pois se ressente de um, desde que foi expulso do Éden. Não por acaso os lugares de paz e meditação religiosas se assentam em jardins: o claustro dos mosteiros, os canteiros das casas muçulmanas, as fontes dos jardins hindus, símbolos do Paraíso.

Sempre que se deixou subjugar pela cidade, o homem perdeu o melhor dos seus dons – a capacidade de continuar humano, como lamentou Eça, contemplando as vinhas da Serra da Estrela:

– Os sentimentos mais genuinamente humanos se degeneram nas cidades. Nelas, os rostos humanos nunca se olham.

Muitas vezes, não se olham para não testemunhar a violência. Transita pela internet uma denúncia preocupante. A de que Floripa há muito deixou de ser um jardim de paz. A cada grupo de 100 mil habitantes, nada menos do que 3.926 já teriam sofrido perda patrimonial por furto – números que, proporcionalmente, equivaleriam aos desumanos prontuários do Rio e de São Paulo.

Dou a Floripa o benefício da dúvida, recusando-me a aceitar para a Ilha o mesmo e cruel destino de cidades que lhe são irmãs em beleza natural, como o Rio de Janeiro.

Mas o sinal vermelho está ligado. Assaltos no Sul e no Norte da Ilha. Até na doce Santo Antônio de Lisboa. Recentemente, ladrões aterrorizaram o bucólico “Caminho dos Açores”, para a suprema indignação do pioneiro, major Manoel Manso de Avelar, antigo senhor daquela pacífica freguesia.

É como se a graciosa vila açoriana tivesse perdido a inocência, como no romance de Edith Wharton –The Age of Innocence.

O Manoel Manso ameaça abdicar de sua mansuetude, descer de seu celestial mirante e “justiçar” os que ali perturbam a paz secular.

Um Manso “furioso”, condenando a omissão dos que deveriam zelar pela segurança pública:

– Ai de vós, autoridades inertes, mandatários sem voz de comando!

Uma resposta

  1. Sérgio é um dos escritores que a Ilha do Desterro deve muito notadamente pelos serviços que jornalisticamente lhe tem prestado e que bem esse artigo/crônica reflete. O. Cintra

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