Arquivos Diários: 22 março, 2010

DIÁRIO de ILHÉU – da BRAVA à SOLIDÃO – por ewaldo schleder / florianópolis

Florianópolis. Floripa. Este, aliás, um diminutivo perfeito; ablação semântica já consagrada pelo uso popular. Tanto como Curita ou Sampa – e certamente há outras urbes assim abreviadas mundo afora. Alcunhas não; como cidade luz, cidade canção. Nem capitais marqueteirizadas: da uva, do café, das flores, da batata, do agrião, do quiabo, do xuxu. Tampouco aquelas a revelar uma certa privacidade, uma incerta posse íntima, a exemplo do Rio, Porto, Campo, Cabo.

Floripa. Hoje já posso pronunciá-la, depois de cruzá-la de ponta a ponta. Longe de ser uma proeza, menos, uma pequena conquista pessoal; de justificado apreço; fruto da estrada alegre, regada a trabalho e ócio, de olhar as curvas dos cerros contornadas pelo céu luminoso da tarde quente. Essa a cidade-ilha que – mal conheço – corro e descubro. Da Praia Brava, extremo norte, à Praia da Solidão, extremo sul.

Sinto já saudade daquela montanha da Brava. Mas que apego esse?! , se aqui na Solidão tem morros por todos os lados?! Daí você vê como a dinâmica da vida sempre nos traz algo novo: basta querer que o novo chegue, antes de tudo. E ele vem nas formas do surpreendente, do inesperado: ele – o novo – surge no horizonte, como luz no meio do túnel, não feito uma corda no raso do poço.

Andar com alguma coisa leve na cabeça, pés no chão e mapa nas mãos. Atenção ao vento e às estrelas. Driblar sempre a condição de turista, de consumidor inveterado, ir buscar tão-somente o sossego do espírito, o repouso do corpo: esta carcaça única, tão sacolejada, a pobre, ao longo desses anos-luz todos.

Administrar a displicência, disciplinar a indisciplina, estudar a quietude do vazio, escutar, deixar de interpretações para apenas ouvir esse mantra natural e selvagem: o barulho do mar; das ondas a quebrar nas dunas molhadas. Abrir bem os olhos, respirar fundo, encher de nada o todo, completando de tudo o nada.

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praia da solidão.

ilustração do site. foto livre na internet.

BICHO PREDILETO – por tonicato miranda /curitiba


Prezado Hamilton,

Desde o dia doze de Janeiro não lhe escrevo. Não nos comunicamos desde aquele momento de ousadia em que cismei em meter a colher, o açúcar; e até molhar o biscoito, na sua brilhante crônica de ano novo. É claro, você, com direitos e pompa, recusou qualquer interferência. Pois deixemos o passado guardado nas gavetas do tempo.

Agora vejo no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS que você, pela segunda vez, fala em predileção por bichos. Também por uma segunda vez fala da sua preferência pelo urubu. E mais, propõe fundar a SAU (Sociedade de Amigos do Urubu). Devo dizer que mesmo tendo convivido com tais bichos desde minha infância no Grajaú, no Rio de Janeiro, onde sempre proliferavam tais aves, desde o mangue até os morros que cercam toda a cidade, jamais tive muito apreço por eles e não poderei ser sócio ou parceiro nesta sua confraria.

Ocorre que o urubu é o bicho símbolo do maior rival do meu time do coração. Aquele cujo nome me recuso citar nesta carta-crônica. Apesar disto afirmo não gostar também da cartola atribuída ao meu time, o Fluminense. Prefiro a associação que nos fazem ao pó de arroz. Mas também compreendo ficaria difícil adotar o pó de arroz como símbolo do nosso time. Isto porque ele é meio intangível, sem forma, soando mais como atitude, não como uma imagem palpável.

Mas retornando aos bichos-símbolos estou aqui caraminholando sobre prováveis bichos de minha predileção. Ou ainda que tenham ou tiveram comigo alguma afinidade. No entanto, não encontro um capaz de representar todo meu afeto. Pensei inicialmente na tartaruga, virada para cágado, presença constante na minha infância, na casa dos meus avós. Não, não serve. Ela era deles, não minha. Jamais lhe fiz carinhos. Apenas a observava à distância com medo dos seus recuos abruptos para dentro da casca dura.

Em seguida pensei nos cachorros. O primeiro deles não era igualmente meu. Pertencia a um tio. Seu nome: “Zurich”. Era um bulldog folgadão que se sentava à beira de um quarto de televisão vizinho de grande pátio coberto. Era tão próximo à família que por vezes ousava adentrar o recinto, sentando-se no limiar da soleira entre os dois espaços. Quando alguém deixava escapar gases nada agradáveis inadvertidamente, a maioria deles do meu próprio tio, era acompanhado de um “Sai fora Zurich!” Pois bem, este e outros fatos lavaram-me a me afastar por um bom tempo dos cães. É claro que mais tarde tive outros cachorros maravilhosos a quem me afeiçoei. Mas não chegam eles a balançar-me as emoções a ponto de cravá-los como prediletos, assim como os gatos, de uma única e também infeliz experiência.

Pensando nos pássaros os primeiros foram igualmente da casa do meu tio. De início os periquitos, com sua algaravia contumaz. Não, também não seriam animais dignos da minha afeição, apesar das suas plumagens divinas. Depois teve a araponga, com seu martelo estridente, que azucrinou meus ouvidos por longo tempo, impedindo-me a concentração nos estudos. Da mesma época lembro-me de um corrupião incrível comendo na mão de meu tio. Saía para dar uns passeios, passando a manhã fora da gaiola e sempre voltava na hora do almoço, deixando-se aprisionar. Um belo dia foi para nunca mais voltar. Pudera. Quem quer liberdade vigiada ou pela metade? Ao meu tio ele deu – Aquele Abraço!

Pensei também em cabritos, em cotias, porcos, em peixes e até mesmo em mariposas. Mas nada. Pensei numa jacupemba ou jacupema, que matei numa única caçada que fiz em vida. Seria a maneira de retribuir ao animal a afeição como forma de me redimir do ato criminoso. Ou como índios americanos, louvar a morte do bicho abatido. Qual o quê, também não seria este o bicho.

É meu caro, penso não estar preparado ainda para amar um animal especial. Vou prestar mais atenção em meus sentimentos para ver para qual bicho poderia dirigir de forma mais intensa os meus afetos. Acredito ser um bicho talvez incomum. Talvez seja uma arraia, talvez um caramujo, ou mesmo o marimbondo, dos quais já tive oportunidade de tomar ferroadas, mas nem por isto construiu uma antipatia definitiva.

Assim que tiver definido tal predileção farei um comunicado.

Outra coisa ainda. Enviarei esta carta para ser postada no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS. Acredito ser ela de altíssimo interesse a Sociedade Protetora dos Animais, assim como também a sua sempre admirável crônica. Penso assim porque poderemos estar ajudando a montar uma grande confraria protecionista, desde os marimbondos até os urubus. Afinal se cada indivíduo proteger uma determinada espécie haverá um planeta mais rico em variedades animais. Muito embora quanto aos bichos homens a variedade já extrapolou o bom senso, principalmente quanto às tipologias e ao número de pulhas que grassam em todos os rincões e desvãos da Terra.

Por fim, devo dizer que há muito estou lhe traindo como missivista. Desde que parei de lhe escrever passei a manter correspondência assídua com Marilda Confortim. A nossa troca tem sido, pelo menos quanto à poesia, mais reconfortante. Isto porque sendo ela uma dama, tratamos de assuntos totalmente impossíveis de conversar com o amigo.

João Antonio fazendo a parte dele.

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A galinha fazendo a parte dela.

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Luis Fernando alimentando seu filhote de estimação.

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Claudio cuida muito bem de seu Escorpião Imperador.

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e eu?…

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esta carta refere-se à crônica URUBU de hamilton alves que encontra-se logo abaixo.

ilustrações do site.

URUBU por hamilton alves / florianópolis

As únicas pessoas conhecidas que elegeram o urubu como sua ave preferida, segundo sei, sou eu mesmo e o pintor (médico) Semy Braga, que veio de me confessar, há pouco, quando o visitei em seu atelier/moradia, tal preferência.

O urubu é uma ave feia. Ou conceitualmente  feia. E, pior, comedor de cadáveres de tudo.

Mas, afinal, o que é feio?

Não há, na verdade, um conceito acabado de feiúra.

À parte essa questão estética, o urubu tem lá, sim, sua beleza. O preto de sua cor já é algo que o distingue, como se, a exemplo das criaturas humanas, andasse sempre a rigor.

No que se destaca é no voo, notadamente sob o vento sul, em que se pode observar o equilíbrio com que se mantém ao sabor do vento, mesmo quando sopra mais forte.

Mostra-se, então, um verdadeiro bailarino.

Quando me revelou simpatia pelo urubu, Semy não justificou essa escolha. Podia (ou pode) ter lá suas razões.

Certa vez, em Curitiba, vi um bando de garotos esmolambados, nas proximidades da Praça Osório, chutar um urubu, que certamente devia ter se chocado com um daqueles prédios altos e caído ao chão.

De onde estava, na frente de um bar, tomando um refrigerante, berrei:

– Não matem o urubu!

Foi por meu berro ou outra razão qualquer, vi o bando se dispersar – e o urubu sair ileso da perseguição.

Estou para propor ao Semy a fundação de uma entidade, que tivesse o nome de Sociedade Amigos do Urubu (SAU), em que outras pessoas, ainda que não tivessem maior simpatia ou amizade por essa ave, poderiam se filiar.

A sociedade teria por finalidade se informar melhor sobre alguns dados referentes ao urubu, como, por exemplo, se sua reprodução vem sendo satisfatória.

Preocupa-me muito o fato de não vê-lo tão numeroso voando por aí.

Creio que o urubu é uma ave destinada à extinção muito próxima. A comida deve-lhe rarear. Não há tanta carniça que possa encontrar fácil. As cidades estão ficando excessivamente urbanizadas, acarretando a coleta de refugos aproveitados pelos urubus.

Toda uma série de fatores pode levar a isso.  A consequência inevitável seria a ausência do urubu de nosso espaço.

Perder de vista o urubu seria a última coisa que poderíamos desejar.

Vou me entender com o Semy para ouvi-lo sobre o assunto.